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13 de julho de 2011

Luiz Carlos Felizardo e o olhar que colore o cinza

Felizardo no cemitério do Collares. Foto: Fábio Del Re

“O olhar que colore o cinza”, título da matéria de Mônica Kanitz sobre o fotógrafo Luiz Carlos Felizardo, publicado na 111ª edição da revista Aplauso, foi provavelmente inspirado na declaração de Paula Ramos, jornalista e professora do Instituto de Artes da UFRGS, sobre sua obra: retrata “um preto e branco que chega a ser colorido, tamanha a variedade de nuances dos cinzas”.
Foi, de fato, distante da paleta de cores que o fotógrafo homenageado do FestFotoPoa deste ano desenhou sua carreira. Quando questionado sobre o porquê, afirma ter escolhido a liberdade. “O [filme] negativo em preto e branco é mais maleável, tu podes expor mais, revelar menos, enfim, trabalhar a cópia como quiser”, explica na reportagem. As análises de Felizardo sobre o mundo da fotografia resultaram em dois livros: Relógio de Ver (2000) e Imago (2010), este último uma compilação dos textos de sua coluna homônima na revista Aplauso, publicados a partir de 2001.

Os Mortos Permanecem Jovens, 1987. Foto: Luiz Carlos Felizardo

As duas obras fizeram sucesso na biblioteca do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre, bem como o livro A Fotografia de Luiz Carlos Felizardo (2011), lançado na abertura do evento, em abril deste ano, que segundo a matéria foi o primeiro totalmente em preto e branco impresso em Porto Alegre. Tanto na escolha das 200 fotos contempladas no livro quanto na montagem da mostra, na qual suas fotos ocuparam todo o grande hall do Santander Cultural, Felizardo não foi um mero espectador. Participou ativamente de todos os processos, o que lhe rendeu ainda mais elogios na abertura da exposição.

Foguete, o galgo, 2009. Foto: Luiz Carlos Felizardo

A reportagem destaca a emoção de Felizardo na ocasião, e a avalanche de elogios que recebeu de velhos amigos e recentes admiradores. Nas palavras de Paula Ramos, parceira na organização do livro, “Felizardo é uma rara unanimidade no cenário da fotografia brasileira, um fotógrafo com F maiúsculo”. Para Sinara Sandri, que está entre os organizadores do evento, já era tempo dele ter o grande livro de sua obra.
Motivos para tamanho reconhecimento não faltam: além de ser referência na utilização de câmeras de médio e grande formatos, tem como protagonistas em sua vasta produção cenários urbanos e campeiros, do pampa gaúcho às ruas de Paris. Sempre interessado prioritariamente nos elementos em cena e na maneira como se relacionam, seu trabalho é marcado por uma composição estudada de forma milimétrica. O segredo, como define Paula, está no fato de que ele educou seu olhar a partir de uma apreciação questionadora de obras fundamentais da arte e da fotografia.

Casa Godoy, 1992. Foto: Luiz Carlos Felizardo

A reportagem em questão também aponta o fato de que o discurso artístico de Felizardo tem como premissa a reflexão entre o que se vê e o que pode ser captado. Uma das peculiaridades de sua obra está na forma como trabalha com a melancolia. Suas imagens de rochas, ruínas, raízes, madeiras carcomidas e paredes rachadas fazem alusões à decadência e, como define a repórter, até mesmo à fantasmagoria. Felizardo afirma se sentir atraído por esses elementos por terem plasticidade e uma estrutura interessante. Foram eles que o levaram até as fotografias de cemitérios, um tema comum em sua produção.

Sierra Ancha, 1985. Foto: Luiz Carlos Felizardo

É de um cemitério uma das obras mais famosas do fotógrafo, registrada em 1974, na cidade de Santa Bárbara do Sul. A foto rodou o mundo entre exposições e coletâneas, incluindo o livro Photography Year’79, da Time-Life Books. “Os cemitérios carregam essa ideia de decadência, mas não é só isso que me interessa. Há também a questão do homem que morreu e se transformou em pó, da finitude da vida”, afirma, com sua subjetividade característica.

Cemitério em Santa Bárbara do Sul, 1974. Foto: Luiz Carlos Felizardo

O registro do cemitério de Santa Bárbara do Sul foi um dos tantos que fez com grandes equipamentos, como explica na matéria: “Se uma câmera exige tripé, como as grandes, tu vais pensar mais a fotografia, o foco será mais extenso e dá para decidir se a pedrinha vai entrar ou não”. Nas viagens pelo mundo, costumava utilizar uma Leica pequena, popularmente conhecida como 35mm. “Usava a Leica buscando o resultado de uma câmera de formato maior. A qualidade dela possibilita isso”, ensina.

Pátio, 2007. Foto: Luiz Carlos Felizardo

“Os processos de transformar uma visão em fotografia tomam tempo, dão trabalho e exigem respeito pelo assunto que transformamos. E é preciso que se entenda alguma coisa da estrutura que amarra os vários elementos que compõem nossa imagem, a mesma estrutura que ordena as frases musicais, ou da literatura, e limita e sustenta as criações da arquitetura. Mais importante ainda, a fotografia tem de ser vista e compreendida com um olhar amplo, que abrace também a história da arte.”
Luiz Carlos Felizardo

Moving, 1984. Foto: Luiz Carlos Felizardo

As viagens de Felizardo renderam inúmeros ensaios em países do mundo inteiro, mas nascido no centro de Porto Alegre, nunca quis viver em outro lugar. A menina dos olhos de sua memória afetiva também é gaúcha, Bagé. Da infância até os tempos de faculdade, passava as férias na fazenda Santa Clara, que pertencia ao seu tio, e o gosto pela Campanha também protagonizou e refletiu em muitos de seus trabalhos.

