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Posts tagged ‘fotografia documental’

29
set

As paisagens de Julian Calverley

Retrato de Julian Calverley

A fotografia de paisagens é a grande paixão do fotógrafo britânico Julian Calverley. Nos trabalhos da sua carreira na publicidade já se percebe o interesse por essa temática – em diversas peças com fotografias suas, as paisagens se tornam elementos fundamentais para a construção das cenas, muito mais do que meros fundos para apresentar um produto. Na produção pessoal de ensaios fotográficos, as particularidades do seu olhar ficam ainda mais evidentes.

Foto: Julian Calverley

Foto: Julian Calverley

As imagens que vemos neste post fazem parte da série #IPHONEONLY, que deu origem a um livro homônimo. Conforme indica o título, as fotografias foram feitas com um iPhone. “Nunca me havia ocorrido usar uma câmera de telefone. Sempre considerei o meu equipamento profissional como única opção”, conta Calverley em seu blog. No entanto, a praticidade do aparelho contribuiu para estimular um olhar a cenas mais corriqueiras. “Me vi fotografando cenas simples, coisas ordinárias que teriam passado despercebidas. Isso se tornou algo libertador”, explica.

Foto: Julian Calverley

Foto: Julian Calverley

Embora o título se refira a uma forma tão contemporânea de nos relacionarmos com as imagens, o caráter pictórico das fotos, por outro lado, nos remete à tradição da pintura do período romântico e seus expoentes, como o inglês William Turner. Em suas obras, Turner dedicava especial atenção à luminosidade presente nas paisagens e às tonalidades observadas na aparência do céu e da água. Em muitas das fotos de Calverley, é possível perceber um interesse semelhante.

Foto: Julian Calverley

Foto: Julian Calverley

Recorrentes nas imagens, os pontos de fuga são desenhados por trilhas, córregos e estradas. Mais um aspecto do trabalho do fotógrafo no qual se encontram convergências entre a fotografia e a pintura.

Foto: Julian Calverley

Foto: Julian Calverley

Nascido no condado de Hertfordshire, na Inglaterra, desde muito cedo Julian Calverley demonstrou talento para o desenho e a pintura. Depois de um breve período estudando artes, Julian percebeu que a fotografia e as habilidades no laboratório de revelação permitiriam que ele se expressasse de forma mais efetiva. Seu estilo cinematográfico acabou chamando atenção e lhe rendeu uma excelente reputação com clientes internacionais. Atualmente, Calverley vive na Inglaterra e divide seu tempo entre trabalhos pessoais e encomendados.

15
set

Muhammed Muheisen: a nova geração de refugiados afegãos

Retrato de Muhammed Muheisen

Já falamos aqui a respeito do fotógrafo Muhammed Muheisen e do seu olhar para o cotidiano de zonas de conflito. Neste post trazemos uma série de retratos de crianças afegãs que vivem na periferia da capital paquistanesa, Islamabad, onde se concentra uma parte significativa dos refugiados oriundos do Afeganistão.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Segundo informações da Associated Press, há aproximadamente 3,8 milhões de afegãos refugiados no Paquistão. Os números oficiais, no entanto, não incluem um milhão de pessoas que possivelmente vive de forma ilegal em território paquistanês.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

As comunidades de refugiados afegãos são consequência dos conflitos vividos pelo país nas últimas décadas, a começar pela invasão soviética do Afeganistão em 1979. Ao final da guerra, dez anos depois, conflitos civis ocasionaram uma nova fuga em massa de afegãos. Mais tarde, um novo capítulo: a tomada do poder pelo Talibã levava mais refugiados ao Paquistão.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Nesse contexto, gerações de refugiados se sucedem vivendo longe do seu país de origem. A vida em terras paquistanesas, no entanto, está longe de ser viável. Os afegãos enfrentam o estigma de sua identidade nacional relacionada ao terrorismo, condição que torna difícil a integração dos refugiados, que se encontram, portanto, entre dois caminhos igualmente complicados: voltar para um país extremamente pobre e instável ou então seguir enfrentando as adversidades para se adaptar.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

A situação de exclusão, contudo, não é exclusiva dos afegãos. Segundo o relatório Tendências Globais 2012, do Alto Comissariado das Nações Unidas, há cerca de 45,2 milhões de refugiados ao redor do mundo. Desse total, 28,8 milhões de pessoas foram forçadas a fugir internamente, sem cruzar as fronteiras de seus países, enquanto 15,4 milhões obtiveram status de refugiado em outros territórios. Um em cada quatro refugiados no mundo é afegão, tendo como destino, em sua maioria, países como Paquistão e Irã.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Nascido em Jerusalém (1981) e graduado em Jornalismo e Ciências Políticas, Muhammed Muheisen vive atualmente em Islamabad, trabalhando como fotógrafo-chefe da Associated Press. Desde 2001 atuando na agência, cobriu conflitos entre Israel e Palestina e em países como Iraque, Afeganistão, Iêmen, Egito e Síria. Recebeu diversas distinções como o Prêmio Pulitzer de Breaking News (2005) e o primeiro prêmio do National Headliner Awards (2012).

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

8
set

Numo Rama, a palo seco

Retrato de Numo Rama

A série Carnívoros, de Numo Rama, leva-nos a um espaço de crueza – da carne, da vida, da morte, da sobrevivência. Imagens em preto e branco de um matadouro, lugar onde não há concessões, da mesma forma que não são condescendentes as fotos de Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“A vida de peão não me permite ser um fotógrafo contínuo. Então, penso a fotografia enquanto conserto as cercas, ou preparo o arreio para domar cavalo. É de onde tiro tempo para longas reflexões e programo mentalmente tudo”, explica o fotógrafo ao jornal O Estado de São Paulo. Aos 45 anos, nascido em Araruna (Paraíba), Rama vive atualmente em um rancho, no município de Pedra da Boca (na divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte), depois de ter rodado o mundo por 16 anos, fazendo diversos trabalhos temporários.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“Dos embates das realidades desse chão que voltei a pisar em 2000 venho extraindo a energia necessária para fazer uma fotografia com o volume e a força pertinentes à vida de meus ancestrais e das pessoas que encontro por aqui”, conta o fotógrafo. Embate, energia, força: palavras que, de fato, são associadas facilmente ao universo criado pelas imagens de Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“A estética do sertão tem uma força muito própria. Tudo no presente por aqui teve muitos passados, e com uma câmera simples, analógica e muita pretensão tento juntar tudo numa única imagem”, explica Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“Vivi em muitos lugares, principalmente em grandes cidades, onde não há espaço nem tempo, onde formataram o tempo, onde o tempo está em extinção. Todo meu trabalho é pensado com o tempo, somos bons amigos”, conta o fotógrafo. De volta ao mundo rural, Rama aborda a passagem do tempo exibindo os rastros deixados pela atividade humana e pelos corpos dos animais.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

Quando o fotógrafo diz ver o mundo “a partir desse Nordeste que pare retirantes e retornados”, não tarda muito até pensarmos em João Cabral de Melo Neto, em mortes e vidas severinas. Assim como o poeta, Rama é conciso, sem sentimentalismos – e parece seguir o conselho dos versos finais de A palo seco, de João Cabral: “não o de aceitar o seco por resignadamente, mas de empregar o seco porque é mais contundente”.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama