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6 de maio de 2013

Bernd e Hilla Becher: oposição à ideia da fotografia como “arte do instantâneo”

Retrato de Bernd e Hilla Becher.

Bernd e Hilla Becher são fotógrafos, mas receberam em 1990 o Leão de Ouro da Escultura na Bienal de Veneza. As esculturas, ali, eram representadas por suas fotografias de paisagens industriais abandonadas, com formas duras, obsoletas e intrigantes que, não fossem os registros do casal alemão, permaneceriam anônimas. O trabalho da dupla começou em 1958. Casaram-se em 1961 e durante mais de cinco décadas criaram em imagens registros contundentes da era pós-industrial, poéticos justamente por serem tão objetivos.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

O casal tornou-se conhecido por suas “tipologias”, esquemas de imagens em preto e branco com diversos exemplos de construções industriais. Para criá-las, viajavam para siderúrgicas e minas de diversos países, fotografando silos, reservatórios de gás, torres sinuosas de carvão e minério e os fornos onde elas desembocavam. Enquanto a composição revelava a simplicidade das formas, a riqueza de detalhes era quase enciclopédica. O que alçou o portfólio dos Becher ao status de arte é justamente a forma como extraiam as grandes estruturas de seus contextos iniciais, transformando cada frame em um novo objeto. Assim, parece ser justamente a frieza do olhar que confere às imagens sentimento. As condições e precauções técnicas tomadas antes do registro das edificações eram quase sempre as mesmas: céu nublado, luz opaca, muita profundidade de campo e perspectiva frontal.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

A autoria era sempre assinada em parceria, afinal, não importava quem disparava: a composição era sempre detalhadamente definida por ambos antes do clique – bem como as futuras modificações. Falecido em 2007, Bernd nasceu em Siegen, em 1931, participou da restauração de igrejas, foi aluno de Otto Rössing e em 1957 começou a estudar na Academia de Artes de Düsseldorf. Já Hilla nasceu em Potsdam em 1934 e, depois de passar por uma formação fotográfica, fugiu em 1955 da Alemanha Oriental e começou a trabalhar em Hamburgo. Foi quando se mudou para Düsseldorf e começou a trabalhar com Publicidade que conheceu Bernd. Foram viver juntos em 1958 em Siegen, uma das mais antigas áreas industriais da Alemanha.

Foi de Bernd que nasceu o desejo de reproduzir as paisagens que via em Siegen que, com o declínio da indústria metalúrgica (substituída por siderúrgicas na região do Vale do Ruhr), progressivamente começavam a sumir. A ideia inicial foi reproduzi-las em desenhos. Como ponto de partida, começou a eternizar as minas desativadas com uma câmera de pequeno formato. Gradualmente, influenciado pela estética e o método de Hilla, passou a fotografar cada vez mais, revelando a tipologia da arquitetura da era industrial.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Em 1961, com a primeira câmera profissional em mãos, iniciaram suas expedições “arqueológicas” por paisagens da era pós-industrial não apenas na Alemanha, mas também na Bélgica, Holanda, Luxemburgo, França e, posteriormente, Estados Unidos. A primeira exposição veio em 1963, em Siegen. E três anos mais tarde, sua Kombi foi transformada em um improvisado laboratório durante viagens pela Inglaterra e o País de Gales.

Para o professor e crítico de arte português David Santos, o trabalho desenvolvido pela dupla transformou de modo decisivo a fotografia contemporânea, além de ter um impacto considerável no Minimalismo e na Arte Conceitual dos anos 1970. Sua obra influenciou artistas como Laurenz Berges, Andreas Gursky, Simone Nieweg, Thomas Ruff, Thomas Struth e Petra Wunderlich, além do canadense Edward Burtynsky que também produz criações dentro de propostas semelhantes. Nas palavras do intelectual, “na pluralidade desumanizada dessas fábricas esquecidas e abandonadas, [...] os Becher revelam-nos fundamentalmente uma aura arqueológica incontornável, como se estivéssemos apenas perante mais um vestígio longínquo”.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

Foto: Bernd e Hilla Becher.

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