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20 de março de 2013

O último símbolo de um mundo pacífico, por Thomas Hoepker

Foto: Thomas Hoepker.

Todos os grandes fotógrafos têm em seu portfólio não apenas grandes imagens, mas grandes histórias. Uma característica comum em muitas delas é o fato de que, em boa parte das vezes, não é possível ter noção da dimensão de um clique extraordinário no momento em que ele é feito – o que era ainda mais comum em tempos de tecnologia analógica, sem a instantaneidade do sensor. A foto que ilustra este post, o mais famoso registro do integrante da Magnum Thomas Hoepker, sublinha de forma totalmente inusitada o mais importante acontecimento geopolítico da última década, a queda das Torres Gêmeas em 11 de setembro. Diferente de outras imagens icônicas, ficou três anos guardada, esquecida em uma caixa, até ser mostrada para o mundo. E como se não bastasse, contradiz a máxima de Robert Capa: “Se suas fotografias não são suficientemente boas, é porque você não estava suficientemente perto”.

Já falamos aqui, por exemplo, sobre o clássico registro de Nick Ut que acelerou o fim da Guerra do Vietnã. Após clicar a menina Kim Phuc correndo nua com o corpo coberto de Napalm, demorou para perceber o significado que aquela imagem logo atingiria. O registro de Thomas Hoepker, entretanto, causou um impacto diferente de político. Enquanto algumas imagens causam desconforto por emocionar, outras o causam por gerarem estranhamento, como a fotografia que motivou esta postagem.

Contatos de Thomas Hoepker.

Na manhã de 11 de setembro de 2011, Hoepker foi alertado por um telefonema do escritório da Magnum e, como diversos outros moradores de Nova Iorque, assistiu à cobertura ao vivo da imprensa de seu apartamento, em Manhattan. Foi ainda atônito e anestesiado com tamanho horror que partiu de carro pelos bairros Queens e Brooklyn tirando fotografias da nuvem de fumaça que crescia no horizonte. “Depois, cheguei a um lugar no East River com boa visão da ponta de Manhattan”, conta, “onde um grupo de jovens estava sentado em meio às árvores. Instintivamente, tirei três fotos e segui meu caminho, esqueci aquela cena”. Mais tarde, ainda em estado de choque, fez mais algumas fotos, sem nunca chegar ao Ponto Zero, bloqueado pela polícia. Quando, no dia seguinte, viu as outras fotografias, tão chocantes e tocantes, achou que em comparação aos colegas havia trabalhado muito mal. “Selecionei algumas das imagens que tinha feito da ponte, mas coloquei na minha caixa B os diapositivos que mostravam as cinco pessoas com ar tranquilo. E lá eles ficaram por mais três anos”.

Foi em 2005, quando Hoepker começava a montar uma mostra retrospectiva, que Ulrich Pohlmann, curador do Foto-Museum de sua cidade natal, Munique, descobriu a imagem. “Ele desencavou o diapositivo colorido que hoje se tornou minha fotografia mais publicada e mais discutida”. Desde então, é comum comentaristas, escritores e blogueiros o perguntarem se os jovens na fotografia de fato sabiam o que estava acontecendo atrás deles e o por quê daquela aparente tranquilidade. Como mostram os outros diapositivos do arquivo, na primeira chapa eles de fato observavam o evento antes de darem as costas para a catástrofe. O fotógrafo lança, então, uma pergunta, que logo ele próprio responde: “Será então que a imagem conta uma mentira? Talvez seja enganosa, mas para muitos se tornou o símbolo último de um mundo pacífico repentinamente despedaçado pelo pavoroso ato terrorista que, naquele dia de sol, mudou o mundo”.

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