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Posts tagged ‘frança’

17
nov

A excentricidade inventiva de Félix Nadar (1820 – 1910)

Auto Retrato de Felix Nadar.

Para muitos, as fotografias de Félix Nadar, pseudônimo de Gaspard-Félix Trounachon (1820 – 1910), são um reflexo de sua excêntrica personalidade. Também jornalista e caricaturista, tornou-se famoso não apenas por seus retratos e desenhos de importantes personalidades francesas, mas também por sua paixão por tecnologia e aventura.
Antes de tornar-se fotógrafo, o parisiense estudou Medicina, mas devido à falência da editora de seu pai teve de abandonar os estudos para começar a trabalhar. Adotou o sobrenome Nadar para escrever em jornais e passou a vender suas caricaturas para folhetins humorísticos. Mesmo que no início da década de 1850 já fosse um fotógrafo renomado, foram suas extravagâncias que o tornaram famoso. O edifício que abrigava seu estúdio, por exemplo, foi pintado de vermelho e ganhou uma imponente fachada para se tornar uma de referência, transformando-se rapidamente em um ponto de encontro da elite intelectual de Paris.

Charles Baudelaire. Foto: Félix Nadar

Eugene Delacroix. Foto: Félix Nadar

Félix dedicava-se à construção de projetos batizados de PantheonNadar: paineis gigantes repletos de caricaturas de parisienses famosos. Para preparar a segunda edição de um desses murais, começou a fotografar os personagens que desenharia, o que originou muitos de seus mais conhecidos retratos. Por conta dessa proposta suas imagens de Gustave Doré, Charles Baudelaire e Eugène Delacroix, todas realizadas por volta de 1855, mostram os artistas em poses naturais, mais despojadas do que os sisudos retratos em voga na época.

Claude Monet. Foto: Felix Nadar.

Edouard Manet. Foto: Félix Nadar

Durante anos, balonismo, mapas e fotografia foram sua principal ocupação, paixões que fizeram com que ele patenteasse a fotografia aérea na cartografia e publicasse, em 1863, o Manifeste de l’autolocomotion aérienne (“Manifesto da autolocomoção aérea”, em livre tradução). Também fundou uma sociedade dedicada ao tema em parceria com Julio Verne — ele era o presidente e Verne o secretário. Quando, no outono de 1858, Nadar conseguiu concretizar seu tão sonhado registro, uma pioneira fotografia aérea de Paris, empolgou-se tanto que decidiu criar seu próprio balão. Com capacidade para dezenas de viajantes, Le Géant (em português, “o gigante”), como era chamado, era um balão gigantesco que se tornou lendário na Europa. Sua gôndola tinha uma sacada e foi divida em seis compartimentos separados, incluindo um lavabo e um quarto que servia como laboratório fotográfico. Em sua segunda viagem, Le Géant voou de Paris para a Alemanha, onde perdeu o rumo, caiu e quase explodiu, ferindo gravemente muitos dos passageiros. Apesar do desastre, Nadar reconstruiu a gôndola, substituiu o envelope e continuou com seus vôos, além de ter construído outros balões, como The Célest.

Gondala of Nadar's balloon, 1863. Foto: Félix Nadar.

Paris. Foto: Félix Nadar.

Mas seus experimentos não se restringem a este campo. Em 1858, foi pioneiro, também, no uso de iluminação artificial na fotografia, valendo-se de luz de magnésio para registrar as escuras catacumbas e esgotos de Paris. Também é atribuída a ele a primeira entrevista fotográfica da história, uma série de 21 imagens do cientista francês Eugène Chevreul legendadas com respostas a perguntas feitas por Nadar durante os cliques.

Catacumbas de Paris. Foto: Felix Nadar

Esgotos de Paris. Foto: Felix Nadar.

Vale destacar que em 1874 Nadar emprestou seu estúdio para a primeira exposição de pintores impressionistas, com quadros de nomes vanguardistas até então pouco valorizados como Monet, Cézanne e Renoir. É possível afirmar que o trabalho desses artistas teve certa influência em sua obra, considerada por muitos fotografia pré-pictorialista.

