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Posts tagged ‘fotógrafos brasileiros’

28
mar

A influência da pintura nos retratos de Juan Esteves

Retrato de Juan Esteves.

Juan Esteves, um dos mais importantes fotógrafos e críticos da área no país, descreve-se como um “retratista compulsivo”: para ele, não se trata de um trabalho, mas uma troca. “A maioria dos meus retratos são de pessoas que admiro muito. Fotógrafos, escritores, músicos, cineastas, artistas plásticos, arquitetos, gente ligada a cultura”, conta. Sobre o tema, já publicou dois livros, Presença (2006) e 55 Portraits (2000), cujas imagens ilustram este post. Algumas delas serão publicadas, também, em Vida de Fotógrafo com perfis de 20 grandes fotógrafos internacionais.

Adolfo Bioy Casares, escritor, 1995. Foto: Juan Esteves.

Arnaldo Antunes, compositor e poeta, 1995. Foto: Juan Esteves.

Santista nascido em 1957, Esteves conta que sua inclinação pelo retrato começou cedo, em casa. Seus bisavós e avós vieram de Goián, um pequeno vilarejo de Pontevedra, na Galícia, acompanhados por um jovem pintor, Antonio Fernandéz Goméz, que morou durante anos na companhia do casal. Ao retornar ao seu país, deixou uma dezena de retratos espalhados pela casa. Sua fotografia tem forte influência dos mestres espanhóis Jusepe Ribera e Diego Velázques – é deste, por exemplo, o dramático uso de luz lateral tão comum em suas imagens.

Walter Hugo Khouri, cineasta, 1998. Foto: Juan Esteves.

Fernando Campana, designer, 1999. Foto: Juan Esteves.

Mais do que sublinhar sua veia retratista, a pintura teve forte crédito, também, na entrada da fotografia na vida de Esteves. Ainda adolescente, pela convivência com a avó artista plástica, começou a desenhar, pintar e experimentar diversas técnicas, sempre buscando a figura humana. “Participei de salões jovens, mas em um momento percebi que era incapaz de produzir o que queria. Notei que só conseguiria isso com a fotografia”, relembra. Hoje, está justamente fazendo o caminho reverso, voltando à arte, manipulando imagens. Suas primeiras bíblias foram Fotografia Básica de Michel Langford, e Vu par Moscou, de Henri Cartier-Bresson.

Aldemir Martins, pintor e gravador, 1999. Foto: Juan Esteves.

Hector Babenco, Cineasta, 1998. Foto: Juan Esteves.

Esteves conta que foi difícil conciliar o trabalho normal, os estudos e o crescente desejo de se tornar fotógrafo. Na época, início dos anos 1980, as opções se restringiam à imprensa ou publicidade, e ele optou pelo fotojornalismo. Começou cobrindo férias em sucursais de A Tribuna, jornal santista, enquanto formava com amigos a agência Contato. Depois de meses, foi contratado após um freela em A Tribuna e exatamente um ano depois partiu para a Folha de S. Paulo, onde trabalhou ate 1994.

Peter Greenaway, cineasta, 1998. Foto: Juan Esteves.

Haroldo de Campos, poeta, 1998. Foto: Juan Esteves.

Na Folha, além de fotógrafo, foi editor de fotografia e colunista nos cadernos de informática e cultura. Em seu extenso currículo constam obras nos acervos do Museu de Arte Moderna de São Paulo-MAM; Museu de Arte de São Paulo – MASP; Musée de L’Elysée, Lausanne, Suíça; Instituto Moreira Salles-IMS; Pinacoteca do Estado de São Paulo; Museu de Arte Brasileira-MAB-FAAP; Enciclopédia de Artes Visuais Itaú Cultural e Museu de Fotografia da Cidade de Curitiba; entre outros privados e públicos. Ao todo, já soma 24 exposições individuais e 84 coletivas. Em sua larga trajetória como articulista e crítico de fotografia já colaborou com as revistas Iris Foto, Revista Fotosite e, atualmente, escreve para a revista Fotografe Melhor.

5
out

As nuances de Tepito, por Adriana Zehbrauskas

Retrato de Adriana Zehbrauskas.

Nascida em São Paulo, Adriana Zehbrauskas é uma das mais importantes fotógrafas brasileiras. Formada em Comunicação – e em Linguística e Fonética pela Sorbonne, em Paris –, trabalhou no jornal Folha de São Paulo durante 11 anos, nos quais viajou extensivamente pelo Brasil e o mundo. Agora, mora na Cidade do Mexico, onde trabalha como freelancer e contribui regularmente para importantes veículos, como The Guardian e The New York Times. São as imagens de um de seus mais importantes e recentes ensaios feitos por lá, Tepito (2011), que ilustram este post.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Localizado no coração da Cidade do México, Tepito concentra em dez quarteirões milhares de contradições. Formando um mosaico de cores gritantes, comércio, crime, vendedores ambulantes, traficantes e cidadãos comuns disputam espaço em ruas estreitas e de leis próprias. Conhecido como “Barrio Bravo”, o local possui uma longa tradição de desafio à autoridade e péssima reputação por conta de seus altos índices de violência. É considerado, para muitos, um mundo à parte, caótico e sem leis – e costumam dizer que os moradores de lá têm mais dificuldade em conseguir empregos. De forma clara, crua e com extrema definição, as imagens de Zehbrauskas revisitam seus personagens e cenários de forma extremamente próxima, quase íntima, penetrando em um mundo onde forasteiros costumam dificuldade de entrar.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas..

