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Posts tagged ‘fotografia artística’

15
jun

Frederick Sommer (1905 -1999), um artista entre a imaginação e a disciplina

Retrato de Frederick Sommer.

Em sete décadas de carreira, Frederick Sommer (1905 – 1999) criou pinturas, desenhos e colagens, bem como um número relativamente pequeno, mas de excelente qualidade, de fotografias. Inicialmente atraído pela fotografia de paisagens, inclinou-se posteriormente para o registro de formas abstratas, abusando de técnicas experimentais como colagem, sobreposição, superexposição, distorção e manipulação de negativos. De acordo com o próprio, seu objetivo com essas imagens era mostrar as conexões entre as formas do universo, em constante mudança, e reforçar a importância da imaginação dentro da prática artística.

Foto: Frederick Sommer.

Foto: Frederick Sommer.

Nascido na Itália e criado no Brasil, onde expôs alguns de seus desenhos na adolescência, Sommer viajou para os Estados Unidos em 1925 para estudar Arquitetura e Paisagismo na Cornell University. Em 1930, foi diagnosticado com tuberculose e viajou para realizar o tratamento. Confinado em um centro de recuperação na Suiça, passou a estudar Arte e Filosofia, interessando-se, também, por Fotografia. Quando retornou ao país, estabeleceu-se em Prescott, no Arizona. Tornou-se cidadão americano em 1939.

Foto: Frederick Sommer.

Foto: Frederick Sommer.

Em 1935, influenciado por Alfred Stieglitz e Edward Weston, que se tornariam seus amigos, começou a levar a prática fotográfica à sério. Seus cliques idiossincráticos de objetos cotidianos mergulhados na podridão têm não apenas elegância formal, mas profundidade psicológica. Para muitos, suas imagens são marcadas por essa beleza fora do comum combinada com uma abordagem filosófica — muitas vezes até mesmo com um toque de humor. Por casarem seu brilhantismo técnico com sua imaginação surrealista, as fotografias de paisagens do Arizona, onde trabalhou em completo isolamento, são consideradas sua mais pessoal criação — além de estarem entre suas obras mais famosas. Sem marcadores de escala, esses registros panorâmicos são como intermináveis e imensuráveis extenções de espaço.

Foto: Frederick Sommer.

Foto: Frederick Sommer.

Mesmo sem muita experiência no campo dos retratos, Sommer não perdeu a oportunidade de fotografar a jovem menina Livia no verão de 1948, dando origem a uma de suas mais famosas obras. Para compor a imagem, posicionou-a em frente a um painel revestido com material orgânico seco, criando um constraste entre a rusticidade do material e a ternura angelical da modelo. O olhar de Livia sugere que Sommer se levantou antes da exposição. Embora ela tenha permanecido imóvel, seus olhos o seguiram. Outra de suas mais famosas imagens é, também, um retrato, mas repleto de experimentalismo. Para registrar a essência do artista e amigo, Marx Ernst, Sommer sobrepôs dois negativos em uma única folha.

Livia. Foto: Frederick Sommer.

Marx Ernst. Foto: Frederick Sommer.

O fotógrafo gaúcho Felizardo Furtado trabalhou com Sommer nos Estados Unidos em 1984. Da experiência, trouxe não apenas sua conhecida necessidade de excelência, mas intenso aprendizado intelectual. Em um dos textos publicados em sua coluna na revista Aplauso, Felizardo conta que o fotógrafo possuia uma ótima teoria: “A arte não é arbitrária. Uma grande pintura não surge por acidente. Não aparece por sorte. Nós somos sensíveis às tonalidades. A mínima modificação da tonalidade afeta sua estrutura. Algumas coisas ficam melhor grandes, mas elegância é a representação das coisas em suas mínimas dimensões”. Essas observações se referem ao perfeccionismo de Sommer no laboratório fotográfico, que Felizardo afirma ter absorvido no período em que conviveu com ele.

Foto: Frederick Sommer.

Foto: Frederick Sommer.

Sua reputação cresceu na década de 1950, auxiliado por amigos como Ernst, Aaron Siskind, Edward Steichen e Minor White, que mostraram seu trabalho em praças importantes como The Museum of Modern Art (MoMA), Institute of Design de Chicago e a revista Aperture. Sommer teve uma carreira docente ativa, lecionando no Institute of Design e em Prescott College. Depois de se aposentar, permaneceu trabalhando em uma grande variedade de mídias até um ano antes de sua morte, em 1999.

25
mai

Bernd e Hilla Becher: oposição à ideia da fotografia como “arte do instantâneo”

Retrato de Bernd e Hilla Becher.

