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Posts tagged ‘cor’

23
mar

10 coisas que Alex Webb pode ensinar sobre Fotografia de Rua

Retrato de Alex Webb

Membro pleno da Magnum desde 1979, Alex Webb (1952) é um fotógrafo de rua americano que, depois de iniciar a carreira de forma bem sucedida em P&B, passou a utilizar cores, luzes e emoções para captar imagens tão belas quanto complexas. Depois de ler e ver o livro-coletânea de seus 30 anos de carreira The Suffering of Light (“o sofrimento da luz”, em tradução literal), o também fotógrafo de rua Eric Kim apaixonou-se por seu trabalho e selecionou as 10 principais lições que aprendeu com a obra, lista que aprovamos, traduzimos e editamos. Confira:

1. Crie camadas em suas fotografias

Profundidade de campo é um elemento forte na obra de Webb. Em muitas de suas fotos, há um plano forte, com assuntos mais próximos da lente, outros mais perto da parte inferior do frame e um fundo marcado pela nitidez. O melhor dessa característica, para Eric, é que ela integra o espectador ao quadro: é possível fazer parte da cena, ver o que o fotógrafo vê.

Foto: Alex Webb

2. Preencha o quadro

“Não é só aquilo, aquilo e aquilo que existe. É aquilo, aquilo, aquilo e aquilo que existem em um mesmo frame. Estou sempre à procura de algo mais. Se você integra em demasia, talvez isso se torne um caos total. Estou sempre jogando nessa linha: adicionando elementos a mais, mas mantendo apenas uma espécie de caos ”Alex Webb

Se Eric pudesse resumir alguns dos mais famosos trabalhos de Webb, o faria com a expressão “caos ordenado”: “ele frequentemente preenche frames com tantos assuntos que a foto quase parece poluída. Ainda assim, muitos dos elementos que adiciona nas imagens não se sobrepõem. Há várias pequenas interações em um mesmo quadro, o que torna possível que se conte diversas histórias em um só frame”, observa. A dica para conseguir esse feito é tentar adicionar elementos, com paciência e esperando os personagens retratados interagirem, mas confiar na intuição quando sentir que se chegou a um limite. Deve haver um equilíbrio das sobreposições, das sombras e das luzes.

Foto: Alex Webb

3. Caminhe. Muito.

“Eu só sei como abordar um lugar caminhando. Porque é o que um fotógrafo de rua faz: caminhar, observar, esperar, falar e aí observar e esperar mais um pouco, tentando se manter confiante de que o inesperado, o desconhecido, o coração secreto do que conhecemos nos  espera ao virar a esquina.”

A única maneira de fazer boas fotografias de rua é fotografando nas ruas. Quando fazemos isso, nos abrimos para muitas oportunidades, além de termos a experiência de, de fato, sentirmos a atmosfera de um lugar. Um bom exercício, Eric aconselha, é andar sempre com sua câmera e optar por ir caminhando a lugares e compromissos sempre que possível.

Foto: Alex Webb

4. Procure a luz

Não foi por acaso que a obra que reúne imagens assinadas por Webb nos últimos 30 anos ganhou o título de “The Suffering of Light”. Ele remete a uma frase de Johann Wolfgang Von Goethe, “as cores são as obras e o sofrimento da luz”. Webb explica que mesmo sem ser filósofo ou cientista, sente que um aspecto da teoria das cores de Goethe é o fato de que ele sentia que a cor tinha origem na tensão entre a luz e a escuridão. Assim, Webb busca sempre pensar na mensagem e no significado que cada tom transmite, o que se aplica bem em suas constantes abordagens da tensão entre zonas fronteiriças. A luz assumiu um papel fundamental, por exemplo, em seus dois trabalhos sobre Istambul, um marco divisório entre Oriente e Ocidente marcado pelas nuances coloridas de diversas culturas. O conselho de Webb para conseguir a luz adequada para registrar essas tonalidades é fotografar sempre nos bons horários, o início e o fim do dia.

Foto: Alex Webb

5. Perceba que 99,9% da fotografia de rua é fracasso

“A sorte, ou talvez o acaso, desempenha um grande papel, mas você nunca sabe o que vai acontecer. E o mais empolgante é quando algo totalmente inesperado acontece e você está lá, no lugar certo e na hora certa, e pressiona o botão no momento exato. Na maioria das vezes, não funciona dessa maneira. Esse tipo de fotografia é 99,9% fracasso.”

Mesmo que afirme que a fotografia de rua se trata majoritariamente de fracasso, Webb tem uma carreira notória e um portfólio repleto de “instantes decisivos” impressionantes. O segredo, de acordo com ele, é o domínio técnico e a prática. Isso remete a uma frase presente no texto “Aprender fotografia por quê?”, do Catálogo de Cursos do Centro de Fotografia da ESPM-Sul: “Só quem viveu o desgosto de ter feito uma foto banal de algo extraordinário, ou já se encantou com a situação inversa, sabe que a possibilidade dessa quebra de expectativa é o que transforma a câmera fotográfica em uma ‘caixa preta’ cheia de surpresas”.

Foto: Alex Webb

6. Dedique-se a projetos

“A maioria dos meus projetos parece começar como viagens exploratórias sem fim visível à vista.”

Trabalhar em projetos é uma bela forma de abordar a fotografia de rua por dar ao aspirante direção, propósito a possibilidade de criar uma narrativa. No entanto, nem sempre é fácil. Não é possível saber ao certo quanto tempo eles vão levar, o que iremos (ou até mesmo o que queremos) fotografar. O conselho de Webb para isso é saber que “diferentes projetos parecem ter diferentes arcos de conclusão”. O mais importante é pensar em si mesmo antes de escolher um objetivo e ir aos lugares escolhidos sempre com a mente aberta para possibilidades inesperadas.

Foto: Alex Webb

7. Se você está preso, tente algo novo

Até 1975, Webb fotografava apenas em preto e branco. Em um projeto sobre cenários americanos nas ruas de Nova Iorque e Nova Inglaterra, viu-se encurralado: mesmo conseguindo fotos boas, sentiu que não estava chegando a nenhum lugar novo. “Parecia que estava explorando o território que outros fotógrafos já haviam descoberto, como Lee Friedlander e Charles Harbutt”, relembra. Após essa constatação, Webb ingressou em um projeto no Haiti que o transformou, influenciando-o a começar a trabalhar com cores.

A dica, então, é evitar o marasmo quando não se está feliz. Costuma trabalhar em preto e branco? Tente cores. É adepto das câmeras digitais? Aventure-se no filme. Eric afirma que experimentou o suficiente diferentes abordagens e temáticas até se sentir seguro na fotografia de rua.

Foto: Alex Webb

8. Siga sua obsessão.

Para Alex Webb, mesmo que as dúvidas sempre existam, seguir sua obsessão é algo importante para se tornar um bom profissional. Para que tudo dê certo, é necessário levar a fotografia à sério –  é só assim que o trabalho duro supera os anseios. Ter projetos, conhecer e conversar com outros fotógrafos, buscar referências, ler livros sobre técnica, tudo isso ajuda o aspirante a se focar por completo, e colher os frutos desse esforço, na fotografia.

Foto: Alex Webb

9. Capture a emoção de um lugar

Para Webb, as diferentes tonalidades dizem respeito à atmosfera, à emoção, à sensação de um lugar, e fotografar em cores é uma bela forma de capturara o humor e o clima dos assuntos. Assim, vale pensar em como as cores presentes em uma cena podem adicionar significado às fotografias antes de disparar.

Foi em sua viagem ao Haiti que Webb percebeu que as intensas e vibrantes cores daquele mundo deveriam ser levadas em conta em suas fotos. Esse brilho, até então inédito para ele autoralmente, o ajudou a incorporar nos cliques a alma das culturas que estava retratando.

Foto: Alex Webb

10. Viaje

Webb enfatiza como sua primeira viagem ao Haiti transformou seu modo de ver o mundo, o que teve uma influência determinante em sua produção. “Eu fotografei uma espécie de mundo que nunca tinha experimentado antes”, recorda, “um mundo de vibração emocional e intensidade: cru, desarticulado e muitas vezes trágico”. Descontextualizar-se, ter acesso a outras formas de viver, é algo que ajuda os fotógrafos que buscam o afamado e necessário aprimoramento do olhar.

Foto: Alex Webb

15
set

Sindhur Reddy: o ouro de Thaipusam

 

 

No post de hoje apresentamos o ensaio Alchemy [Alquimia], do fotógrafo indiano Sindhur Reddy. As imagens da série foram obtidas no festival hindu Thaipusam, no estado de Tamilnadu, na Índia. O nome Thaipusam reúne o nome de um mês (Thai) com o nome de uma estrela (Pusam) – quando esta se encontra em seu ponto mais alto no céu, é realizada a celebração.

 

 

 

 

Sindhur buscou retratar a presença do ouro, considerado um elemento de cura, na caracterização dos participantes do festival. “De acordo com a mitologia indiana, o ouro significa energia, compaixão, confidência e magnetismo”, explica o fotógrafo.

 

 

 

 

O título alquímico se refere às transformações de elementos necessárias para se obter o ouro, bem como a seu poder de misturar-se com as cores – presentes em profusão no festival. Embora visto em comunhão com os corpos e as tonalidades das pinturas, pelo olhar de Sindhur o ouro segue sustentando sua nobreza e protagonismo.

 

 

 

 

13
mar

O cotidiano abstrato de Saul Leiter

 

Em uma frase, o fotógrafo da Magnum Alex Webb sintetiza a produção fotográfica de Saul Leiter: “…uma excepcional habilidade para extrair situações complexas da vida cotidiana, imagens que ecoam a abstração da pintura e que, simultaneamente, retratam o mundo de forma límpida.” No post de hoje, apresentamos um pouco desse olhar, que mescla simplicidade e sofisticação em imagens que sempre desafiam a interpretação de quem as observa.

 

 

 

O comentário de Webb, publicado no obituário da revista The New Yorker (após o falecimento de Leiter, em 2013), reúne palavras que à primeira vista podem soar contraditórias: complexidade e forma límpida, abstração e cotidiano. Mas se analisarmos as imagens, logo percebemos a capacidade do fotógrafo de articular esses conceitos em sua poética.

 

 

 

É como se Leiter lançasse pistas para o espectador – não à toa os reflexos são um elemento recorrente em suas fotografias, bem como silhuetas e transparências.

