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Posts tagged ‘fotógrafa’

2
fev

Dias de noite – noites de dia, por Elena Chernyshova

Retrato de Elena Chernyshova

Mais de 250 dias por ano com ruas cobertas pela neve. Temperaturas que chegam a -50°C no inverno. Para completar, entre dezembro e meados de janeiro, a noite polar: período no qual o sol não cruza a linha do horizonte. Com uma população de aproximadamente 175 mil habitantes, Norilsk está situada na Sibéria, cerca de 240 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico. O cotidiano dessa cidade fabril – uma das dez mais poluídas do mundo – é apresentado pela fotógrafa russa Elena Chernyshova na série Days of Night – Nights of Day [Dias de noite – noites de dia].

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

“Por dez anos, minha mãe viveu em Chukotka (no extremo nordeste da Rússia), em uma pequena cidade ao norte do Círculo Polar. Quando criança, eu era fascinada pelas suas histórias a respeito da noite e do dia polares, das luzes do norte, das temperaturas que chegavam aos 60 graus negativos, da neve cintilante e da comida seca ou em pó. Essas condições soavam totalmente inusitadas, pareciam ter origem em um conto de fadas”, conta Elena em entrevista a National Geographic. “Cinco anos atrás conheci uma garota de Norilsk. Suas histórias despertaram novamente minha curiosidade. Dali em diante já não sabia dizer se queria contar uma história sobre a adaptação das pessoas ao ambiente hostil do norte, ou sobre a própria Norilsk. Elas eram inseparáveis”, explica a fotógrafa.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Fundada em 1935, Norilsk está situada em uma região de solo rico em minérios, tais como níquel, cobalto, platina e paládio. A cidade tem um dos maiores complexos de mineração e metalurgia do mundo. Foi um gulag soviético até 1956 – durante esse período, estima-se que cerca de 17 mil pessoas tenham morrido nas minas e na construção da cidade, enfrentando frio intenso, fome e trabalhos forçados. Ainda hoje os trabalhadores sofrem com a poluição – são observados elevados índices de câncer, doenças pulmonares, desordens sanguíneas e de pele, além de inúmeros casos de depressão.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

A quantidade de dióxido de enxofre é tão alta que exterminou a vegetação em um raio de aproximadamente 30 quilômetros. Numa tentativa de compensar as condições insalubres, com 60% da população trabalhando na indústria, há 90 feriados oficiais por ano. Além disso, é oferecida a aposentadoria aos 45 anos de idade.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

“Queria mostrar as particularidades dessa cidade: isolamento, condições climáticas extremas, a noite polar, sua origem, a arquitetura, suas dimensões imensas e o cotidiano dos seus habitantes. Também procurei mostrar a catástrofe ambiental e a domesticação desse ambiente”, diz Elena, que viveu oito meses em Norilsk, divididos em três estadas da fotógrafa, entre 2012 e 2013.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Vencedora do terceiro prêmio da categoria “Daily Life” do World Press Photo 2014, a série mostra também os momentos de ócio dos habitantes de Norilsk. Piscinas abertas no gelo são frequentadas pela população. Depois dos banhos, pelo costume local, as pessoas vão se esquentar em saunas. No curto período de calor – que pode chegar à casa dos 30 graus – também é comum se deitar ao sol.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Nascida em Moscou (1981), Elena Chernyshova vive na França. Iniciou seu interesse por fotografia no período em que estudou e trabalhou com arquitetura. Depois de dois anos atuando como arquiteta, deixou o trabalho e viajou de bicicleta de Toulouse (França) a Vladivostok (Rússia) – uma viagem de ida e volta, que totalizou 30 mil quilômetros e 26 países percorridos, ao longo de 1.004 dias, e que ajudou Elena a decidir se tornar fotógrafa. Seus trabalhos são publicados em importantes periódicos internacionais, como National Geographic e Le Monde.

20
mar

Os corpos e o claro-escuro de Maureen Bisilliat

 

 

O interesse pelas formas do corpo humano, pela interação entre textos e imagens e pela cultura brasileira são alguns dos eixos principais da poética da fotógrafa Maureen Bisilliat. Nascida em 1931, na Inglaterra, e com formação ligada à pintura, Maureen mudou-se para São Paulo em 1957, onde desenvolveu uma vasta produção fotográfica. No post de hoje, apresentamos o ensaio Pele Preta, primeiro trabalho seu a se tornar público, exposto no Museu de Arte Moderna da capital paulista em 1966.

 

 

 

“O corpo humano, minha porta de entrada na pintura, acabou por levar-me à fotografia.” A frase de Maureen, uma de suas declarações mais conhecidas, ajuda a entender seu trabalho fotográfico. Nos movimentos, anatomias e rostos captados, percebe-se forte influência da pintura, especialmente nas fotografias em preto e branco.