Victor Hugo, 1878. Foto: Félix Nadar

Victor Hugo, 1885. Foto: Felix Nadar.

25
jan

“Ainda tenho o sentimento que algumas das minhas imagens podem construir pequenas pontes entre as pessoas” René Burri

Retrato de René Burri.

Veterano integrante do Magnum, René Burri é um fotógrafo que vive e trabalha entre as cidades de Zurique, sua terra natal, e Paris. Com um acervo repleto de imagens em preto e branco, mas que inclui também diversas obras em cor, documentou guerras, eventos cotidianos e momentos delicados na história mundial, favorecido pela neutralidade de seu passaporte e por seu espírito repleto de coragem jornalística e sensibilidade. Até hoje, só sai de casa com sua Leica a tiracolo. “É o meu terceiro olho. Estou sempre com ela”.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Nascido em Zurique, em 1933, tirou sua primeira fotografia aos 13 anos sob incentivo do pai. A estreia foi logo no terreno do fotojornalismo e da fotografia documental: registrou o então primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill, que desfilava pela cidade em um carro aberto. Formou-se como fotógrafo na Escola de Artes de Zurique apenas porque na época não havia no país cursos de cinema, seu desejo original. Entre 1954 e 19855, trabalhou como assistente de cinegrafista no filme documental da Disney rodado na Suíça, Switzerland (1956). Foi em 1956 que começou a trabalhar profissionalmente como repórter fotográfico. Seu trabalho autoral ganhou impulso no mesmo ano, ao realizar uma reportagem fotográfica sobre uma escola de crianças surdas-mudas que acabou sendo comercializada pela legendária Magnum. De correspondente, tornou-se membro permanente em 1959 e chegou a presidir a agência, em 1982.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Uma de suas fotografias mais emblemáticas foi feita no Brasil, mais precisamente em São Paulo, em 1960. Dramática, sofisticada e vertiginosa, Men on a Rooftop, “homens no telhado” em tradução literal, fez parte de um ensaio para a revista Praline que reuniu cenas de ruas feitas em cidades latinoamericanas. Como outras peças contempladas, revela contrastes próprios do continente: tem a elegância de poucos homens e o caos urbano enquadrados e encapsulados no mesmo frame. Na época, Burri já começava a fazer experimentos com geometria em suas imagens – e como estudante, já havia se apaixonado pela emergente arquitetura moderna, tornando-se amigo próximo de Le Corbusier e Oscar Niemeyer. Por aqui, também clicou a arquitetura de Brasília, em especial o que chamou de “seu aspecto humano”. Da passagem por Cuba, leva algumas das mais icônicas imagens de Che Guevara já registradas, além do hábito de fumar charutos, que mantém até hoje.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Uma curiosidade interessante sobre Man on a Rooftop, Burri conta, é que naquela época Henri Cartier-Bresson limitava os fotógrafos ao uso de lentes de 35mm a 90mm, e a imagem foi feita com uma 180mm. “Quando eu lhe mostrei a foto, ele disse ‘brilhante, René’. Fui para a rua e gritei ‘há!’. Ele me ouviu, perguntou o que foi e eu respondi apenas ‘nada, esquece’, e nunca disse a ele. Naquele momento, me soltei de meu mentor. Eu matei meu mentor!”, relembra.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Foi justamente a neutralidade do passaporte suíço somada a sua declarada fome pelo desconhecido que lhe possibilitou fotografar muitas situações que significariam empecilhos para fotógrafos de outras nacionalidades. Entre elas, vale destacar a Berlim de 1961, dividida pela Guerra Fria e ocupada pelos aliados na iminência da construção do Muro. Ao decorrer de sua trajetória, também documentou conflitos no Oriente Médio e na África, além de percorrer todo os Estados Unidos.

Entre seus livros mais recentes estão Brasília (2011), Blackout New York (2009), Nous sommes treize à table (2008) e Che Guevara Cigar Box (2004)

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

11
mai

Gustave Le Gray e a fotografia como arte inovadora

Gustave Le Gray Self Portrait, 1850-52.