 

 

 

Nascido em Pittsburgh (Pensilvânia, EUA), Saul Leiter iniciou sua carreira nos anos 1940, nas ruas de Nova York. Na década seguinte, teve seu trabalho reconhecido por Edward Steichen, quem o incluiu em exposições do MoMa na década de 1950. Leiter tornou-se um importante fotógrafo de moda, mantendo em paralelo sua dedicação à fotografia de rua. Somente nos anos 1990 sua produção de imagens em cores ganhou maior notoriedade – grande parte dela era guardada por Leiter, sem vir a público.

 

 

21
mai

As relações entre luz e cor

Foto: Schari Kozak

Os alunos do Curso Anual de Fotografia da ESPM-Sul tiveram no último sábado a aula de Cor, ministrada pelo professor Edy Kolts. A disciplina do Módulo de Formação resgata descobertas da Física relacionadas à óptica para proporcionar um conhecimento aprofundado sobre as relações entre as cores e a luz, além de abordar as diferentes ferramentas utilizadas para o balanço de cor.

Foto: Schari Kozak

O professor chamou a atenção para o processo que leva o cérebro a perceber as cores nos objetos ao nosso redor. Cada superfície absorve certas frequências e reflete outras. Portanto, a luz e a interpretação da nossa visão condicionam as cores que percebemos, e não o objeto por si só. Para entender melhor, vale retomar alguns momentos históricos do estudo sobre as cores, a começar pelas descobertas de Isaac Newton, que demonstraram como a luz branca é composta por várias cores. Mais tarde, os resultados dos experimentos de Newton seriam retomados por cientistas como Thomas Young e Hermann Helmholtz, que possibilitaram novos conhecimentos sobre as cores primárias e os receptores do olho humano.

Foto: Schari Kozak

A aula ainda tratou de temas como a temperatura de cor, medida em graus Kelvin, e a importância dessa escala para realizar o balanço de cor das fotografias. Esse trabalho pode ser feito de formas variadas: com acessórios usados nos equipamentos de iluminação, na escolha de uma determinada modalidade de balanço oferecida pela câmera, em um laboratório ou ainda por meio dos softwares para tratamento de imagens.

Foto: Schari Kozak

A escala RGB, dividida em 256 níveis tonais, o sistema aditivo – a partir das cores vermelho, verde e azul – e o subtrativo – a partir das cores amarelo, ciano e magenta – também foram apresentados na aula de Kolts. De qualquer forma, esses conhecimentos acabam sempre remontando à percepção da luz e de suas características. “Quando dominamos a luz, passamos a dominar a cor”, explica o professor.

6
set

Luiz Braga: visão noturna à luz do dia

Retrato de Luiz Braga

O fotodocumentarista paranaense Luiz Braga é celebrado pela forma colorida com que retratou as pessoas e paisagens da região amazônica. Em 2012, somando mais de 35 anos de estrada, abandonou momentaneamente a abundância de tons para explorar novas possibilidades de forma, o que resultou no ensaio Nightvisions, que ilustra este post. Para a série, utilizou-se da radiação infravermelha para fotografia noturna, criando imagens esverdeadas e subvertendo a cor. Uma de suas inspirações, de acordo com o próprio, foi a aplicação militar do recurso durante a Guerra do Golfo, em 1991.

Foto: Luiz Braga

Foto: Luiz Braga

Foto: Luiz Braga

Foto: Luiz Braga

Até então, Braga era um fiel adepto da fotografia analógica, celebrado pelo marcante uso de cores em suas fotos. Com a primeira câmera digital adquirida em 2004, descobriu esse recurso para fotografar quase no escuro total, simples e muito utilizado por amadores. Ao explorar o infravermelho nas cenas noturnas, decidiu aprofundar a pesquisa e experimentá-lo na luz do dia, o que deu origem ao trabalho. Monocromática, a série se opõe à saturação tantas vezes comum na fotografia digital: os elementos perdem suas cores naturais e são preenchidos por uma luz densa que parece emanar dos pontos claros que compõem a cena.

Foto: Luiz Braga

Foto: Luiz Braga

Foto: Luiz Braga

Foto: Luiz Braga

Luiz Braga nasceu em Belém do Pará em 1956. Como é comum na história de diversos fotógrafos, ganhou sua primeira câmera aos 11 anos e manifestou imediato interesse pela prática. Em 1975, mesmo ano em que entrou na Universidade Federal do Pará, onde formou-se em Arquitetura, montou um pequeno estúdio e passou a trabalhar com fotografias urbanas e publicitárias, além de retratos. Durante a graduação, frequentou o Fotoclube do Pará, colaborou para O Estado de São Paulo e criou o tabloide Zeppelin, onde trabalhava como editor e fotógrafo.  Foi nos anos 1980, depois de fazer parte do projeto Visualidade Popular na Amazônia, da Funarte, que passou a utilizar a cor para ressaltar a riqueza visual da população e das paisagens locais.

Foto: Luiz Braga

Foto: Luiz Braga

Foto: Luiz Braga

Foto: Luiz Braga

A forma distante de estereótipos com que retratou a cultura amazônica o rendeu prêmios como o Leopold Godowsky Color Photography Award, da Universidade de Boston (EUA). Também recebeu a Bolsa Vitae de Fotografia para realiza o trabalho Amazônia Intimista. Em 2003, recebeu o Prêmio Porto Seguro Brasil e foi homenageado no XXI Salão Arte Pará.

28
ago

Larry Burrows: registros inequívocos do inferno

Retrato de Larry Burrows.