 

 

 

Diversos ensaios da fotógrafa apresentam imagens acompanhadas de textos de autores como Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, que inspiraram a fotógrafa a investigar figuras humanas de diversas regiões do país.

 

 

 

Em texto do curador do Instituto Moreira Salles Sergio Burgi, Maureen comenta sua afeição pelas palavras: “Aprecio imagens aliadas à escrita, frases escolhidas definindo melodicamente a linha da orquestração. Em livros como os de Diane Arbus e Nan Goldin há essa orquestração: ritmos, silêncios, acordes, vazios. A palavra, escolhida da produção literária ou pinçada do testemunho biográfico, vem da fala íntima da pessoa, destilada. Seria quase como escrever com a imagem e ver com a palavra.”

 

 

 

Nascida em Englefieldgreen (Surrey, Inglaterra), em 1931, Sheila Maureen Bisilliat estudou pintura em Paris e Nova York antes de viver no Brasil. De 1964 a 1972 trabalhou para a revista Realidade, da Editora Abril. Em 1985, expôs na 18a Bienal de São Paulo um ensaio inspirado no livro O turista aprendiz, de Mário de Andrade – uma de suas tantas incursões pela literatura brasileira. Sua obra completa – mais de 16 mil imagens – integra o acervo do Instituto Moreira Salles.

 

6
mar

Nina Leen: a moda no pós-Guerra dos Estados Unidos

 

 

Com sua câmera Rolleiflex, a fotógrafa russa Nina Leen contribuiu com a Life ao longo de mais de 30 anos, de 1940 até o fim da revista, em 1972. Conhecida como “uma das primeiras mulheres” a integrar o staff do periódico, Nina, no entanto, não fazia parte do time oficial da publicação. Ainda assim, teve a oportunidade de desenvolver uma vasta produção de imagens, desde fotos curiosas de animais até retratos de artistas como Jackson Pollock e Mark Rothko. Também concebeu uma série de editoriais de moda – trazemos alguns exemplos dessa faceta da fotógrafa no post de hoje.

 

 

Nascida entre 1909 e 1914 na Rússia (Nina não revelava a idade), a fotógrafa viveu na Itália, na Suíça e na Alemanha. Estudou pintura em Berlim e, em 1939, emigrou para os Estados Unidos, onde ganharia notoriedade.

 

 

Em 1940, vivendo há cerca de um ano na América, Nina publicou suas primeiras fotos na Life, que retratavam tartarugas do zoológico do Bronx, em Nova York. Assim começava sua trajetória como colaboradora da revista. Nos editoriais de moda que produziu, chamam atenção o cuidado com a composição e a sutileza no registro dos movimentos das modelos.

 

 

Nas décadas que se seguiram, a fotógrafa assinou mais de 50 capas da publicação. O envolvimento de Nina com a revista resultou no casamento com o fotógrafo de moda da Life Serge Balkin.

 

 

Entre os principais reconhecimentos do trabalho da fotógrafa está a inclusão de duas fotos na exposição itinerante The Family of Man, de Edward Steichen – projeto ambicioso, composto por centenas de imagens obtidas em diversos países, que buscava apresentar a experiência humana na Terra. Nina faleceu em 1995, em Nova York, deixando como legado um dos mais importantes olhares do período pós-Guerra nos Estados Unidos.

 

12
set

Ajustes íntimos de Laura Stevens

Retrato de Laura Stevens

Na série Another November [Outro novembro], Laura Stevens decidiu enfrentar o término de um relacionamento de forma criativa: construiu cenas nas quais mostra “momentos íntimos de ajustes”, nas palavras da fotógrafa, tendo como modelos amigas suas e mulheres que encontrou pelas ruas de Paris.

Foto: Laura Stevens

Foto: Laura Stevens

Outro novembro situa-se em um presente nostálgico no qual as memórias são construções inevitavelmente descoloridas, mirando o passado com um olhar ainda não familiarizado com a perda”, define Laura. Ainda segundo a fotógrafa, o ensaio permitiu observar a sua experiência recente desde outros pontos de vista.

Foto: Laura Stevens

Foto: Laura Stevens

A composição e a gama de cores das fotografias fazem lembrar o trabalho de Gregory Crewdson. Criam uma atmosfera cinematográfica, como se as imagens fossem fragmentos de um filme. A solidão das personagens, por outro lado, remete às mulheres das pinturas de Edward Hopper, misteriosas e absortas em seus pensamentos.

Foto: Laura Stevens

Foto: Laura Stevens

Gestos e olhares sobressaem-se nas imagens, convidando para um olhar mais atento não só em relação às personagens, como também aos entornos e aos objetos que compõem as cenas. São esses detalhes que diferenciam as fotografias uma da outra e conferem singularidade a cada figura retratada por Laura.

