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Posts tagged ‘magnum’

13
abr

David Alan Harvey: olhar e alma jovens

Retrato de David Alan Harvey

David Alan Harvey é um fotógrafo veterano, mas mantem a inquietude e a empolgação dos novatos. Iniciou sua carreira com o livro auto-publicado Tell it like it is (1967), sobre uma família pobre de Norfolk, Virginia, e viajou pelo mundo por uma década pela National Geographic (tendo sido escolhido Fotógrafo de Revista do Ano durante esse período). Tornou-se membro pleno da Magnum em 1997 e é ativo desde então, não apenas publicando obras mas destacando o trabalho de outros fotógrafos por meio de sua revista e editora, a Burn.  Um dos maiores prazeres de Harvey, além de fotografar, é lecionar e amparar estudantes e amadores: “nunca senti a necessidade de competir, então sempre fui capaz de passar muita energia de volta para as outras pessoas”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Americano nascido em 1944 em São Francisco, mas criado em Virginia, Harvey descobriu seu amor pela fotografia ainda na infância, e com talento e intuição soube transformá-lo em carreira. O golpe de sorte, como o próprio define, deu-se graças a um incidente infeliz: teve pólio quando era criança e ficou hospitalizado em uma ala isolada quando tinha apenas seis anos. Em confinamento solitário, contava apenas com os livros e revistas repletas de fotos enviados por sua mãe e sua avó. “Essa era a minha fuga – livros, revistas, uma combinação de literatura e imagens”, relembrou, em entrevista à Vice. “As fotos entraram em minha vida de uma maneira real muito cedo. Em algum momento, ganhei uma câmera – provavelmente como qualquer outro garoto – mas também ganhei um laboratório fotográfico e percebi que podia fazer o que quisesse com aquilo”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Sua inspiração primordial foram as “pessoas capazes de fazer algo do nada”: “no começo, eu olhava para as fotos e via que os fotógrafos esportivos precisavam de uma Olimpíada, que os fotógrafos de moda precisavam de modelos e que os fotógrafos de guerra precisavam de uma guerra. Cartier-Bresson, Robert Frank, Riboud e esses outros caras – eles não precisavam de nada: eles só olhavam pela janela ou iam até o jardim”. Encantado pela ideia de dar sentido à vida cotidiana, atraia-se pela integridade do jornalismo, mas sempre esteve mais interessado nas fotografias que não precisavam comunicar um grande conceito, poderiam apenas ser.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Sua primeira obra, Tell it like it is (1967), surgiu da inevitável culpa após um hedonista trabalho como fotógrafo na praia. Sentindo que estava usando sua câmera para a “coisa errada”, dirigiu até Norfolk, Virginia, e entrou em uma das casas do gueto, com o objetivo de mostrar aos brancos que viviam em seu bairro como era a vida ali. “Eu nem sabia o que fazer com minhas fotos, mas publiquei um pequeno livro e vendi por dois dólares, peguei o dinheiro e dei para a igreja local”. Esse foi seu primeiro trabalho importante, e não muito depois disso começou a trabalhar para a National Geographic, de onde saiu ao se deparar com uma crise de meia-idade. Sentindo-se estagnado, divorciou-se, largou o trabalho e foi trabalhar no Chile, começando a construir o que se tornaria o livro Divided Soul (2007). Cinco anos depois foi escolhido para um trabalho de meio período na Magnum, em 1993, tornando-se membro pleno da agência quatro anos depois. Por lá, sentiu-se tão livre quanto seguro. Conheceu Vietnã, Cuba, Líbia e todos os lugares “onde os Estados Unidos não tem uma embaixada”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

