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10 de maio de 2011

Sally Mann: uma nova abordagem dos álbuns de família

Retrato de Sally Mann. Foto: Bruce Davidson

Se a fotógrafa norte-americana Sally Mann possui uma fonte de inspiração, trata-se do ambiente que a cerca, com seus dois componentes que tantas vezes se sobrepõem: sua família e sua terra. De acordo com a própria, quando enquadra esses dois assuntos, as imagens resultantes são ora cenas comuns, ora cenas profundamente pessoais, mas sempre cenas carregadas de sentimento. Nascida em 1951 em Lexington, área rural de Virgínia, graduou-se fotógrafa na Putney School, em Vermont, e passou dois anos na Faculdade de Bennington, de onde saiu com um mestrado em escrita. Depois, voltou à Virgínia e lá reside até os dias atuais.

Jessie, Emmet e Virginia, filhos de Sally Mann. Foto: Sally Mann

Mann começou fotografando seus três filhos, Emmett, Jessie e Virginia, durante todos os verões de sua infância, começando em meados da década de 1980. Esse trabalho íntimo, intitulado “Immediate Family” (Família Imediata, em livre tradução), captura fragmentos da vida familiar de forma lúdica, com ênfase no crescimento dos filhos. As crianças estão geralmente ao ar livre, com pouca ou nenhuma roupa. Mann explica que a maioria das fotos são feitas de momentos espontâneos e comuns testemunhados por qualquer mãe – uma cama molhada, um nariz sangrando, um rosto emburrado. Outras, são cenas ficcionais, fruto de atuação e interpretação. Para o crítico de arte norte-americano Ted Mann, curador do Guggeinhein Art Museum de Nova Iorque, essas imagens lembram as alegorias encenadas na era vitoriana fotografadas por Julia Margaret Cameron, que também trabalhou com crianças. O marido de Mann, Larry, com quem casou aos 18 anos, também é presença constante nas imagens.

Hayhook. Foto: Sally Mann

Foto: Sally Mann

A forma como Sally representa esses momentos, combinada com o fato de que o projeto teve intensa colaboração dos filhos, faz com que suas imagens se distanciem muito das tradicionais fotografias de família. Nas palavras dela, trata-se de uma forma de contar, em conjunto, uma alegoria sobre crescimento: “É uma história complicada e exige que se assumam grandes temas: raiva, amor, morte, sensualidade e beleza. Mas nós dizemos tudo sem medo nem vergonha”, afirmou Mann. Essa clareza de propósito se tornou cada vez mais importante quando a fotógrafa se viu envolvida na culture war das décadas de 1980 e 1990. Traduzida como guerra de culturas ou guerra cultural, “culture war” é uma metáfora em inglês usada para caracterizar conflitos de valores, frequentemente entre os considerados tradicionalistas ou conservadores e aqueles considerados progressistas ou liberais.

Foto: Sally Mann

Candy Cigarette. Foto: Sally Mann

A preocupação de certos grupos em relação as fotos de Mann era centrada, em especial, nas imagens em que as crianças apareciam nuas. A polêmica envolvia pressupostos sobre o papel da mãe como protetora da imagem dos filhos, o fato de um trabalho tão provocativo ser disponível para a venda, o consentimento das crianças etc. Para Sally, a polêmica ajudou a mostrar o sucesso de suas imagens ao confundir as expectativas do público, despertando temores e desafiando os clichês que envolvem a inocência da infância.

Foto: Sally Mann

Muitos dos registros familiares de Sally Mann tiveram como cenário a fazenda onde a fotógrafa cresceu. Com a chegada da adolescência dos seus três filhos, ela se voltou progressivamente ao campo. Nos anos 1990, seus filhos eram apenas um ocasional componente do cenário e, até então, suas imagens eram captadas com uma câmera de grande porte 8 x 10. A partir daí, Sally começou a trabalhar com chapa de colódio úmido, abraçando de vez câmeras de largo formato e um processo técnico do século XIX.

Câmera de grande formato.

Seu desejo de atingir, nas palavras dela, “o coração do profundo e escuro Sul dos Estados Unidos”, incluiu uma série de fotos de paisagens do Alabama, Mississipi, Virgínia, e Geórgia. Por utilizar câmeras antigas, lentes danificadas e a própria mão como obturador, as fotos de Sally são marcadas por riscos e vazamentos de luz, que conferem ao trabalho ares bucólicos, nostálgicos. O resultado está nos livros “Mother Land: Recent Landscapes of Georgia and Virginia”, publicado em 1997, e “Deep South: Landscapes of Louisiana and Mississippi”, publicado em 1999. Entretanto, Sally permaneceu trabalhando e aprimorando a técnica até seus mais recentes trabalhos.