Embora a história da fotografia mundial esteja relacionada a coberturas em zonas de perigo, guerras costumam causar trágicas perdas para o fotojornalismo. Na Guerra do Vietnã, com a liberdade e a mobilidade dos profissionais comprometida pelas características do embate, mais de 120 fotojornalistas morreram em trabalho. Um deles protagoniza este post e foi um dos principais responsáveis para que a opinião pública tomasse conhecimento do que se passava. Na primavera de 1965, três mil e quinhentos fuzileiros navais americanos chegaram no Vietnã. A experiência do dia-a-dia das tropas no solo e no ar, com a tensão da guerra sendo potencializada rapidamente, foi narrada por um fotógrafo britânico de 39 anos chamado Larry Burrows (1926 – 1971) na revista LIFE. Com imagens definidas pela publicação como “uma combinação de intensidade crua e brilhantismo técnico”, tornou-se admirado tanto por suas fotografias quanto por sua coragem no front.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

Burrows entrou na fotografia aos 16 anos durante a Segunda Guerra Mundial. Deixou a escola para trabalhar como laboratorialista e “multi-tarefas” o escritório da LIFE em Londres, sua cidade natal. Pela publicação, foi enviado ao Vietnã, onde permaneceu de 1962 a 1971, quando morreu após o helicóptero em que viajava com mais três fotojornalistas (Henri Huet, Kent Potter e Keisaburo Shimamoto) ser derrubado em Laos. Um de seus ensaios mais famosos é “One Ride with Yankee Papa 13”, publicado em abril de 1965, mas todas as imagens que ilustram este post foram registradas em 1966. Entre elas está outro de seus mais icônicos registros, “Reaching Out”, abaixo.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

Em outubro de 1966, em um monte coberto de lama ao sul da “Zona Desmilitarizada” (DMZ), no Vietnã, Burrows fez uma fotografia que por gerações serve como uma ilustração permanente e lancinante dos horrores inerentes às guerras. Na imagem, um fuzileiro naval ferido (o sargento da artilharia Jeremias Purdie, com uma bandagem manchada de sangue na cabeça), parece desesperado em frente a um companheiro ferido. No quadro, há ternura e terror, desolação e companheirismo. Nos arredores, troncos irregulares, já atingidos por projéteis de artilharia e fogos de rifles, figuras humanas distorcidas por feridas, capacetes, coletes à prova de balas e curativos. Mas o elemento mais insuportável do quadro é, talvez, a naturalidade dos jovens americanos ali reunidos na sequência de um tiroteio,  milhares de quilômetros distantes de suas casas.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

Em 2002, o livro póstumo de Burrows, Larry Burrows: Vietnam (2002), ganhou o prêmio Nadar Prix. Na época do acidente, os fotógrafos cobriam a Operação Lam Son 719, uma invasão massiva e blindada por forças sul-vietnamitas contra o Exército Popular do Vietnã e o Pathet Lao, um movimento político, nacionalista e comunista organizado no Laos no meio do século XX.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

17
jul

Annie Collinge, entre o infantil e o sombrio

Autorretrato de Annie Collinge.

“Meu trabalho geralmente é sobre um tema comum, sombrio e sem humor, que contrasta com a cor intensa. É este conflito que busco representar”.

A inglesa Annie Collinge tem se destacado no meio artístico pela originalidade de suas fotografias que exploram a riqueza de cores em cada cenário. A fotógrafa compõe imagens onde o divertido confunde-se com o bizarro, cujo contraste mencionado por ela aparece, também, nos personagens excêntricos que protagonizam cenas surreais. “Meu estilo vem dos livros que li quando criança. Conforme fui crescendo, percebi quanto impacto suas ilustrações tiveram sobre mim”.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Annie nasceu em Londres, em 1980. Estudou na escola de artes e design Central Saint Martins e na Universidade de Brighton. Aos 17 anos, começou a trabalhar como assistente de fotografia. Em 2008 mudou-se para Nova Iorque e passou a fotografar para o jornal The Independent e para as revistas Sunday Times e Vice. Nessa época, Annie incluiu em seu portfolio retratos de celebridades e ensaios de moda, mas o contrato com esses veículos serviram, na verdade, para financiar projetos autorais – o viés mais expressivo do trabalho da artista.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

O que despertou o interesse de Annie pela fotografia, num primeiro momento, foi o processo de revelação das fotos – mergulhar o papel em uma bacia com químicos e esperar para ver o que surge. Quando morava com os pais, ela mantinha um laboratório fotográfico no porão da casa, onde revelava as imagens captadas em preto-e-branco. Mais tarde, quando começou a utilizar o filme colorido, os tons saturados tornaram-se um dos principais elementos da composição, presentes em tecidos florais, fantasias e adornos que tornam cômicos objetos e personagens descritos em uma atmosfera sombria. As imagens da artista são iluminadas apenas com luz natural, na intenção de aproximar as fotografias do cotidiano, como se o que ela representasse fosse completamente normal.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Apesar de Annie ter abordado temas tão variados como retratos, paisagens e naturezas mortas, seu apreço maior é pela fotografia de moda. Lamenta, no entanto, que seja mal explorada – segundo ela, o que os fotógrafos fazem hoje é “jogar modelos em estúdios brancos”. Ela considera ser essa “uma das veias mais criativas da fotografia”.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

13
mar

O olhar fotojornalístico de Carl de Keyzer

Retrato de Carl de Keyzer. Foto: Filip Meutermans.

