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Posts tagged ‘fotografia artística’

18
set

Retratos ficcionais do íntimo, por Kelli Connell

Retrato de Kelli Connell

À primeira vista, as imagens que compõem este post parecem se tratar de um íntimo ensaio sobre um casal. À segunda, sobre a rotina inseparável de duas irmãs gêmeas. Na verdade, todas elas foram criadas a partir da digitalização e manipulação de dois ou mais negativos no Photoshop. Profundamente interessada pela intersecção entre ficção e realidade, a fotógrafa responsável, Kelli Connell, usou o computador como uma ferramenta para criar uma situação verossímil, – o que, para ela, não é muito diferente da aceitação intuitiva de fotografias como objetos plenamente verdadeiros.

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Intitulado Double Life, o trabalho representa questionamentos autobiográficos da autora sobre a sexualidade e os papeis de gênero que nos caracterizam em relacionamentos íntimos. Polaridades como a psique masculina e feminina, o racional e o irracional, o interior e o exterior, o motivado e o resignado, são retratados através da linguagem corporal, do cenário e das roupas escolhidas. Embora muitos pensem se tratar de autorretratos, Kelli escolheu uma modelo para realizar o ensaio, Kiba Jacobson. Ao fazê-lo, afirmou dar às imagens duas possíveis interpretações: podem ser vistas tanto como um retrato de relacionamentos entre duas pessoas quanto como uma representação de múltiplas facetas de si mesmo.

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Ao criar essas histórias, Kelli conta estar reconstruindo as relações que ela própria experimentou ou testemunhou em ambientes públicos ou na televisão. “Os eventos retratados parecem críveis, ainda que nunca tenham acontecido. Ao criar digitalmente uma fotografia composta por múltiplos negativos da mesma modelo em um cenário, o nosso interior é exposto não como um ser solidificado na realidade, mas como uma representação de investigações sociais e interiores que acontecem dentro da mente”, explica Kelli no manifesto sobre a obra.

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Kelli Connell nasceu em 1974 em Oklahoma, nos Estados Unidos. Graduou-se em Belas Artes pela University of  North Texas em 1997. Após a boa repercussão de Double Life, publicado em livro em 2011, afirmou estar interessada não apenas no que o tema diz sobre ela, “mas também na resposta dos espectadores a essas imagens e no que elas dizem sobre suas próprias identidades e construções sociais”.

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

 

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

Foto: Kelli Connell

17
jul

Annie Collinge, entre o infantil e o sombrio

Autorretrato de Annie Collinge.

“Meu trabalho geralmente é sobre um tema comum, sombrio e sem humor, que contrasta com a cor intensa. É este conflito que busco representar”.

A inglesa Annie Collinge tem se destacado no meio artístico pela originalidade de suas fotografias que exploram a riqueza de cores em cada cenário. A fotógrafa compõe imagens onde o divertido confunde-se com o bizarro, cujo contraste mencionado por ela aparece, também, nos personagens excêntricos que protagonizam cenas surreais. “Meu estilo vem dos livros que li quando criança. Conforme fui crescendo, percebi quanto impacto suas ilustrações tiveram sobre mim”.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Annie nasceu em Londres, em 1980. Estudou na escola de artes e design Central Saint Martins e na Universidade de Brighton. Aos 17 anos, começou a trabalhar como assistente de fotografia. Em 2008 mudou-se para Nova Iorque e passou a fotografar para o jornal The Independent e para as revistas Sunday Times e Vice. Nessa época, Annie incluiu em seu portfolio retratos de celebridades e ensaios de moda, mas o contrato com esses veículos serviram, na verdade, para financiar projetos autorais – o viés mais expressivo do trabalho da artista.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

O que despertou o interesse de Annie pela fotografia, num primeiro momento, foi o processo de revelação das fotos – mergulhar o papel em uma bacia com químicos e esperar para ver o que surge. Quando morava com os pais, ela mantinha um laboratório fotográfico no porão da casa, onde revelava as imagens captadas em preto-e-branco. Mais tarde, quando começou a utilizar o filme colorido, os tons saturados tornaram-se um dos principais elementos da composição, presentes em tecidos florais, fantasias e adornos que tornam cômicos objetos e personagens descritos em uma atmosfera sombria. As imagens da artista são iluminadas apenas com luz natural, na intenção de aproximar as fotografias do cotidiano, como se o que ela representasse fosse completamente normal.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Apesar de Annie ter abordado temas tão variados como retratos, paisagens e naturezas mortas, seu apreço maior é pela fotografia de moda. Lamenta, no entanto, que seja mal explorada – segundo ela, o que os fotógrafos fazem hoje é “jogar modelos em estúdios brancos”. Ela considera ser essa “uma das veias mais criativas da fotografia”.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

