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29 de abril de 2013

Belo e bizarro em harmonia na obra de David LaChapelle

Retrato de David Lachapelle.

É pela marca autoral inexorável em suas imagens comerciais que David LaChapelle é um dos principais nomes da fotografia editorial e publicitária contemporânea, em especial americana. Os exagerados e ininterruptos estímulos da sociedade de consumo e o lado mais perverso e vampiresco da indústria do show business ganham, em suas imagens, uma leitura poética, escrachada, de contrastes assustadores e nuances surrealistas – ou, como o próprio prefere, hiper-realistas. Descoberto por ninguém menos que Andy Warhol (o que diz muito sobre as origens de sua veia tão pop quanto profunda, tão artística quanto comercial), o fotógrafo trabalhou durante duas décadas como retratista de celebridades, mas recentemente cansou das estrelas e decidiu se dedicar a outros assuntos.

Gisele Bündchen. Foto: David LaChapelle.

Angelina Jolie. Foto: David LaChapelle.

Ainda que a maior parte de sua carreira tenha sido focada na fotografia de celebridades, LaChapelle sempre conseguiu incluir em seus retratos profundas mensagens sociais. Nascido em 1969 na Carolina do Norte, estudou Artes Plásticas na North Carolina School of Artes, até rumar para Nova Iorque a fim de se dedicar às renomadas Arts Student League e Schoold of Visual Arts. Sua vida profissional começou em 1980, quando mostrou suas obras a galerias nova-iorquinas e atraiu o olhar de um maduro Andy Warhol, que o ofereceu seu primeiro emprego como fotógrafo na Interview Magazine. As fotos de estrelas hollywoodianas logo ganharam atenção, e, rapidamente, seu nome já figurava em uma variedade de publicações editoriais, como Vogue, Vanity Fair, GQ, Rolling Stone, i-D, além de em algumas das campanhas publicitárias mais marcantes de sua geração. Para suas lentes, posaram, apenas para citar alguns exemplos, Madonna, Tupac Shakur, Hillary Clinton, Muhammad Ali. Após estabelecer-se, decidiu tentar a sorte na direção de clipes, eventos ao vivo e documentários, colecionando prêmios também na área cinematográfica.

Dave Navarro e Carmen Electra. Foto: David LaChapelle.

Kirsten Dunst. Foto: David LaChapelle.

Seu testemunho de um mundo paralelo e surreal é transmitido em imagens que misturam glamour e comédia, beleza e bizarro. Para muitos, o que inclui o próprio, sua identidade começou a ser construída no momento em que tirou sua primeira fotografia, aos seis anos. De férias em Porto Rico com sua família, o pequeno David clicou a mãe, Helga, de biquini e segurando uma garrafa de Martini. Maravilhado pela imagem da matriarca tão bela, confiante, cativante, não largou mais a câmera. Ainda que o primeiro passo tenha sido dado quase de forma fotojornalística, o fotógrafo afirma tentar ir o mais longe possível da realidade em suas fotografias, já que “os sonhos deveriam fazer parte de qualquer cotidiano”. Essa atmosfera onírica que cria contribui para que suas fotografias sejam relacionadas a obras de artistas surrealistas, como Salvador Dalí. O absurdo desenhado em tinta, entretanto, LaChapelle reinventa em imagens digital e impecavelmente manipuladas. Outra comparação constante é feita em relação ao também fotógrafo Guy Bourdin, pelo uso glamuroso e pioneiro de cores e pelas situações inesperadas que inseriu na fotografia de moda.

Foto: David LaChapelle.

Foto: David LaChapelle.

Uma de suas mais elogiadas características é o talento para dirigir celebridades, inserindo-as de forma natural em contextos, situações ou poses polêmicas – como o celebrado clique de Angelina Jolie em estado de êxtase –, muitas vezes degradantes – como os cliques de Pamela Anderson repletos de referências à artificialidade de seu corpo. Pâmela, aliás, ao lado da plastificada Amanda Lepore, é uma de suas principais musas. Outra celebridade que assume um papel importante em sua trajetória é Britney Spears, que ainda na adolescência protagonizou um dos mais polêmicos ensaios de seu portfólio, ajudando a tornar suas capas para a Rolling Stone feitas nos anos 1990 itens de colecionador. Outra estrela, Madonna, foi a responsável por um ponto de virada em sua carreira. Numa tarde de 2005, enquanto discutiam o clipe de Hung Up pelo telefone, LaChapelle decidiu em um rompante afastar o celular do ouvido, deixando a cantora gritando do outro lado da linha. “Foi um momento libertador na minha vida, decidi que não faria mais aquilo”, declarou, anos mais tarde. Depois de um longo retiro recolhido em sua casa em Maui, no Havaí, lançou em 2012 um dos primeiros frutos dessa decisão, uma série de 10 fotografias de natureza morta exibidas em galerias de Nova Iorque, Londres, Milão e St. Moritz.

Foto: David LaChapelle.

Foto: David LaChapelle.

LaChapelle declara-se um fotógrafo capaz de ser inspirado por tudo, da história da arte à cultura de rua, passando pela selva havaiana em que vive. Ainda de acordo com o próprio, seu trabalho é em um só tempo amoroso e crítico, o que o permite projetar, também em sua obra autoral, uma imagem própria da cultura pop do século XXI. São essas características que facilitaram sua transição do mundo da moda e da fotografia de celebridades para a arte contemporânea. Entre seus livros publicados estão LaChapelle Land (1966), Hôtel LaChapelle (1999), LaChapelle, Artits & Prostitutes (2006) e, no mesmo ano, o gigantesco Heaven to Hell (2006).

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