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Posts tagged ‘fotografia de rua’

27
abr

Cores que ofuscam: a Austrália na fotografia de rua de Trent Parke

Retrato de Trent Parke.

Foi aos 12 anos, usando a Pentax Spotmatic de sua mãe e a lavanderia de casa como laboratório, que a história de amor de Trent Parke com a fotografia começou. Nascido em Newcastle em 1971, Parke, um dos mais importantes nomes do fotojornalismo contemporâneo, é o único fotógrafo australiano representado pela agência Magnum atualmente. Não por acaso, são imagens do ensaio Coming Soon (2005), com cenas urbanas flagradas em seu país, que ilustram esta postagem.

Foto: Trent Parke.

Foto: Trent Parke.

O ensaio em questão marca uma importante mudança na carreira do jovem fotógrafo: após ter construído sua assinatura com imagens em P&B, Coming Soon assinala sua entrada na fotografia colorida. E, sem medo de utilizar recursos tecnológicos olhados com desconfiança por veteranos ortodoxos, como High Dynamic Range-technique (HDR), marca seu enorme sucesso ao explorar as possibilidades dos recursos cromáticos. Para Trent, a transição permitiu a construção de um trabalho que não apenas revela fisicamente a Austrália contemporânea, mas também inclui os efeitos psicológicos do constante confronto dos transeuntes com a publicidade.

Foto: Trent Parke.

Foto: Trent Parke.

Ainda de acordo com Parke, seu trabalho é marcado por uma intensa perseguição à luz, definida por ele como capaz de transformar o comum em mágico. Iluminados em abundância ou entrecortados por intensos feixes brilhantes, os cenários de Coming Soon revelam os personagens e os anúncios que colorem as ruas de Sydney, marcadas por uma atmosfera tão praiana quanto urbanizada. Foi um ano após essa série, feita em 2006, que Parke tornou-se membro pleno da mítica Magnum, com a qual já colaborava desde 2002.

Foto: Trent Parke.

Foto: Trent Parke.

Uma épica viagem de carro pelo país também o rendeu o prestigiado prêmio W. Eugene Smith para fotografia humanística, em 2003. Acompanhado de sua esposa e do amigo Narelle Autio, também fotógrafo, Parke viajou por quase 90 mil quilômetros fotografando lugares remotos e ocasionalmente perturbadores, caóticos e melancólicos. O ensaio fruto da jornada, Minutes to Midnight (2004), também venceu o World Press Photo Awards e tornou-se o recordista de visitas no The Australian Centre for Photography, onde foi exibido em janeiro e fevereiro de 2005.

Foto: Trent Parke.

Foto: Trent Parke.

23
mar

10 coisas que Alex Webb pode ensinar sobre Fotografia de Rua

Retrato de Alex Webb

Membro pleno da Magnum desde 1979, Alex Webb (1952) é um fotógrafo de rua americano que, depois de iniciar a carreira de forma bem sucedida em P&B, passou a utilizar cores, luzes e emoções para captar imagens tão belas quanto complexas. Depois de ler e ver o livro-coletânea de seus 30 anos de carreira The Suffering of Light (“o sofrimento da luz”, em tradução literal), o também fotógrafo de rua Eric Kim apaixonou-se por seu trabalho e selecionou as 10 principais lições que aprendeu com a obra, lista que aprovamos, traduzimos e editamos. Confira:

1. Crie camadas em suas fotografias

Profundidade de campo é um elemento forte na obra de Webb. Em muitas de suas fotos, há um plano forte, com assuntos mais próximos da lente, outros mais perto da parte inferior do frame e um fundo marcado pela nitidez. O melhor dessa característica, para Eric, é que ela integra o espectador ao quadro: é possível fazer parte da cena, ver o que o fotógrafo vê.