Foto: Laura Stevens

Foto: Laura Stevens

Vivendo atualmente em Paris, Laura Stevens estudou artes e design, realizando mais tarde um mestrado em fotografia na Universidade de Brighton. Seu trabalho já recebeu diversos prêmios e participou de exposições em instituições como a National Portrait Gallery. Além de desenvolver trabalhos pessoais, contribui com ONGs e periódicos como The Times Magazine, Washington Post, Le Monde e Forbes Magazine.

Foto: Laura Stevens

Foto: Laura Stevens

2
abr

Sara Naomi Lewkovicz: ao redor da violência doméstica

Retrato de Sara Naomi Lewkovicz

Fotojornalista já havia alguns anos e recém-ingressa no mestrado da Universidade de Ohio, Sara Naomi Lewkovicz começou a desenvolver um trabalho que documentava a história de um casal – Maggie e Shane. A série acabou se tornando, conta a fotógrafa, “um olhar mais profundo sobre as circunstâncias que transformam um relacionamento em um calvário e sobre o que acontece antes, durante, logo após e muito tempo depois de um episódio de violência”.

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

Maggie e Shane tiveram um envolvimento curto, porém intenso, antes de Shane ser preso – por envolvimento com drogas. No período em que estiveram separados pelas grades, conversavam todos os dias por telefone. Tão logo Shane saiu da prisão, eles começaram a namorar. Shane passou então a conviver também com Kayden e Menphis – filhos dela, frutos de um relacionamento anterior. Os quatro foram viver em um trailer, na localidade de Somerset, Ohio.

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

Conseguir um emprego era uma tarefa difícil para Shane, por causa de seu histórico. Ex-detento e passando por um processo de reabilitação devido ao uso de drogas, Shane tentava construir carreira como vocalista de uma banda de rock cristã. As dificuldades financeiras, no entanto, começaram a afetar o casal, que passou a discutir com mais frequência. A situação tornou-se ainda mais grave muito em seguida, sob o olhar da fotógrafa.

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

Depois de ir a um bar em Lancaster, Ohio, o casal teve uma discussão, pois Shane estaria flertando com outra mulher. Ao chegar à casa dos amigos na qual estavam hospedados, começaram a brigar. Em meio a gritos, Shane começou a agredir Maggie, puxando-a de um lado para o outro.

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

“Ele tinha recolhido os nossos celulares. Tive que botar a mão em seu bolso para pegar o meu aparelho. Entreguei o telefone a outro adulto que estava na casa e pedi a ele que chamasse a polícia”, conta a fotógrafa. “Mas sabia que precisa seguir com a história e documentá-la em sua crueza”, explica. Nesse meio tempo, a filha de Maggie foi acordada pela briga e recusou-se a sair do lado da mãe. A polícia apareceu em seguida, e Shane foi levado para a delegacia.

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

“Normalmente, vemos as vítimas de violência nas horas ou dias que se seguem aos abusos. Eu tive a possibilidade de passar um tempo com Maggie e seus filhos antes, durante e depois das agressões”, comenta Sara. “Meu próximo passo é viajar ao Alasca, onde Maggie vive atualmente com o marido – e onde vive também o pai das crianças –, para examinar os efeitos de longo prazo desse incidente no seu relacionamento atual, nas crianças e no seu próprio senso de indivíduo”, diz a fotógrafa.

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

Foto: Sara Naomi Lewkovicz

O objetivo da série, segundo Sara, é examinar os efeitos desse tipo de violência e retratar quem abusa, quem sofre os abusos e as crianças que  testemunham os acontecimentos. Nascida em Nova York, Sara Lewkowicz é mestranda do curso de comunicação visual da Universidade de Ohio. Vive atualmente em Londres, onde realiza parte dos seus estudos. É formada em jornalismo pela Universidade da Carolina do Norte. Já recebeu uma série de prêmios e teve fotos publicadas em diversos periódicos internacionais.

 

28
mar

Carla Kogelman: Tempos da infância

Retrato de Carla Kogelman

[...]

E longas horas, junto ao grande tanque cinzento,
ajoelhar-se com um barquinho à vela;
esquecê-lo, porque com iguais
e mais lindas velas outros ainda percorrem os círculos,
e ter de pensar no pequeno rosto
pálido que no tanque parecia afogar-se – :
oh infância, oh fugazes lembranças.
Para onde? Para onde?

Rainer Maria Rilke, Infância [Kindheit], em O livro das imagens (1902) – tradução de Maria João Costa Pereira

Foto: Carla Kogelman

Foto: Carla Kogelman

Instantes da vida de crianças em um pequeno vilarejo austríaco compõem a série Ich bin Waldviertel [Eu sou de Waldviertel], da fotógrafa holandesa Carla Kogelman. O trabalho foi vencedor do prêmio World Press Photo 2014, na categoria Retratos do Cotidiano. Embora a série se aproxime de duas personagens, as irmãs Hannah e Alena, e de uma localidade em específico – Merkenbrechts, perto da fronteira da Áustria com a República Checa –, as fotografias nos apresentam a infância em tons mais universais, como um mundo repleto de movimento, brincadeiras e afetos.