10
jul

Irmãos Vargas e a documentação dos tempos dourados de Arequipa

Retrato Irmãos Vargas

Nascidos em 1885 e 1887, respectivamente, na cidade de Arequipa, os irmãos fotógrafos Carlos e Miguel Vargas Zaconet participaram de uma época de ouro da fotografia peruana. No final do século XIX e início do século XX, as cidades de Lima, Cuzco e Arequipa foram responsáveis pelo desenvolvimento artístico do Peru. E este período teve grande significado para a história da fotografia na América Latina, diretamente ligada ao trabalho dos irmãos.

Em 1900, ainda no colégio, Carlos e Miguel fabricaram sua primeira máquina fotográfica, o que chamou a atenção do fotógrafo Máximo T. Vargas (apesar do sobrenome, Max não possuía relação familiar com Miguel e Carlos). Os irmãos passaram, então, a trabalhar em seu estúdio de fotografia.

Foto: Irmãos Vargas.

Foto: Irmãos Vargas.

Em 1912, os irmãos Vargas abriram seu próprio estúdio em Arequipa, local da primeira exposição com fotografias feitas em papel de nitrato, em 1913. Dois anos depois, conseguiram sua primeira mostra internacional coletiva, em São Francisco, Estados Unidos.

Na década de 1920, o estúdio dos irmãos Vargas recebia todos os tipos de artistas: poetas, escritores, dançarinos e atores. Embalados pela expansão e pelas correntes culturais da região (grupo Orkopata, em Puno, e Indigenistas, em Cuzco), Carlos e Miguel transformaram o estúdio em um centro de difusão cultural onde essas personalidades eram fotografadas e participavam de atividades intelectuais como debates, saraus, conferências e recitais.

Foto: Irmãos Vargas.

Foto: Irmãos Vargas.

As fotografias artísticas dos Irmãos Vargas foram reunidas recentemente na pinacoteca de São Paulo na exposição “Estúdio de Arte Irmãos Vargas – A fotografia de Arequipa, Peru  1912/1930”. O curador da mostra, Diógenes Moura comentou que “numa época em que a publicidade, a moda e o fotojornalismo estavam no início, os retratos eram o ponto alto dos estúdios em Arequipa, Lima e Cusco, e os Irmãos Vargas tornaram-se referência porque ‘revelavam a alma’ de cada um dos seus personagens”. Diógenes também destaca que as fotografias dos irmãos eram muito bem produzidas através de figurinos, objetos, móveis e acessórios de luxo. Recursos que construíam as cenas e faziam toda a diferença nos retratos.

Foto: Irmãos Vargas.

Foto: Irmãos Vargas.

Foi ainda nos anos 1920 que Arequipa teve um crescimento econômico latente por consequência de altos investimentos em infraestrutura e comércio na região, o que fomentou as exportações de lã e mineração na cidade. Assim, o poder aquisitivo da população aumentou e os estúdios fotográficos multiplicaram-se para atender à nova burguesia. Carlos e Miguel, no auge de sua produtividade, chegaram a realizar mais de 16 exposições de seu trabalho. O estúdio recebeu o título de “o melhor da América Latina”, segundo artigo do jornal The New York Herald. À medida que a fama dos irmãos crescia, os reconhecimentos surgiam em proporção.

Entretanto, a Grande Depressão de 1929 impactou, também, a economia peruana, o que acabou com parte da ousadia do estúdio. Adaptado à nova realidade, na qual a fotografia deixava progressivamente de ser um serviço de luxo, o espaço se tornou mais moderno, comercial e barato. O “Estúdio de Arte Vargas Hnos” (“Hnos”, uma abreviatura de “hermanos”) fechou em 1958, deixando recordações dos anos de glória da sociedade arequipenha.

Foto: Irmãos Vargas.

Foto: Irmãos Vargas.