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Posts tagged ‘história’

21
mai

As relações entre luz e cor

Foto: Schari Kozak

Os alunos do Curso Anual de Fotografia da ESPM-Sul tiveram no último sábado a aula de Cor, ministrada pelo professor Edy Kolts. A disciplina do Módulo de Formação resgata descobertas da Física relacionadas à óptica para proporcionar um conhecimento aprofundado sobre as relações entre as cores e a luz, além de abordar as diferentes ferramentas utilizadas para o balanço de cor.

Foto: Schari Kozak

O professor chamou a atenção para o processo que leva o cérebro a perceber as cores nos objetos ao nosso redor. Cada superfície absorve certas frequências e reflete outras. Portanto, a luz e a interpretação da nossa visão condicionam as cores que percebemos, e não o objeto por si só. Para entender melhor, vale retomar alguns momentos históricos do estudo sobre as cores, a começar pelas descobertas de Isaac Newton, que demonstraram como a luz branca é composta por várias cores. Mais tarde, os resultados dos experimentos de Newton seriam retomados por cientistas como Thomas Young e Hermann Helmholtz, que possibilitaram novos conhecimentos sobre as cores primárias e os receptores do olho humano.

Foto: Schari Kozak

A aula ainda tratou de temas como a temperatura de cor, medida em graus Kelvin, e a importância dessa escala para realizar o balanço de cor das fotografias. Esse trabalho pode ser feito de formas variadas: com acessórios usados nos equipamentos de iluminação, na escolha de uma determinada modalidade de balanço oferecida pela câmera, em um laboratório ou ainda por meio dos softwares para tratamento de imagens.

Foto: Schari Kozak

A escala RGB, dividida em 256 níveis tonais, o sistema aditivo – a partir das cores vermelho, verde e azul – e o subtrativo – a partir das cores amarelo, ciano e magenta – também foram apresentados na aula de Kolts. De qualquer forma, esses conhecimentos acabam sempre remontando à percepção da luz e de suas características. “Quando dominamos a luz, passamos a dominar a cor”, explica o professor.

16
mai

Ricardo Chaves exibe mostra retrospectiva

Retrato de Ricardo Chaves

Até o dia 1º de junho, o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana) recebe a exposição A força do tempo, do fotojornalista Ricardo Chaves. A mostra do 7º FestFotoPOA, organizada por Carlos Carvalho, reúne imagens de 38 coberturas realizadas pelo fotógrafo ao longo de uma carreira de mais de 40 anos e um painel com 196 retratos. O blog do Centro de Fotografia da ESPM-Sul teve a oportunidade de visitar a retrospectiva ao lado de Kadão. Compartilhamos aqui um pouco dos bastidores das reportagens, contados pelo próprio fotógrafo e pelos documentos – fac-símiles de jornais, entre outros – que integram a exposição.

Alguns dos momentos mais importantes da trajetória profissional de Kadão tiveram lugar em coberturas internacionais. Aos 20 anos, munido de uma autorização dos pais (necessária na época) para poder viajar ao exterior, Kadão cobriu as eleições presidenciais uruguaias de 1971. “Foi muito impactante. Saí desse túmulo político que era o Brasil, onde todos tinham medo, e encontrei um país com manifestações, comícios e livros de todas as tendências sendo vendidos nas ruas”, conta. No entanto, pouco tempo depois, em 1973, um golpe militar instaurava uma ditadura no Uruguai. O Congresso fechado pelo novo governo aparece em uma das fotografias que fazem parte da exposição: um plano composto pelo edifício do Legislativo, uma avenida deserta e três crianças que brincam – uma delas, com uma arma de brinquedo em punho. Uma imagem que sugere o vazio político e a violência que tomavam conta da América Latina.

Foto: Ricardo Chaves

Em outra fotografia da mostra, surge novamente uma arma – dessa vez, de verdade e engatilhada. Três homens discutem em um posto de gasolina. Um deles aponta um revólver. Kadão, que havia acordado com o som de um tiro, observou tudo da janela do apartamento onde morava na década de 1980, em São Paulo. O homem que era ameaçado acabou fugindo. Em seguida, chegava a Polícia Militar, mas ninguém foi preso. Kadão recorda que, na apuração da matéria, nem a loja de conveniências nem a PM pareciam se importar com o seu relato. A impressão inicial de um assalto transformou-se na suspeita de que a imagem registrava o envolvimento de um policial em um “acerto de contas”. A foto foi capa do jornal O Estado de São Paulo, entretanto, permaneceu o mistério em torno do que realmente teria ocorrido. “Um pouco Blow Up: aconteceu, mas não aconteceu”, diz Kadão, associando a imagem ao filme de Michelangelo Antonioni em que uma fotografia registra por acaso um possível crime.

Foto: Ricardo Chaves

A exposição apresenta também a cobertura do incêndio de uma loja da Renner, na avenida Otávio Rocha, em Porto Alegre. A matéria foi publicada pela revista Veja, em 1976, com uma série de fotos que mostra o desespero das pessoas que estavam no edifício no momento da tragédia. Da redação, Kadão viu a coluna de fumaça que se formava e correu até a rua para descobrir o que estava acontecendo. “Quando cheguei perto do prédio, já caía o primeiro corpo”, conta.

Foto: Ricardo Chaves

Trabalhando na sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre, Kadão registrou o incêndio da redação de Zero Hora, em 1973. “O motorista do Jornal do Brasil estava indo para casa. Passava em frente a Zero Hora quando viu o incêndio. Como na época não tinha essa barbadinha do celular, ele voltou para a redação, me apanhou e eu fiz as fotos”, conta. Depois de revelar o filme e enviar uma telefoto para o JB no Rio de Janeiro, Kadão voltou ao prédio da ZH para saber se havia feridos. Chegando lá, descobriu que os jornalistas tinham saído do prédio com segurança e estavam na redação do Jornal do Comércio, que gentilmente cedia sua redação para a concorrência. A imagem estampou a capa de ZH no dia seguinte, acompanhada da manchete “Incêndio não parou jornal”.

Foto: Ricardo Chaves

“Todos nós, fotógrafos, corremos atrás de imagens que de alguma maneira representem a época em que vivemos. Somente nós, que estamos vivendo esse período, podemos fazer um registro simbólico desses momentos”, diz Kadão. Algumas das imagens tornam-se icônicas, como é o caso das fotos de conflitos entre policiais e manifestantes contrários ao regime militar, nos anos 1970. A cobertura dos enfrentamentos, na avenida João Pessoa, em Porto Alegre, rendeu a Kadão o prêmio Abril de Fotografia de 1977. Uma das imagens dá a ver de forma bem humorada a tentativa aparentemente frustrada de controlar os protestos.

Foto: Ricardo Chaves

Nascido em 1951, Ricardo Chaves passou a consolidar o seu interesse pela fotografia em 1969, frequentando a redação de Zero Hora. Na equipe da Veja, cobriu a visita do Papa João Paulo II à Polônia, ainda governada por dirigentes comunistas, em 1979 – o retorno de Karol Wojtyla a seu país de origem foi fundamental para o movimento antissoviético Solidariedade, liderado por Lech Walesa, que mais tarde se tornaria presidente da Polônia. Ainda pela Veja, cobriu em 30 de abril de 1981 o atentado do Riocentro, no Rio de Janeiro – acontecimento que contribuiu para o enfraquecimento do regime militar no Brasil. Trabalhou ainda na revista Istoé e na Agência Estado, cobrindo importantes acontecimentos da política brasileira e do esporte. Em 1992, retornou a Porto Alegre como editor de fotografia de Zero Hora, função que ocupou por duas décadas. Desde 2011 é editor da coluna Almanaque Gaúcho, de ZH, que resgata fatos e curiosidades históricas.

Foto: Ricardo Chaves

Exposição A força do tempo, de Ricardo Chaves
Aberta até 1º de junho de 2014
Local: Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – 6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico – Porto Alegre)
Visitação: segunda-feira, 14h-19h; terça a sexta-feira, 10h-19h; sábado, domingo e feriados, 12h-19h
Entrada franca

1
nov

“Posso dar forma a este mundo de fantasias quando sinto a certeza ressoar dentro de mim” Sergio Larrain

Retrato de Sergio Larrain

É longa, com ao menos mais de três décadas, a carreira da grande maioria dos fotógrafos veteranos que aparecem por aqui, sejam eles nomes em atividade ou que já estão na memória. O fotógrafo que inspirou o post de hoje, entretanto, possuiu uma história fugaz na fotografia. Sergio Larrain faleceu em 2012, anos 81 anos, e dedicou-se profissionalmente ao ofício por pouco mais de 10, tempo curto se comparado ao de diversas outras referências que fizeram dessa atividade a sua vida. Mas em cerca de uma década, seu impacto foi como o de um meteorito. Um contemplativo, sensível e meditativo meteorito. Foi o mesmo encanto pela natureza e a raça humana presente em suas imagens que o levou ao isolamento: depois de muitas viagens, Larrain decidiu viver uma vida simples e autossuficiente em Olvalle, Coquimbo, no interior de seu país, trocando a fotografia por uma íntima e mística busca. A partir daí, elaborou uma enorme quantidade de escritos, preocupado com o triste estado da humanidade e instigando, incansável, as pessoas a melhorá-lo.

