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1
dez

Cem anos de Harry Callahan

Autorretrato. Foto: Harry Callahan

Pesquisar o acervo de fotografias deixado pelo norte-americano Harry Callahan (1912-1999) é conhecer as pessoas e lugares que ele amava. A sua aguda sensibilidade combinada com o experimentalismo incessante garantiu que, durante uma carreira de mais de 50 anos, ele sempre tenha encontrado novas maneiras de explorar temas pessoais, transformando a sua própria família e as cidades onde viveu em imagens capazes de fascinar um grande público.

Foto: Harry Callahan.

Eleanor and Barbara. Foto: Harry Callahan.

Se estivesse vivo, Callahan estaria comemorando seu centenário em 2012. Autodidata, ele se tornou fotógrafo amador no final dos anos 1930, quando adquiriu uma câmera e se uniu ao fotoclube da empresa Chrysler Motors de Detroit, onde trabalhava. Em 1941, influenciado por uma palestra de Ansel Adams, decidiu assumir a fotografia como profissão. Nos anos seguintes, Callahan chamou a atenção de grandes mestres da geração anterior à sua: László Moholy-Nagy o convidou para ensinar fotografia no Institute of Design (ID), em Chicago, e Edward Steichen selecionou suas fotografias para várias mostras no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque.

Eleanor and Barbara. Foto: Harry Callahan.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

A versatilidade de Callahan está ligada ao uso de diversas técnicas, como alto contraste, múltiplas exposições e desfocados. Além disso, ele trabalhou com filmes em preto e branco e colorido, em pequeno, médio e grande formato. Uma de suas práticas comuns era reduzir seu objeto a formas tão simples que este beirava a abstração, como se buscasse a essência visual das coisas. Seu objetivo, no entanto, estava mais próximo de descrever com o mínimo do que dissimular ou distorcer. O resultado, fotografias extremamente elegantes, atualmente está preservado em algumas das mais prestigiadas coleções de arte no mundo.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

Como professor, atividade que exerceu por boa parte de sua vida, Callahan aconselhava os alunos a seguirem seu exemplo enfocando temas familiares a cada um. No seu caso, isso significava fotografar a própria esposa e filha, assim como as ruas de cidades em que viveu e paisagens de lugares para onde viajava seguidamente. Dentro desse repertório, a presença da esposa Eleanor é especialmente frequente. Ela aparece nua ou vestida, na privacidade da sua casa ou em praças, em rios ou em meio a vegetação de florestas. A intimidade e confiança entre Callahan e Eleanor transparece nas fotos, que acabam revelando a força da relação que unia os dois. Em muitas imagens, Callahan mostra Eleanor e a filha do casal, Barbara, como pequenas figuras numa extensa paisagem rural ou urbana.

Eleanor and Barbara. Foto: Harry Callahan.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

O crítico John Szarkowski aponta que a maestria de Callahan estava na maneira como, durante décadas, ele foi capaz de expandir o potencial de assuntos banais ou íntimos encontrando novas formas de olhar para eles. Szarkowski, que comandou o departamento de fotografia do MoMA por mais de 30 anos, acredita que Callahan foi capaz de cumprir essa façanha porque a fotografia não era apenas a sua resposta às cenas que via, mas o próprio meio pelo qual ele vivenciava o mundo. A lógica da câmera estava sempre presente no seu olhar.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

24
nov

Retratos de família contemporâneos, por John Clang

Foto: John Clang

Na Singapura, as famílias têm a tradição de eternizar ocasiões importantes reunindo-se para uma fotografia formal. Muitas vezes feita em estúdio, a foto costuma ser emoldurada e exibida com orgulho na parede da casa. Entretanto, com a crescente emigração no país, cada vez mais os jovens dessas famílias partem para tentar a vida em outras cidades, deixando uma lacuna nesses retratos. Na busca por uma solução a esse problema, o fotógrafo local John Clang usou a tecnologia para desenvolver um tipo particular de retrato de família, mesclando imagens reais e projeções digitais. Utilizando o recurso de video-chamada do Skype, que já facilita há anos o contato e a comunicação entre entes que vivem separados, Chang projeta a imagem captada pela webcam em uma parede, posiciona os parentes ao lado dessa projeção e fotografa as famílias reunidas. Não há necessidade de Photoshop.

Skype Portraits. Foto: John Clang

Skype Portraits. Foto: John Clang

Morador de Nova Iorque, Clang fez os primeiros testes com sua própria família. Depois, usou a internet, embaixadas e recomendações de amigos para encontrar cingaporeanos interessados e fazer parte das próximas imagens. Uma delas foi encomendada por Alexia Wai-Chun Tye, uma economista que vive em Paris desde 1999. Sua filha de 24 anos, Stephanie Chi-Eeng Tsui, cresceu lá e foi educada em Londres, mas voltou à Singapura para trabalhar na agência Saatchi & Saatchi. Tye conta que fazer a imagem foi como participar de um “encontro de família virtual”. Um dos detalhes mais interessantes, além da alegria que caracteriza muitos desses rituais, é que os membros dessas famílias podem até estar acostumados a verem-se por retratos ou pela tela de um computador, mas não escondem a satisfação ao enxergarem-se lado a lado.