Foto: Alex Webb

2. Preencha o quadro

“Não é só aquilo, aquilo e aquilo que existe. É aquilo, aquilo, aquilo e aquilo que existem em um mesmo frame. Estou sempre à procura de algo mais. Se você integra em demasia, talvez isso se torne um caos total. Estou sempre jogando nessa linha: adicionando elementos a mais, mas mantendo apenas uma espécie de caos ”Alex Webb

Se Eric pudesse resumir alguns dos mais famosos trabalhos de Webb, o faria com a expressão “caos ordenado”: “ele frequentemente preenche frames com tantos assuntos que a foto quase parece poluída. Ainda assim, muitos dos elementos que adiciona nas imagens não se sobrepõem. Há várias pequenas interações em um mesmo quadro, o que torna possível que se conte diversas histórias em um só frame”, observa. A dica para conseguir esse feito é tentar adicionar elementos, com paciência e esperando os personagens retratados interagirem, mas confiar na intuição quando sentir que se chegou a um limite. Deve haver um equilíbrio das sobreposições, das sombras e das luzes.

Foto: Alex Webb

3. Caminhe. Muito.

“Eu só sei como abordar um lugar caminhando. Porque é o que um fotógrafo de rua faz: caminhar, observar, esperar, falar e aí observar e esperar mais um pouco, tentando se manter confiante de que o inesperado, o desconhecido, o coração secreto do que conhecemos nos  espera ao virar a esquina.”

A única maneira de fazer boas fotografias de rua é fotografando nas ruas. Quando fazemos isso, nos abrimos para muitas oportunidades, além de termos a experiência de, de fato, sentirmos a atmosfera de um lugar. Um bom exercício, Eric aconselha, é andar sempre com sua câmera e optar por ir caminhando a lugares e compromissos sempre que possível.

Foto: Alex Webb

4. Procure a luz

Não foi por acaso que a obra que reúne imagens assinadas por Webb nos últimos 30 anos ganhou o título de “The Suffering of Light”. Ele remete a uma frase de Johann Wolfgang Von Goethe, “as cores são as obras e o sofrimento da luz”. Webb explica que mesmo sem ser filósofo ou cientista, sente que um aspecto da teoria das cores de Goethe é o fato de que ele sentia que a cor tinha origem na tensão entre a luz e a escuridão. Assim, Webb busca sempre pensar na mensagem e no significado que cada tom transmite, o que se aplica bem em suas constantes abordagens da tensão entre zonas fronteiriças. A luz assumiu um papel fundamental, por exemplo, em seus dois trabalhos sobre Istambul, um marco divisório entre Oriente e Ocidente marcado pelas nuances coloridas de diversas culturas. O conselho de Webb para conseguir a luz adequada para registrar essas tonalidades é fotografar sempre nos bons horários, o início e o fim do dia.

Foto: Alex Webb

5. Perceba que 99,9% da fotografia de rua é fracasso

“A sorte, ou talvez o acaso, desempenha um grande papel, mas você nunca sabe o que vai acontecer. E o mais empolgante é quando algo totalmente inesperado acontece e você está lá, no lugar certo e na hora certa, e pressiona o botão no momento exato. Na maioria das vezes, não funciona dessa maneira. Esse tipo de fotografia é 99,9% fracasso.”

Mesmo que afirme que a fotografia de rua se trata majoritariamente de fracasso, Webb tem uma carreira notória e um portfólio repleto de “instantes decisivos” impressionantes. O segredo, de acordo com ele, é o domínio técnico e a prática. Isso remete a uma frase presente no texto “Aprender fotografia por quê?”, do Catálogo de Cursos do Centro de Fotografia da ESPM-Sul: “Só quem viveu o desgosto de ter feito uma foto banal de algo extraordinário, ou já se encantou com a situação inversa, sabe que a possibilidade dessa quebra de expectativa é o que transforma a câmera fotográfica em uma ‘caixa preta’ cheia de surpresas”.

Foto: Alex Webb

6. Dedique-se a projetos

“A maioria dos meus projetos parece começar como viagens exploratórias sem fim visível à vista.”

Trabalhar em projetos é uma bela forma de abordar a fotografia de rua por dar ao aspirante direção, propósito a possibilidade de criar uma narrativa. No entanto, nem sempre é fácil. Não é possível saber ao certo quanto tempo eles vão levar, o que iremos (ou até mesmo o que queremos) fotografar. O conselho de Webb para isso é saber que “diferentes projetos parecem ter diferentes arcos de conclusão”. O mais importante é pensar em si mesmo antes de escolher um objetivo e ir aos lugares escolhidos sempre com a mente aberta para possibilidades inesperadas.

