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Posts tagged ‘cultura’

25
abr

Bahia intensa: a fotografia apaixonada de Mario Cravo Neto

Autorretrato de Mario Cravo Neto.

No último dia 20, o fotógrafo e artista Mario Cravo Neto completaria 65 anos. Faleceu em 2009, em Salvador (BA), onde nasceu, fez suas principais fotografias, desenhos e esculturas e deixou boa parte de seu legado. Para muitos, “Mariozinho”, como era chamado, criou uma forma inédita de olhar a Bahia, seu povo e as entranhas de sua religiosidade, dedicando-se com delicadeza corajosa ao candomblé e ao catolicismo.

Deus da Cabeça(e), 1988, e Voodoo(d), 1988. Fotos: Mario Cravo Neto.

Óde(e), 1988, e Mandala(d), 1989. Fotos: Mario Cravo Neto.

Seu interesse pelo ofício surgiu ainda menino ao conviver com fotógrafos do mundo inteiro que passavam pela cidade. O contato se dava por meio de seu pai, Mario Cravo Junior, integrante da primeira geração de artistas plásticos modernistas baianos. Conhecer o trabalho desses fotógrafos, e de outros amantes das artes que frequentavam sua casa, seria definido por ele como um pano de fundo, um meio onde vislumbraria formas de criar o que gostaria de expressar. A influência das pinturas rupestres, de Brancusi, Pierre Verges, Faulkner, Ezra Pound, Carl Jung e outras manifestações artísticas ocidentais também são atribuídas a seu pai, de quem recebeu as primeiras orientações no campo da escultura e do desenho.

Mãe Branca(d), 1990, e Ângela e Lukas, torso com penas brancas(e), 1989. Fotos: Mario Cravo Neto.

Abrigo(e), 1990, e Akira com talco(d), 1997. Fotos: Mario Cravo Neto.

Em 1964, acompanhou o pai no programa “Artists on Residence”, patrocinado pela Ford Foundation e sediado em Berlim. Por lá, manteve contato com o artista italiano Emilio Vedova (1919 – 2006) e com o fotógrafo Max Jakob. Mudou-se para Nova Iorque em 1968 para estudar na Arts Students League. Foi orientado pelo precussor da arte conceitual na cidade, Jack Krueger, e aventurou-se pela primeira vez nos campos da escultura em acrílico e da fotografia, realizando o ensaio em cores On the Subway.

Fotos: Mario Cravo Neto.

Fotos: Mario Cravo Neto.

Ao retornar ao Brasil, mergulhou no universo religioso afro-cristão característico de Salvador. As imagens em preto e branco feitas em estúdio durante o período o tornariam uma referência internacional. As das ruas da capital baiana estão entre as mais conhecidas já feitas no estado brasileiro, atrás apenas dos registros do francês Pierre Verger.

Fotos: Mario Cravo Neto.

Fotos: Mario Cravo Neto.

Definido pelos amigos como neurótico pela perfeição e por ser constantemente contestador, sua obra capta o misticismo com uma sensibilidade assustadora, áspera. Mescla, em um só tempo, pacto cultural e crítica social. Cravo Neto valoriza a importância da cultura e da simbologia baiana, mas denuncia em cores a miséria local, em especial do Pelourinho. Para muitos, como o artista visual Valdomiro Bezerra, ele atualiza a visão de valorização da cultura baiana que já havia emergido nos anos 1940 com artistas como Odorico Tavares, Caribé, e os próprios Mario Cravo Junior e Pierre Verger.

Criança com balão(e), 1990, e Silêncio, 1992. Fotos: Mario Cravo Neto.

Pedro com dois cachorros(e), 1989, e Homem com peixes. Fotos: Mario Cravo Neto.

A Flecha em Repouso, sua última exposição, em 2008, reflete a luta contra um câncer, mas fora do âmbito pessoal. Mostra, em imagens inéditas, a batalha pela vida de uma forma geral. O pai, Cravo Júnior, ainda vive. Durante a mostra Eternamente Agora – Um Tributo a Mário Cravo Neto, em 2010, falou sobre o filho pela primeira vez depois de sua morte, definindo-o como um amigo, confidente, irmão e colega.

Exposição Flecha em Repouso. Foto: Mario Cravo Neto.

Exposição Flecha em Repouso. Foto: Mario Cravo Neto.

20
mar

O fotógrafo beat

Frank Robert Portrait, 1995. Foto: Breukel Koos.