As imagens que ilustram este post são de seu mais recente livro, Based on a True Story (2012), que funciona como um cubo mágico: o espectador pode ver as fotos na ordem que quiser, construindo uma sedutora história visual. A obra é focada na migração da Península Ibérica para as Américas, o que inclui a África Ocidental. Nas palavras do fotógrafo, trata-se da abordagem de quatro culturas miscigenadas: “Espanha, Portugal, África Ocidental e os indígenas que estavam aqui antes”. A aventura durou 25 anos e o levou a conhecer todos os países americanos, além da Península Ibérica e da África Ocidental. Entre as cópias da obra distribuídas de graça nos lugares fotografados estão 2.500 livros doados recentemente a favelas do Rio de Janeiro.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

23
mar

10 coisas que Alex Webb pode ensinar sobre Fotografia de Rua

Retrato de Alex Webb

Membro pleno da Magnum desde 1979, Alex Webb (1952) é um fotógrafo de rua americano que, depois de iniciar a carreira de forma bem sucedida em P&B, passou a utilizar cores, luzes e emoções para captar imagens tão belas quanto complexas. Depois de ler e ver o livro-coletânea de seus 30 anos de carreira The Suffering of Light (“o sofrimento da luz”, em tradução literal), o também fotógrafo de rua Eric Kim apaixonou-se por seu trabalho e selecionou as 10 principais lições que aprendeu com a obra, lista que aprovamos, traduzimos e editamos. Confira:

1. Crie camadas em suas fotografias

Profundidade de campo é um elemento forte na obra de Webb. Em muitas de suas fotos, há um plano forte, com assuntos mais próximos da lente, outros mais perto da parte inferior do frame e um fundo marcado pela nitidez. O melhor dessa característica, para Eric, é que ela integra o espectador ao quadro: é possível fazer parte da cena, ver o que o fotógrafo vê.

Foto: Alex Webb

2. Preencha o quadro

“Não é só aquilo, aquilo e aquilo que existe. É aquilo, aquilo, aquilo e aquilo que existem em um mesmo frame. Estou sempre à procura de algo mais. Se você integra em demasia, talvez isso se torne um caos total. Estou sempre jogando nessa linha: adicionando elementos a mais, mas mantendo apenas uma espécie de caos ”Alex Webb

Se Eric pudesse resumir alguns dos mais famosos trabalhos de Webb, o faria com a expressão “caos ordenado”: “ele frequentemente preenche frames com tantos assuntos que a foto quase parece poluída. Ainda assim, muitos dos elementos que adiciona nas imagens não se sobrepõem. Há várias pequenas interações em um mesmo quadro, o que torna possível que se conte diversas histórias em um só frame”, observa. A dica para conseguir esse feito é tentar adicionar elementos, com paciência e esperando os personagens retratados interagirem, mas confiar na intuição quando sentir que se chegou a um limite. Deve haver um equilíbrio das sobreposições, das sombras e das luzes.

Foto: Alex Webb

3. Caminhe. Muito.

“Eu só sei como abordar um lugar caminhando. Porque é o que um fotógrafo de rua faz: caminhar, observar, esperar, falar e aí observar e esperar mais um pouco, tentando se manter confiante de que o inesperado, o desconhecido, o coração secreto do que conhecemos nos  espera ao virar a esquina.”

A única maneira de fazer boas fotografias de rua é fotografando nas ruas. Quando fazemos isso, nos abrimos para muitas oportunidades, além de termos a experiência de, de fato, sentirmos a atmosfera de um lugar. Um bom exercício, Eric aconselha, é andar sempre com sua câmera e optar por ir caminhando a lugares e compromissos sempre que possível.

