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17 de junho de 2011

Mestres da Fotografia de Moda: Helmut Newton

Retrato de Helmut Newton

Mulheres amarradas, mulheres usando selas de cavalos, mulheres totalmente nuas, exceto por seus sapatos de salto. Mulheres, mulheres, mulheres: o trabalho do fotógrafo alemão naturalizado australiano Helmut Newton é caracterizado pela onipresença feminina, sempre poderosa, ainda que em situações de submissão. Mesmo com marcas, rugas e cicatrizes, suas imagens mostram sempre modelos absolutamente perfeitas – e, para muitos, uma de suas maiores contribuições para a Fotografia de Moda foi ter ajudado a descobrir novos tipos de beleza feminina.

Autorretrato de Helmut Newton com modelos para Vogue Homme. Paris 1981

Cold Love. Foto: Helmut Newton

Sua capacidade de utilizar de forma elegante temas sexuais explícitos influenciou decisivamente a Fotografia de Moda dos anos 1960, e seu trabalho segue como uma forte referência até os dias de hoje. Ironicamente, mesmo que atacado por representantes do feminismo, ele também ajudou a consolidar a imagem da mulher como o “sexo forte”. Suas modelos são poderosas e seguras, têm pleno controle de sua sexualidade e de qualquer situação – mesmo aquelas criadas por ele, geralmente mergulhadas em sadomasoquismo, em fetichismo e em jogos de poder. No Helmut Newton Institute, sediado em Berlin, uma série de mensagens escritas por ele destinadas a diferentes gerações de editores de moda são expostas, sempre com o seguinte conteúdo: obrigada por ter tido coragem de publicar minhas fotos.

Foto: Helmut Newton


“As primeiras 10 mil fotos são as piores”

Helmut Newton

Foto: Helmut Newton

Filho de uma americana com um judeu-alemão, Helmut nasceu em Berlim, em 1920, com o sobrenome Neustadter. Interessou-se por fotografia ainda jovem, tendo trabalhado como aprendiz da notória fotógrafa alemã Yva, especialista em nus, retratos e moda. Em sua auto-biografia, ele declara que aos 12 anos, quando ganhou sua primeira câmera, já sonhava em se tornar fotógrafo da Vogue.
Em 1938, fugiu de seu país para escapar da perseguição nazista. Informações oficiais garantem que ele trabalhou como fotógrafo da Straits Times durante dois anos na Cingapura mas, em sua biografia, Helmut afirma ter trabalhado como gigolô. A ruptura com os pais, que exilaram-se na América do Sul, deu a Helmut um estilo de vida nômade e independente, marca fundamental de sua personalidade ao longo de toda a sua vida. Foi em Melbourne, na Austrália, que ele se estabeleceu, mas antes de servir ao exército australiano como motorista de caminhão, Helmut ficou internado em um campo de concentração junto com outros “estrangeiros inimigos”.

Linda Evangelista. Foto: Helmut Newton

Em 1946, inaugurou seu primeiro estúdio fotográfico e deu início ao seu relacionamento com a moda, tornando-se, em pouco tempo, cidadão australiano. Seu casamento veio um ano depois, quando fotografou a jovem modelo June Brunell, que viria a se tornar June Newton. Em sua auto-biografia, o fotógrafo confessa que ao convidá-la a se tornar sua esposa, alertou: “meu trabalho virá sempre em primeiro lugar”. Até a morte de Newton, em um acidente de carro na Califórnia, em 2004, June foi, além de companheira, assessora do marido, acompanhando-o em seus ensaios, sessões de fotos e viagens, sempre registrando os bastidores daquele universo. Hoje, ela atua como a grande responsável pela perpetuação de sua memória.
Retrato de Junne Newton. Foto: Helmut Newton

Autorretrato com sua esposa Junne Newton. Foto: Helmut Newton


“A fotografia de algumas pessoas é arte, mas não a minha. Arte é uma palavra suja na fotografia”

Helmut Newton

Foto: Helmut Newton

Em 1956, June e Helmut viajaram pela Europa e conseguiram um contrato de um ano com a Vogue britânica, quitado onze meses depois. Após uma parada em Paris, os dois retornaram a Melbourne, onde Helmut fechou uma nova parceria, desta vez com a Vogue australiana.
Foi em 1961 que os dois retornaram a Paris e fixaram residência em um apartamento na mesma quadra em que era sediada a Vogue francesa. O fotógrafo também colaborou com as publicações Queen e Elle, o que teve como consequência seu rompimento com a Vogue. A substituição da chefe de redação, em 1966, fez com que seu contrato fosse assinado novamente. Entre as outras revistas com as quais trabalhou estão a Playboy e a Stern.

Foto da capa: Helmut Newton

Nas imagens de Newton, as mulheres se encontram majoritariamente em situações precárias ou em atos eróticos, mas a natureza das fotos depende da interpretação de quem as observa. Um cenário comum utilizado por ele são quartos de hotel, o que muitos interpretam como retratos de relacionamentos entre desconhecidos. Outra visão usual é que, nessas imagens, Newton busca retratar o tumulto interno vivido pelas mulheres por conta dos valores da sociedade da época. Enquanto, em 1960, sua cota de participação em um mundo de homens crescia, a identidade feminina tradicional não era sacrificada, uma dualidade que Helmut expressava com imagens repletas de poder e submissão, envoltos em uma aura de sensualidade.

