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22 de junho de 2011

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A Sombra da Luz: os trabalhos dos alunos e a importância da experimentação

Foto: Amália Machado Goncalves

Depois da proposta do desafio “A Sombra da Luz”, os professores do Curso de Fotografia Raul Krebs e Leopoldo Plentz ministraram aulas relacionadas ao assunto, dando aos alunos referências e exercícios. Mas, para conferir o resultado final, foram convidados os professores Guilherme Lund e Eduardo Veras, que não acompanharam a evolução dos estudantes em aula e, por isso, teriam um olhar mais fresco, sem influências, no momento de avaliar os trabalhos.

Foto: Alexandre Raupp

Durante a aula, a expressão “desenhar com a fotografia” foi utilizada diversas vezes pelo professor Eduardo Veras que, a nosso convite, explicou o significado que ela tem para ele: “Em geral, quando eu penso em desenho, penso em linhas, em grafismos, na utilização deles para construir alguma coisa. Pode ser uma linha solta, pode ser uma linha que faz curvas, podem ser linhas geométricas, que se cortam, ou ainda uma linha reta, o menor caminho entre dois pontos. Quando olho para uma fotografia e o que puxa o meu olhar são linhas, eu interpreto que a pessoa está desenhando. Ela está usando a fotografia para fazer desenhos. E isso não é um problema, pelo contrário. É possível desenhar em telas, papéis, fazendo esculturas, fazendo prédios, fotografando…”, opinou Veras.

Foto: Eliane Heuser

“No trabalho em questão, como a proposta era utilizar sombra e luz, é muito tentador para os alunos desenhar com a sombra. As vezes é à revelia da gente que a sombra desenha. Ela define contornos, o que nada mais é do que desenhar”. Veras ainda afirmou que o mais interessante ao conferir os trabalhos é o fato de que cada olhar é um olhar, então, para a mesma proposta, existem respostas bem diferentes.

Foto: Priscila Maboni

Como os alunos abusaram de grafismos, Veras alertou que, nesses casos, deve-se dar uma atenção extra à composição para que elementos externos não interfiram negativamente no resultado final. Guilherme completou: “Quando a composição envolve pessoas, aquele ‘momento decisivo’ de Henri Cartier-Bresson é importante. É necessário prestar atenção nos pequenos gestos para não perder o momento do clic”. O professor também relembrou a importância de não apenas estar atento aos detalhes, mas de se afastar, tentar planos mais vazios.

“Existem frustações e limitações. Você pretende fazer uma coisa, mas aí entram as tuas limitações, a coisa fica um pouco menor. Há o que você quis fazer e o que conseguiu fazer”


Quando questionado se existem armadilhas para o fotógrafo quando se trabalha com sombra como um elemento de composição, Veras afirmou que por mais que elas existam, ele não as considera ruins. “As armadilhas podem ser boas, podemos até mesmo nos aproveitar delas em certos casos. Um problema comum é que, às vezes, ficamos fascinados por algum efeito, fica uma coisa meio ‘efeito pelo efeito’ que deve ser evitada. Mas o importante mesmo é fazer, arriscar, e depois pensar no que fez”, sugere, “é fazendo e experimentando que se aprende, não existe outra forma. Prevenções, pensar ‘isso é uma armadilha’, é que é o mais perigoso”.

Foto: Ana Letícia Sabi

Os dois professores ressaltaram a importância de procurar referências, prestar atenção em como outros artistas já pensaram a sombra. “Quando se trabalha com diagonais, por exemplo, é necessário saber onde ela desce e onde ela morre. Muitas vezes as diagonais quebram verticais, fica interessante”, apontou Veras.

“As coisas que você pretende nem sempre são as que o outro vai sentir”


Eduardo também aprovou o olhar pouco pretensioso de alguns alunos, em especial nos trabalhos que exploraram o espaço doméstico. “Esse tipo de fotografia me remete à fascinação das pessoas com as pequenas coisas, que é comum na infância e tende a sumir ou diminuir significativamente na idade adulta”, afirmou. O olhar positivo também prevaleceu nos usos de luz em feixes discretos, sem ser dramáticos, nas palavras do professor. “Implico um pouco com o uso daquela luz divina, marcada, celestial, muito utilizada no período barroco”, contou.

Foto: Marcia Maria de Antoni Goncalves

Os professores destacaram o trabalho de Márcia Maria Gonçalves, que realizou várias fotografias do mesmo prédio em diversos ângulos e fez uma colagem, brincando com a sombra. A experiência foi uma direta referência ao trabalho de David Hockney. Veras destacou que se tratava de uma exploração não apenas da sombra natural da  imagem, mas da sombra fruto de sobreposições criadas pelo fotógrafo com as reproduções. “Márcia fez o que Hockney faz, mas conseguiu dar uma resposta inteligente ao trabalho dele”, elogiou Veras.

Foto: Arthur Weinmann Tietze

Detalhes do corpo, poros e pelos, foram o assunto do aluno Arthur Tietze em outro trabalho elogiado. Para captar em macro, ele optou por usar uma câmera cybershot, amadora, e, de acordo com os professores, obteve um ótimo resultado: “A sombra interessou menos, não foi tanto o assunto quanto no trabalho dos colegas. Ao vermos fotos de corpo humano, no detalhe, imediatamente tentamos identificar de que parte do corpo se trata. As que são desvendadas logo de cara, no caso de Arthur, acabaram ficando as mais interessantes, fascinam pela composição abstrata”, apontou Eduardo. Guilherme elogiou a edição: “Sempre gosto de ressaltar a importância do conjunto. Nas fotos de Arthur, o conjunto se sustenta”.

“Aprender com os erros é importante. Mas é preciso ter humildade para ver os erros. O importante é trabalhar, olhar”

Foto: Paulo Corradi Pretz


No encerramento, Guilherme elogiou o resultado obtido pelos alunos: “Muitos dos trabalhos foram muito legais justamente pela questão da experimentação. É importante experimentar, testar, começar a ver a sombra de outra maneira. Não queremos rotular o trabalho, dizer ‘isso funciona, isso não’, o importante é exercitar, conversar sobre as fotos”. O professor ainda ressaltou a importancia do estudo em tempos de fotografias tão imediatistas, já que os artistas consagrados do passado eram incansáveis, pesquisavam e praticavam muito. Nesse clima, a aula foi finalizada com a leitura de motivantes frases do artista Xico Stockinger, trechos de uma entrevista concedida a Eduardo Veras em 2007, que ilustram esse post em conjunto com as fotografias dos estudantes.

“É preciso ter talento ou gosto. Gosto e talento, não sei se são a mesma coisa. É preciso trabalhar muito. É preciso ter amor ao que está na cabeça da gente. Entre você ver a coisa e fazer a coisa, há um caminho meio difícil. É preciso praticar bastante”

2 Comments Post a comment
  1. Que arte linda! porém estudo bem proximo, arquitetura.

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  1. A sombra da luz e a primeira aula | Curso de Fotografia ESPM

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