Figura central da fotografia francesa do século 19, Gustave Le Gray nasceu em 1820, em Paris, e estudou para se tornar pintor. Migrou para a fotografia em 1847 e, antes mesmo de criar as imagens marinhas que o tornariam eterna referência, consagrou-se como um dos mais renomados pioneiros do novo ofício. Além de artista de primeira ordem, lecionou e escreveu uma série de manuais de instrução fotográficos amplamente distribuídos.

Lighthouse and Jetty, Le Havre, 1856-57. Foto: Gustave Le Gray.

Seascape with Sailing Ship and Tugboat, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

The Great Wave, Sète 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Le Gray estudou pintura no estúdio de Paul Delaroche e construiu seu primeiro daguerreótipo em 1947. Entretanto, suas maiores contribuições artísticas e técnicas foram realizadas no campo da fotografia em papel, por ele experimentada no ano seguinte. Em um de seus tratados, publicado em 1950, previa sem erros, se desconsiderado o meio digital, que o “futuro inteiro da fotografia era em papel”. No mesmo documento, esboçava uma variação do processo cunhado por William Henry Fox Talbot, afirmando que se os negativos de papel fossem encerados antes da sensibilização, gerariam uma imagem mais nítida, o que rapidamente comprovou.

The Road to Chailly, Fontainebleau, 1856. Foto: Gustave Le Gray.

Study of Trees and Pathways, 1849. Foto: Gustave Le Gray.

Ao lado de nomes como Édouard-Denis Baldus e Hippolyte Bayard, tornou-se um dos cinco fotógrafos responsáveis por documentar as missions héliographiques. O objetivo dessas missões patrocinadas pelo governo francês era reparar importantes monumentos do país. Em 1950, passou a ensinar fotografia, motivado pelo desejo de que ela fosse incluída no meio das artes ao invés de cair no domínio da indústria e do comércio. No ano seguinte, tornou-se membro fundador da Societé Héliographique, a primeira instituição fotográfica do mundo, e, mais tarde, da Societé Française de Photographie.

Camp de Châlons Setting the Emperor's Table, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Camp de Châlons: Zouaves, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Zouave Storyteller, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Em 1855, estabeleceu o “Gustave Le Gray et Cie”, seu opulente estúdio de fotografia. Apesar do fluxo constante de clientes ricos, a construção luxuosa acumulou enormes dívidas. Talvez para amenizar esses problemas, talvez por gostar mais de desafios artísticos do que da rotina de retratos, Le Gray produziu, no mesmo período, algumas de suas obras mais populares e memoráveis, como a poética série de paisagens marítmas que o tornou famoso internacionalmente.

The Brig, 1856. Foto: Gustave Le Gray.

Cavalry Maneuvers, Camp at Châlons, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Na época do ensaio, intitulado “Sète”, a fotografia do estático já dava lugar a cenas do cotidiano. Ou seja, o tempo de exposição necessário para a captação da imagem fotográfica já não era mais tão longo para demandar um assunto imóvel. Muitas das imagens anunciam, como “La Grande Vague” (1857) (ou “a grande onda”), essa transformação da fotografia na arte do instantâneo. Sua maior inovação, entretanto, foi outra. Para resolver o problema da adequação de diferentes tempos de exposição para o céu e para o mar, Le Gray encontrou uma solução que remete a técnica da fotografia HDR popular nos dias de hoje, na qual duas imagens são sobrepostas para a criação de uma só. A fim de que ambos, céu e mar, tivessem a mesma qualidade, usou duas placas de vidro diferentes e as imprimiu no mesmo suporte, um procedimento imperceptível na imagem final.

Pius IX's Railroad Car, 1859. Foto: Gustave Le Gray.

Pavilion Mollien, the Louvre, 1859. Foto: Gustave Le Gray.

Hypostyle Hall, Temple of Amon, Karnak, 1867. Foto: Gustave Le Gray.