Foto: Carla Kogelman

Foto: Carla Kogelman

Independente da calmaria do lugar, um pequeno vilarejo com 170 habitantes, é o próprio tempo da infância – não importa onde – que ganha evidência nas imagens. Um tempo sem fim, de tudo inventar, despreocupadamente.

Foto: Carla Kogelman

Foto: Carla Kogelman

Como no poema de Rilke que abre o texto, a fugacidade das lembranças da infância marca presença também na série de Carla – na forma de silhuetas prestes a desaparecer e de gestos sutis captados pela fotógrafa.

Foto: Carla Kogelman

Foto: Carla Kogelman

As imagens, por vezes, indicam que há muito mais fora do enquadramento, e nos dão a ver delas somente fragmentos. Assim, abrem espaço para a produção de sentidos a partir da nossa própria experiência.

Foto: Carla Kogelman

 

Foto: Carla Kogelman

As fotografias nos situam em espaços emocionais da infância e nos convidam para um olhar mais demorado, percorrendo detalhes das cenas. A proximidade em relação aos personagens da série torna possível estabelecer contato, por meio das imagens, com as nossas próprias lembranças.

Foto: Carla Kogelman

Foto: Carla Kogelman

Nascida em 1961, Carla Kogelman trabalhou com teatro por 25 anos. Em 2011, graduou-se na Foto Academie Amsterdam. Em 2012, o Szene Bunte Wähne, festival austríaco de teatro, encomendou a ela uma produção documental na região rural de Waldviertel, que empresta o nome ao título da série que vimos. 

21
mar

Tanya Habjouqa: Prazeres ocupados

Retrato: Tanya Habjouqa

Cisjordânia. Palestina. Faixa de Gaza. A simples menção desses nomes nos remete a imagens de conflitos, atentados e intervenções militares. No entanto, o que acontece na vida diária de quem vive nesses lugares? Como se dá o cotidiano em uma região onde a violência – em um nível bélico – pode irromper a qualquer momento? Como se movimentar – ir ao zoológico, por exemplo – em territórios divididos e controlados ao extremo?

Foto: Tanya Habjouqa

Foto: Tanya Habjouqa

Há momentos em que, mais do que sobreviver, homens e mulheres demonstram um desejo de viver. Simplesmente viver. Com essas palavras a fotógrafa jordaniana Tanya Habjouqa descreve a série “Occupied Pleasures” [Prazeres ocupados], na qual lança um olhar para esses momentos da vida de palestinos que vivem na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Jerusalém Oriental. “Há o mais forte desejo pelos menores prazeres, além de um senso de humor afiado a respeito dos absurdos produzidos por uma ocupação de 47 anos”, comenta a fotógrafa, que estudou no Texas, Estados Unidos, e atualmente vive em Jerusalém Oriental com seu marido – um palestino com cidadania israelense – e seus dois filhos.

Foto: Tanya Habjouqa

Foto: Tanya Habjouqa

Em uma das imagens que integra a série, uma mulher anda por um túnel estreito, carregando um bouquet de flores. O caminho de terra, com pouca iluminação, é uma via fundamental para muitos habitantes da Faixa de Gaza que precisam ir ao Egito – a fronteira entre os territórios já esteve fechada por ordem do governo egípcio. “Os túneis seguem sendo a principal passagem, inclusive para casamentos, que por vezes não aconteceriam se não fosse pelo ‘contrabando’ da noiva via túnel, nos casos em que as autoridades egípcias negam um pedido de trânsito”, explica a fotógrafa na legenda da imagem.

Foto: Tanya Habjouqa

Foto: Tanya Habjouqa

Os horizontes são recorrentes nas fotografias que compõem a série. Os elementos que traçam as linhas são ora os montes da região, ora o mar, e por vezes algo que não faz parte da paisagem natural: o muro da Cisjordânia, construído pelo Estado de Israel. Diante da barreira, no entanto, a vida cotidiana parece buscar formas de contornar as divisões, os cortes, as separações que os blocos de concreto introduzem na paisagem.

Foto: Tanya Habjouqa

Foto: Tanya Habjouqa

Nas imagens de Tanya surgem também momentos de vaidade que chamam a atenção para instantes corriqueiros em uma região mais lembrada pela destruição. Os espaços interiores e domésticos apresentados revelam homens exibindo seus músculos e meninas que se vestem e fazem as unhas para ir a um baile.