“Robert Frank… ele extraiu da America um poema triste diretamente para a película, cravando seu nome entre os grandes poetas trágicos do mundo”. A frase é de Jack Kerouac e faz parte do prefácio da primeira edição de The Americans (1959), a mais famosa e influente obra de Frank. Como afirma o fotógrafo e curador Jim Casper, o texto do mais icônico escritor da Geração Beat complementa perfeitamente as imagens: ainda que forte e poderoso, é triste e inocente, como o Jazz dos anos 1950.

Fish Kill, 1955. Foto: Robert Frank.

Indianopolis, 1955. Foto: Robert Frank.

Filho de judeus, Frank nasceu em 1924 em Zurique, na Suíça. Seu pai se tornou sem pátria após a Primeira Guerra Mundial e teve de lutar para conseguir cidadania suíça para Robert e seu irmão, Mandred. Apesar da família estar em segurança durante a Segunda Guerra Mundial, a ameaça nazista afetou Frank profundamente — e seu interesse por fotografia nasceu da vontade de expressar este sentimento. Para escapar do foco em negócios característico de sua família, treinou com alguns fotógrafos e designers até criar seu primeiro livro de imagens feito à mão, 40 fotos (1946).

Fourth of July, 1956. Foto: Robert Frank.

Parade, 1955. Foto: Robert Frank.

Um ano depois, Frank emigrou para os Estados Unidos. Foi morar em Nova Iorque, onde conseguiu um emprego como fotógrafo na Harper’s Bazaar, que logo deixou para viajar pelos continentes europeu e sul-americano. Retornou aos EUA em 1950, ano em que conheceu Edward Steichen, participou da exposição coletiva 51 American Photographers no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) e se casou com a artista Mary Frank (antes Mary Lockspeiser), com quem teve dois filhos, Andrea e Pablo.

Cafe-Beaufort, 1955. Foto: Robert Frank.

Trolly, 1955. Foto: Robert Frank.

Ainda que sua visão inicial da sociedade e da cultura norte-americana fosse otimista, sua perspectiva mudou quando entrou em confronto com o acelerado ritmo de vida do país — o que interpretou como uma valorização exagerada do dinheiro.  Frustrado, também, com o controle exagerado dos editores sobre seu trabalho, ele passou a ver os Estados Unidos como um lugar triste e solitário, o que se tornou evidente em sua fotografia. Permaneceu viajando, mudou-se com sua família para Paris por um breve período e, em 1953, começou a trabalhar como jornalista freelancer para revistas como Vogue, Fortune e McCall. Sua união com fotógrafos como Saul Leiter e Diane Arbus fez com que se tornasse parte do movimento de vanguarda que a curadora Jane Livingston classificaria como The New York School.

New York City, 1955. Foto: Robert Frank.

Picnic Ground-Grendale, 1958. Foto: Robert Frank.

Em 1955, sob influência do fotógrafo americano Walker Evans, que registrou os efeitos da Grande Depressão de 1929 no país, Frank conseguiu uma bolsa para viajar pelos Estados Unidos e fotografar todos os estratos de sua sociedade. Visitou cidades como Detroit, Miami, Reno, Utah e Chicago, quase sempre acompanhado de sua família. Ao longo de dois anos, e sempre de carro, tirou mais de 28 mil fotos. Oitenta e três delas foram selecionados para The Americans.

Charleston, 1955. Foto: Robert Frank.

Funeral, 1955. Foto: Robert Frank.

Com a publicação, Frank se tornou um dos principais artistas visuais a documentar a subcultura Beat. No retorno a Nova Iorque, conheceu Kerouac e Allen Ginsberg, afinado com seu interesse em registrar as tensões entre o otimismo da década e a realidade norte-americana, cheia de contrastes como as diferenças entre classes e as tensões raciais. Frank captou essa ironia com imagens contrastadas e enquadramentos e focos pouco tradicionais.

Rach Market, 1956. Foto: Robert Frank.

Assembly Plant, 1955. Foto: Robert Frank.

Na época do lançamento da obra, Frank abandonou a fotografia para se concentrar em fazer vídeos. Em seu portfólio está o curta Pull My Daisy (1959), escrito e narrado por Kerouac e estrelado por Ginsberg e outros poetas. Seu filme mais famoso é Cocksucker Blues, um documentário sobre a turnê mundial dos Rolling Stones de 1972. Quando viu o resultado, Mick Jagger falou: “É um filme muito bom, Robert, mas se você mostrá-lo nos Estados Unidos, nunca mais vai poder entrar no país novamente”.

 “É sempre a reação instantânea a si mesmo que produz uma fotografia.”
Robert Frank