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Posts tagged ‘fotografia autoral’

11
jan

Tensão silenciosa das fotografias de Maria Svarbova

Retrato de Maria Svarbora

Nascida em 1988, a fotógrafa autodidata Maria Svarbova estudou restauração e arqueologia. Nesse mesmo período, a fotografia surgiu como um hobby, para logo virar profissão em tempo integral. Hoje ela é contratada de grandes marcas, entre elas, a Vogue americana.

A inspiração da artista está nas pessoas normais e em suas rotinas, mas as narrativas de Sarbova não entregam a história completa para que as pessoas reflitam a respeito dos cenários capturados.

Série Plastic World, por Maria Svarbova

Svarbova tem um cuidado notável em suas composições, utilizando uma paleta de cores bem planejada e criando espaços amplos em cenários minimalistas. As fotografias causam uma tensão silenciosa, um convite para uma pausa contemplativa.

A série Swimming Pool, uma das mais conhecidas da artista, foi criada em 2014 e continua até hoje. O projeto surgiu quando, em busca de locações fotográficas interessantes, Svarbova se deparou com as piscinas públicas construídas na Era Socialista na Eslováquia. O cenário contribui perfeitamente para o seu estilo minimalista e simétrico. Na série, os modelos são apresentados em movimentos congelados e com coloração fria o que enfatiza ainda mais o colorido das roupas. A preocupação com qualidade técnica e riqueza de detalhes também é uma característica evidente da fotógrafa.

Série Swimming Pool, por Maria Svarbova

Série Swimming Pool, por Maria Svarbova

Série Swimming Pool, por Maria Svarbova

Outra série interessante de Maria Svarbova é a Plastic World (mundo plástico), na qual os personagens agem como manequins, com total ausência de emoções. As fotografias desafiam o observador a questionar os papéis enraizados que desempenhamos na sociedade e nossa aparente incapacidade de mudar esse destino pré-determinado da vida.

Série Plastic World, por Maria Svarbova

Série Plastic World, por Maria Svarbova

O trabalho de Maria Svarbova já foi destaque em jornais e revistas de grande repercussão, como The Guardian, EL Pais, Leica, Vogue, Cosmopolitan e Harper’s Bazaar. Em 2017, ela entrou para a lista dos “Under 30″ revista da Forbes que reúne os jovens mais bem sucedidos abaixo dos 30 anos.

Para conhecer muito mais do trabalho da Maria Svarbova, acesse suas redes sociais e sites.
https://www.mariasvarbova.com/

4
jan

A diversidade retratada por Rubén Plasencia

Retrato de Rúben Plascencia
Retrato de Rúben Plascencia
Foto: www.laopinion.es

Rúben Plasencia é um fotógrafo espanhol que retrata em suas fotografias temas relacionados a preconceitos, culturas desconhecidas e emoções. Seu talento é reconhecido mundialmente, tendo concorrido a prêmios como o Festival Le Voyage à Nantes, em Nantes e o Festival Circulation, em Paris, ambos em 2014. Apesar de hoje ser um artista de sucesso, reconhece que sempre há uma fase conturbada na carreira de todos os artistas, fase que ele retratou em sua série ‘’O Artista Desconhecido”, produzida no ano de 2015.

The Unknown Artist

The Unknown Artist

The Unknown Artist

The Unknown Artist

 

Nesta obra, Plasencia retrata, como o próprio nome diz, os artistas desconhecidos. Pode ser ser observado que Plasencia oculta os rostos dos artistas e justifica essa escolha na descrição do seu projeto em seu próprio site.

“Eles começam sem rosto, sem referências, apenas com suas próprias ferramentas para enfrentar um mundo tão complexo da arte. Com apenas a melhor carta que poderiam ter: sua obra de arte.”

Rúben Plasencia começou a obter reconhecimento por suas obras algum tempo depois do início de sua carreira, sempre retratando aspectos que não são muito debatidos pela sociedade. Por exemplo, em “Luta Canária”, Plasencia retrata os lutadores da Canarian Wrestling”, uma luta tradicional do Oriente que é bastante desconhecida no Ocidente. Com isso, foca em uma cultura diferente daquela a qual estamos habituados.