Skype Portraits. Foto: John Clang

Skype Portraits. Foto: John Clang

Clang exibirá seus retratos no Museu Nacional da Singapura em 2013.

Skype Portraits. Foto: John Clang

Skype Portraits. Foto: John Clang

 

 

17
nov

A excentricidade inventiva de Félix Nadar (1820 – 1910)

Auto Retrato de Felix Nadar.

Para muitos, as fotografias de Félix Nadar, pseudônimo de Gaspard-Félix Trounachon (1820 – 1910), são um reflexo de sua excêntrica personalidade. Também jornalista e caricaturista, tornou-se famoso não apenas por seus retratos e desenhos de importantes personalidades francesas, mas também por sua paixão por tecnologia e aventura.
Antes de tornar-se fotógrafo, o parisiense estudou Medicina, mas devido à falência da editora de seu pai teve de abandonar os estudos para começar a trabalhar. Adotou o sobrenome Nadar para escrever em jornais e passou a vender suas caricaturas para folhetins humorísticos. Mesmo que no início da década de 1850 já fosse um fotógrafo renomado, foram suas extravagâncias que o tornaram famoso. O edifício que abrigava seu estúdio, por exemplo, foi pintado de vermelho e ganhou uma imponente fachada para se tornar uma de referência, transformando-se rapidamente em um ponto de encontro da elite intelectual de Paris.

Charles Baudelaire. Foto: Félix Nadar

Eugene Delacroix. Foto: Félix Nadar

Félix dedicava-se à construção de projetos batizados de PantheonNadar: paineis gigantes repletos de caricaturas de parisienses famosos. Para preparar a segunda edição de um desses murais, começou a fotografar os personagens que desenharia, o que originou muitos de seus mais conhecidos retratos. Por conta dessa proposta suas imagens de Gustave Doré, Charles Baudelaire e Eugène Delacroix, todas realizadas por volta de 1855, mostram os artistas em poses naturais, mais despojadas do que os sisudos retratos em voga na época.

Claude Monet. Foto: Felix Nadar.

Edouard Manet. Foto: Félix Nadar

Durante anos, balonismo, mapas e fotografia foram sua principal ocupação, paixões que fizeram com que ele patenteasse a fotografia aérea na cartografia e publicasse, em 1863, o Manifeste de l’autolocomotion aérienne (“Manifesto da autolocomoção aérea”, em livre tradução). Também fundou uma sociedade dedicada ao tema em parceria com Julio Verne — ele era o presidente e Verne o secretário. Quando, no outono de 1858, Nadar conseguiu concretizar seu tão sonhado registro, uma pioneira fotografia aérea de Paris, empolgou-se tanto que decidiu criar seu próprio balão. Com capacidade para dezenas de viajantes, Le Géant (em português, “o gigante”), como era chamado, era um balão gigantesco que se tornou lendário na Europa. Sua gôndola tinha uma sacada e foi divida em seis compartimentos separados, incluindo um lavabo e um quarto que servia como laboratório fotográfico. Em sua segunda viagem, Le Géant voou de Paris para a Alemanha, onde perdeu o rumo, caiu e quase explodiu, ferindo gravemente muitos dos passageiros. Apesar do desastre, Nadar reconstruiu a gôndola, substituiu o envelope e continuou com seus vôos, além de ter construído outros balões, como The Célest.

Gondala of Nadar's balloon, 1863. Foto: Félix Nadar.

Paris. Foto: Félix Nadar.

Mas seus experimentos não se restringem a este campo. Em 1858, foi pioneiro, também, no uso de iluminação artificial na fotografia, valendo-se de luz de magnésio para registrar as escuras catacumbas e esgotos de Paris. Também é atribuída a ele a primeira entrevista fotográfica da história, uma série de 21 imagens do cientista francês Eugène Chevreul legendadas com respostas a perguntas feitas por Nadar durante os cliques.

Catacumbas de Paris. Foto: Felix Nadar

Esgotos de Paris. Foto: Felix Nadar.

Vale destacar que em 1874 Nadar emprestou seu estúdio para a primeira exposição de pintores impressionistas, com quadros de nomes vanguardistas até então pouco valorizados como Monet, Cézanne e Renoir. É possível afirmar que o trabalho desses artistas teve certa influência em sua obra, considerada por muitos fotografia pré-pictorialista.

Victor Hugo, 1878. Foto: Félix Nadar

Victor Hugo, 1885. Foto: Felix Nadar.