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4
ago

Evgen Bavcar: o que há entre o fotógrafo e a fotografia?

 

 

Fotografia e visão parecem inseparáveis. Remetem-se uma a outra, seja quando falamos sobre a captura de imagens, seja quando as observamos. Há, no entanto, fotógrafos que se dedicam a esse ofício mesmo sem a capacidade de enxergar (ao menos no sentido mais estrito e físico desse verbo). No post de hoje, apresentamos um deles, Evgen Bavcar, talvez o mais famoso dessa fascinante linhagem de fotógrafos.

 

 

 

Esloveno naturalizado francês, Bavcar perdeu a visão gradualmente, ao longo de um período de oito meses, quando tinha apenas 12 anos. A cegueira decorreu de uma queda, que o deixou cego do olho esquerdo, e, mais tarde da explosão de uma mina, que feriu o direito. O início como fotógrafo se deu aos 16 anos, portanto, quando Bavcar já era cego.

 

 

 

“Narciso morreu afogado porque não compreendeu que entre ele e a imagem existe a água. Eu sei que entre eu e a imagem há o mundo, há a palavra dos outros, uma grande distância. Entre as imagens reais que tenho. Há uma distância intransponível de 40 anos de minhas recordações da Eslovênia”, conta o fotógrafo à revista Trópico.

 

 

 

Entre o fotógrafo e a imagem, o mundo, os outros, as palavras. De forma poética, Bavcar explica seu processo de trabalho – que nos leva a refletir sobre infindáveis questões relacionadas à fotografia. Com a ajuda de outras pessoas, Bavcar obtém informações sobre o que está acontecendo diante de sua câmera. Costuma trabalhar à noite, usando holofotes, de modo a facilitar o uso do foco automático – mesmo assim, nessa e em outras situações, consegue medir distâncias usando as mãos.

 

 

 

Nascido em 1946, Evgen Bavcar já participou de diversas exposições ao redor do mundo. No Brasil, tem um livro sobre a sua obra publicado pela Cosac Naify (Memórias do Brasil, 2003), organizado por Elida Tessler e João Bandeira. É também um dos entrevistados do documentário Janela da Alma (2001), dirigido por João Jardim e Walter Carvalho. Em seus depoimentos e nas análises a respeito do seu trabalho, ganham evidência reflexões em torno do olhar e da representação na fotografia.

 

28
jul

O cotidiano inusitado da guerra, por Shamil Zhumatov

Correspondente da agência Reuters, nascido no Cazaquistão, Shamil Zhumatov realiza coberturas na Ásia Central e em países da antiga União Soviética. No Afeganistão, acompanhou missões do exército norte-americano. As imagens que apresentamos aqui fazem parte desse trabalho e mostram o olhar do fotógrafo para detalhes inusitados do front.

Shamil Zhumatov

Shamil Zhumatov

Situações de uma convivência curiosa entre soldados e a população local ganham espaço nas imagens. Com frequência, o que se vê são momentos de espera e expectativa, intervalos entre os conflitos armados.

Shamil Zhumatov

Shamil Zhumatov

Crianças são personagens desconcertantes de algumas das fotos. Agem imersas em seu cotidiano e contrastam com as posições adotadas pelos soldados. Assim, compõem enquadramentos formados por elementos tão díspares quanto um carrinho de mão coberto de capim, levado por um menino afegão, e rifles empunhados pelos militares.

Shamil Zhumatov

Shamil Zhumatov

Da curiosidade entre locais e soldados aos objetos carregados pelos militares, Shamil apresenta uma realidade em que a guerra já é uma presença constante. As fotos também mostram um cotidiano de tons um tanto surreais, que parece, no entanto, ser inevitável para quem vive no contexto do conflito.

Shamil Zhumatov

Shamil Zhumatov

21
jul

João Pina: o cotidiano das favelas cariocas

Retrato de João Pina

Nascido em Lisboa, o fotógrafo João Pina realiza coberturas na América Latina para a imprensa portuguesa desde 2002. As imagens que apresentamos neste post integram a série Gangland, que ganhou um desdobramento como matéria da revista The New Yorker, em 2009, assinada pelo fotógrafo e pelo jornalista Jon Lee Anderson. As fotos retratam o cotidiano das favelas cariocas, desde momentos de descontração até confrontos armados entre policiais e traficantes.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

“Decidi começar a documentar essa realidade guiado pela curiosidade sobre como a cidade chegou a esse extremo de violência. Tive a oportunidade de estar ao lado de diferentes unidades policiais que trabalham nas favelas. Pude também seguir e documentar o lado de jovens, com idade média de 18 anos, os quais se tornam chefes de comunidades por serem traficantes em um território onde o estado brasileiro não existe”, explica o fotógrafo.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

As fotografias de João ecoaram no jornalista da publicação novaiorquina, que viu nas imagens uma possível abordagem para um contexto tão complexo. “Queria encontrar uma maneira de escrever sobre a realidade do Rio – tão inquietante, tão irresistível – desde que visitei a cidade pela primeira vez há uns doze anos, mas apenas quando vi as imagens do João senti que tinha encontrado alguém com um olhar gêmeo. Em si mesmo, o João impressionou-me como bom companheiro e guia para um desbravar mais profundo do mundo que ele já começara a documentar”, conta Anderson.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

João Pina nasceu em 1980. A partir dos 18 anos começou a publicar suas imagens de forma regular na imprensa de Portugal. A partir de 2002, começa a focar o seu trabalho sobretudo em países como Argentina, Brasil, Bolívia e Cuba. De 2004 a 2005 frequentou o curso de fotojornalismo e fotografia documental do International Center of Photography, em Nova York. Em 2007 publicou seu primeiro livro, “Por teu livre pensamento”, com histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, em parceria com Rui Daniel Galiza, autor dos textos.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

Pina trabalha para publicações como The New York Times, Newsweek, Stern, GEO Magazine, El País, EPs, La Vanguardia Magazine, D Magazine, Io Donna, Expresso e Visão. Já realizou exposições em Nova York, Londres, Tóquio, Lisboa e no Porto. Desde 2007 tem Buenos Aires como base para suas coberturas. Na Argentina, segue seu trabalho sobre os desaparecimentos articulados pelos regimes militares do Cone Sul na Operação Condor. Desde 2003 é membro do coletivo Kameraphoto.

Foto: João Pina

Foto: João Pina