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Para inúmeros moradores de outros cantos da cidade, trata-se da visão do inferno. Um bairro onde a pirataria é tão comum que o próprio conceito de autenticidade parece sem sentido; onde entregas de drogas são feitas por meninos que fumam charutos e apenas um tipo de policial é temido: o honesto. Além de captar esse segmento mais gritante da essência de Tepito, as imagens de Zehbrauskas retratam lados menos conhecidos da vizinhança. Gerações nascidas e criadas no local ainda apresentam orgulhosos vestígios de um tempo em que tudo era diferente. Durante muitos anos, ainda sem alto influxo de traficantes e outros criminosos, Tepito era uma comunidade conhecida por características bem diferentes das que chamam a atenção hoje em dia. Sua comunidade era intensamente unida, amiga e trabalhadora. Clubes esportivos, igrejas e galerias de arte de outrora que ainda resistem representam o que resta dessa era.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Em seus cliques, Zehbrauskas capta, também, um dos mais fortes elementos sociais da vida cotidiana no local: a religião. Por lá, crenças católicas tradicionais cedem espaço ao poderoso culto da Santa Muerte, esqueleto feminino macabro cujas origens remetem à era pré-colombiana do México. Adorada tanto por membros do crime organizado quanto por cidadãos comuns, é a ela que os moradores oram. Seja pela recuperação de pertences roubados, da saúde ou de familiares sequestrados.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

25
abr

Bahia intensa: a fotografia apaixonada de Mario Cravo Neto

Autorretrato de Mario Cravo Neto.

No último dia 20, o fotógrafo e artista Mario Cravo Neto completaria 65 anos. Faleceu em 2009, em Salvador (BA), onde nasceu, fez suas principais fotografias, desenhos e esculturas e deixou boa parte de seu legado. Para muitos, “Mariozinho”, como era chamado, criou uma forma inédita de olhar a Bahia, seu povo e as entranhas de sua religiosidade, dedicando-se com delicadeza corajosa ao candomblé e ao catolicismo.

Deus da Cabeça(e), 1988, e Voodoo(d), 1988. Fotos: Mario Cravo Neto.

Óde(e), 1988, e Mandala(d), 1989. Fotos: Mario Cravo Neto.

Seu interesse pelo ofício surgiu ainda menino ao conviver com fotógrafos do mundo inteiro que passavam pela cidade. O contato se dava por meio de seu pai, Mario Cravo Junior, integrante da primeira geração de artistas plásticos modernistas baianos. Conhecer o trabalho desses fotógrafos, e de outros amantes das artes que frequentavam sua casa, seria definido por ele como um pano de fundo, um meio onde vislumbraria formas de criar o que gostaria de expressar. A influência das pinturas rupestres, de Brancusi, Pierre Verges, Faulkner, Ezra Pound, Carl Jung e outras manifestações artísticas ocidentais também são atribuídas a seu pai, de quem recebeu as primeiras orientações no campo da escultura e do desenho.

Mãe Branca(d), 1990, e Ângela e Lukas, torso com penas brancas(e), 1989. Fotos: Mario Cravo Neto.

Abrigo(e), 1990, e Akira com talco(d), 1997. Fotos: Mario Cravo Neto.

Em 1964, acompanhou o pai no programa “Artists on Residence”, patrocinado pela Ford Foundation e sediado em Berlim. Por lá, manteve contato com o artista italiano Emilio Vedova (1919 – 2006) e com o fotógrafo Max Jakob. Mudou-se para Nova Iorque em 1968 para estudar na Arts Students League. Foi orientado pelo precussor da arte conceitual na cidade, Jack Krueger, e aventurou-se pela primeira vez nos campos da escultura em acrílico e da fotografia, realizando o ensaio em cores On the Subway.

Fotos: Mario Cravo Neto.

Fotos: Mario Cravo Neto.

Ao retornar ao Brasil, mergulhou no universo religioso afro-cristão característico de Salvador. As imagens em preto e branco feitas em estúdio durante o período o tornariam uma referência internacional. As das ruas da capital baiana estão entre as mais conhecidas já feitas no estado brasileiro, atrás apenas dos registros do francês Pierre Verger.

Fotos: Mario Cravo Neto.

Fotos: Mario Cravo Neto.

Definido pelos amigos como neurótico pela perfeição e por ser constantemente contestador, sua obra capta o misticismo com uma sensibilidade assustadora, áspera. Mescla, em um só tempo, pacto cultural e crítica social. Cravo Neto valoriza a importância da cultura e da simbologia baiana, mas denuncia em cores a miséria local, em especial do Pelourinho. Para muitos, como o artista visual Valdomiro Bezerra, ele atualiza a visão de valorização da cultura baiana que já havia emergido nos anos 1940 com artistas como Odorico Tavares, Caribé, e os próprios Mario Cravo Junior e Pierre Verger.

Criança com balão(e), 1990, e Silêncio, 1992. Fotos: Mario Cravo Neto.

Pedro com dois cachorros(e), 1989, e Homem com peixes. Fotos: Mario Cravo Neto.

A Flecha em Repouso, sua última exposição, em 2008, reflete a luta contra um câncer, mas fora do âmbito pessoal. Mostra, em imagens inéditas, a batalha pela vida de uma forma geral. O pai, Cravo Júnior, ainda vive. Durante a mostra Eternamente Agora – Um Tributo a Mário Cravo Neto, em 2010, falou sobre o filho pela primeira vez depois de sua morte, definindo-o como um amigo, confidente, irmão e colega.

Exposição Flecha em Repouso. Foto: Mario Cravo Neto.

Exposição Flecha em Repouso. Foto: Mario Cravo Neto.