Nascido em janeiro de 1958 em Kortrijk, na Bélgica, Carl de Keyzer é um fotógrafo contemporâneo membro da agência Magnum – foi indicado pela primeira vez em 1990, tornando-se integrante pleno em 1994. Seu estilo independe de imagens isoladas: ao invés delas, prefere um acúmulo de fotografias que permita um diálogo com o texto. Este, por sua vez, costuma sair de seus próprios diários de viagem.

Foto: Carl de Keyzer.

Foto: Carl de Keyzer.

De Keyzer começou sua carreira como fotógrafo freelancer em 1982, quando sua renda fixa provinha de um trabalho como instrutor de fotografia na Royal Academy of Fine Arts, em Ghent. Na mesma época, tornou-se cofundador e codiretor da XYZ-Photography Gallery. Desde que se consolidou como fotojornalista, investe em projetos longos, em grande escala, e temas gerais. Uma premissa básica da maior parte de seu trabalho é o colapso infra-estrutural de comunidades superpovoadas. Entre seus principais assuntos estão o declínio da União Soviética e a Índia. Alguns de seus diversos livros publicados são India (1987), Homo Sovieticus (1989), God, Inc. (1992), East of Eden (1996), EVROPA (2000), ZONA (2003), Trinity (2007), Congo (Belge) (2010) e Moments Before the Flood (2012).

Foto: Carl de Keyzer.

Foto: Carl de Keyzer.

Um ensaio de grande impacto, e que possui várias imagens contempladas nesta postagem, é Zona (2003), que retrata de forma íntima a rotina das prisões siberianas. Ainda que elas já estejam distantes dos Gulags de outrora, possuem mais de um milhão de presos, o que inclui jovens servindo por três anos por roubarem dois ramsters e uma mãe de cinco filhos condenada a quatro por esconder couves na bolsa. Com dois coronéis ao seu lado, um à esquerda e outro à direita, De Keyzer fotografou o que foi autorizado a ver – e nada mais. Vale citar que ao invés das imagens em preto e branco comuns em seu portfólio documental, optou por cores esmaecidas, tendo como resultado imagens com uma atmosfera de sonho.

Foto: Carl de Keyzer.

Foto: Carl de Keyzer.

Com exibições regulares em galerias e museus europeus, é representado em diversas mostras permanentes, o que inclui o Museum of Contemporary Art de Ghent, a Fnac Collection de Paris e Centro de Arte de Salamanca. Entre seus diversos prêmios constam Les Rencontres d’Arles Book Award, Hasselblad Foundation International Award in Photography (1986), W. Eugene Smith Award (1990) e Prix de la Critique Kodak (1992). Atualmente, vive e leciona em Ghent.

Foto: Carl de Keyzer.

Foto: Carl de Keyzer.

19
fev

Dominic Nahr, fotografia em cores e consciência

Retrato de Dominic Nahr.

“Nós temos a liberdade de fazer o que quisermos. Nada é impossível. Nós sobrevivemos, simplesmente por termos nascido no lugar certo, na hora certa. Na cultura ocidental, nós facilmente esquecemos o quão rápido as coisas podem ser tiradas de nós.”
Dominic Nahr

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Suiço, estabelecido no Quênia, criado em Hong Kong, Dominic Nahr é um dos mais jovens fotógrafos representados pela Magnum, com diversas coberturas tão delicadas quanto emblemáticas em seu portfólio. Seu trabalho, marcado por um olhar forte e inabalável, é movido pelo desejo de documentar e disseminar ações que não devem ser mantidas ou esquecidas, sejam catástrofes naturais, distúrbios civis ou o que define como “crimes cometidos em nome da manutenção de fronteiras físicas e psicológicas”.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Nascido em 1983, foi em Hong Kong, onde cresceu, que se estabeleceu como fotógrafo, trabalhando no jornal South China Morning Post. Em 2007, quando estudava em Toronto, passou a trabalhar como fotógrafo freelancer, comissionado por publicações como Newsweek, GQ e The Fader. Graduou-se na Ryerson University em 2008 e foi indicado para a Magnum em 2010. Suas coberturas mais importantes incluem o desastre nuclear de Fukushima, conflitos na Faixa de Gaza, revoluções da Primavera Árabe, fome na Somália.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Um de seus ensaios mais marcantes é Congo: The Road to Nowhere (2008), que mostra como no país – rico em minerais, dono de paisagens estonteantes e vulcões ativos que brilham à noite – o sofrimento é parte da vida cotidiana. Outros de seus registros mais chocantes ilustraram reportagens sobre a fome na África. Na jornada, ele e o repórter Alex Perry encararam de frente a dor de centenas de milhares de refugiados que fugiram da desnutrição severa no sul da Somália.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Sobre as dificuldades de seu trabalho, Nahr afirma que quando vê civis mortos, chega a sofrer de dores no corpo, mas com soldados já se sente um pouco diferente. “Você entra em um modus operandi de trabalho distinto, às vezes fotografar um corpo sem vida quase não parece real”, expressa. É depois, vendo as imagens, que ele sente a real dimensão dos registros e surpreende-se com a própria frieza, como se, em suas palavras, no momento em que está trabalhando o tempo funcionasse de modo diferente. Como curiosidade, vale citar que a declaração de Nahr contrasta com as características de trabalho de outro fotógrafo suíço, René Burri. Burri documentou a guerra diversas vezes, mas nunca fotografou cadáveres por questões de ética pessoal.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Na lista da PDN Magazine dos “Top 30 under 30 photographers” (30 fotógrafos mais importantes com menos de 30 anos), Nahr já foi honrado com diversos prêmios de imenso prestígio, incluindo The Oskar Barnack Newcomer Award. O fotógrafo também faz parte da “The Photo Society”, grupo de colaboradores da National Geographic Magazine engajado em contar histórias através de grandes imagens.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

15
fev

Ausência em imagens, por Peter Marlow

Autorretrato de Peter Marlow.