Foto: Tanya Habjouqa

Foto: Tanya Habjouqa

Fotógrafa freelance, Tanya Habjouqa possui mestrado em Mídia Global e Política do Oriente Médio pela Universidade de Londres (SOAS). Começou sua carreira no Texas – nesse período inicial documentou comunidades de migrantes de origem mexicana e a pobreza em áreas urbanas. Também trabalhou em zonas de conflito em países como Iraque, Líbano e Sudão. É fundadora do coletivo Rawiya, composto por cinco fotógrafas que atuam no Oriente Médio.

Foto: Tanya Habjouqa

Foto: Tanya Habjouqa

16
out

O diário íntimo de um emagrecimento, por Jen Davis

Ao observador que desconhece o contexto, a fotógrafa Jen Davis definitivamente não parece a própria modelo do ensaio presente neste post. Em autorretratos, há uma cumplicidade entre assunto e câmera que não é evidente no ensaio em questão: na maioria das fotos, Davis parece desconfortável, tímida – um reflexo de como se sentia consigo mesma. Com o título autoexplicativo de Self Portraits (2013), ele consiste não apenas em um retrato honesto da intimidade dos que sofrem com a obesidade, mas em um diário do emagrecimento da fotógrafa ao longo de uma década. E se nas primeiras fotos seu semblante é triste, ela se torna nitidamente mais à vontade nos retratos mais recentes, em que está mais magra.

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Foi justamente o primeiro dos autorretratos, feito em 2002 e posteriormente intitulado de “Pressure Point”, que motivou o trabalho em questão – e o início de sua luta para perder peso. Surpreendida com a própria imagem, refletiu sobre o tipo de vida análogo a essa condição e decidiu começar a se fotografar, menos como uma motivação para emagrecer e mais para descobrir “seu lugar no mundo sendo uma pessoa com sobrepeso”, luta que enfrenta desde a infância.

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Em 2011, com o projeto já em andamento, apavorou-se com a perspectiva de chegar aos 40 anos ainda obesa e se submeteu a uma cirurgia de redução do estômago, comprometida em alterar seu estilo de vida e engajar-se em dieta e exercícios. Tão logo começou a emagrecer, sentiu algo que definiu como “libertação”: “coisas como sentar em um banco, andar de avião, todas as preocupações desse tipo foram removidas”.

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Hoje com 35 anos e baseada no Brooklyn, em Nova Iorque, Davis começou a se fotografar ainda como estudante na Universidade de Columbia, em Chicago, e continuou durante o mestrado em Belas Artes na Universidade de Yale. Além de servirem como estímulo, as imagens a ajudaram a lidar com suas emoções e inseguranças. Se na primeira ela está totalmente vestida em uma praia, rodeada de amigos em trajes de banho, nas últimas ela aparece posando, de lingerie, enrolada na cama e sentada sozinha em um sofá. O último namorado presente nas imagens, Aldo, é real, mas diversos dos romances que clicou ao longo do trabalho foram encenados com amigos. Tratava-se de uma tentativa de entender e retratar “como era se sentir desejada”.

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Desde que o trabalho se tornou popular na internet, Davis conta que recebe um apoio inesperado da mídia e de pessoas que lutam contra a imagem que tem de si mesmas. Agora, confiante com o novo corpo, sente-se menos inclinada a sacar a câmera que a ajudou a emagrecer: “Eu não quero mais fotografar isso, eu quero viver isso”.

11
set

O feminino na obra de Nina Leen

Retrato de Nina Leen

Diversas pautas de nosso blog foram sobre fotógrafos colaboradores da LIFE, um dos veículos de comunicação mais importantes do último século. Muitos deles utilizaram a imagem da mulher para ilustrar as mudanças comportamentais do período pós-guerra nos Estados Unidos, mas é difícil encontrar registros com a delicadeza, a elegância e o olhar cúmplice de Nina Leen (1909 – 1995), a primeira fotógrafa a trabalhar para a publicação.

Foto: Nina Leen

Foto: Nina Leen

Se ao longo da história o feminino muitas vezes foi usado para vender, e não apenas na fotografia publicitária, suas imagens parecem prestar um tributo sincero à beleza da mulher, resguardando uma doçura atemporal que sobrevive aos adereços e modos típicos de cada tempo.

Foto: Nina Leen

Foto: Nina Leen

Nascida na Rússia, Leen tem sua história envolta em uma aura de mistério: enquanto sua obra é ampla, informações sobre sua vida são escassas. Sabe-se que viveu na Alemanha, Itália e Suíça antes de se mudar para os Estados Unidos, onde se tornou a primeira mulher no gabaritado time de fotógrafos da LIFE. Pela publicação fez incontáveis reportagens, incluindo mais de cinquenta histórias de capa, e produziu 15 livros fotográficos. Seus principais assuntos eram mulheres  – crianças, adolescentes e adultas –, animais e The Irascibles, um grupo de artistas abstratos que incluía Jackson Pollock, Mark Rothko e Willem de Kooning.

