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1 de agosto de 2012

Paul Strand (1890 – 1976): referências, estudo, ecleticidade

Como seus contemporâneos Alfred Stieglitz e Edward Weston, o nova-iorquino Paul Strand (1890 – 1976) ajudou a definir o cânone do modernismo americano na fotografia. Seu contato inicial com as câmeras foi ainda na adolescência, na Escola de Cultura Ética de Nova Iorque. Lewis Hine, um dos pilares da tradição documental no país, foi seu primeiro professor. Já trabalhando para o Comitê Nacional do Trabalho Infantil, Hine passou para Strand seu profundo senso de humanidade, expondo sua visão da fotografia como um dos possíveis meios de consciência e mudança social. Em 1907, o clube fotográfico da escola fez uma visita às Little Galleries da Photo-Secession, de Alfred Stieglitz, onde conheceram o trabalho de pioneiros como Gertrude Käsebier e Edward Steichen. Para Strand, foi um momento definitivo: o dia em que decidiu se tornar um fotógrafo. Durante os próximos sete anos, aplicou-se em conquistar esse objetivo, inspirado pelos pictorialistas da geração anterior e emulando conscientemente o trabalho de Steichen e White.

Foto: Paul Strand.

Foto: Paul Strand.

Em 1915, seu mentor Stieglitz criticou a suavidade gráfica de suas fotografias, fazendo com que os próximos dois anos representassem uma dramática mudança em sua técnica. A partir daí, passou a fotografar três principais temas: movimento na cidade, abstrações e retratos de rua. Na época, Nova Iorque aglomerava-se de pedestres, carruagens e automóveis, protagonistas do intenso fluxo de modernização e mudança que caracterizava o período e inspirava, também, artistas como Karl Struss e John Marin. Sem a pretensão de mostrar a alma da metrópole, Strand começou estruturando suas imagens de forma lenta, geralmente com um único assunto, como é visto em From the El (1915). Depois, aumentou a complexidade e o ritmo de suas composições até chegar no centro do movimento e das multidões.

Foto: Paul Strand.

Foto: Paul Strand.

Durante anos Strand nutriu o desejo de fazer retratos dos frequentadores dos parques e ruas de Nova Iorque sem a consciência de estarem sendo fotografados — o que remete a um dos últimos projetos de Walker Evans. Se Evans fez fotos desses personagens no metrô, Strand almejava fotografá-los no lugar onde escolheram viver. Para fazê-lo, partiu para Five Points, o coração das favelas imigrantes do Lower East Side, portando uma câmera com lentes falsas. A operação era difícil e enervante, mas tornava possível clicar os personagens em potencial despercebidos. Muitos desses assuntos eram figuras clássicas do período: lavadeiras irlandesas, valentões barbudos, judeus patriarcas. Como Lewis Hine, Strand estava coletando evidências pungentes da pobreza entre as culturas que enchiam a metrópole. Por tratarem a condição humana no contexto urbano e moderno, essas fotografias foram consideradas um novo tipo de retrato: uma alternativa subversiva ao glamour das imagens feitas em estúdio.

Foto: Paul Strand.

Foto: Paul Strand.

Na carona da embrionária exibição de Stieglitz com artistas modernos europeus, muitas outras galerias nova-iorquinas passaram a exibir pinturas de nomes como Cézanne e Picasso, que inspiraram Strand principalmente no que se referia à composição. Questões ligadas à construção da imagem — no que ela consiste, como as formas e espaços se relacionam e a busca pela unidade do todo — assumiriam uma importância fundamental em seu trabalho, que passou a se focar em abstrações. Seus closes de utensílios domésticos e máquinas feitos na mesma época também revelavam um ponto de vista sobre o cotidiano inédito até então, estreitamente vinculado à pintura de vanguarda da época.

Foto: Paul Strand.

Wall Street. Foto: Paul Strand.

Em parceria com Charles Sheeler, Strand se esforçou em descrever o constante movimento de sua cidade natal no curta-metragem Manhatta (1920), mas foi nos anos 1930 que passou a se envolver de forma mais profunda com o cinema, em especial documentários. A partir da década de 1940, depois de trabalhar profissionalmente como cinegrafista, voltou-se novamente à fotografia, comprometido com a ideia de fazer livros fotográficos da mais alta qualidade. Quando mudou-se para a França, em 1950, paisagem, arquitetura e retrato, os gêneros humanistas tradicionais, inspiraram-no a buscar a encarnação do real espírito de seus assuntos no material fotográfico. Para muitos, seu padrão de excelência foi responsável por atender necessidades e questões extremamente humanas em um século de mudanças radicais.

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