“Eu opto pela fotografia que se sobrepõe e enriquece. Ao mesclar observação, sagacidade e razão, quero que meu trabalho gere uma sensação de inesperado, de escondido e de aparentemente espontâneo”
Peter Marlow

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Ausência, melancolia, silêncio. É essa atmosfera das imagens de diferentes ensaios assinados por Peter Marlow que selecionamos para este post. Nessa série de fotografias, Marlow não retrata os instantes em que as grandes metrópoles silenciam revelando suas belezas escondidas, mas as ausências em locais que parecem distantes, esquecidos, antigos. Há sempre uma certa insinuação de presença humana, mas não se sabe há quanto tempo ela está distante nem quando vai retornar. Conhecido por suas imagens de paisagens, Marlow é um fotógrafo britânico integrante da Magnum que tem em seu portfólio principalmente imagens em cor.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Treinado na linguagem do fotojornalismo, Marlow não é, propriamente, um repórter fotográfico, anda que tenha sido um dos mais bem-sucedidos jovens fotógrafos de notícias britânicos. Começou sua carreira após graduar-se como psicólogo na Universidade de Manchester em 1974. A partir daí, foi trabalhar como fotógrafo em um cruzeiro italiano no Caribe e entrou no time de fotógrafos da agência parisiense Sygma. No final da década de 1970, trabalhou na Irlanda no Norte e no Líbano, e foi aí que percebeu que a competição do fotojornalismo não combinava com ele. Voltou para a Grã-Betanha e trabalhou em Liverpool em um projeto de oito anos. Tornou-se associado da Magnum em 1981 e membro pleno em 1986.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Com a guinada em sua carreira mudou, também, sua estética. Desde que abandonou o fotojornalismo como única vertente, escolheu a “cor das coisas acidentais” como tema central de sua obra, da mesma maneira que as formas e marcas eram fundamentais para seu trabalho em preto e branco.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

8
fev

A humanidade de um mito: Marilyn Monroe, por Eve Arnold

Retrato de Eve Arnold.

Não são poucos os que tentaram capturar em filmes fotográficos um pouco da magia, do sex appeal e do místico encantamento de Marilyn Monroe. Aliás, foram justamente as imagens, bem como as películas do cinema, que ajudaram a construir o mito: impecável, sobrehumano, maquiado, esculpido em trajes bem cortados, em poses e trejeitos cuidadosamente calculados, iluminado e enquadrado com perfeição. Se digitarmos Marilyn Monroe no mecanismo de busca do blog, encontraremos bons exemplos até mesmo por aqui, retratos da musa assinados por nomes como Cecil Beaton, Ernst Haas, Alfred Eisenstaedt e Phillipe Halsman. Não são esses, entretanto, os que caracterizam as imagens de Marilyn assinadas por Eve Arnold (1912 – 2012), mas momentos menos conhecidos, em que a presença da câmera não parece abalá-la ou distraí-la. Em algumas delas, Marilyn não se preocupava com o figurino e deixava até mesmo escapar certa melancolia no olhar. E é essa doçura, repleta de cumplicidade entre modelo e fotógrafa, que torna os registros que ilustram este post um documento tão especial.

Foto: Eve Arnold.

Foto: Eve Arnold.

Não por acaso, sob um nome aceito para ambos os gêneros, e em um meio onde os homens até hoje são maioria, encontra-se uma fotógrafa mulher. É possível que visse Marilyn como vítima de uma sociedade calcada nos desejos do macho, ansiosa por construir, extrair e vender sua glamorosa imagem à exaustão. É possível, também, que Marilyn, na companhia da fotógrafa, relaxasse, abandonando a personagem, seus quase automáticos reflexos de sedução e sensualidade. Não por acaso, também, Arnold era uma fotógrafa que tinha na preocupação com seus personagens uma característica fundamental, como mostra uma de suas mais famosas citações: “Se o fotógrafo se preocupa com a pessoa atrás das lentes e tem compaixão, muito é dado. É o fotógrafo, não a câmera, que é o instrumento”.

Foto: Eve Arnold.

Foto: Eve Arnold.

Se o senso comum não cansava em dizer que Marlyn Monroe fazia amor com a câmera, o que transparece nas imagens feitas por Eve é tranquilidade e relaxamento, fruto de uma nítida e mútua colaboração. Com seu dom extraordinário de transmitir emoções, Marilyn utilizou esse espelho para mostrar sua outra face, traduzida em retratos delicados de uma deslumbrante mulher-criança. Felina, mas inocente; ansiosa, mas confiante. Doce, apaixonada e engraçada.

Marilyn Monroe e Clark Gable durante as filmagens de "The Misfits", 1960. Foto: Eve Arnold.