Pampa, ovelhas e tormenta, 1984. Foto: Luiz Carlos Felizardo

Além de apreciar a vida rural, Felizardo também era apaixonado por música. Nas décadas de 1950 e 1960, estudou violão e cantou em um coral, mas decidiu estudar Arquitetura, ingressando na UFRGS em 1968. Não concluiu o curso, saindo quatro anos depois, justamente porque a fotografia já começava a se tornar uma fonte de lucro. Depois de trabalhar em um escritório de programação visual e desenho industrial, realizou um editorial de moda considerado inovador, e logo foi chamado para auxiliar Assis Hoffmann em um estúdio de fotografia publicitária. Por ser, também, editor da Folha da Manhã, Hoffmann lhe deu um espaço no suplemento de cultura do jornal. Felizardo, que sempre gostou de escrever, começou a ser publicado, redigindo desde análises técnicas de equipamento até críticas de exposições.

Bistro e espelho, 1991. Foto: Luiz Carlos Felizardo

O fotógrafo se tornou seu próprio chefe em 1976, já com dois filhos. O objetivo foi buscar liberdade, pois trabalhando em agência produzia imagens que já tinham sido idealizadas. No mesmo ano, fez catálogos de exposições, livros biográficos e começou a trabalhar com Julio Curtis, com quem viajou por todo o interior do Rio Grande do Sul fotografando arquitetura histórica.
Na época, viveu um momento profissional que incluía uma parceria com o tradicional Theatro São Pedro, mas interrompeu os projetos por uma causa nobre: foi selecionado pelo programa Capes-Fullbright, mudando-se para Prescott, no Arizona, Estados Unidos. Lá, trabalhou com Frederick Sommer, que se tornou um amigo, uma influência e um futuro objeto de estudo.
“Se fotografar é conferir importância a algo que atrai nosso interesse, então o respeito pelo que fotografamos é compreensível – e indispensável. É preciso respeitar a nossa própria percepção para que se possa extrair dela alguma coisa. Então, se quisermos que o resultado seja visto com alguma benevolência, é preciso trabalhar nele com o respeito que também a visão do espectador merece.”
Luiz Carlos Felizardo

Bistro, 1991. Foto: Luiz Carlos Felizardo


No balanço de seus 40 anos de carreira, Felizardo destaca o fato de que sempre procurou se manter independente, trocando as amarras com empresas por clientes fiéis. Entre as tantas exposições de suas obras, destaca três delas na reportagem da Aplauso: Jogo do Olhar, que levou para o Masp, em São Paulo; a série O Sonho e a Ruína, que ocupou o paço Imperial no Rio de Janeiro, e Cidade Transfigurada, que abordou aspectos pouco requintados da arquitetura porto-alegrense.

Jogo do Olhar (num trem para Chartres), 1991. Foto: Luiz Carlos Felizardo

Nos seus próximos planos está o lançamento de outro livro, Querência, que vai abordar sua relação com Bagé. Graças a uma bolsa Funarte, a obra já está formatada, aguardando apenas um financiamento para ser impressa. Por apreciar trabalhar com a memória, como o próprio afirma, outro de seus projetos também é bastante pessoal: registrar objetos marcantes de sua infância, o que inclui brinquedos antigos e um peso de papel que pertenceu a seu pai.
Felizardo trabalha, hoje, em seu próprio apartamento. Vítima da doença de Machado-Joseph, que afeta as estruturas neurológicas responsáveis pelo equilíbrio e pela coordenação dos movimentos, rompeu recentemente os ligamentos do tornozelo esquerdo, mas nem por isso sossegou. Deixou para trás o laboratório e construiu um escritório equipado com uma impressora de alta definição e um Macintosh scanner de última geração, além de milhares de arquivos. “Eu ainda acredito no filme, mas acho que o digital faz maravilhas. Com ele, posso morrer amanhã e minha fotografia vai continuar existindo do jeito que eu queria. O negativo sempre dá margens para interpretações”, afirmou na reportagem. Sua câmera digital foi presente do filho, que herdou a afinidade artística do pai e hoje fotografa surfe na Austrália. A Panasonic, que tem lente Leica, é chamada por Felizardo de “pequena jóia”.

Querencias, 1982. Foto: Luiz Carlos Felizardo

A reportagem encerra com algumas das razões fundamentais que fazem de Felizardo um fotógrafo diferenciado, como sua experiência e seu domínio do equipamento e das técnicas de captura e revelação da imagem. Seu grande segredo também é revelado: “Assim como um bom médico ou um bom advogado, um bom fotógrafo precisa combinar a qualidade de seu trabalho com o prazer de viver. Precisa ler bons livros, ver bons filmes, tomar bons vinhos, namorar bastante… Enfim, cercar-se de tudo o que existe de melhor nesta vida”.

Dick's barn, 1985. Foto: Luiz Carlos Felizardo

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