Foto: Nina Leen

Foto: Nina Leen

Na interpretação de James Pomerantz para revista New Yorker, ainda que os temas de Leen pareçam tão cotidianos quanto mundanos (o que aparece em títulos como “um casal procurando por uma casa para comprar”, “crianças em uma festa de aniversário”) suas imagens têm nuances de violência, tensão e mistério típicas de um filme de David Lynch. Ao conferir seu trabalho exposto próximo à obra de Cindy Sherman em Nova Iorque, o crítico percebeu que, ao contrário de Sherman, Leen encontrou tensão no mundo real, e seus personagens não são atores, mas pessoas normais seguindo suas rotinas. Por outro lado, muitos acreditam que, além da iluminação e da composição bem elaboradas, a principal característica de tudo que Leen produziu com sua Rolleiflex era a alegria.

Foto: Nina Leen

Foto: Nina Leen

Mais do que com suas imagens repletas de símbolos da sociedade americana moderna, Leen encantava os leitores com fotografias de animais. Ela ganhou os corações do país com a série “Lucky”, sobre um filhote abandonado descoberto por funcionários da LIFE.

 

14
dez

Olivia Arthur, além do véu das mulheres orientais

Retrato de Olivia Arthur. Foto: Philipp Ebeling.

Nascida em 1980, a londrina Olivia Arthur é um dos mais recentes recrutamentos da Magnum. Com um trabalho focado nas mulheres do Oriente, revela com suas imagens aspectos dessas culturas nem tão conhecidos nos países ocidentais. Estudou Matemática na Universidade de Oxford e fotojornalismo na London College of Printing.

Foto: Olivia Arthur.

Foto: Olivia Arthur.

Ao completar o curso de um ano de fotojornalismo, Arthur partiu para Índia, onde de forma calma e meticulosa afinou o ofício que escolhera como profissão. Permaneceu em Nova Déli por dois anos e meio até mudar-se para a Itália, convidada para uma residência de um ano na Fabrica, estúdio de criatividade da Benetton de Oliviero Toscani. Além de assinar diversos trabalhos para a revista Colors, Olivia abriu uma galeria de fotos, a Fishbar, localizada em um restaurante vietnamita abandonado. “Foi um ótimo momento para mim, tive a oportunidade de trabalhar em algo mais substancial”, relembra. Nessa época, seu trabalho já revelava atenção aos contrastes entre Oriente e Ocidente, especialmente no que se refere aos costumes femininos. Com suas imagens, Arthur afirma, sempre pretendeu contar histórias. Por trabalhos publicados nessa época, recebeu os prêmios Inge Morath, National Media Museum e OjodePez-PhotoEspana.

Foto: Olivia Arthur.

Foto: Olivia Arthur.

Quando foi convidada para trabalhar na Arábia Saudita, abraçou a chance sem saber das dificuldades que enfrentaria nos meses iniciais. Até pouco tempo atrás, fotografar em público era ilegal na região. Sua presença só passou a ser encarada pelo povo com menos hostilidade quando os venceu no cansaço, tornando-se, ela e sua câmera, quase parte do cenário. As fotos que tirou nesse período estão reunidas no auto-publicado (sob o selo Fishbar) Jeddah Diary (2011), que já surgiu destinado a se tornar um item de colecionador.

Foto: Olivia Arthur.

Foto: Olivia Arthur.

“Todas as fotos que eu havia visto da Arábia eram de pequenas figuras negras caminhando pelas ruas, eu realmente queria fugir disso”, revela. Sua estratégia foi utilizar uma pequena câmera e mostrar as fotos às personagens. Ainda que mais relaxadas, elas permaneciam assustadas com a ideia de aparecerem, então o desafio se tornou encontrar uma maneira de esconder suas identidades sem que parecessem, nas palavras de Olivia, “fotos de criminosas”.

Foto: Olivia Arthur.

Foto: Olivia Arthur.

Atualmente, Arthur se restabeleceu em sua terra natal e trabalha para o jornal local The Hackney Gazette, além de realizar projetos pela Fishbar. Ainda assim, permanece visitando a Índia constantemente, com o patrocínio da fundação parisiense Jean-Luc Lagadere. Quando questionada sobre o por quê de, mesmo integrante do time da Magnum, optar por fotografar para um jornal local, dá em retorno outra pergunta, que sintetiza seu trabalho e seu método: “Por que razão as pessoas não se importariam com as pequenas histórias se são essas as que mais nos revelam sobre a maneira como as pessoas vivem?”.

Foto: Olivia Arthur.

Foto: Olivia Arthur.

19
out

Antropologia poética: Cristina García Rodero

Autorretrato de Cristina Garcia Rodero.