Foto: Eve Arnold.

Nascida na Filadélfia, filha de imigrantes russos, Arnold começou a clicar em 1946, trabalhando na área, e em 1948 estudou fotografia com Alexei Brodowitch na New School for Social Research, em Nova Iorque. Associou-se à Magnum em 1951, tornando-se membro plena em 1957. Em 1962, viajou à Inglaterra, onde se estabeleceu. Com 12 livros publicados, foi honrada com inúmeras distinções. Em 1995, passou a integrar a Royal Photographic Society e foi eleita Master Photographer pelo New York Center of Photography, a mais prestigiosa honraria fotográfica. Faleceu em 2012 às vésperas de completar 100 anos.

Foto: Eve Arnold.

Foto: Eve Arnold.

7
fev

Histórias que voam abaixo do radar, por Jonas Bendiksen

Retrato de Jonas Bendiksen.

“Eu amo trabalhar em histórias que ficam para trás na corrida pelas manchetes diárias, órfãos jornalísticos. Muitas vezes, as imagens mais interessantes e convincentes tendem a esconder-se dentro do oculto, são histórias oblíquas que voam abaixo do radar”
Jonas Bendiksen

Foto: Jonas Bendiksen.

Foto: Jonas Bendiksen.

Ao conhecer as imagens de Jonas Bendiksen, jovem norueguês que integra o time da Magnum, é impossível não recordar do mais conhecido termo cartier-bressoniano: “instante decisivo”. O repórter imprime em seus registros qualidades da fotografia artística, sempre marcadas pela impecabilidade ao eternizar momentos fugazes. Elas remetem, também, a uma afirmação já feita por Ricardo Chaves, o Kadão, repórter e editor fotográfico e professor da ESPM-Sul: “Mesmo com a pressa do jornalista, precisamos ter a calma do pescador. Se pegamos um peixe pequeno, esperamos, colocamos de lado e continuamos sempre em busca do peixão, da foto que fica na história ou que pelo menos sustente uma capa”. Às vezes, os peixes escapam, o disparador da câmera não registra a cena, mas é necessário manter a serenidade e não se contentar com peixinhos. Como mostra o trabalho de Bendiksen, às vezes um instante ainda mais surpreendente do que o perdido pode surgir no fundo do quadro.

Foto: Jonas Bendiksen.

Foto: Jonas Bendiksen.

Nascido em 1977, começou sua carreira aos 19 anos, como um interino no escritório da Magnum em Londres, até viajar para a Rússia em busca da construção de um portfólio como fotojornalista. Nos diversos anos que passou por lá, Bendiksen documentou histórias às margens da antiga União Soviética, dos estados novos que se separaram e daqueles externos, que faziam fronteiras com os outros países. O projeto foi publicado no livro Satelites (2006).

Foto: Jonas Bendiksen.

Foto: Jonas Bendiksen.

Sempre com um uso de cores que dá as imagens uma aura de universo paralelo, como se fizessem parte de um mundo fantasioso, surreal, deslocado de nosso tempo e nosso espaço, Bendiksen se concentra em comunidades isoladas e enclaves. Em 2005, com uma bolsa da Alicia Patterson Foundation, começou a trabalhar no The Places We Live, um projeto sobre o crescimento do número de favelas no mundo inteiro. A materialização da iniciativa consiste na criação de instalações tridimensionais que combinam fotografia, projeções e áudio.

Foto: Jonas Bendiksen.

Foto: Jonas Bendiksen.

O jovem fotógrafo já recebeu inúmeras distinções, incluindo o Infinity Award, do International Center of Photography de Nova Iorque, e o segundo prêmio na categoria Daily Life Stories do World Press Photo, bem como o primeiro prêmio no Pictures of the Year International Awards. Sua reportagem documental sobre a vida em uma favela de Nairobi publicado na Paris Review ganhou o National Magazine Award em 2007.

Foto: Jonas Bendiksen.

Foto: Jonas Bendiksen.

Foto: Jonas Bendiksen.

Foto: Jonas Bendiksen.

 

 

25
jan

“Ainda tenho o sentimento que algumas das minhas imagens podem construir pequenas pontes entre as pessoas” René Burri

Retrato de René Burri.

