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1 de novembro de 2013

“Posso dar forma a este mundo de fantasias quando sinto a certeza ressoar dentro de mim” Sergio Larrain

Retrato de Sergio Larrain

É longa, com ao menos mais de três décadas, a carreira da grande maioria dos fotógrafos veteranos que aparecem por aqui, sejam eles nomes em atividade ou que já estão na memória. O fotógrafo que inspirou o post de hoje, entretanto, possuiu uma história fugaz na fotografia. Sergio Larrain faleceu em 2012, anos 81 anos, e dedicou-se profissionalmente ao ofício por pouco mais de 10, tempo curto se comparado ao de diversas outras referências que fizeram dessa atividade a sua vida. Mas em cerca de uma década, seu impacto foi como o de um meteorito. Um contemplativo, sensível e meditativo meteorito. Foi o mesmo encanto pela natureza e a raça humana presente em suas imagens que o levou ao isolamento: depois de muitas viagens, Larrain decidiu viver uma vida simples e autossuficiente em Olvalle, Coquimbo, no interior de seu país, trocando a fotografia por uma íntima e mística busca. A partir daí, elaborou uma enorme quantidade de escritos, preocupado com o triste estado da humanidade e instigando, incansável, as pessoas a melhorá-lo.

Foto: Sergio Larrain

Foto: Sergio Larrain

A seleção presente neste post é um exemplo do cuidado amoroso e angustiado com que retratava um de seus temas preferidos, as ruas, com sua conturbada e poluída solidão, ora alegre, ora melancólica. Outro exemplo de sua sensibilidade, e da aura enigmática que seu nome ganhou, são as fotografias que fez em Paris da Catedral de Notre Dame. Ao revelarem cenas de um casal apenas após o processamento, tornaram-se a base do conto As Babas do Diabo (1959), de Julio Cortazar, um dos mais célebres da literatura latino-americana. Posteriormente, a história inspirou o filme Blow-up (1966), clássico de Michelangelo Antonioni.

Foto: Sergio Larrain

Foto: Sergio Larrain

Larrain nasceu em 1931, em Santiago do Chile, e estudou música até se decidir pela fotografia, em 1949. Deste ano até 1953, estudou Silvicultura, a ciência dedicada ao estudo dos métodos de proteção e regeneração de florestas, na Universidade da California, em Berkeley. Ele ainda passou pela Universidade e Michigan até decidir viajar pela Europa e o Oriente Médio, o que o levou a trabalhar como fotógrafo freelancer. Em 1956, mesmo ano em que começou a trabalhar para a revista brasileira O Cruzeiro, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) comprou duas de suas fotos. Larrain ganhou, em 1958, uma concessão do British Council que o permitiu produzir uma série de imagens de Londres. No mesmo ano, Henri Cartier-Bresson viu suas imagens de crianças nas ruas e sugeriu que ele trabalhasse para a Magnum, o que fez nos dois anos seguintes, vivendo em Paris. Tornou-se um associado em 1959 e membro pleno em 1961, mas retornou ao Chile pouco depois quando o poeta Pablo Neruda o convidou para fotografar sua casa. As imagens foram publicadas na obra Una casa en la arena. Também vale destacar, entre suas poucas obras publicadas, o fotolivro El rectángulo em la mano (1963), também envolvido por certo mistério. Nas páginas, fotos de índios andinos, meninos de rua e homens desolados ilustram a intenção de Larrain de “solidificar um mundo de fantasmas”. Existem raros exemplares em circulação, já que quase todas as edições foram jogadas fora. Reza a lenda que o autor arrancou, exemplar por exemplar, duas das 17 fotos do compilado.

Foto: Sergio Larrain

Foto: Sergio Larrain

Em 1968, entrou em contato com o guri boliviano Óscar Ichazo e optou pelo estudo da cultura oriental e do misticismo em detrimento da carreira na fotografia. Ao adotar um estilo de vida em sintonia com seus ideais, aprendeu ioga, escreveu, pintou e apenas ocasionalmente sacou a câmera – limitando a prática a sua mais pura expressão pessoal, não atribuindo a ela um meio de ganhar a vida, o mercado, um lugar de destaque em uma sociedade com a qual não concordava. Por um longo período, Larrain rejeitou a ideia de uma exposição de seu trabalho em vida, já que a cobertura da mídia necessária o tiraria de seu duramente conquistado afastamento dos holofotes. Entretanto, em 1999, ele aceitou. Agnès Sire, diretora da Fundação Cartier-Bresson em Paris, foi a curadora da mostra. Com o objetivo de preservar sua obra, ela e Larrain trocaram cartas por um período de 30 anos – ela assumindo o papel de amiga e representante da equipe francesa da Magnum. A exibição fez um retrospecto de sua carreira, dos anos de aprendizado na Magnum às mais livres fotografias e desenhos feitos em seus anos distante de aparições públicas. Com seu olho afiado e livre de convenções, somado a sua abordagem social e poética do mundo, Larrain segue como uma referência para os estudantes de fotografia. E para os seres humanos.

Foto: Sergio Larrain

Foto: Sergio Larrain

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