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Posts tagged ‘fotógrafa’

2
fev

Dias de noite – noites de dia, por Elena Chernyshova

Retrato de Elena Chernyshova

Mais de 250 dias por ano com ruas cobertas pela neve. Temperaturas que chegam a -50°C no inverno. Para completar, entre dezembro e meados de janeiro, a noite polar: período no qual o sol não cruza a linha do horizonte. Com uma população de aproximadamente 175 mil habitantes, Norilsk está situada na Sibéria, cerca de 240 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico. O cotidiano dessa cidade fabril – uma das dez mais poluídas do mundo – é apresentado pela fotógrafa russa Elena Chernyshova na série Days of Night – Nights of Day [Dias de noite – noites de dia].

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

“Por dez anos, minha mãe viveu em Chukotka (no extremo nordeste da Rússia), em uma pequena cidade ao norte do Círculo Polar. Quando criança, eu era fascinada pelas suas histórias a respeito da noite e do dia polares, das luzes do norte, das temperaturas que chegavam aos 60 graus negativos, da neve cintilante e da comida seca ou em pó. Essas condições soavam totalmente inusitadas, pareciam ter origem em um conto de fadas”, conta Elena em entrevista a National Geographic. “Cinco anos atrás conheci uma garota de Norilsk. Suas histórias despertaram novamente minha curiosidade. Dali em diante já não sabia dizer se queria contar uma história sobre a adaptação das pessoas ao ambiente hostil do norte, ou sobre a própria Norilsk. Elas eram inseparáveis”, explica a fotógrafa.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Fundada em 1935, Norilsk está situada em uma região de solo rico em minérios, tais como níquel, cobalto, platina e paládio. A cidade tem um dos maiores complexos de mineração e metalurgia do mundo. Foi um gulag soviético até 1956 – durante esse período, estima-se que cerca de 17 mil pessoas tenham morrido nas minas e na construção da cidade, enfrentando frio intenso, fome e trabalhos forçados. Ainda hoje os trabalhadores sofrem com a poluição – são observados elevados índices de câncer, doenças pulmonares, desordens sanguíneas e de pele, além de inúmeros casos de depressão.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

A quantidade de dióxido de enxofre é tão alta que exterminou a vegetação em um raio de aproximadamente 30 quilômetros. Numa tentativa de compensar as condições insalubres, com 60% da população trabalhando na indústria, há 90 feriados oficiais por ano. Além disso, é oferecida a aposentadoria aos 45 anos de idade.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

“Queria mostrar as particularidades dessa cidade: isolamento, condições climáticas extremas, a noite polar, sua origem, a arquitetura, suas dimensões imensas e o cotidiano dos seus habitantes. Também procurei mostrar a catástrofe ambiental e a domesticação desse ambiente”, diz Elena, que viveu oito meses em Norilsk, divididos em três estadas da fotógrafa, entre 2012 e 2013.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Vencedora do terceiro prêmio da categoria “Daily Life” do World Press Photo 2014, a série mostra também os momentos de ócio dos habitantes de Norilsk. Piscinas abertas no gelo são frequentadas pela população. Depois dos banhos, pelo costume local, as pessoas vão se esquentar em saunas. No curto período de calor – que pode chegar à casa dos 30 graus – também é comum se deitar ao sol.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Nascida em Moscou (1981), Elena Chernyshova vive na França. Iniciou seu interesse por fotografia no período em que estudou e trabalhou com arquitetura. Depois de dois anos atuando como arquiteta, deixou o trabalho e viajou de bicicleta de Toulouse (França) a Vladivostok (Rússia) – uma viagem de ida e volta, que totalizou 30 mil quilômetros e 26 países percorridos, ao longo de 1.004 dias, e que ajudou Elena a decidir se tornar fotógrafa. Seus trabalhos são publicados em importantes periódicos internacionais, como National Geographic e Le Monde.