Veterano integrante do Magnum, René Burri é um fotógrafo que vive e trabalha entre as cidades de Zurique, sua terra natal, e Paris. Com um acervo repleto de imagens em preto e branco, mas que inclui também diversas obras em cor, documentou guerras, eventos cotidianos e momentos delicados na história mundial, favorecido pela neutralidade de seu passaporte e por seu espírito repleto de coragem jornalística e sensibilidade. Até hoje, só sai de casa com sua Leica a tiracolo. “É o meu terceiro olho. Estou sempre com ela”.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Nascido em Zurique, em 1933, tirou sua primeira fotografia aos 13 anos sob incentivo do pai. A estreia foi logo no terreno do fotojornalismo e da fotografia documental: registrou o então primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill, que desfilava pela cidade em um carro aberto. Formou-se como fotógrafo na Escola de Artes de Zurique apenas porque na época não havia no país cursos de cinema, seu desejo original. Entre 1954 e 19855, trabalhou como assistente de cinegrafista no filme documental da Disney rodado na Suíça, Switzerland (1956). Foi em 1956 que começou a trabalhar profissionalmente como repórter fotográfico. Seu trabalho autoral ganhou impulso no mesmo ano, ao realizar uma reportagem fotográfica sobre uma escola de crianças surdas-mudas que acabou sendo comercializada pela legendária Magnum. De correspondente, tornou-se membro permanente em 1959 e chegou a presidir a agência, em 1982.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Uma de suas fotografias mais emblemáticas foi feita no Brasil, mais precisamente em São Paulo, em 1960. Dramática, sofisticada e vertiginosa, Men on a Rooftop, “homens no telhado” em tradução literal, fez parte de um ensaio para a revista Praline que reuniu cenas de ruas feitas em cidades latinoamericanas. Como outras peças contempladas, revela contrastes próprios do continente: tem a elegância de poucos homens e o caos urbano enquadrados e encapsulados no mesmo frame. Na época, Burri já começava a fazer experimentos com geometria em suas imagens – e como estudante, já havia se apaixonado pela emergente arquitetura moderna, tornando-se amigo próximo de Le Corbusier e Oscar Niemeyer. Por aqui, também clicou a arquitetura de Brasília, em especial o que chamou de “seu aspecto humano”. Da passagem por Cuba, leva algumas das mais icônicas imagens de Che Guevara já registradas, além do hábito de fumar charutos, que mantém até hoje.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Uma curiosidade interessante sobre Man on a Rooftop, Burri conta, é que naquela época Henri Cartier-Bresson limitava os fotógrafos ao uso de lentes de 35mm a 90mm, e a imagem foi feita com uma 180mm. “Quando eu lhe mostrei a foto, ele disse ‘brilhante, René’. Fui para a rua e gritei ‘há!’. Ele me ouviu, perguntou o que foi e eu respondi apenas ‘nada, esquece’, e nunca disse a ele. Naquele momento, me soltei de meu mentor. Eu matei meu mentor!”, relembra.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Foi justamente a neutralidade do passaporte suíço somada a sua declarada fome pelo desconhecido que lhe possibilitou fotografar muitas situações que significariam empecilhos para fotógrafos de outras nacionalidades. Entre elas, vale destacar a Berlim de 1961, dividida pela Guerra Fria e ocupada pelos aliados na iminência da construção do Muro. Ao decorrer de sua trajetória, também documentou conflitos no Oriente Médio e na África, além de percorrer todo os Estados Unidos.

Entre seus livros mais recentes estão Brasília (2011), Blackout New York (2009), Nous sommes treize à table (2008) e Che Guevara Cigar Box (2004)

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

6
dez

AFP publica seleção de melhores imagens de 2012

Este dezembro, a agência de notícias Associated France Press (AFP) se adiantou: publicou a seleção das melhores imagens de 2012 faltando quase um mês para o ano acabar. A coletânea contempla os principais acontecimentos que foram pauta no mundo inteiro, das vitórias olímpicas na Inglaterra à devastação causada pelo furacão Sandy nos Estados Unidos. Além de fotografias que representam esses tópicos mais evidentes, a seleção inclui imagens marcantes de eventos incomuns ou inusitados que se passaram em diferentes lugares do globo. Selecionamos algumas delas:

Um homem passa por um carro coberto de gelo à beira do congelado Rio Geneva, na cidade de Veroix, na Suíça. A imagem, registrada em fevereiro, foi um dos símbolos do inverno rigoroso que atingiu a Europa em 2012. Mais de 260 mortes foram associadas às gélidas temperaturas da estação. Foto: AFP /Getty Images.

Um leopardo escala uma rede após cair em um reservatório de água localizado em uma propriedade de chá de Haskhova, na Índia, em junho de 2011. Depois de algumas horas, foi salvo por uma equipe de resgate. Foto: AFP /Getty Images.

A mais bem preservada carcaça de um bebê mamute foi exibida em Hong Kong em abril de 2011. Chamada de Lyuba, tem 42 mil anos de idade e foi encontrada por um pastor de renas russo em 2007, envolta apenas em uma camada de terra congelada. Foto: AFP /Getty Images.

Em março, o exilado tibetano Jamphel Yeshi, 27 anos, ateou fogo em seu próprio corpo durante um protesto contra o governo chinês em Nova Déli, na Índia. A manifestação reuniu tibetanos antes de uma visita do presidente Hu Jintao ao país. Foto: AFP /Getty Images.

Um menino nada entre os escombros enquanto tenta salvar pertences de casas destruídas em Manila, nas Filipinas. O vilarejo foi atingido por duas barcaças em julho, quando os ventos e chuvas da tempestade tropical Saola atingiram a capital. Pelo menos uma pessoa morreu e milhões ficaram sem energia elétrica. Foto: AFP /Getty Images.

Jovens eslovacos vestidos com roupas típicas jogam um balde d'água em uma garota na Vila de Trencianska Tepla, ao norte de Brastislava. Realizado em abril, o ato é parte das celebrações de Páscoa e simboliza votos de juventude, força e beleza para a próxima estação. Foto: AFP /Getty Images.

Lutadores se apresentam durante o show Lucha Va Voom's Cinco, no Mayan Theatre, em Los Angeles. O evento é uma mistura de Lucha Libre (tradicional estilo de luta mexicano), comédia e strip-tease. Foto: AFP /Getty Images.

8. Uma integrante da escola de samba Rosas de Ouro dança na primeira noite de desfiles do Carnaval de São Paulo, em fevereiro. Foto: AFP /Getty Images.