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23 de março de 2011

Mestres da Fotografia: Henri Cartier-Bresson

Retrato de Henri Cartier-Bresson, Paris, 1967, foto Robert Delpire

Gênio. Herói do fotojornalismo. Inovador. Existem inúmeros adjetivos para tentar definir, descrever ou situar Henri Cartier-Bresson na história da fotografia. Nascido em 1908, na França, Cartier-Bresson desenvolveu cedo a aproximação com a arte. Logo aos cinco anos foi apresentado à pintura por um tio e aos 19, em 1927, estudou com o pintor cubista e escultor francês André Lheu. Inclusive, foi nesta época que ele entrou em contato com as obras de grandes artistas como os renascentistas Jan van Eyck, Paolo Uccello, Masaccio e os escritores como Dostoevsky, Schopenhauer, Rimbaud, Nietzsche e Proust. Foi um época de intenso aprendizado e que se refletiria em seus registros anos depois. Em 1931, em uma viagem à Costa do Marfim, ele fez suas  primeiras e quando retornou à Europa, passou a dedicar-se exclusivamente à fotografia. Isto aconteceu porque Cartier-Bresson viu uma foto de autoria do fotojornalista Húngaro Martin Munkacsi (que também influenciou Richard Avedon, como contamos aqui) que retratava três meninos negros correndo nús em direção ao mar. Cartier-Bresson define o momento:

Foto: Martin Munkacsi. Boys running into the surf at Lake Tanganyika, ca. 1930.jpg

“A única coisa que era uma surpresa completa pra mim e me levou à fotografia foi o registro de Munkacsi. Quando eu vi a fotografia dos meninos negros correndo em direção à onda, eu não pude acreditar que tal coisa poderia ser captada por uma câmera. Peguei a câmera e fui para as ruas.” (…) “Aquela fotografia me inspirou a parar de pintar e a levar a fotografia a sério.” (…) “De repente eu entendi que a fotografia poderia captar a eternidade instantaneamente.Henri Cartier-Bresson

A partir disso, Cartier-Bresson adquiriu a câmera que o acompanharia ao longo de muitos anos e que seria quase uma extensão dos olhos do fotógrafo: Uma Leica com lente de 50mm. Por ser pequena, ela permitia que Cartier-Bresson registrasse nas ruas momentos variados sem que as pessoas percebessem que estavam sendo fotografadas.

Foto: Henri Cartier-Bresson. Naples, Italia, 1960.jpg

Foto: Henri Cartier Bresson. Behind the Gare Saint-Lazare, Paris, França, 1932

Foto: Henri Cartier Bresson. Sénos, Grécia, 1961

Ele fotografou em diversas cidades européias e sua primeira  Exposição aconteceu em 1932, na Julien Levy Gallery, em Nova Iorque, e em seguida no Ateneo Club em Madrid. Em 1934 Cartier-Bresson conheceu David Szymin e Endré Friedmann, que mais tarde mudaria o nome para Robert Capa. Juntos, os três montaram um estúdio e Capa passou a ser uma espécie de mentor de Cartier-Bresson. Em visita a Nova Iorque, em 1935, ele conheceu o fotógrafo Paul Strand, que foi camera no documentário The Plow That Broke the Plains. Esse contato com o cinema fez com que, ao voltar para a França, ele se candidatasse a trabalhar com o diretor Jean Renoir, que incentivou Cartier-Bresson a atuar nos filmes Partie de campagne (1936) e La Règle du jeu (1939) para que ele pudesse entender como era estar do outro lado da câmera. Durante a Segunda Guerra Mundial, Cartier-Bresson serviu o Exército francês na unidade de filmagem e fotografia. Durante a Batalha da França, em 1940, ele foi capturado por soldados alemães e mantido como prisioneiro de guerra durante 35 meses. Tentou fugir sem sucesso por duas vezes até que, em fevereiro de 1943, na terceira e última tentativa, teve sorte. Fugiu e se escondeu em uma fazenda onde pode conseguir documentos falso que lhe permitiram voltar para a França. Lá, ele trabalhou secretamente contribuindo para que outros prisioneiros pudessem fugir, além de registrar com outros fotógrafos a Ocupação e Liberação da França. Ainda em 1943, voltou a Vosgues (departamento da França localizado na região Lorena),onde havia enterrado sua Leica.

Henri Cartier-Bresson e prisioneiros no campo alemão, 1943.

Retrato de Henri como prisioneiro de guerra,Junho 1940

Quando a guerra acabou, Cartier-Bresson foi convidado a realizar o documentário Le Retour, que fala sobre os prisioneiros de guerra franceses. Na primavera de 1947, ele e os amigos Robert Capa, David Seymour e George Rodger fundaram a Magnum Photos, uma das agências mais famosas do mundo e que funcionava de maneira cooperativa, com o o intuito de utilizar a fotografia a serviço da humanidade. Em 1948, a cobertura do funeral de Gandhi fez com que Cartier-Bresson atingisse reconhecimento internacional, o que ficou ainda mais forte quando, no ano seguinte, esteve presente no último estágio da Guerra Civil Chinesa. Em 1952, lançou seu primeiro livro: “Images a La Sauvette” mas foi a versão inglesa que trouxe como título a frase mais famosa de Cartier-Bresson e que foi usada por ele como um guia ao longo de sua carreira: “The Decisive Moment” (O Momento Decisivo):


“Há uma fração de segundo criativa quando você está fazendo uma foto. Seu olho deve enxergar uma composição ou uma expressão que a própria vida oferece a você, e você deve saber, através da intuição, quando clicar. Esse é o momento em que o fotógrafo é criativo ”
Henri Cartier-Bresson

 

Foto: Henri Cartier-Bresson. Kriss dancers in a trance, Batubulan, Bali, Indonesia

Foto: Henri Cartier-Bresson. Italia, 1933

Os anos seguintes foram de uma lenta deserção da fotografia e conseqüente aproximação com a pintura. Em torno de 1975, Cartier-Bresson já não fotografava mais, admitindo que, talvez, ele tivesse dito tudo o que podia através da fotografia. Segundo ele, a câmera agora ficava guardada em um cofre em sua casa e raramente era usada. E assim, após anos desenvolvendo sua visão artística com a fotografia, a pintura tomou conta de sua vida. Sua primeira exposição de pinturas aconteceu em na Carlton Gallery, em Nova York, em 1975.

“ Hoje em dia tudo o que eu quero é pintar – fotografia nunca foi mais do que uma maneira de pintar, um tipo de desenho instantâneo. “ Henri Cartier-Bresson

Foto Martine Francl, Magnum. Paris, 1992.

Henri Cartier-Bresson, Muséum d’Histoire Naturelle, Paris, 1976.

Em 2003, juntamente com sua esposa, Martine Frank, inaugurou a Fundação Henri Cartier-Bresson, para manter um local permanente com seus trabalhos. Ele veio a falecer em 2004, em Montjustin, na França.

Vale lembrar que, não por acaso, Cartier-Bresson é um dos três fotógrafos chave da fase inicial do Curso de Fotografia da ESPM-Sul, juntamente com Richard Avedon e Irving Penn, que em breve também ganhará um post especial aqui no blog.

Foto Bernard Baudin, D.R. Exhibition Hommage a Henri Cartier-Bresson. Palais de Tokyo, Paris, 1988.

 

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