Nascida em 1949 em Puertollano, na Espanha, Cristina García Rodero é autora de importantes ensaios documentais e jornalísticos, valiosos por sua abordagem original, por sua veia antropológica e principalmente pela qualidade estética, responsável por torná-los mais do que meros registros. Pintora por formação, graduou-se na Universidade de Madri e se tornou professora. Por anos, a fotografia foi apenas um hobby: era somente em seu tempo livre que pesquisava e fotografava festas populares, religiosas e pagãs, ao redor da Espanha. O resultado desses anos de trabalho informal foi publicado em España Oculta (1989), que ganhou o prêmio “Book of the Year” no Arles Festival of Photography. A partir daí, Cristina tornou-se membro da Vu, onde está há mais de 15 anos, e, em 2009, integrou o time da Magnum, tornando-se a primeira fotógrafa espanhola da agência.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Fascinada por diferentes culturas, Rodero viaja o mundo para descobrir novos povos e suas tradições particulares. Durante quatro anos, foi diversas vezes ao Haiti, onde documentou romarias, orações e rituais de vudu, produzindo uma série de imagens extremamente expressivas. Publicadas em Rituals in Haiti (2001), exibido pela primeira vez em 2001, na Bienal de Veneza, são algumas dessas fotografias que ilustram este post.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Cristina também é autora do maior acervo fotográfico da Espanha. Em um repertório de mais de 200 mil fotografias, mostra sempre o espanhol como protagonista, ora de um local idealizado e tradicional, ora de cenários grotescos e assustadores. Os detalhes são sempre explorados de forma intuitiva, sem preconceitos ideológicos ou caráter político. Em suas palavras, o trabalho é fruto da tentativa de clicar o que há de verdadeiro, mágico e misterioso da alma popular na Espanha: “[...] os momentos mais intensos e mais amplos nas vidas desses personagens são tão simples quanto irresistíveis, com toda a sua força interior”.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Em entrevista à estudante Prakriti Bhanot, da Escola Internacional da Madri, Cristina falou sobre suas influências, afirmando que o francês Robert Doisneau é seu fotógrafo favorito, seguido por Henri Cartier-Bresson e William Klein. “Eles tiram as fotos do fundo do coração das crianças, pessoas e ruas”, define. À pedido da entrevistadora, a fotógrafa também deu um conselho aos jovens fotógrafos: saírem por seus países e conhecerem outros mundos, expondo-se ao inesperado e às diferenças. “Eles vão ver culturas e pessoas diversas e aprender que todos possuímos os mesmos anseios e medos, além de aprenderem mais sobre o que eles mesmos possuem. E o quanto estão perdendo”.

“Eu gosto de cores, bem como gosto de fotos em preto e branco. Cores adicionam sensualidade e felicidade. Em P&B, há um certo mistério porque é diferente da realidade. As cores nos distraem, e perdemos a profundidade”  Cristina García Rodero

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

5
out

As nuances de Tepito, por Adriana Zehbrauskas

Retrato de Adriana Zehbrauskas.

Nascida em São Paulo, Adriana Zehbrauskas é uma das mais importantes fotógrafas brasileiras. Formada em Comunicação – e em Linguística e Fonética pela Sorbonne, em Paris –, trabalhou no jornal Folha de São Paulo durante 11 anos, nos quais viajou extensivamente pelo Brasil e o mundo. Agora, mora na Cidade do Mexico, onde trabalha como freelancer e contribui regularmente para importantes veículos, como The Guardian e The New York Times. São as imagens de um de seus mais importantes e recentes ensaios feitos por lá, Tepito (2011), que ilustram este post.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Localizado no coração da Cidade do México, Tepito concentra em dez quarteirões milhares de contradições. Formando um mosaico de cores gritantes, comércio, crime, vendedores ambulantes, traficantes e cidadãos comuns disputam espaço em ruas estreitas e de leis próprias. Conhecido como “Barrio Bravo”, o local possui uma longa tradição de desafio à autoridade e péssima reputação por conta de seus altos índices de violência. É considerado, para muitos, um mundo à parte, caótico e sem leis – e costumam dizer que os moradores de lá têm mais dificuldade em conseguir empregos. De forma clara, crua e com extrema definição, as imagens de Zehbrauskas revisitam seus personagens e cenários de forma extremamente próxima, quase íntima, penetrando em um mundo onde forasteiros costumam dificuldade de entrar.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas..