Vogue (USA), 1975. Foto: Helmut Newton


“Qualquer fotógrafo que afirma não ser um voyeur é ou um estúpido ou um mentiroso”

Helmut Newton
Mas o que eleva as fotografias de Newton, em sua maioria realizadas comercialmente, ao status de arte? O colunista do The Guardian Adrian Searle levantou essa questão em um artigo publicado no jornal inglês em 2001, três anos antes da morte do fotógrafo. “Após três décadas de polêmica feminista, Newton não passou dos limites? Por que suas imagens ainda são tão populares? Por que suas fotografias são arte se tudo o que ele fez foi comercial, era parte da indústria da moda?”, introduz.
Ao longo do texto, o autor conclui que o mérito de Newton está no fato de que suas representações dramáticas, sejam elas de modelos despidas ou vestidas, provocaram muito mais do que frisson: mexeram com tabus, com sexo e poder, com a complexa relação entre fotógrafo e modelo, imagem e espectador. Quando entrevistado, ele admitia sem constrangimento ser um voyeur, uma característica que, para muitos, está intrínseca na fotografia.

Autorretrato de Helmut Newton. Ao lado, sua esposa, June Newton. Foto: Helmut Newton

Muitos identificam em suas imagens qualidades usualmente encontradas na Fotografia Policial e no Fotojornalismo: luzes duras, flash forte, destaque no objeto central e escurecimento dos detalhes menos relevantes. A diferença fundamental é que os assuntos de Newton não se mostravam surpresos ao serem fotografados, pelo contrário. A consagração de sua estética fez dele, também, prolífico na fotografia de retratos. Passaram por suas lentes personalidades do cinema, do teatro e do mundo das artes, especialmente a partir dos anos 1980, quando ele colhia os frutos de seu sucesso no mundo fashion. Famosos queriam ser retratados por Helmut justamente pela carga sedutora e emocional de suas imagens.

Retrato de Madonna. Foto: Helmut Newton

Foi aos 75 anos que ele abandonou quase que por completo os cliques de cenários decadentes com modelos milionárias, pois alegava já ter fotografado nus o suficiente para mais de uma vida inteira. Em suas palavras, não tinha mais contribuição alguma para seu antigo principal assunto: “É apenas pele demais, não sobraram ideias”, afirmou, em entrevista.

“Meu trabalho como um fotógrafo de retratos é seduzir, encantar e entreter”

Helmut Newton

Retrato de Padma Lakshmi. Foto: Helmut Newton

Sua primeira exibição solo foi em 1975, na Nikon Gallery, em Paris. Um ano depois, seu primeiro livro de fotografias foi publicado, White Women. Em 1990, ganhou o prêmio francês “Grand Prix National de lá Photographie”. Depois de sua morte, suas cinzas foram jogadas na capital da qual fugiu na adolescência, Berlim, o mesmo local em que é sediada a Helmut Newton Institution. Repleta de obras e objetos pessoais do fotógrafo, o que inclui uma reprodução de seu quarto e fotografias e vídeos pessoais, o local foi fundado e é mantido por June Newton. Ao entrar no prédio, que, por sinal, trata-se do Museu da Fotografia de Berlim, a primeira coisa a ser vista são as gigantescas imagens de seu mais famoso ensaio de nus, Big Nudes, realizado em Los Angeles.
Para Zdenek Felix, curador do livro The Best of Helmut Newton (Schirmer art books on art, photography & erotics), a genialidade do fotógrafo está no fato de que ele não se cegou pelo glamour e pela máscara de pretensão que prevaleciam no mundo em que ele trabalhava e vivia. Pelo contrário, iluminou esse mundo com luzes fortes que resultaram em imagens brilhantes. Para Felix, ao contrário da maioria das fotografias de moda, as fotos registradas por Newton contém muito mais do que mostram.

Autorretrato de June Newton, codinome Alice Springs.

June Newton, Alice Springs
Em 1970, Helmut Newton não pode fotografar uma campanha para uma marca de cigarros por conta de uma gripe e enviou sua esposa em seu lugar. Mesmo sem nenhuma experiência fotográfica como profissional, June fez da sessão um sucesso e deu início, sob o pseudônimo de Alice Springs, a sua carreira na fotografia. Sob forte influência do estilo sensual dos trabalhos assinados pelo marido, em especial em seus cliques para editoriais de moda, June conseguiu criar sua identidade,  que ganhou força na fotografia de retratos. Yves Saint Laurent, Gore Vidal, Robert Mapplethorpe, Nicole Kidman e Angelica Houston são os protagonistas de alguns de seus registros mais expressivos. Desde 2005, seus trabalhos são regulamente expostos no Helmut Newton Institute.

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