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14 de julho de 2017

Gaza Black Out, de Gianluca Panella

Retrato de Gianluca Panella

Comentamos em um post anterior a série Occupied Pleasures, de Tanya Habjouqa, na qual a fotógrafa jordaniana registra situações banais do cotidiano de palestinos, em uma região marcada por conflitos armados. Buscando uma forma de mostrar o Oriente Médio sem imagens associadas diretamente à guerra e à destruição, os instantes captados por Tanya revelam momentos corriqueiros da rotina das pessoas. As fotografias apresentam um contexto muito particular e, ao mesmo tempo, dão abertura para outras leituras. Encontramos algo semelhante na série Gaza Black Out, do fotógrafo italiano Gianluca Panella.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

Sobre o contexto concreto da captura das imagens, temos algumas informações, disponibilizadas pelo World Press Photo 2014 (o concurso deu o terceiro prêmio da categoria “General News” para a série). Por anos, Israel proveu energia elétrica à Gaza, apesar dos cortes diários, ocasionados pela escassez de combustível. A situação agravou-se no final de 2013, quando a única estação elétrica de Gaza ficou sem óleo diesel. Para piorar, chuvas torrenciais e severas enchentes provocaram longos blecautes.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

A alternativa encontrada foi o contrabando de suprimentos alternativos de diesel, transportados por túneis subterrâneos desde o Egito. A maioria das passagens, no entanto, foi fechada pelo então recém-instaurado governo militar egípcio, que tirou do poder a Irmandade Muçulmana, simpática ao governo do Hamas, em Gaza. Embora o bloqueio tenha sido temporariamente suspenso, com a colaboração de Israel, o contexto geopolítico, as inundações e a infraestrutura precária seguiriam dificultando a distribuição de energia na região, em dezembro de 2013, quando Panella realizou a série.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

Sem o texto de apoio, torna-se difícil identificar o local onde foram tomadas as imagens. Vemos construções precárias, ruas vazias, resquícios das enchentes e paredes com a pintura gasta – a um primeiro olhar, não fosse pelas inscrições em árabe de algumas paredes, poderíamos pensar que são fotografias de algum subúrbio de uma cidade latino-americana. Ganham evidência os postes de luz – e, principalmente, a pouca luz, salvo discretos pontos que surgem em meio à escuridão.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

Dando atenção especial à matéria-prima da fotografia, vemos poucas e isoladas áreas com iluminação mais intensa. O resultado é um cenário com ares de mistério. O que acontece quando a escuridão toma conta? Em que medida o fotógrafo controla as luzes que vemos? Até que ponto a luz se ausenta? O que essa ausência nos comunica?

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

As sombras das fotografias de Panella abrem caminho para perguntas sobre o que vemos realmente em uma imagem e sobre o quanto nos esforçamos para tentar enxergar. O fotógrafo nos apresenta o cotidiano de Gaza justamente no momento em que a visibilidade parece mais dificultada. De modo um tanto paradoxal, no entanto, parece nos dizer que, para enxergar melhor – ou de uma forma diferente –, por vezes é necessário esperar que algumas luzes se apaguem.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

Nascido em Florença (1976), Gianluca Panella já realizou reportagens nos Bálcãs e em diversos países, como Egito, Haiti, Líbano, Marrocos e Sudão. Dando sequência a estudos em ciências políticas, iniciou a carreira como fotógrafo autodidata. Estudou fotojornalismo em Milão e em seguida passou a trabalhar para jornais locais. Desenvolve projetos pessoais de cunho documental e colabora com agências de notícias.

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