Mesmo com o sucesso das imagens (mais de 50 mil francos em encomendas), ele fechou o estúdio, abandonou a esposa e os filhos e fugiu para escapar dos credores. Juntou-se a Alexandre Dumas para velejar pelas antigas civilizações como a Grécia, famosa na história e nos mitos. Desentenderam-se após dois meses de viagem e Le Gray desembarcou em Malta. Seguiu para o Líbano e, finalmente, para o Egito, onde fotografou e lecionou pintura até o final de sua vida, em 1884.

Gnarled Oak Tree near the l'Épine Crossroads, 1852. Foto: Gustave Le Gray.

The Beech Tree, 1855-57. Foto: Gustave Le Gray.

5
mar

“Não tiro fotos da vida como ela é, mas sim de como queria que ela fosse”

Robert Doisneau Portrait, 1982. Foto: Marion Kalter.

Nascido em Gentilly em 1912, Robert Doisneau é um dos mais importantes fotógrafos franceses. Morreu em 1994 na cidade que escolheu para viver e documentar, Paris.

The Cour Carrée at the Louvre, 1969. Foto: Robert Doisneau.

Le Pendule, 1957. Foto: Robert Doisneau.

Originalmente formado em litografia, começou a fotografar como autodidata em 1929, movido por uma intensa vontade de imortalizar o que via durante seus passeios pelas ruas da capital francesa. Depois de trabalhar como assistente do escultor André Vigneau e de publicar sua primeira fotografia em um veículo (na revista francesa Excelsior), tornou-se profissional em 1934, quando foi contratado pela fábrica da Renault, em Billancourt, como fotógrafo industrial e publicitário.

Un regard oblique, 1948. Foto: Robert Doisneau.

Fox-terrier sur le Pont des Arts avec le peintre Daniel Pipart, 1953. Foto: Robert Doisneau.

No mesmo ano, Doisneau decidiu se aventurar como fotojornalista independente, mas a Segunda Guerra Mundial o forçou a desistir temporariamente do sonho. Serviu pelo exército francês de 1939 até o fim dos embates. Depois, para dar vazão ao seu desejo de trabalhar como fotógrafo, começou a vender postais.

Amour et barbeles-Tuileries, 1944. Foto: Robert Doisneau.

The cellist, 1957. Foto: Robert Doisneau.

Após entrar para a agência de fotos Rapho, finalmente assinou com uma publicação, a Vogue, onde permaneceu de 1949 até 1952. Diferente do que se poderia imaginar, ele não abraçou a fotografia de moda: tornou-se famoso em seu gênero original, a “fotografia de rua”. Durante quase toda a sua vida, documentou com senso de humor, empatia e leveza a vida suburbana parisiense. Entre seus temas mais constantes estão as crianças, sempre abordadas com dignidade e respeito.

Rue des Peupliers, 1936. Foto: Robert Doisneau.

Les Tabliers de la rue de Rivoli, 1978. Foto: Robert Doisneau.

Sua mais famosa imagem é Le baiser de l’Hôtel de Ville, que mostra um casal se beijando em meio a uma movimentada rua de Paris. Na época, a foto foi interpretada como uma forte representação do modo francês de viver. A cópia original foi leiloada em 2005 por 155 mil euros para ninguém menos que Françoise Bornet, a protagonista da imagem ao lado de seu então namorado, Jacqes Carteaud. Os dois posaram para a fotografia, aparentemente espontânea, em 1950.

Doisneau tomava café em um bar parisiense quando avistou o casal. Conversou com a dupla, descobriu que eram atores amadores e pediu para tirar a foto. Pouco depois, Françoise recebeu uma cópia com um agradecimento. Reza a lenda que a moça apreciou a gentileza, mas processou Doisneau, exigindo 18 mil francos e os direitos da imagem. Outro boato garante que diversos outros casais também processaram o fotógrafo, afirmando serem os personagens eternizados.  Até hoje, mais de 500 mil posteres e 400 postais já foram reproduzidos a partir da original, considerada uma das mais românticas fotos já tiradas na história.

La baiser de l'Hotel de Ville, 1950. Foto: Robert Doisneau.

“As maravilhas da vida cotidiana são tão emocionantes. Nenhum diretor de Cinema pode realizar o inesperado que você encontra na rua”

Robert Doisneau