20
mar

Os corpos e o claro-escuro de Maureen Bisilliat

 

 

O interesse pelas formas do corpo humano, pela interação entre textos e imagens e pela cultura brasileira são alguns dos eixos principais da poética da fotógrafa Maureen Bisilliat. Nascida em 1931, na Inglaterra, e com formação ligada à pintura, Maureen mudou-se para São Paulo em 1957, onde desenvolveu uma vasta produção fotográfica. No post de hoje, apresentamos o ensaio Pele Preta, primeiro trabalho seu a se tornar público, exposto no Museu de Arte Moderna da capital paulista em 1966.

 

 

 

“O corpo humano, minha porta de entrada na pintura, acabou por levar-me à fotografia.” A frase de Maureen, uma de suas declarações mais conhecidas, ajuda a entender seu trabalho fotográfico. Nos movimentos, anatomias e rostos captados, percebe-se forte influência da pintura, especialmente nas fotografias em preto e branco.

 

 

 

Diversos ensaios da fotógrafa apresentam imagens acompanhadas de textos de autores como Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, que inspiraram a fotógrafa a investigar figuras humanas de diversas regiões do país.

 

 

 

Em texto do curador do Instituto Moreira Salles Sergio Burgi, Maureen comenta sua afeição pelas palavras: “Aprecio imagens aliadas à escrita, frases escolhidas definindo melodicamente a linha da orquestração. Em livros como os de Diane Arbus e Nan Goldin há essa orquestração: ritmos, silêncios, acordes, vazios. A palavra, escolhida da produção literária ou pinçada do testemunho biográfico, vem da fala íntima da pessoa, destilada. Seria quase como escrever com a imagem e ver com a palavra.”

 

 

 

Nascida em Englefieldgreen (Surrey, Inglaterra), em 1931, Sheila Maureen Bisilliat estudou pintura em Paris e Nova York antes de viver no Brasil. De 1964 a 1972 trabalhou para a revista Realidade, da Editora Abril. Em 1985, expôs na 18a Bienal de São Paulo um ensaio inspirado no livro O turista aprendiz, de Mário de Andrade – uma de suas tantas incursões pela literatura brasileira. Sua obra completa – mais de 16 mil imagens – integra o acervo do Instituto Moreira Salles.

 

6
mar

Nina Leen: a moda no pós-Guerra dos Estados Unidos

 

 

Com sua câmera Rolleiflex, a fotógrafa russa Nina Leen contribuiu com a Life ao longo de mais de 30 anos, de 1940 até o fim da revista, em 1972. Conhecida como “uma das primeiras mulheres” a integrar o staff do periódico, Nina, no entanto, não fazia parte do time oficial da publicação. Ainda assim, teve a oportunidade de desenvolver uma vasta produção de imagens, desde fotos curiosas de animais até retratos de artistas como Jackson Pollock e Mark Rothko. Também concebeu uma série de editoriais de moda – trazemos alguns exemplos dessa faceta da fotógrafa no post de hoje.

 

 

Nascida entre 1909 e 1914 na Rússia (Nina não revelava a idade), a fotógrafa viveu na Itália, na Suíça e na Alemanha. Estudou pintura em Berlim e, em 1939, emigrou para os Estados Unidos, onde ganharia notoriedade.

 

 

Em 1940, vivendo há cerca de um ano na América, Nina publicou suas primeiras fotos na Life, que retratavam tartarugas do zoológico do Bronx, em Nova York. Assim começava sua trajetória como colaboradora da revista. Nos editoriais de moda que produziu, chamam atenção o cuidado com a composição e a sutileza no registro dos movimentos das modelos.

 

 

Nas décadas que se seguiram, a fotógrafa assinou mais de 50 capas da publicação. O envolvimento de Nina com a revista resultou no casamento com o fotógrafo de moda da Life Serge Balkin.

 

 

Entre os principais reconhecimentos do trabalho da fotógrafa está a inclusão de duas fotos na exposição itinerante The Family of Man, de Edward Steichen – projeto ambicioso, composto por centenas de imagens obtidas em diversos países, que buscava apresentar a experiência humana na Terra. Nina faleceu em 1995, em Nova York, deixando como legado um dos mais importantes olhares do período pós-Guerra nos Estados Unidos.