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8 de setembro de 2017

Numo Rama, a palo seco

Retrato de Numo Rama

A série Carnívoros, de Numo Rama, leva-nos a um espaço de crueza – da carne, da vida, da morte, da sobrevivência. Imagens em preto e branco de um matadouro, lugar onde não há concessões, da mesma forma que não são condescendentes as fotos de Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“A vida de peão não me permite ser um fotógrafo contínuo. Então, penso a fotografia enquanto conserto as cercas, ou preparo o arreio para domar cavalo. É de onde tiro tempo para longas reflexões e programo mentalmente tudo”, explica o fotógrafo ao jornal O Estado de São Paulo. Aos 45 anos, nascido em Araruna (Paraíba), Rama vive atualmente em um rancho, no município de Pedra da Boca (na divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte), depois de ter rodado o mundo por 16 anos, fazendo diversos trabalhos temporários.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“Dos embates das realidades desse chão que voltei a pisar em 2000 venho extraindo a energia necessária para fazer uma fotografia com o volume e a força pertinentes à vida de meus ancestrais e das pessoas que encontro por aqui”, conta o fotógrafo. Embate, energia, força: palavras que, de fato, são associadas facilmente ao universo criado pelas imagens de Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“A estética do sertão tem uma força muito própria. Tudo no presente por aqui teve muitos passados, e com uma câmera simples, analógica e muita pretensão tento juntar tudo numa única imagem”, explica Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“Vivi em muitos lugares, principalmente em grandes cidades, onde não há espaço nem tempo, onde formataram o tempo, onde o tempo está em extinção. Todo meu trabalho é pensado com o tempo, somos bons amigos”, conta o fotógrafo. De volta ao mundo rural, Rama aborda a passagem do tempo exibindo os rastros deixados pela atividade humana e pelos corpos dos animais.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

Quando o fotógrafo diz ver o mundo “a partir desse Nordeste que pare retirantes e retornados”, não tarda muito até pensarmos em João Cabral de Melo Neto, em mortes e vidas severinas. Assim como o poeta, Rama é conciso, sem sentimentalismos – e parece seguir o conselho dos versos finais de A palo seco, de João Cabral: “não o de aceitar o seco por resignadamente, mas de empregar o seco porque é mais contundente”.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

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