Skip to content

Posts tagged ‘preto e branco’

8
set

Numo Rama, a palo seco

Retrato de Numo Rama

A série Carnívoros, de Numo Rama, leva-nos a um espaço de crueza – da carne, da vida, da morte, da sobrevivência. Imagens em preto e branco de um matadouro, lugar onde não há concessões, da mesma forma que não são condescendentes as fotos de Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“A vida de peão não me permite ser um fotógrafo contínuo. Então, penso a fotografia enquanto conserto as cercas, ou preparo o arreio para domar cavalo. É de onde tiro tempo para longas reflexões e programo mentalmente tudo”, explica o fotógrafo ao jornal O Estado de São Paulo. Aos 45 anos, nascido em Araruna (Paraíba), Rama vive atualmente em um rancho, no município de Pedra da Boca (na divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte), depois de ter rodado o mundo por 16 anos, fazendo diversos trabalhos temporários.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“Dos embates das realidades desse chão que voltei a pisar em 2000 venho extraindo a energia necessária para fazer uma fotografia com o volume e a força pertinentes à vida de meus ancestrais e das pessoas que encontro por aqui”, conta o fotógrafo. Embate, energia, força: palavras que, de fato, são associadas facilmente ao universo criado pelas imagens de Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“A estética do sertão tem uma força muito própria. Tudo no presente por aqui teve muitos passados, e com uma câmera simples, analógica e muita pretensão tento juntar tudo numa única imagem”, explica Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“Vivi em muitos lugares, principalmente em grandes cidades, onde não há espaço nem tempo, onde formataram o tempo, onde o tempo está em extinção. Todo meu trabalho é pensado com o tempo, somos bons amigos”, conta o fotógrafo. De volta ao mundo rural, Rama aborda a passagem do tempo exibindo os rastros deixados pela atividade humana e pelos corpos dos animais.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

Quando o fotógrafo diz ver o mundo “a partir desse Nordeste que pare retirantes e retornados”, não tarda muito até pensarmos em João Cabral de Melo Neto, em mortes e vidas severinas. Assim como o poeta, Rama é conciso, sem sentimentalismos – e parece seguir o conselho dos versos finais de A palo seco, de João Cabral: “não o de aceitar o seco por resignadamente, mas de empregar o seco porque é mais contundente”.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

4
ago

Evgen Bavcar: o que há entre o fotógrafo e a fotografia?

 

 

Fotografia e visão parecem inseparáveis. Remetem-se uma a outra, seja quando falamos sobre a captura de imagens, seja quando as observamos. Há, no entanto, fotógrafos que se dedicam a esse ofício mesmo sem a capacidade de enxergar (ao menos no sentido mais estrito e físico desse verbo). No post de hoje, apresentamos um deles, Evgen Bavcar, talvez o mais famoso dessa fascinante linhagem de fotógrafos.

 

 

 

Esloveno naturalizado francês, Bavcar perdeu a visão gradualmente, ao longo de um período de oito meses, quando tinha apenas 12 anos. A cegueira decorreu de uma queda, que o deixou cego do olho esquerdo, e, mais tarde da explosão de uma mina, que feriu o direito. O início como fotógrafo se deu aos 16 anos, portanto, quando Bavcar já era cego.

 

 

 

“Narciso morreu afogado porque não compreendeu que entre ele e a imagem existe a água. Eu sei que entre eu e a imagem há o mundo, há a palavra dos outros, uma grande distância. Entre as imagens reais que tenho. Há uma distância intransponível de 40 anos de minhas recordações da Eslovênia”, conta o fotógrafo à revista Trópico.

 

 

 

Entre o fotógrafo e a imagem, o mundo, os outros, as palavras. De forma poética, Bavcar explica seu processo de trabalho – que nos leva a refletir sobre infindáveis questões relacionadas à fotografia. Com a ajuda de outras pessoas, Bavcar obtém informações sobre o que está acontecendo diante de sua câmera. Costuma trabalhar à noite, usando holofotes, de modo a facilitar o uso do foco automático – mesmo assim, nessa e em outras situações, consegue medir distâncias usando as mãos.

 

 

 

Nascido em 1946, Evgen Bavcar já participou de diversas exposições ao redor do mundo. No Brasil, tem um livro sobre a sua obra publicado pela Cosac Naify (Memórias do Brasil, 2003), organizado por Elida Tessler e João Bandeira. É também um dos entrevistados do documentário Janela da Alma (2001), dirigido por João Jardim e Walter Carvalho. Em seus depoimentos e nas análises a respeito do seu trabalho, ganham evidência reflexões em torno do olhar e da representação na fotografia.

 

21
jul

João Pina: o cotidiano das favelas cariocas

Retrato de João Pina

Nascido em Lisboa, o fotógrafo João Pina realiza coberturas na América Latina para a imprensa portuguesa desde 2002. As imagens que apresentamos neste post integram a série Gangland, que ganhou um desdobramento como matéria da revista The New Yorker, em 2009, assinada pelo fotógrafo e pelo jornalista Jon Lee Anderson. As fotos retratam o cotidiano das favelas cariocas, desde momentos de descontração até confrontos armados entre policiais e traficantes.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

“Decidi começar a documentar essa realidade guiado pela curiosidade sobre como a cidade chegou a esse extremo de violência. Tive a oportunidade de estar ao lado de diferentes unidades policiais que trabalham nas favelas. Pude também seguir e documentar o lado de jovens, com idade média de 18 anos, os quais se tornam chefes de comunidades por serem traficantes em um território onde o estado brasileiro não existe”, explica o fotógrafo.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

As fotografias de João ecoaram no jornalista da publicação novaiorquina, que viu nas imagens uma possível abordagem para um contexto tão complexo. “Queria encontrar uma maneira de escrever sobre a realidade do Rio – tão inquietante, tão irresistível – desde que visitei a cidade pela primeira vez há uns doze anos, mas apenas quando vi as imagens do João senti que tinha encontrado alguém com um olhar gêmeo. Em si mesmo, o João impressionou-me como bom companheiro e guia para um desbravar mais profundo do mundo que ele já começara a documentar”, conta Anderson.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

João Pina nasceu em 1980. A partir dos 18 anos começou a publicar suas imagens de forma regular na imprensa de Portugal. A partir de 2002, começa a focar o seu trabalho sobretudo em países como Argentina, Brasil, Bolívia e Cuba. De 2004 a 2005 frequentou o curso de fotojornalismo e fotografia documental do International Center of Photography, em Nova York. Em 2007 publicou seu primeiro livro, “Por teu livre pensamento”, com histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, em parceria com Rui Daniel Galiza, autor dos textos.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

Pina trabalha para publicações como The New York Times, Newsweek, Stern, GEO Magazine, El País, EPs, La Vanguardia Magazine, D Magazine, Io Donna, Expresso e Visão. Já realizou exposições em Nova York, Londres, Tóquio, Lisboa e no Porto. Desde 2007 tem Buenos Aires como base para suas coberturas. Na Argentina, segue seu trabalho sobre os desaparecimentos articulados pelos regimes militares do Cone Sul na Operação Condor. Desde 2003 é membro do coletivo Kameraphoto.

Foto: João Pina

Foto: João Pina