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6 de março de 2013

O Carnaval visceral de Claudio Edinger

Retrato de Claudio Edinger. Foto: Débora 70.

O carnaval oficial do Rio de Janeiro, aquele das escolas de samba, há muito se tornou uma festa para turistas – o que inclui os espectadores e foliões brasileiros, turistas de si mesmos. Essa festa, onde os que vão para avenida buscam ver e ser vistos, é o que faz com que o Brasil seja capa de jornais anualmente mundo afora, em fevereiro ou março, com registros coloridos de sua “maior festa do mundo”. Ainda que essas imagens, bem como essa festa, tenham inegável mérito e beleza, o carnaval brasileiro se encontra em sua essência mais verdadeira em um lugar diferente: nas ruas e nos anônimos. Ao menos é o que mostra Carnaval (1996), de Claudio Edinger, e um de seus textos introdutórios, assinado por Arnaldo Jabor. Para o jornalista e escritor carioca, descobrir nos desvãos das ruas a preciosa origem do carnaval é o grande mérito da obra de Edinger cujas imagens ilustram este post.

Foto: Claudio Edinger.

Foto: Claudio Edinger.

Se as imagens mais populares do carnaval brasileiro têm como principal característica a abundância de cores e brilhos, a obra de Edinger retrata o carnaval em preto e branco, saturado, monocromático e altamente expressivo. De câmera nas mãos, como se fantasiado de si mesmo, o fotógrafo registrou de perto os protagonistas das folias urbanas, definidos por Jabor como os excluídos da festa oficial. Desesperados, famintos de amor, estrelas fracassadas, famosos desconhecidos… são eles que exercem sobre Edinger e sobre nós, os espectadores, o fascínio da loucura. Suas lentes enlaçam as três raças brasileiras e mostram porque o carnaval, em sua crueza quase assustadora, é uma das mais vigorosas e excitantes expressões da cultura popular.

Foto: Claudio Edinger.

Foto: Claudio Edinger.

“O livro de Edinger é o anti-Mapplethorpe. Contra o sexo como dor e morte. O sexo como vida e jogo.” Arnaldo Jabor

Foto: Claudio Edinger.

Foto: Claudio Edinger.

Radicado em Nova Iorque, onde viveu de 1976 a 1996, Edinger decidiu fotografar o carnaval enquanto tentava publicar outro livro, Madness, que trata formalmente a questão da loucura. Ao pesquisar sobre doenças mentais no Brasil, impactado pela Alzheimer que acometeu sua avó materna, chegou ao Juqueri, o maior asilo de doentes mentais na América Latina. A obra mostrou as péssimas condições e a superlotação do local, conduzindo ao seu fechamento, mas Claudio demorou sete anos para encontrar um editor com interesse em publicá-la. Nos intervalos, concentrou-se em clicar outro tipo de delírio, mais alegre, que contrastava com a agonia desesperada que havia acompanhado no trabalho anterior. De 1991 a 1995, documentou o carnaval em cinco diferentes regiões do país, Rio, Salvador, Recife/Olinda, São Paulo e Paraty. Como o antropólogo Roberto DaMatta destaca em um dos textos de abertura da obra, o carnaval do Brasil se distingue dos de outros países pelo fato de que não é localizado: o Rei Momo governa todo o território nacional. E Claudio aborda mais esse seu caráter geral do que seus aspectos regionais, pontos que conectam os centros urbanos impessoais aos núcleos populacionais mais distantes.

Foto: Claudio Edinger.

Foto: Claudio Edinger.

Nos flagrantes de Edinger, afirma DaMatta, revela-se o sentido mais profundo daquilo que nós, brasileiros, chamamos de “fantasia”, um resgate da igualdade e da liberdade individual em uma sociedade engessada. A festa popular é justamente a efêmera e intensa materialização desse sonho, uma subversão de toda a e qualquer organização. Mais do que fotos, são revelações: por trás de um pobre, um nobre; por trás de cada rico, um homem comum. Suburbanas se tornam estrelas de cinema da mesma forma que quem bem quiser assume uma nova personalidade. “O Brasil indica, com sua celebração carnavalesca, como ele detém o segredo do encantamento que permite ver a mesma rua, a mesma cidade, a mesma massa, os mesmos pobres, os mesmos governantes, as mesmas empregadas e os mesmos patrões de modo invertido”. Ainda para DaMatta, para ver o carnaval em sua totalidade, é preciso se colocar em uma certa perspectiva, apenas isso torna possível a compreensão de todos os seus paradoxos e contradições. E é aí que se encontram outros dos méritos da obra de Edinger: a capacidade do autor em “ver” e “inventar” o carnaval.

Carioca nascido em 1952, Claudio formou-se em Economia pela Universidade Mackenzie, mas nunca exerceu a profissão. Os vinte anos que passou nos Estados Unidos foram dedicados à fotografia, documental e artística, e ao trabalho como autônomo para periódicos brasileiros e norte-americanos como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Time, Newsweek, Life, Rolling Stone. Em 1977 teve aulas com o fotógrafo Philippe Halsman.

Foto: Claudio Edinger.

Foto: Claudio Edinger.

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