Skip to content

4 de dezembro de 2012

“Sou muito mais interessante como fotógrafo amador do que como fotógrafo profissional” Richard Kalvar

Retrato de Richard Kalvar.

Como muitos fotógrafos que se sentem pouco confortáveis com os rótulos que lhes são atribuídos, Richard Kalvar não gosta de se descrever como um “fotógrafo de rua” – e não apenas pelo fato de que suas imagens não são necessariamente feitas nas ruas. Em suas palavras, sua obra autoral pode ser incluída na categoria genérica por ele inventada “fotos não-posadas de pessoas” (“e às vezes de animais ou objetos inanimados, quando esses são possuídos por almas humanas”). E, ainda, na subcategoria “com nada particularmente importante acontecendo”. Se criarmos um recorte ainda mais profundo, encontraremos outra definição por ele inventada, play (em inglês, jogar), e chegaremos no cerne do que o fotógrafo fez durante as últimas décadas. Em mais de quarenta anos de carreira, o objetivo de Kalvar foi sempre brincar com a realidade utilizando personagens alheios aos dramas nos quais foram incluídos.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.

Kalvar nasceu no distrito nova-iorquino do Brooklyn em 1944, filho uma família definida por ele como “relativamente pobre”. Descobriu as primeiras centelhas de sua criatividade ainda na infância, mas só foi encontrar meios de se expressar muito depois, e por acaso. Em meados dos anos 1960, ingressou na Cornell University para estudar Literatura, mas deixou o curso pela metade e voltou para Nova Iorque a procura de emprego. Encontrou um com Jérôme Ducrot, um fotógrafo de moda. Na época, Kalvar não tinha interesse real em fotografia, e muito menos em fotografia de moda, mas aprendeu muito com Ducrot. Deixou seu estúdio um ano depois após uma “grande briga” que, entretanto, não prejudicou a amizade dos dois. Como um presente de despedida, Ducrot deu a Kalvar uma Pentax.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.

Com o dinheiro que havia economizado durante seu ano como assistente e aprendiz, Kalvar decidiu partir para a Europa, ainda hesitante se levaria ou não sua Pentax. O instante em que a colocou na bagagem é lembrado por ele como um dos mais decisivos de sua vida. De lá, fez centenas de fotografias despretensiosas nas ruas e enviava os filmes intactos para seu pai, só conferindo o resultado um ano depois, já de volta aos Estados Unidos, quando conseguiu um emprego como recepcionista no Modernage (laboratório fotográfico que, à propósito, ainda existe). Foi nesse momento que Kalvar descobriu sua paixão. E ela, feliz ou infelizmente, não pagava o aluguel. Para poder dar vazão à forma de expressão que acabara de encontrar, começou a realizar trabalhos comerciais.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.

A combinação de sua obra autoral com a comercial foi o que fez com que fosse recrutado pela Magnum nos anos 1970, assumindo a presidência e a vice-presidência da agência alguns anos mais tarde. Mas, ainda assim, Kalvar manteve uma firme barreira entre sua arte e seu trabalho, deixando claro que há um alto grau de separação entre o que faz por dinheiro e o que faz como auto-expressão. Até assume que é de forma quase desdenhosa que olha para seu trabalho profissional – que, não raro, inclui jornadas fotojornalísticas para revistas importantes como a Newsweek. Uma das mais evidentes diferenças por ele fundamentadas é o uso de cor, recurso exclusivo de sua obra comercial. Quando questionado sobre o motivo, Kalvar afirma que para o mistério funcionar é preciso dar abstração à realidade. “Preto e branco é uma abstração tradicional. Além do enquadramento seletivo, fotografia é o congelamento de um momento que, na realidade, é parte de um número infinito de outros momentos. Você tem um momento e ele nunca mais se move, você pode olhar para a imagem para a sempre. O preto e branco é mais um passo para longe da realidade. Cor, para mim, é mais real, mas menos interessante”.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.

Até hoje, sua metodologia de trabalho consiste em longas caminhadas na companhia de sua Leica. “Tento ir a lugares onde coisas interessantes podem acontecer. E estou sempre olhando as relações entre as pessoas. Sou atraído pela imagem de pessoas interagindo”. Suas imagens parecem em um só tempo distorcerem e tornarem precisos os instantes, sugerindo que existem muitas realidades possíveis. “A fotografia já está longe da ‘realidade’ por conta de seu silêncio, sua falta de movimento, sua bidimensionalidade e pelo fato de que isola tudo que existe além do retângulo. Ela pode criar uma outra realidade, uma emoção que não existia na situação ‘verdadeira’. E é essa tensão entre as realidades que lhe dá força”.

Foto: Richard Kalvar.

Foto: Richard Kalvar.

Share your thoughts, post a comment.

(required)
(required)

Note: HTML is allowed. Your email address will never be published.

Subscribe to comments