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7 de outubro de 2013

A intimidade dos leões de Serengeti, por robôs e fotógrafos

Retrato de Michael Nichols

Desde os primórdios da prática fotográfica, ela é inegavelmente subordinada à tecnologia disponível. Avanços na qualidade das imagens costumam vir acompanhados de inovações técnicas, e muito se fala nas mudanças trazidas pela democratização do acesso às tecnologias, com equipamentos sofisticados tornando-se cada vez mais compactos e baratos. Entretanto, uma das novidades que mais sugere mudanças significativas, em especial para o fotojornalismo, é a incorporação de uma tecnologia militar até então restrita ao uso governamental: os drones. O uso desses aviões-robôs controlados para fotografar já começa a ser utilizado, sugerindo uma série de revoluções ainda pouco definidas. Publicado em agosto na National Geographic, o ensaio que originou este post revelou, com um formato editorial tão inovador quanto seu método, um pouco do que essa incipiente tecnologia é capaz.

Foto: Michael Nichols

Foto: Michael Nichols

O fotógrafo Michael “Nick” Nichols e o cinegrafista Nathan Williamsom estavam determinados a abrir novos caminhos visuais quando fizeram diversas e prolongadas viagens ao Serengeti, ecossistema de 30 mil km² localizado no norte da Tanzânia e sudoeste do Quênia, em julho de 2011 e janeiro de 2013. Um mini-tanque fabricado pela SuperDroid Robots e um MikroKopter alemão que capturava fotos aéreas foram uma ferramenta discreta para que eles pudessem registrar o cotidiano de leões – de perto e em ângulos baixos. Duas câmeras foram montadas em cada dispositivo, criando uma dança sincronizada de fotos e vídeos. Eles levaram seu tempo, deixando que os leões orgulhosos se acostumassem com as máquinas, até que se tornaram praticamente invisíveis.

Foto: Michael Nichols

Foto: Michael Nichols

Drones, “zangões” em inglês, são veículos aéreos não tripulados que, no Brasil, devem ser batizados de vants. Com pesos que vão de 2 kg a 1 tonelada, eles podem ser equipados com sensores sofisticados, aparelhos de GPS, bombas, mísseis ou, vejam só, câmeras fotográficas. Altamente silenciosos, permitem chegar onde as lentes do fotógrafo não chegariam, e, dependendo da pauta, podem gerar controvérsia. No Brasil, por exemplo, seu uso na imprensa ainda não foi regulamentado e grandes veículos de comunicação já enfrentam processos por usá-los sem autorização oficial. Levando ao extremo, essa tecnologia está para o fotojornalismo como as escutas telefônicas grampeadas estão para a reportagem: sugerem invasão de privacidade. Um drone é silencioso, de pequeno porte e, mesmo se for percebido, é sigiloso, anônimo.

Foto: Michael Nichols

Foto: Michael Nichols

Para a pauta em questão, entretanto, o uso dessa tecnologia se revela fácil de defender. Com drones e robôs, o fotógrafo e o cinegrafista evitaram o stress que a presença humana costuma causar nos felinos. Com as câmeras controladas de forma remota, a rotina dos animais não foi interferida e eles puderam registrá-los de forma íntima, mas o menos intrusiva possível. Não por acaso, a motivação inicial da reportagem foi chamar a atenção para a matança de leões no continente africano. Estima-se que a indústria da caça legalizada já aprisionou e aniquilou mais de 3,500 espécimes. Ao conferir de forma tão próxima a vida desses animais, torna-se impossível ao espectador ocidental não sentir empatia.

Foto: Michael Nichols

Foto: Michael Nichols

O robô, como conta Williamson, foi feito para ser resistente o suficiente para enfrentar um golpe de leão, mas eles os ignoraram durante a maior parte do tempo. Williamson, ao todo, registrou 200 horas de vídeo e Nichols tirou 242 mil fotos, muitas delas feitas à moda antiga, usando as câmeras na mão.

Foto: Michael Nichols

Foto: Michael Nichols

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