Lucha Canaria

Lucha Canaria

Seu debate visual sobre culturas diferentes e preconceito atinge o ápice na obra Obscure, produzida em 2013. Nesta obra, pessoas cegas são fotografadas com intuito de debater sobre a “verdadeira essência do ser”.  A série fotográfica de Plasencia entra no assunto de preconceito, padrões de beleza e doenças genéticas, abrangendo assim uma série de assuntos polêmicos que não costumam ser debatidos pelas sociedades.

O site Lens Culture, traz um artigo escrito por Plasencia, no qual o fotógrafo explica suas fotografias, contando o que pensou ao realizá-las e o que quer transmitir com elas:

“Preconceitos e estereótipos racistas continuam a dominar nossas sociedades – julgamentos que são feitos em um nível que é apenas superficial. Em “Obscure”, criei retratos dos cegos. Esses rostos criam uma zombaria de nossa dependência irrefletida da visão. Um cego procura formas mais confiáveis de ler nas entrelinhas e entender as essências, não sendo mais capaz de recorrer à visão como o único meio confiável.”

Para o fotógrafo a importância do projeto está em nos colocar de frente aos olhos daqueles que não podem ver e que através disto possamos valorizar o que significa ter a visão.


Resultado de imagem para obscure ruben

Obscure

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Obscure

Ainda longe de encerrar a carreira, Rúben Plasencia crava sua importância no mundo fotográfico e social, ao retratar em suas obras temas tão profundos e pouco debatidos.

Hub ESPM
21
dez

Carine Wallauer: fotografia para encontrar-se

Retrato de Carine


Carine Wallauer é uma fotógrafa que vem conseguindo destaque nacional e internacional, já tendo participado de exposições coletivas no Brasil, Canadá, Turquia e Estados Unidos. Formada em Comunicação Social, produz um trabalho autoral e artístico. Atualmente, é fotógrafa no UOL online.

Sua primeira exposição individual, chamada Visões Elevadas de Eros, foi em Porto Alegre, no ano de 2013. De acordo com fotógrafa, “foi um trabalho que nasceu de forma orgânica”. Em entrevista ao blog do Centro de Fotografia da ESPM, Carine diz que, nele, contou muito o modo como sentia a vida. Na época, tinha 20 anos, e estava vivendo tantas coisas pela primeira vez, se relacionando com o mundo.

Carine Wallauer
 

O impulso para a série de fotos se transformar em um projeto foi o financiamento coletivo chamado É Preciso Arrumar a Casa. Carine e mais cinco amigos se juntaram para financiar seus primeiros fotolivros. Assim, no ano seguinte à publicação, foi indicada a artista revelação no Prêmio Açorianos de Artes Plásticas.

Carine Wallauer

Em 2015, lançou seu segundo fotolivro, O Vazio É um Espelho, e, por este trabalho, recebeu menção honrosa no Paraty em Foco. Ainda teve sua segunda exposição individual na Galeria Lunara da Usina do Gasômetro em 2016. No mesmo ano, lançou uma segunda edição do trabalho em parceria com a Azulejo, com eventos de lançamento na SP Arte Foto (Brasil) e no Paris Photo (França).

Carine Wallauer

Além da fotografia, Carine trabalhou em dois curtas-metragens, lançados em 2016: O último dia antes de Zanzibar (Avante Filmes) e Temporal (Asamayama Filmes). Pelo segundo, recebeu o prêmio de melhor direção de fotografia no Festival de Cinema de Gramado e na Mostra SESC Curtas em 2017 e foi indicada ao Prêmio ABC, entregue pela Associação Brasileira de Cinematografia. Carine afirma que, como é diretora de fotografia nas produções, a forma como se expressa na fotografia still conversa muito com o modo que ela constrói narrativas audiovisuais.

Ela revela que algo maravilhoso de sua profissão é “a constante oportunidade de conhecer pessoas e lugares e, nessas trocas, me envolver cada vez mais profundamente comigo mesma.”

Conheça outros trabalhos da Carine Wallauer:

Carine Wallauer para empresa Vans.
 
Carine Wallauer para empresa gaúcha Insecta Shoes
 
 
Carine Wallauer para empresa gaúcha Insecta Shoes
 
Redigido por Júlia Berrutti
Hub – ESPM-Sul
1
jul

O povo Awá-Guajá, por Domenico Pugliese

 

 

O ensaio Awá: Alto Turiaçu, do fotógrafo italiano Domenico Pugliese, retrata o grupo do povo Awá-Guajá que habita a terra indígena Alto Turiaçu, no Maranhão. Além desse território, segundo informações da Funai, os Awá vivem em outras duas terras indígenas do estado, somando uma população de mais de 400 pessoas, também formada por grupos que vivem isolados.