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Para inúmeros moradores de outros cantos da cidade, trata-se da visão do inferno. Um bairro onde a pirataria é tão comum que o próprio conceito de autenticidade parece sem sentido; onde entregas de drogas são feitas por meninos que fumam charutos e apenas um tipo de policial é temido: o honesto. Além de captar esse segmento mais gritante da essência de Tepito, as imagens de Zehbrauskas retratam lados menos conhecidos da vizinhança. Gerações nascidas e criadas no local ainda apresentam orgulhosos vestígios de um tempo em que tudo era diferente. Durante muitos anos, ainda sem alto influxo de traficantes e outros criminosos, Tepito era uma comunidade conhecida por características bem diferentes das que chamam a atenção hoje em dia. Sua comunidade era intensamente unida, amiga e trabalhadora. Clubes esportivos, igrejas e galerias de arte de outrora que ainda resistem representam o que resta dessa era.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Em seus cliques, Zehbrauskas capta, também, um dos mais fortes elementos sociais da vida cotidiana no local: a religião. Por lá, crenças católicas tradicionais cedem espaço ao poderoso culto da Santa Muerte, esqueleto feminino macabro cujas origens remetem à era pré-colombiana do México. Adorada tanto por membros do crime organizado quanto por cidadãos comuns, é a ela que os moradores oram. Seja pela recuperação de pertences roubados, da saúde ou de familiares sequestrados.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

13
fev

A história de uma contadora de histórias

Gertrude Käsebier self-portrait, 1899.

Nascida em 1852, Gertrude Käsebier foi uma das mais influentes fotógrafas estado-unidenses do século 20. Tornou-se conhecida pela forma como abordou a maternidade, por seus poderosos retratos dos índios norte-americanos e por seu esforço em promover a fotografia como um carreira para mulheres.

The girl in the red velvet swing, 1901. Foto: Gertrude Käsebier.

Filha de família rica, viu sua situação financeira piorar após a súbita morte do pai, aos 14 anos. Assim, mudou-se para Nova Iorque onde sua mãe abriu uma pensão para sustentar os filhos. Quando completou 22 anos, casou-se com Eduard Käsabier, um homem de negócios com quem mudou-se para Nova Jersey e teve três filhos.

Newport Laundress, 1902. Foto: Gertrude Käsebier.

Käsabier não se dava bem com o marido e, embora infeliz, recusava-se a se divorciar — atitude que, na época, era considerada um escândalo. Essa situação melancólica serviu de inspiração para muitas de suas imagens, em especial uma, Yoked and Muzzled – Marriage (1915), algo como “acoplados e amordaçados – casamento”. Mesmo com suas diferenças, o esposo a apoiou financeiramente quando ela decidiu cursar Arte, já com 37 anos.

Yoked and Muzzled - Marriage, 1915. Fot: Gertrude Käsebier.

Mas foi sob protestos do marido que ela voltou a morar com a família no Brooklyn para estudar em turno integral no Pratt Institute of Art and Design. Nessa época, foi influenciada pelas ideias de Friedrich Fröbel, um estudioso que defendia a importância da maternidade no desenvolvimento das crianças. Suas imagens, mais tarde, enfatizariam o vínculo entre mãe e filho.

The Manger, 1899. Foto: Gertrude Käsebier.

Mesmo estudante de desenho e pintura, Gertrude tornou-se obcecada com a fotografia. Como muitos estudantes, viajou para Europa para dar continuidade à sua educação — com a diferença de que levou as duas filhas mais novas consigo. Após estudar química fotográfica na Alemanha, retornou ao Brooklyn: seu marido estava doente e as finanças da família iam mal. Decidiu, então, tornar-se fotógrafa profissional.

Lollipops, Waban, Mass, 1910. Foto: Gertrude Käsebier.

Um ano depois da decisão, passou a trabalhar como assistente do fotógrafo Samuel H. Lifshey, responsável por expandir seu conhecimento em técnicas de impressão. Em apenas um ano, ela exibiu 150 de suas fotografias no clube da câmera Boston, um número enorme para um artista individual. O sucesso levou sua mostra a outros lugares, como a Sociedade Fotográfica de Filadélfia. Ela também passou a realizar palestras sobre seu trabalho, encorajando outras mulheres a construírem uma carreira em fotografia.

Ruffles and Flourishes, 1906. Foto: Gertrude Käsebier.

Em 1890, soube que cowboys, índios e outros personagens típicos do oeste dos Estados Unidos estavam em Nova Iorque para um espetáculo chamado Buffalo Bill’s Wild West. Quando assistiu, ficou encantada com a fisionomia dos nativos americanos, o que lhe rendeu seu ensaio mais famoso e o desenvolvimento de uma de suas principais características como fotógrafa: o foco nos traços do rosto e na estatura dos personagens clicados.

Amos Two Bulls, Oglala Lakota Sioux, 1900. Foto: Gertrude Käsebier.

Depois de construir uma sólida trajetória profissional — que se fortaleceu após o falecimento de seu marido, em 1910 —, Käsabier passou a trabalhar como retratista de importantes figuras da época. Em 1929, mesmo ano em que realizou uma imensa exposição no Booklyn Institute of Arts and Sciences, desistiu da fotografia e liquidou todos os equipamentos de seu estúdio. Faleceu em 1934, na casa de sua filha Hermione, também fotógrafa.