Foto: Alex Webb

4. Procure a luz

Não foi por acaso que a obra que reúne imagens assinadas por Webb nos últimos 30 anos ganhou o título de “The Suffering of Light”. Ele remete a uma frase de Johann Wolfgang Von Goethe, “as cores são as obras e o sofrimento da luz”. Webb explica que mesmo sem ser filósofo ou cientista, sente que um aspecto da teoria das cores de Goethe é o fato de que ele sentia que a cor tinha origem na tensão entre a luz e a escuridão. Assim, Webb busca sempre pensar na mensagem e no significado que cada tom transmite, o que se aplica bem em suas constantes abordagens da tensão entre zonas fronteiriças. A luz assumiu um papel fundamental, por exemplo, em seus dois trabalhos sobre Istambul, um marco divisório entre Oriente e Ocidente marcado pelas nuances coloridas de diversas culturas. O conselho de Webb para conseguir a luz adequada para registrar essas tonalidades é fotografar sempre nos bons horários, o início e o fim do dia.

Foto: Alex Webb

5. Perceba que 99,9% da fotografia de rua é fracasso

“A sorte, ou talvez o acaso, desempenha um grande papel, mas você nunca sabe o que vai acontecer. E o mais empolgante é quando algo totalmente inesperado acontece e você está lá, no lugar certo e na hora certa, e pressiona o botão no momento exato. Na maioria das vezes, não funciona dessa maneira. Esse tipo de fotografia é 99,9% fracasso.”

Mesmo que afirme que a fotografia de rua se trata majoritariamente de fracasso, Webb tem uma carreira notória e um portfólio repleto de “instantes decisivos” impressionantes. O segredo, de acordo com ele, é o domínio técnico e a prática. Isso remete a uma frase presente no texto “Aprender fotografia por quê?”, do Catálogo de Cursos do Centro de Fotografia da ESPM-Sul: “Só quem viveu o desgosto de ter feito uma foto banal de algo extraordinário, ou já se encantou com a situação inversa, sabe que a possibilidade dessa quebra de expectativa é o que transforma a câmera fotográfica em uma ‘caixa preta’ cheia de surpresas”.

Foto: Alex Webb

6. Dedique-se a projetos

“A maioria dos meus projetos parece começar como viagens exploratórias sem fim visível à vista.”

Trabalhar em projetos é uma bela forma de abordar a fotografia de rua por dar ao aspirante direção, propósito a possibilidade de criar uma narrativa. No entanto, nem sempre é fácil. Não é possível saber ao certo quanto tempo eles vão levar, o que iremos (ou até mesmo o que queremos) fotografar. O conselho de Webb para isso é saber que “diferentes projetos parecem ter diferentes arcos de conclusão”. O mais importante é pensar em si mesmo antes de escolher um objetivo e ir aos lugares escolhidos sempre com a mente aberta para possibilidades inesperadas.

Foto: Alex Webb

7. Se você está preso, tente algo novo

Até 1975, Webb fotografava apenas em preto e branco. Em um projeto sobre cenários americanos nas ruas de Nova Iorque e Nova Inglaterra, viu-se encurralado: mesmo conseguindo fotos boas, sentiu que não estava chegando a nenhum lugar novo. “Parecia que estava explorando o território que outros fotógrafos já haviam descoberto, como Lee Friedlander e Charles Harbutt”, relembra. Após essa constatação, Webb ingressou em um projeto no Haiti que o transformou, influenciando-o a começar a trabalhar com cores.

A dica, então, é evitar o marasmo quando não se está feliz. Costuma trabalhar em preto e branco? Tente cores. É adepto das câmeras digitais? Aventure-se no filme. Eric afirma que experimentou o suficiente diferentes abordagens e temáticas até se sentir seguro na fotografia de rua.

Foto: Alex Webb

8. Siga sua obsessão.

Para Alex Webb, mesmo que as dúvidas sempre existam, seguir sua obsessão é algo importante para se tornar um bom profissional. Para que tudo dê certo, é necessário levar a fotografia à sério –  é só assim que o trabalho duro supera os anseios. Ter projetos, conhecer e conversar com outros fotógrafos, buscar referências, ler livros sobre técnica, tudo isso ajuda o aspirante a se focar por completo, e colher os frutos desse esforço, na fotografia.