 

 

 

 

 

 

Caçadores, os Awá necessitam de florestas vastas, pois percorrem grandes distâncias em busca de alimento – eles conhecem e dominam o território tendo como base os caminhos percorridos para caça. Essa forma de relação com a terra, no entanto, vem sofrendo diversas restrições, o que coloca em risco a sobrevivência dos Awá.

 

 

 

 

 

 

Com a pressão da colonização, os Awá movimentaram-se em direção aos rios Turiaçu, médio Gurupi e alto Caru, no Maranhão, onde viviam inimigos tradicionais – Kaa’por e Tenetehara. O encontro de característica belicosa foi um primeiro capítulo da redução de sua população, segundo a Funai. Mais tarde, na década de 1940, o desenvolvimento da produção de algodão empurrou novamente os Awá para outros locais, nos quais se expuseram ao contato com a sociedade nacional.

 

 

 

 

 

 

Na década de 1970, o fluxo migratório aumentou por conta da abertura das rodovias BR-316 e 222, o que levou a Funai a estabelecer contato com os Awá em 1979. A proteção dos indígenas se dá pela garantia de proteção territorial das áreas ocupadas. No entanto, há décadas os Awá lidam com invasões de posseiros, garimpeiros e madeireiros, que além de lhes roubar a terra, colocam os grupos em contato com doenças como a malária.

 

 

 

 

 

 

Nascido na Itália em 1967, Domenico Pugliese vive em Londres desde 1991. Estudou fotojornalismo na Hamlet College e é fotógrafo freelance desde 1999, dedicando-se a trabalhos documentais no continente americano, do México a Terra do Fogo.

 

15
jan

“Sinto saudade do processo e da beleza das imprevisíveis aberrações químicas”, George Whiteside

Retrato de George Whiteside

George Whiteside é considerado uma lenda no mundo da moda canadense, mas atualmente tem se dedicado a projetos pessoais de belas artes. Com uma predileção pelo monocromático e altamente ligado, ainda hoje, ao analógico, o fotógrafo tem um estilo forte, e consolidou sua assinatura em campanhas de moda antes de voltar às origens, a arte, com a fotografia como forma de expressão pessoal. Como mostra a seleção deste post, mulheres estão entre os temas centrais de sua obra, geralmente nuas em cópias acompanhadas de recortes, intervenções, ilustrações.

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

Whiteside estudou Arte, e não Fotografia, quando terminou a escola, e imediatamente após a graduação abriu uma galeria com amigos chamada YYZ, em Toronto, que funciona até hoje. Alguns anos depois, passou a fotografar para algumas revistas, e em pouco tempo tornou-se tão requisitado que teve de se desligar do conselho administrativo. Permaneceu dando vazão à veia criativa autoral, mas intensificou a produção apenas recentemente.

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

Em seu processo criativo, leva o público em consideração, sempre buscando dar a ele mais do que intuitivamente prevê que ele espere. Seu portfólio em moda é repleto de imagens pouco convencionais para a editoria, marcadas por uma identidade visual que muito remete ao seu trabalho autoral. É isso que faz com que seus ensaios sejam considerados atemporais quando o cenário é justamente o contrário: editoriais de moda são majoritariamente datados, costumam expirar seus prazos de validade pouco depois de saírem às bancas. George afirma ter sempre evitado o termo “tendência”. “Todos nós mudamos e evoluímos, mas eu nunca quis possuir uma imagem ‘extrema’. Meu trabalho segue esse senso de estilo clássico, sou mais influenciado pelo mundo artístico do que pelo da moda”.

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

A forma como mescla diferentes técnicas é outra de suas qualidades, mas, hoje, Whiteside não usa mais suas Polaroids com tanta frequência por falta de filmes: possui algumas caixas de 665, mas adoraria encontrar alguns Type 55, 4×5 ou 8×10. “Sinto saudade do processo e da beleza das imprevisíveis aberrações químicas”. O fotógrafo também interpreta que o aumento no número de fotógrafos de moda foi proporcional aos avanços da fotografia digital. “Antes, você realmente tinha que saber fotografar”, alfineta. Em suas palavras, a maior diferença entre a fotografia de moda de outrora e a de hoje é a falta de atenção aos detalhes e o menor esforço para criar uma história real. “O digital fez com que os orçamentos caíssem, e na maioria dos casos, a qualidade também. Odeio ver o incansável uso de bordas falsas de Polaroids em cada imagem”.

