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5 de setembro de 2013

A vida antes do nascimento, por Lennart Nilsson

Retrato de Lennart Nilsson

As imagens que ilustram este post representam um marco revolucionário na história da fotografia, fruto de um de seus constantes e intensos casamentos com a ciência. Assinadas pelo fotojornalista e cientista sueco Lennart Nilsson, elas tem como assunto o que antes era considerado impossível de fotografar: embriões humanos in vivo (do latim, “dentro do vivo”, expressão que designa aquilo que ocorre ou tem lugar dentro de um organismo). Esses registros sem precedentes ganharam a capa da revista LIFE em 30 de abril de 1965 e tornaram o fotógrafo conhecido no mundo inteiro.

Foto: Lennart Nilsson

Foto: Lennart Nilsson

Ao pesquisar sobre a vida do fotógrafo, percebemos uma coincidência randômica: em nosso post anterior, falamos sobre José Medeiros, que nasceu em 1921 e ganhou sua primeira câmera de seu pai, aos 12 anos de idade. Nascido em 1922, em Strangnas, na Suécia, bem longe do nordeste brasileiro onde Medeiros veio ao mundo, Nilsson foi presenteado com uma câmera na mesma idade e também por seu pai. Aos 15, viu um documentário sobre Louis Pasteur que o deixou profundamente interessado em microscopia. Em poucos anos, adquiriu um microscópio e passou a fotografar insetos. Começou a tirar uma série de retratos ambientais com sua Zeiss Icoflex, alguns anos depois, e teve a oportunidade de fotografar diversas personalidades da Suécia.

Foto: Lennart Nilsson

Foto: Lennart Nilsson

Foi em meados dos anos 1940 que começou sua carreira como fotógrafo freelancer, trabalhando para a editora Âhlen & Âkerlund, de Estocolmo. Uma de suas primeiras pautas foi a liberação da Noruega em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial. Diversos de seus ensaios chamaram atenção internacional depois de serem publicados na LIFEIllustratedPicture Post, entre outros veículos importantes. Com a carreira consolidada, depois de 89 de seus retratos de personalidades famosas serem publicados no livro Sweden in Profile (1954) e de uma compilação de seus ensaios fotojornalísticos ser editada em Reportage (1955), Nilsson voltou à experimentação.

Foto: Lennart Nilsson

Foto: Lennart Nilsson

Ainda na década de 1950, dedicou-se a emergentes técnicas fotográficas para a realização de extremos close-ups. Nilsson combinou esses avanços com o uso de endoscópios extremamente finos, que se tornaram disponíveis nos anos 1960, tornando-se apto a fazer imagens pioneiras de vasos sanguíneos e cavidades do corpo – todas em pessoas vivas. Conseguiu atingir seu principal objetivo, fotografar um feto desde a fecundação do óvulo, em 1965. Seu ensaio A Child is Born, cujas imagens ilustram este post, correu o mundo inteiro e foi publicado em livro em 1965, depois de passar pelas páginas da SternParis Mach, Sunday Times e LIFE, edição que atingiu 8 milhões de cópias vendidas em seu quarto dia nas bancas.

Foto: Lennart Nilsson

Foto: Lennart Nilsson

As imagens do feto de 18 semanas que ilustraram a reportagem incineraram um debate que perdura até hoje – ético, moral, religioso, jurídico e médico – que tem suas bases na questão “onde começa a vida?”. No meio fotográfico, entretanto, a pergunta principal era outra: “como diabos ele conseguiu fazer isso?”. No editorial da LIFE publicado na edição em questão, a revista contou aos leitores que há 10 anos o fotógrafo havia revelado seu plano de fotografar em cores as etapas da reprodução humana, desde a fecundação até pouco antes do nascimento. “Era impossível para nós não expressar um certo grau de ceticismo sobre suas chances de sucesso, mas Nilsson não se sentia desse jeito. Ele simplesmente disse ‘Quando eu terminar a reportagem, vou trazê-la para vocês’. E cumpriu sua promessa. Voou de Estocolmo a Nova Iorque e nos trouxe o estranho, bonito, cientificamente único e colorido ensaio presente nesta edição”.

Foto: Lennart Nilsson

Foto: Lennart Nilsson

Embora seu objetivo fosse mostrar um feto vivo, Nilsson também fotografou embriões abortados obtidos de mulheres que interromperam a gravidez dentro da lei sueca. Com essas amostras, testou iluminação e posições diferentes. Em 1969, começou a usar um microscópio eletrônico de varredura para ilustrar e descrever as funções do corpo. Por volta de 1970, juntou-se à equipe do Karolinska Instituet e trabalha lá desde então. É creditado como o primeiro a registrar em imagens o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) e, em 2003, registrou a primeira imagem do Vírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS).

Foto: Lennart Nilsson

Foto: Lennart Nilsson

O trabalho de Nilsson está exposto em diversos locais, incluindo o Museu Britânico, em Londres , o Tokyo Fuji Art Museum e o Museu de Arte Moderna de Estocolmo. Desde 1998, o Prêmio Lennart Nilsson é dado em reconhecimento da fotografia científica, patrocinado pela fundação que leva seu nome.

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