Foto: Sally Mann

Foto: Sally Mann

Uma técnica irritadiça
Mann explica que por fotografar paisagens rurais, se viu tão imersa em pesquisas sobre a estética das fotos do século XIX que achou natural aprender o processo e começar a fazê-las como eram feitas antigamente. A vontade aumentou quando encontrou, bisbilhotando no sótão da Washington and Lee University, em Lexington, uma coleção de negativos de vidro feitos logo após a Guerra Civil. Ao levantar um deles, viu uma foto do mesmo penhasco que havia admirado durante toda a sua vida e assustou-se ao perceber que, depois de 100 anos, ele ainda estava igual. O desafio era fazer não uma foto idêntica àquela, mas uma foto feita com o mesmo tipo de técnica.

Até os dias atuais, Sally fotografa utilizando um complexo processo que remete à década de 1850: chapa de colódio úmida, responsável por criar um negativo em formato grande e em vidro, não em filme. As câmeras utilizadas são antigas, do início de 1900, e têm pesadas molduras de madeira, foles de sanfona, longas lentes de bronze unidas com fita adesiva e com mofo crescendo por dentro – Sally afirma adorá-lo: “Ele suaviza a luz, deixa as imagens atemporais”.

Retrato de Sally Mann

Entre as dificuldades encontradas, ela destaca a burocracia envolvendo produtos químicos e a extrema necessidade de perfeição no vidro utilizado, que deve ser totalmente limpo e com o enquadramento impecável. “É um processo técnico irritadiço e mau-humorado, não permite preguiça, falta de coordenação ou desleixo”, brinca, antes de o explicar em detalhes:

A emulsão de colódio, que é uma mistura de colódio e éter, dever ser aplicada rapidamente. A cobertura precisa ser homogênea e ficar pronta o mais rápido possível, se não surgem estrias. A placa (de vidro) é então colocada no nitrato de prata, o qual, por razões que me escapam completamente, adere à emulsão para torná-la, a partir desse ponto, sensível à luz. Isso demora mais ou menos cinco minutos, então a placa é guardada em um estojo à prova de luz para ser levada pingando até a câmara. A partir daí, sobram não mais do que dois ou três minutos para bater a foto antes da placa secar, porque a evaporação do éter acelera a secagem do colódio.”

“As fotos de Mann sugerem que a câmera é tão adepta à descrição dos desejos do subconsciente quanto à revelação de aspectos da vida cotidiana.”

Andy Grundberg, The New York Times

Foto: Sally Mann

Com essa técnica antiga, Mann voltou a fotografar seus filhos, já crescidos. Algumas dessas imagens estão presentes no livro “The Flesh and The Spirit” (A carne e o espírito, em livre tradução), recheado com dezenas de retratos e autorretratos, figuras de seu marido nu (inspiradas por sua rara doença muscular degenerativa) e imagens de corpos mortos (fruto de uma visita a uma fazenda onde cientistas trabalham no Tennessee). Para o jornalista Richard Woodward, do Wall Street Journal, as rachaduras e pingos que resultam da técnica utilizada só reforçam o romantismo e a força lírica das imagens presentes na obra, cheias de close-ups extremos e sempre com falhas propositais. “Eu sou o oposto de muitos fotógrafos que querem tudo realmente fino, polido, limpo, que parecem examinar as fotos com lupas para ter certeza de que elas não têm falhas. Eu não quero nada disso, eu quero que elas sejam misteriosas”, enfatiza Mann. Como afirma a jornalista Ginia Bellafante, em resenha publicada no jornal The New York Times, se nas fotos de seus filhos na infância Mann se mostrou uma espécie de “poeta do corpo humano”, ela permanece digna do adjetivo ao documentar o amadurecimento dos filhos, o envelhecimento do marido e o corpo no final do seu ciclo de vida.

Foto: Sally Mann

Mais sobre a artista:
Sally Mann já ganhou inúmeros prêmios, incluindo o Guggenheim and National Endowment para bolsas de estudo em artes. Seus livros de fotografias incluem “Immediate Family,” “At Twelve: Portraits of Young Women”, “Mother Land: Recent Landscapes of Georgia and Virginia” e “The Flesh and the Spirit”. Suas fotografias estão em coleções permanentes de vários museus, incluindo o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Em 2007, um documentário sobre Mann focado na época de Immediate Family foi feito: “What Remains”, dirigido por Steven Cantor.

Capa do filme What Remains, dirigido por Steven Cantor

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