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

Foto: George Whiteside

23
jul

Quando as cores se encontram: Me Julie, por Annie Collinge

Já falamos aqui sobre o trabalho da fotógrafa inglesa radicada em Nova Iorque Annie Collinge, responsável por ensaios excêntricos e ricos em cores. Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, nem sempre os personagens que protagonizam esses trabalhos se restringem ao mundo da fantasia. Uma de suas obras mais recentes retrata uma personalidade relativamente famosa, a designer de moda e artista Julie Verhoeven. Na definição do jornal britânico The Independent, o mundo da moda é repleto de figuras coloridas, mas Julie se destaca por se tratar de uma das mais caleidoscópicas. Como as fotografias de Annie, as obras que Julie assina são marcadas por doses generosas de surrealismo e psicodelia. A afinidade entre as duas aparece logo no título do ensaio, que poderia remeter a uma série de autorretratos: Me Julie.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Inspirada pela identificação de ambas com paletas de cores brilhantes, Annie conta que escreveu à Verhoeven sugerindo o ensaio. Foi no Natal de 2012 que se encontraram, em Londres, no estúdio da estilista, para um dia de cliques improvisados e experimentais. Da divertida brincadeira nasceu o trabalho em questão, repleto de gracejos, mas com alguns elementos melancólicos. Lírios de plástico e figurinos de arlequim dão um aspecto circense às imagens, mas contrastam com as expressões sérias e tristes da modelo. Para Annie, essas dicotomias ajudam a refletir sua personalidade: “Eu pensei que ela seria realmente efusiva, mas é uma das pessoas mais auto-depreciativas que você pode encontrar”, relembra.

Foto: Annie Colinge.

Foto: Annie Colinge.

Foto: Annie Colinge.

A produção dos retratos, assinada por Annie, foi justamente inspirada nas ilustrações de moda de Julie, que transformou-se em uma versão bizarra de seus próprios croquis. Mechas azuis e verdes, rosto e mãos pintadas, figurinos coloridos, corpo de boneca e objetos peculiares (como o par de peitos de borracha que se destaca em um dos cliques) construíram uma atmosfera que transita entre o infantil e o surreal.

Foto: Annie Colinge.

Foto: Annie Colinge.

Foto: Annie Colinge.

17
jul

Annie Collinge, entre o infantil e o sombrio

Autorretrato de Annie Collinge.

“Meu trabalho geralmente é sobre um tema comum, sombrio e sem humor, que contrasta com a cor intensa. É este conflito que busco representar”.

A inglesa Annie Collinge tem se destacado no meio artístico pela originalidade de suas fotografias que exploram a riqueza de cores em cada cenário. A fotógrafa compõe imagens onde o divertido confunde-se com o bizarro, cujo contraste mencionado por ela aparece, também, nos personagens excêntricos que protagonizam cenas surreais. “Meu estilo vem dos livros que li quando criança. Conforme fui crescendo, percebi quanto impacto suas ilustrações tiveram sobre mim”.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Annie nasceu em Londres, em 1980. Estudou na escola de artes e design Central Saint Martins e na Universidade de Brighton. Aos 17 anos, começou a trabalhar como assistente de fotografia. Em 2008 mudou-se para Nova Iorque e passou a fotografar para o jornal The Independent e para as revistas Sunday Times e Vice. Nessa época, Annie incluiu em seu portfolio retratos de celebridades e ensaios de moda, mas o contrato com esses veículos serviram, na verdade, para financiar projetos autorais – o viés mais expressivo do trabalho da artista.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

O que despertou o interesse de Annie pela fotografia, num primeiro momento, foi o processo de revelação das fotos – mergulhar o papel em uma bacia com químicos e esperar para ver o que surge. Quando morava com os pais, ela mantinha um laboratório fotográfico no porão da casa, onde revelava as imagens captadas em preto-e-branco. Mais tarde, quando começou a utilizar o filme colorido, os tons saturados tornaram-se um dos principais elementos da composição, presentes em tecidos florais, fantasias e adornos que tornam cômicos objetos e personagens descritos em uma atmosfera sombria. As imagens da artista são iluminadas apenas com luz natural, na intenção de aproximar as fotografias do cotidiano, como se o que ela representasse fosse completamente normal.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Apesar de Annie ter abordado temas tão variados como retratos, paisagens e naturezas mortas, seu apreço maior é pela fotografia de moda. Lamenta, no entanto, que seja mal explorada – segundo ela, o que os fotógrafos fazem hoje é “jogar modelos em estúdios brancos”. Ela considera ser essa “uma das veias mais criativas da fotografia”.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

10
jun

“Eu acredito que há coisas que ninguém veria se eu não as fotografasse” Diane Arbus

Retrato de Diane Arbus.