Foto: Sergio Larrain

Foto: Sergio Larrain

A seleção presente neste post é um exemplo do cuidado amoroso e angustiado com que retratava um de seus temas preferidos, as ruas, com sua conturbada e poluída solidão, ora alegre, ora melancólica. Outro exemplo de sua sensibilidade, e da aura enigmática que seu nome ganhou, são as fotografias que fez em Paris da Catedral de Notre Dame. Ao revelarem cenas de um casal apenas após o processamento, tornaram-se a base do conto As Babas do Diabo (1959), de Julio Cortazar, um dos mais célebres da literatura latino-americana. Posteriormente, a história inspirou o filme Blow-up (1966), clássico de Michelangelo Antonioni.

Foto: Sergio Larrain

Foto: Sergio Larrain

Larrain nasceu em 1931, em Santiago do Chile, e estudou música até se decidir pela fotografia, em 1949. Deste ano até 1953, estudou Silvicultura, a ciência dedicada ao estudo dos métodos de proteção e regeneração de florestas, na Universidade da California, em Berkeley. Ele ainda passou pela Universidade e Michigan até decidir viajar pela Europa e o Oriente Médio, o que o levou a trabalhar como fotógrafo freelancer. Em 1956, mesmo ano em que começou a trabalhar para a revista brasileira O Cruzeiro, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) comprou duas de suas fotos. Larrain ganhou, em 1958, uma concessão do British Council que o permitiu produzir uma série de imagens de Londres. No mesmo ano, Henri Cartier-Bresson viu suas imagens de crianças nas ruas e sugeriu que ele trabalhasse para a Magnum, o que fez nos dois anos seguintes, vivendo em Paris. Tornou-se um associado em 1959 e membro pleno em 1961, mas retornou ao Chile pouco depois quando o poeta Pablo Neruda o convidou para fotografar sua casa. As imagens foram publicadas na obra Una casa en la arena. Também vale destacar, entre suas poucas obras publicadas, o fotolivro El rectángulo em la mano (1963), também envolvido por certo mistério. Nas páginas, fotos de índios andinos, meninos de rua e homens desolados ilustram a intenção de Larrain de “solidificar um mundo de fantasmas”. Existem raros exemplares em circulação, já que quase todas as edições foram jogadas fora. Reza a lenda que o autor arrancou, exemplar por exemplar, duas das 17 fotos do compilado.

Foto: Sergio Larrain

Foto: Sergio Larrain

Em 1968, entrou em contato com o guri boliviano Óscar Ichazo e optou pelo estudo da cultura oriental e do misticismo em detrimento da carreira na fotografia. Ao adotar um estilo de vida em sintonia com seus ideais, aprendeu ioga, escreveu, pintou e apenas ocasionalmente sacou a câmera – limitando a prática a sua mais pura expressão pessoal, não atribuindo a ela um meio de ganhar a vida, o mercado, um lugar de destaque em uma sociedade com a qual não concordava. Por um longo período, Larrain rejeitou a ideia de uma exposição de seu trabalho em vida, já que a cobertura da mídia necessária o tiraria de seu duramente conquistado afastamento dos holofotes. Entretanto, em 1999, ele aceitou. Agnès Sire, diretora da Fundação Cartier-Bresson em Paris, foi a curadora da mostra. Com o objetivo de preservar sua obra, ela e Larrain trocaram cartas por um período de 30 anos – ela assumindo o papel de amiga e representante da equipe francesa da Magnum. A exibição fez um retrospecto de sua carreira, dos anos de aprendizado na Magnum às mais livres fotografias e desenhos feitos em seus anos distante de aparições públicas. Com seu olho afiado e livre de convenções, somado a sua abordagem social e poética do mundo, Larrain segue como uma referência para os estudantes de fotografia. E para os seres humanos.

Foto: Sergio Larrain

Foto: Sergio Larrain