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8 de fevereiro de 2012

“Felix, Gladys and Rover” analisada por Eduardo Veras

Elliott Erwitt segura sua foto "Felix, Gladys and Rover". Foto: Tim Mantaoni.

Na semana passada, falamos sobre o projeto Behind Photographs, de Tim Mantoani, que retratou mais de 150 fotógrafos segurando alguma imagem icônica de sua autoria. O objetivo era ajudar a dar o crédito merecido para esses profissionais, bem menos famosos do que suas obras.

Convidamos o professor Eduardo Veras para analisar uma dessas imagens, Felix, Gladys and Rover (Nova Iorque, 1974), uma das mais famosas do fotógrafo Elliott Erwitt, americano nascido em Paris e filho de russos. A imagem foi feita na frente de seu apartamento no Central Park.

Ainda na adolescência, Erwitt estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde estudou cinema. Em 1953, passou a fazer parte da mítica agência Magnum, convidado por Robert Capa. Com forte trabalho documental, capturava momentos indiscretos, inusitados, certa informalidade em meio a cenários formais. Por isso, suas fotos costumam provocar sorrisos — não gargalhadas, sorrisos. Interessava-se por cachorros e outros animais, quase sempre combinados com alguma característica do comportamento humano, parecendo retratar a realidade de seus donos. Inspirado pelas composições rigorosas de Henri Cartier-Bresson, Elliott se diferencia dele por buscar o bizarro e a graça no proibido, em vez de focar-se no “momento decisivo”, no drama, no silêncio. Essa aparente tranquilidade e leveza na escolha de temáticas e abordagens pode ser interpretada como uma postura diante da vida, o que ganha força quando vemos seu semblante ao segurar a foto.

As características gerais de sua obra são fortemente representadas na imagem em questão, analisada por Veras. Ao compará-la (já que a comparação, nas palavras do professor, além de inevitável, é interessante), sua primeira observação é que se trata de uma fotografia bem menos pretensiosa do que as outras que integram o projeto. “As demais têm uma ambição épica, um cuidado formal muito grande, o que são qualidades. Mas aqui existe uma caracteristica diferente: embora ela tenha um lado formal, o charme está em um certo descompromisso, um certo humor”.

Para Veras, outra parcela de seu encantamento está em algo muito simples: além da composição bem cuidada, com contrastes entre preto e o branco bem trabalhados, o charme está na percepção do fotógrafo ao encontrar paralelos de pernas, linhas verticais em um grande plano horizontal. “Até o cachorro, mesmo pequeno, tem a sua verticalidade. E não dá para ter certeza de nada, pelo ângulo que ele escolhe, só se vê bem o pequeno, o cachorro”.

Em sua opinião, trata-se da imagem mais singela da série: “A maneira como ele enquadra o cotidiano é o que dá sentido para a fotografia, muito mais do que estar documentando ou registrando algo importante”.

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