“O que eu nunca vi antes é o que reconheço.” Com esta frase, a fotógrafa Diane Arbus define o caminho que escolheu trilhar como artista e fotógrafa. A singularidade de seus retratos e a marca por ela deixada na história da fotografia americana se dá tanto em razão das pessoas que escolhia fotografar quanto por seu intenso interesse por elas.

Diane Arbus assumiu um olhar intimista e o explorou com esmero em seus trabalhos mais reconhecidos. Movida por uma sensibilidade nata, buscava perfis de pessoas diferentes, o que acabou se tornando quase um requisito para suas fotos: seus retratados eram totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade. Nascida em 1923 como Diane Nemerov, em Nova Iorque, encontrou em sua cidade natal inspiração para suas imagens. As fotografias deveriam traduzir o envolvimento que Diane construía com as pessoas, tornando-se, de fato, o resultado de um encontro.

Foto: Diane Arbus.

Foto: Diane Arbus.

Diane começou a trabalhar com fotografia junto com seu marido, Allan Arbus, na década de 1940. Os dois se conheceram quando ela tinha 13 anos e casaram cinco anos mais tarde, formando uma parceria no ramo da moda. Em 1959, a sociedade terminou para que Diane pudesse seguir seus interesses pessoais e, com o rompimento profissional, o casamento também chegou o fim. Apesar de ter passado por uma fase difícil, Diane conseguiu desenvolver ainda mais sua fotografia. Um aspecto importante para sua revolução veio da influência da fotógrafa Lisette Model, imigrante europeia que encorajou Arbus a desenvolver o tema da heterodoxia e, ao mesmo tempo, aperfeiçoar aspectos técnicos.

Com raras exceções, Arbus fazia apenas fotos de pessoas. O interesse dela no indivíduo não estava em seus possíveis estilos de vida ou posições filosóficas, mas no mistério que o envolvia. Suas lentes registravam a leitura do diferente e, ao mesmo tempo, expunham os personagens, procurando neles histórias a serem contadas e aprendidas. A foto significava, sobretudo, uma celebração das pessoas como elas são.

Foto: Diane Arbus.

Foto: Diane Arbus.

Arbus passava horas com os fotografados, seguia-os até suas casas ou locais de trabalho, conversava com eles e tentava fazê-los chegarem ao momento em que começavam a se desfazer de suas imagens públicas ordinariamente aceitáveis. As pessoas que Diane escolhia acatavam sua proposta e se revelavam sem pudor, confiantes de que não seriam expostas de maneira pejorativa nos ensaios.

Os trabalhos não-comerciais de Diane Arbus venceram o Prêmio Guggenheim Fellowship nos anos de 1963 e 1966, com o projeto “American Rites, Mannersand Customs”. Ela compôs o ensaio indo a concursos, festivais e ambientes privados nas cidades de Nova Iorque e Nova Jersey, além de algumas visitas a Pensilvânia, Flórida e Califórnia.

Foto: Diane Arbus.

Foto: Diane Arbus.

Entre 1969 e 1971, Diane realizou um intenso trabalho retratando pessoas com necessidades especiais. Ela também fez uma coleção intitulada “A box of ten photographs” (“uma caixa de dez fotografias”, em tradução literal), que seria o primeiro de uma série de trabalhos com edições limitadas.

Arbus cometeu suicídio em 1971. Passados mais de 40 anos de sua morte, sua visão original continua provocando as mesmas reações de quando foram apresentadas ao mundo pela primeira vez.

15
fev

Ausência em imagens, por Peter Marlow

Autorretrato de Peter Marlow.

“Eu opto pela fotografia que se sobrepõe e enriquece. Ao mesclar observação, sagacidade e razão, quero que meu trabalho gere uma sensação de inesperado, de escondido e de aparentemente espontâneo”
Peter Marlow

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Ausência, melancolia, silêncio. É essa atmosfera das imagens de diferentes ensaios assinados por Peter Marlow que selecionamos para este post. Nessa série de fotografias, Marlow não retrata os instantes em que as grandes metrópoles silenciam revelando suas belezas escondidas, mas as ausências em locais que parecem distantes, esquecidos, antigos. Há sempre uma certa insinuação de presença humana, mas não se sabe há quanto tempo ela está distante nem quando vai retornar. Conhecido por suas imagens de paisagens, Marlow é um fotógrafo britânico integrante da Magnum que tem em seu portfólio principalmente imagens em cor.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Treinado na linguagem do fotojornalismo, Marlow não é, propriamente, um repórter fotográfico, anda que tenha sido um dos mais bem-sucedidos jovens fotógrafos de notícias britânicos. Começou sua carreira após graduar-se como psicólogo na Universidade de Manchester em 1974. A partir daí, foi trabalhar como fotógrafo em um cruzeiro italiano no Caribe e entrou no time de fotógrafos da agência parisiense Sygma. No final da década de 1970, trabalhou na Irlanda no Norte e no Líbano, e foi aí que percebeu que a competição do fotojornalismo não combinava com ele. Voltou para a Grã-Betanha e trabalhou em Liverpool em um projeto de oito anos. Tornou-se associado da Magnum em 1981 e membro pleno em 1986.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Com a guinada em sua carreira mudou, também, sua estética. Desde que abandonou o fotojornalismo como única vertente, escolheu a “cor das coisas acidentais” como tema central de sua obra, da mesma maneira que as formas e marcas eram fundamentais para seu trabalho em preto e branco.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

20
dez

A vertigem de Entre Morros, por Claudia Jaguaribe

 

Formada em História da Arte pela Boston University, a carioca Claudia Jaguaribe (1956) se dedica intensamente à pesquisa plástica com um trabalho que se vale de diferentes mídias: vídeo, internet e especialmente fotografia. A cada novo ensaio, evidencia o que os críticos chamam de “inquietação visual”: uma busca por retratar os desafios do mundo contemporâneo – seu ritmo acelerado e suas constantes incertezas, inseguranças e idiossincrasias – e ao mesmo tempo satisfazer sua veia criativa. São os contrastes da realidade dos morros de sua terra natal vistas em um contexto panorâmico que chamam a atenção no recém lançado Entre Morros (2012), cujas imagens ilustram este post. Depois do livro Rio de Janeiro (2006), fruto de uma parceria com Luiz Alfredo Garcia-Roza, Jaguaribe volta a clicar a cidade com a proposta de levar o espectador a uma viagem imaginária, surpreendente e com ares de metalinguagem.

 

 

 

Nas palavras do jornalista Alexandre Belém, a obra mescla cenários gerados pela câmera com aqueles presentes na memória afetiva de Claudia, radicada há muito em São Paulo. Cartões postais ganham novos ângulos e cenas típicas da cidade não aparentam ser tão reais. Editado pela Cosac Naify, a obra traz textos do professor da UFRJ Mauricio Lissovsky, de Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, e do jornalista Antonio Gonçalves Filho. A concepção do livro é diferenciada e dá outro caráter às imagens: as páginas são compostas por um conjunto de fotografias panorâmicas verticais que, interrompidas por um folder, demandam manuseio. Após sua abertura é possível conferir, também, um panorama horizontal.

 

 

 

Com quase 25 anos de carreira, Jaguaribe começou sua trajetória profissional aliando a experiência didático-acadêmica à editorial. Realizou trabalhos de moda e publicidade para revistas e jornais brasileiros e internacionais, como Veja, Exame, Playboy, The Harvard Magazine, Vogue, Marie Claire, O Globo, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil. Claudia realizou sua primeira mostra individual em 1982. A partir daí, passou a expor regularmente em capitais brasileiras e no exterior. Trabalhos de sua autoria foram exibidos nos Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo (MAM), no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo; no Kennedy Center, em Washington, e no Paço das Artes, no Rio. Além disso, seus vídeos foram exibidos nos principais festivais nacionais e internacionais, como o Alucine – Toronto, Mostra Audiovisual Paulista, e Festival de Santiago Alvarez – Cuba.

 

 

4
dez

“Sou muito mais interessante como fotógrafo amador do que como fotógrafo profissional” Richard Kalvar

Retrato de Richard Kalvar.

Como muitos fotógrafos que se sentem pouco confortáveis com os rótulos que lhes são atribuídos, Richard Kalvar não gosta de se descrever como um “fotógrafo de rua” – e não apenas pelo fato de que suas imagens não são necessariamente feitas nas ruas. Em suas palavras, sua obra autoral pode ser incluída na categoria genérica por ele inventada “fotos não-posadas de pessoas” (“e às vezes de animais ou objetos inanimados, quando esses são possuídos por almas humanas”). E, ainda, na subcategoria “com nada particularmente importante acontecendo”. Se criarmos um recorte ainda mais profundo, encontraremos outra definição por ele inventada, play (em inglês, jogar), e chegaremos no cerne do que o fotógrafo fez durante as últimas décadas. Em mais de quarenta anos de carreira, o objetivo de Kalvar foi sempre brincar com a realidade utilizando personagens alheios aos dramas nos quais foram incluídos.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.

Kalvar nasceu no distrito nova-iorquino do Brooklyn em 1944, filho uma família definida por ele como “relativamente pobre”. Descobriu as primeiras centelhas de sua criatividade ainda na infância, mas só foi encontrar meios de se expressar muito depois, e por acaso. Em meados dos anos 1960, ingressou na Cornell University para estudar Literatura, mas deixou o curso pela metade e voltou para Nova Iorque a procura de emprego. Encontrou um com Jérôme Ducrot, um fotógrafo de moda. Na época, Kalvar não tinha interesse real em fotografia, e muito menos em fotografia de moda, mas aprendeu muito com Ducrot. Deixou seu estúdio um ano depois após uma “grande briga” que, entretanto, não prejudicou a amizade dos dois. Como um presente de despedida, Ducrot deu a Kalvar uma Pentax.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.

Com o dinheiro que havia economizado durante seu ano como assistente e aprendiz, Kalvar decidiu partir para a Europa, ainda hesitante se levaria ou não sua Pentax. O instante em que a colocou na bagagem é lembrado por ele como um dos mais decisivos de sua vida. De lá, fez centenas de fotografias despretensiosas nas ruas e enviava os filmes intactos para seu pai, só conferindo o resultado um ano depois, já de volta aos Estados Unidos, quando conseguiu um emprego como recepcionista no Modernage (laboratório fotográfico que, à propósito, ainda existe). Foi nesse momento que Kalvar descobriu sua paixão. E ela, feliz ou infelizmente, não pagava o aluguel. Para poder dar vazão à forma de expressão que acabara de encontrar, começou a realizar trabalhos comerciais.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.

A combinação de sua obra autoral com a comercial foi o que fez com que fosse recrutado pela Magnum nos anos 1970, assumindo a presidência e a vice-presidência da agência alguns anos mais tarde. Mas, ainda assim, Kalvar manteve uma firme barreira entre sua arte e seu trabalho, deixando claro que há um alto grau de separação entre o que faz por dinheiro e o que faz como auto-expressão. Até assume que é de forma quase desdenhosa que olha para seu trabalho profissional – que, não raro, inclui jornadas fotojornalísticas para revistas importantes como a Newsweek. Uma das mais evidentes diferenças por ele fundamentadas é o uso de cor, recurso exclusivo de sua obra comercial. Quando questionado sobre o motivo, Kalvar afirma que para o mistério funcionar é preciso dar abstração à realidade. “Preto e branco é uma abstração tradicional. Além do enquadramento seletivo, fotografia é o congelamento de um momento que, na realidade, é parte de um número infinito de outros momentos. Você tem um momento e ele nunca mais se move, você pode olhar para a imagem para a sempre. O preto e branco é mais um passo para longe da realidade. Cor, para mim, é mais real, mas menos interessante”.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.

Até hoje, sua metodologia de trabalho consiste em longas caminhadas na companhia de sua Leica. “Tento ir a lugares onde coisas interessantes podem acontecer. E estou sempre olhando as relações entre as pessoas. Sou atraído pela imagem de pessoas interagindo”. Suas imagens parecem em um só tempo distorcerem e tornarem precisos os instantes, sugerindo que existem muitas realidades possíveis. “A fotografia já está longe da ‘realidade’ por conta de seu silêncio, sua falta de movimento, sua bidimensionalidade e pelo fato de que isola tudo que existe além do retângulo. Ela pode criar uma outra realidade, uma emoção que não existia na situação ‘verdadeira’. E é essa tensão entre as realidades que lhe dá força”.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.