Foto: Alex Webb

7. Se você está preso, tente algo novo

Até 1975, Webb fotografava apenas em preto e branco. Em um projeto sobre cenários americanos nas ruas de Nova Iorque e Nova Inglaterra, viu-se encurralado: mesmo conseguindo fotos boas, sentiu que não estava chegando a nenhum lugar novo. “Parecia que estava explorando o território que outros fotógrafos já haviam descoberto, como Lee Friedlander e Charles Harbutt”, relembra. Após essa constatação, Webb ingressou em um projeto no Haiti que o transformou, influenciando-o a começar a trabalhar com cores.

A dica, então, é evitar o marasmo quando não se está feliz. Costuma trabalhar em preto e branco? Tente cores. É adepto das câmeras digitais? Aventure-se no filme. Eric afirma que experimentou o suficiente diferentes abordagens e temáticas até se sentir seguro na fotografia de rua.

Foto: Alex Webb

8. Siga sua obsessão.

Para Alex Webb, mesmo que as dúvidas sempre existam, seguir sua obsessão é algo importante para se tornar um bom profissional. Para que tudo dê certo, é necessário levar a fotografia à sério –  é só assim que o trabalho duro supera os anseios. Ter projetos, conhecer e conversar com outros fotógrafos, buscar referências, ler livros sobre técnica, tudo isso ajuda o aspirante a se focar por completo, e colher os frutos desse esforço, na fotografia.

Foto: Alex Webb

9. Capture a emoção de um lugar

Para Webb, as diferentes tonalidades dizem respeito à atmosfera, à emoção, à sensação de um lugar, e fotografar em cores é uma bela forma de capturara o humor e o clima dos assuntos. Assim, vale pensar em como as cores presentes em uma cena podem adicionar significado às fotografias antes de disparar.

Foi em sua viagem ao Haiti que Webb percebeu que as intensas e vibrantes cores daquele mundo deveriam ser levadas em conta em suas fotos. Esse brilho, até então inédito para ele autoralmente, o ajudou a incorporar nos cliques a alma das culturas que estava retratando.

Foto: Alex Webb

10. Viaje

Webb enfatiza como sua primeira viagem ao Haiti transformou seu modo de ver o mundo, o que teve uma influência determinante em sua produção. “Eu fotografei uma espécie de mundo que nunca tinha experimentado antes”, recorda, “um mundo de vibração emocional e intensidade: cru, desarticulado e muitas vezes trágico”. Descontextualizar-se, ter acesso a outras formas de viver, é algo que ajuda os fotógrafos que buscam o afamado e necessário aprimoramento do olhar.

Foto: Alex Webb

13
mar

O cotidiano abstrato de Saul Leiter

 

Em uma frase, o fotógrafo da Magnum Alex Webb sintetiza a produção fotográfica de Saul Leiter: “…uma excepcional habilidade para extrair situações complexas da vida cotidiana, imagens que ecoam a abstração da pintura e que, simultaneamente, retratam o mundo de forma límpida.” No post de hoje, apresentamos um pouco desse olhar, que mescla simplicidade e sofisticação em imagens que sempre desafiam a interpretação de quem as observa.

 

 

 

O comentário de Webb, publicado no obituário da revista The New Yorker (após o falecimento de Leiter, em 2013), reúne palavras que à primeira vista podem soar contraditórias: complexidade e forma límpida, abstração e cotidiano. Mas se analisarmos as imagens, logo percebemos a capacidade do fotógrafo de articular esses conceitos em sua poética.

 

 

 

É como se Leiter lançasse pistas para o espectador – não à toa os reflexos são um elemento recorrente em suas fotografias, bem como silhuetas e transparências.

 

 

 

Nascido em Pittsburgh (Pensilvânia, EUA), Saul Leiter iniciou sua carreira nos anos 1940, nas ruas de Nova York. Na década seguinte, teve seu trabalho reconhecido por Edward Steichen, quem o incluiu em exposições do MoMa na década de 1950. Leiter tornou-se um importante fotógrafo de moda, mantendo em paralelo sua dedicação à fotografia de rua. Somente nos anos 1990 sua produção de imagens em cores ganhou maior notoriedade – grande parte dela era guardada por Leiter, sem vir a público.