Bernd e Hilla Becher são fotógrafos, mas receberam em 1990 o Leão de Ouro da Escultura na Bienal de Veneza. As esculturas, ali, eram representadas por suas fotografias de paisagens industriais abandonadas, com formas duras, obsoletas e intrigantes que, não fossem os registros do casal alemão, permaneceriam anônimas. O trabalho da dupla começou em 1958. Casaram-se em 1961 e durante mais de cinco décadas criaram em imagens registros contundentes da era pós-industrial, poéticos justamente por serem tão objetivos.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

O casal tornou-se conhecido por suas “tipologias”, esquemas de imagens em preto e branco com diversos exemplos de construções industriais. Para criá-las, viajavam para siderúrgicas e minas de diversos países, fotografando silos, reservatórios de gás, torres sinuosas de carvão e minério e os fornos onde elas desembocavam. Enquanto a composição revelava a simplicidade das formas, a riqueza de detalhes era quase enciclopédica. O que alçou o portfólio dos Becher ao status de arte é justamente a forma como extraiam as grandes estruturas de seus contextos iniciais, transformando cada frame em um novo objeto. Assim, parece ser justamente a frieza do olhar que confere às imagens sentimento. As condições e precauções técnicas tomadas antes do registro das edificações eram quase sempre as mesmas: céu nublado, luz opaca, muita profundidade de campo e perspectiva frontal.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

A autoria era sempre assinada em parceria, afinal, não importava quem disparava: a composição era sempre detalhadamente definida por ambos antes do clique – bem como as futuras modificações. Falecido em 2007, Bernd nasceu em Siegen, em 1931, participou da restauração de igrejas, foi aluno de Otto Rössing e em 1957 começou a estudar na Academia de Artes de Düsseldorf. Já Hilla nasceu em Potsdam em 1934 e, depois de passar por uma formação fotográfica, fugiu em 1955 da Alemanha Oriental e começou a trabalhar em Hamburgo. Foi quando se mudou para Düsseldorf e começou a trabalhar com Publicidade que conheceu Bernd. Foram viver juntos em 1958 em Siegen, uma das mais antigas áreas industriais da Alemanha.

Foi de Bernd que nasceu o desejo de reproduzir as paisagens que via em Siegen que, com o declínio da indústria metalúrgica (substituída por siderúrgicas na região do Vale do Ruhr), progressivamente começavam a sumir. A ideia inicial foi reproduzi-las em desenhos. Como ponto de partida, começou a eternizar as minas desativadas com uma câmera de pequeno formato. Gradualmente, influenciado pela estética e o método de Hilla, passou a fotografar cada vez mais, revelando a tipologia da arquitetura da era industrial.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Em 1961, com a primeira câmera profissional em mãos, iniciaram suas expedições “arqueológicas” por paisagens da era pós-industrial não apenas na Alemanha, mas também na Bélgica, Holanda, Luxemburgo, França e, posteriormente, Estados Unidos. A primeira exposição veio em 1963, em Siegen. E três anos mais tarde, sua Kombi foi transformada em um improvisado laboratório durante viagens pela Inglaterra e o País de Gales.

Para o professor e crítico de arte português David Santos, o trabalho desenvolvido pela dupla transformou de modo decisivo a fotografia contemporânea, além de ter um impacto considerável no Minimalismo e na Arte Conceitual dos anos 1970. Sua obra influenciou artistas como Laurenz Berges, Andreas Gursky, Simone Nieweg, Thomas Ruff, Thomas Struth e Petra Wunderlich, além do canadense Edward Burtynsky que também produz criações dentro de propostas semelhantes. Nas palavras do intelectual, “na pluralidade desumanizada dessas fábricas esquecidas e abandonadas, [...] os Becher revelam-nos fundamentalmente uma aura arqueológica incontornável, como se estivéssemos apenas perante mais um vestígio longínquo”.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

18
set

Retratos ficcionais do íntimo, por Kelli Connell

Retrato de Kelli Connell

À primeira vista, as imagens que compõem este post parecem se tratar de um íntimo ensaio sobre um casal. À segunda, sobre a rotina inseparável de duas irmãs gêmeas. Na verdade, todas elas foram criadas a partir da digitalização e manipulação de dois ou mais negativos no Photoshop. Profundamente interessada pela intersecção entre ficção e realidade, a fotógrafa responsável, Kelli Connell, usou o computador como uma ferramenta para criar uma situação verossímil, – o que, para ela, não é muito diferente da aceitação intuitiva de fotografias como objetos plenamente verdadeiros.

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Intitulado Double Life, o trabalho representa questionamentos autobiográficos da autora sobre a sexualidade e os papeis de gênero que nos caracterizam em relacionamentos íntimos. Polaridades como a psique masculina e feminina, o racional e o irracional, o interior e o exterior, o motivado e o resignado, são retratados através da linguagem corporal, do cenário e das roupas escolhidas. Embora muitos pensem se tratar de autorretratos, Kelli escolheu uma modelo para realizar o ensaio, Kiba Jacobson. Ao fazê-lo, afirmou dar às imagens duas possíveis interpretações: podem ser vistas tanto como um retrato de relacionamentos entre duas pessoas quanto como uma representação de múltiplas facetas de si mesmo.

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Ao criar essas histórias, Kelli conta estar reconstruindo as relações que ela própria experimentou ou testemunhou em ambientes públicos ou na televisão. “Os eventos retratados parecem críveis, ainda que nunca tenham acontecido. Ao criar digitalmente uma fotografia composta por múltiplos negativos da mesma modelo em um cenário, o nosso interior é exposto não como um ser solidificado na realidade, mas como uma representação de investigações sociais e interiores que acontecem dentro da mente”, explica Kelli no manifesto sobre a obra.

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Kelli Connell nasceu em 1974 em Oklahoma, nos Estados Unidos. Graduou-se em Belas Artes pela University of  North Texas em 1997. Após a boa repercussão de Double Life, publicado em livro em 2011, afirmou estar interessada não apenas no que o tema diz sobre ela, “mas também na resposta dos espectadores a essas imagens e no que elas dizem sobre suas próprias identidades e construções sociais”.

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

 

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell