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28 de janeiro de 2013

As crônicas cariocas de Cartiê Bressão

“la grille d’amour”, Praia do Arpoador — 2012.

“les cariocas applaudissent le coucher du soleil”, Pedra do Arpoador — 2012.

“A câmera fotográfica é para mim um caderno de esboços. Um instrumento da intuição e da espontaneidade, o soberano do instante que, em termos visuais, ao mesmo tempo questiona e decide. Para ‘significar’ o mundo temos que nos sentir implicados no que recortamos através do visor. Essa atitude exige concentração, sensibilidade, senso de geometria. É por uma economia de meios e, sobretudo, um esquecimento de si mesmo, que chegamos à simplicidade da expressão.”
Henri Cartier-Bresson

“deux baigneurs baisers”, Copacabana — 2012.

“enfant jouant sur le verre et en regardant suspect”, Horto — 2012.

Um homem passando por uma poça na place de l’Europe, japonesas penteando um ator de kabuki, um velho pintor solitário sentado na cama de seu ateliê… tanto quanto seus emblemáticos registros jornalísticos, foi a leveza das cenas cotidianas captadas por sua Leica que sagraram Henri Cartier-Bresson (1908-2004) como o mais importante fotógrafo do século XX. Nessas “images de la vie quotidienne”, tem-se um preciso exemplo do espaço que seus “instantes decisivos” ocupam na história da fotografia. Na época em que tais cliques eram feitos, entretanto, ainda se tentava deslegitimar o ato fotográfico como meio de expressão artística. Por seu potencial de massificação e, justamente, por sua capacidade de perpetuar e enaltecer o trivial, temia-se que ele pudesse vulgarizar a arte, imaculada e vulnerável por seu caráter sagrado, transcendental. Hoje, décadas e décadas depois, como receariam alguns, mas diferente de todas as previsões, o momento decisivo definido por Bresson é acessível a um botão de telefone celular – e é inevitável a reflexão quando um perfil no Instagram (rede social de imagens celebrada por alguns fotógrafos entusiastas e criticada por outros) viraliza na internet ao homenagear com uma bela dose de ironia e humor justamente um dos principais fotodocumentaristas da história. Cartiê Bressão, aportuguesamento popularesco e nitidamente sarcástico do nome original em francês, é um pseudônimo que publica na internet cenas vistas nas ruas do Brasil, em especial do Rio de Janeiro. As imagens do fotógrafo carioca registram de forma singela o cotidiano da cidade, destacando como protagonistas célebres anônimos como aqueles eternizados por Bresson: diferentes personagens que compõem a fauna local, crianças na praia, trabalhadores em momentos de descanso, adolescentes em festa. Tudo, ainda de acordo com a inspiração primordial, sempre acompanhado de legendas espirituosas escritas em francês.

“neptune et ses poissons”, Arpoador — 2012.

“deux filles avec des bikinis traversé regardent par la fenêtre du bus”, Posto 6 — 2012.

Sob a diversidade dos temas abordados por Bresson, descortinava-se uma mesma linha, independente do lugar ou da circunstância. Tratava-se de um universo que parecia marcado por uma fissura secreta capaz de fazer com que a rigidez da rotina e dos relógios cedesse. O mesmo acontece nas imagens de Cartiê, que expressam a banalidade da vida, cenas que nosso olho visita com displicência e que nossa consciência não julga dignas de serem fisgadas pela memória. Por congelá-los e resgatá-los, Bressão faz com que esses momentos despertem posteriormente nosso afeto. Não por acaso, o fotógrafo se define como “um caçador do efêmero”. Em bom francês, é claro.

“homme avec une chemise déboutonnée avec son chihuahua”, Rua do Rosário — 2012.

“enfant dans le chariot d’épicerie”, Botafogo — 2012.

“Cabeça, olho e coração alinhados”, Cartiê é uma caricatura que subverte com sutileza e bom humor o legado do fotógrafo francês, criando pequenas crônicas da vida nas ruas cariocas. Ainda assim, muitos que o celebram na rede o fazem apenas no terreno da ironia, centrando-se no contraste existente entre imagens de baixa resolução lavadas por filtros de celular e fotografias em preto e branco cuidadosamente compostas e reveladas. É nas diferenças com seu muso inspirador, que se mostram principalmente no caráter brega e não lapidado das imagens, que também se encontram alguns dos principais méritos de Bressão. Mas é nas semelhanças, na busca incessante pelo belo que se revela em segundos e esquinas escondidas, que Bressão encontra Bresson e se torna um documentarista quase essencial para quem busca um pouco de colorido e beleza no cotidiano tantas vezes monocromático e entediante das redes sociais.

“deux femmes de petite vertu marchant”, Copacabana — 2012.

“deux garçons prennent une sieste sur la plage”, Praia de Ipanema — 2012.

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