Foto: Alex Webb

9. Capture a emoção de um lugar

Para Webb, as diferentes tonalidades dizem respeito à atmosfera, à emoção, à sensação de um lugar, e fotografar em cores é uma bela forma de capturara o humor e o clima dos assuntos. Assim, vale pensar em como as cores presentes em uma cena podem adicionar significado às fotografias antes de disparar.

Foi em sua viagem ao Haiti que Webb percebeu que as intensas e vibrantes cores daquele mundo deveriam ser levadas em conta em suas fotos. Esse brilho, até então inédito para ele autoralmente, o ajudou a incorporar nos cliques a alma das culturas que estava retratando.

Foto: Alex Webb

10. Viaje

Webb enfatiza como sua primeira viagem ao Haiti transformou seu modo de ver o mundo, o que teve uma influência determinante em sua produção. “Eu fotografei uma espécie de mundo que nunca tinha experimentado antes”, recorda, “um mundo de vibração emocional e intensidade: cru, desarticulado e muitas vezes trágico”. Descontextualizar-se, ter acesso a outras formas de viver, é algo que ajuda os fotógrafos que buscam o afamado e necessário aprimoramento do olhar.

Foto: Alex Webb

6
out

“Tirar fotos é retirar do desconhecido aquilo que resiste e se recusa a vir à luz”, Jean Gaumy.

Autorretrato de Jean Gaumy.

Nascido em agosto de 1948 em Pontaillac, na França, e vinculado à Magnum desde 1977, Jean Gaumy começou sua carreira como escritor e fotógrafo, trabalhando, também, em projetos cinematográficos. Sua obra costuma abordar o tema do isolamento humano e é aclamada em todo o mundo.

Foto: Jean Gaumy.

Foto: Jean Gaumy.

Educado em Toulouse e Aurillac, começou a trabalhar como fotógrafo freelancer parar pagar por seus estudos universitários em Rouen. À convite de Raymond Depardon, tornou-se membro da agência Gamma em 1973, após integrar a Viva por um breve período. Desde o princípio, parte importante de sua produção tem como tema o confinamento. Em 1975, começou a trabalhar em duas grandes séries que ajudaram a projetar seu nome internacionalmente e se tornaram livros, L’hôpital (1976) e Les Incarcérés (1983). Sem precedentes, ambos expuseram a fragilidade dos sistemas de saúde e prisional na França e impulsionaram reformas. Gaumy foi, à propósito, o primeiro profissional a receber permissão para fotografar as prisões do país. Ele também foi o pioneiro ao ter acesso ao campo de treinamento da milícia feminina Basij, no Irã – e é essa a origem de uma de suas mais famosas fotos, tirada durante uma prática de tiros.

Foto: Jean Gaumy.

Foto: Jean Gaumy.

Durante quatro anos, Gaumy visitou o Irã por seis ou sete vezes, documentando desde fatos cotidianos até os momentos mais tensos da Guerra Irã-Iraque. “Para mim, foi uma oportunidade de descobrir o verdadeiro significado do que o país era”, define. “Abbas me disse para não acreditar em qualquer coisa que lia nos jornais e ele estava perfeitamente certo”.

Foto: Jean Gaumy.

Foto: Jean Gaumy.

Em 1984, fez seu primeiro filme, La Boucane, indicado ao prêmio César em 1986, e permaneceu trabalhando em projetos de cinema. Em 2005, dedicou-se à documentação da vida em um submarino nuclear para o filme Sous Marin passando quatro meses a bordo, debaixo d’água. Depois, começou um trabalho que o levou aos mares do Ártico, mais precisamente às terras contaminadas de Chernobyl e Fukushima, seguindo uma abordagem fotográfica considerada mais contemplativa, ligada ao estilo de seus numerosos trabalhos sobre o confinamento humano. Para o mesmo projeto, iniciou uma série de paisagens de montanhas.

Foto: Jean Gaumy.

Foto: Jean Gaumy.