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2 de maio de 2011

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Simplicidade e elegância: o legado contemporâneo de Irving Penn

Irving Penn em um espelho rachado, Nova Iorque, 1986.

  Mesmo os que acreditam nunca terem ouvido falar de Irving Penn, certamente já se depararam com algumas de suas fotos, sejam elas de natureza morta, sejam elas de sua coleção de editoriais de moda – muitos publicados na renomada Vogue até perto de sua morte, em 2009, aos 92 anos. Talvez ainda mais populares sejam seus retratos, como o nu de Gisele Bündchen leiloado por US$ 193 mil e o icônico Pablo Picasso com olhar enfático e misterioso. Aos que ainda acreditam desconhecer sua obra, vale tentar um dos registros de Truman Capote ou da gangue Hell’s Angels, belos exemplos de sua característica e eficiente iluminação.   

Durante seus 60 anos de carreira, Irving Penn revolucionou a forma de fazer retratos e de inúmeros outros gêneros fotográficos. Sua marca no campo da fotografia de moda foi impressa de forma profunda, sendo até difícil imaginar como seriam os editoriais contemporâneos não fosse a consagração de sua estética. Já seus trabalhos independentes, paralelos aos comerciais, que exploram nudez e natureza morta, possuem uma qualidade típica de gênios e pioneiros: com o passar do tempo, seu valor artístico ganha mais reconhecimento.   

Pablo Picasso, Cannes 1957. Foto: Irving Penn

Hells Angles, San Francisco 1967. Foto: Irving Penn

Truman Capote, Nova Iorque, 1965. Foto: Irving Penn

 Nascido em Nova Jersey em 1917, Penn estudou em escolas públicas e graduou-se em Design com ênfase em anúncios no Philadelphia Museum School of Art, tendo como mentor Alexey Brodovitch. Mudou-se para Nova Iorque no início da década de 1940 e foi chamado por Brodovitch para trabalhar na Harper’s Bazaar, revista de moda feminina concorrente da Vogue, onde atuou como Office Boy e aprendiz. Ainda jovem, desistiu de um trabalho como diretor de arte na luxuosa Saks da Quinta Avenida para ir ao México com o objetivo de descobrir, entre outras coisas, o quão bom pintor ele era. Depois de um ano, segundo o próprio, percebeu que não era tão bom quanto esperava. Mal sabia que lavava a tinta das mãos como preparação para pegar em câmeras fotográficas. Ao retornar a Nova Iorque, em 1943, foi contratado por Alexander Liberman, diretor de arte do grupo Condé Nast, para trabalhar na Vogue – não para clicar, mas para opinar e idealizar fotografias para as capas da revista.     

Vogue 1950. Ensaio Preto e Branco, Nova Iorque. Foto: Irving Penn

Pela ânsia em conseguir resultados, logo começou a botar em prática suas sugestões. Em outubro de 1943, assinou sua primeira capa para a Vogue, já introduzindo retratos de natureza morta na publicação. Na época, o conceito foi deixado de lado não por falta de apoio de Liberman, mas porque, poucos meses depois, Penn foi voluntário do American Field Service, programa de serviços comunitários que o levou a uma breve temporada entre Índia e Itália. Com seu retorno aos Estados Unidos no final da Segunda Guerra Mundial, em 1946, suas ideias foram reintroduzidas nas páginas da Vogue. Já nas duas edições de agosto, foram publicados retratos de Orson Welles e Helen Hayes que incluíam fotos de uma porção de objetos mesclados, buscando simbolizar o eu interior dos dois. O resultado foi demasiado sintético e não convenceu nem Penn nem os leitores. Apenas no ano seguinte, após inúmeras tentativas, Penn acertou ao produzir uma série de cornucópias (símbolo da fertilidade e da abundância representado por um vaso em forma de chifre) e deu inicio a uma infinita era de imagens de natureza morta na publicação. No mesmo ano, também, produziu alguns de seus retratos mais emblemáticos.   

After Dinner Games, Nova Iorque, 1947. Foto: Irving Penn

Como destaca John Szarkowski, diretor emérito do Departamento de Fotografia do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e autor do livro “Irving Penn”, é raro para um fotógrafo ser proeminente em gêneros que exigem talentos e sensibilidades tão diferentes. Na natureza morta, é possível um maior grau de controle; nos retratos, o fotógrafo pode ser comprometido pela vontade do sujeito. Os melhores retratistas costumam ser aqueles que estabelecem uma troca, uma corrente de interesse mútuo. Szarkowski ainda define o retrato como uma batalha entre duas vontades pelo controle da alma. O melhor, então, não é aquele em que o artista ganha com facilidade, mas aquele em que a batalha é dura, e se encerra com laços entre os dois, ambos campeões. Já com a natureza morta, é justamente a submissão dos objetos que torna a fotografia difícil.   

Frozen Foods, Nova Iorque, 1977. Foto: Irving Penn

Com Penn, o caráter de seus retratos era paralelo aos das fotos de natureza morta, o que surpreendeu e causou frisson – já que o público parecia ter consciência de que se tratava de algo novo, de território inexplorado. Penn favoreceu o uso do fundo neutro, cinza ou branco, sem costura, e, alternadamente, a utilização de conjuntos arquitetônicos que criavam efeitos oblíquos, diagonais, pontiagudos. Pela simplicidade, suas fotografias de moda induziam a interpretação de que as roupas eram tão belas que não precisavam ser fotografadas em cenários requintados. O mesmo acontecia com as pessoas, que, em seus retratos, eram poupadas do exagero – vistas e expostas como suficientemente interessantes para precisar dele. Já as fotos de natureza morta – com queijo, carne, papel, xícaras, bitucas de cigarro e manchas de batom em copos de licor, por exemplo – tinham todos os elementos necessários para que o leitor não apenas construísse uma historia, mas a adequasse a sua própria circunstância.   

Irmão e Irmã, Cuzco, 1948. Foto: Irving Penn

As celebridades anônimas   

Em contraste com os retratos de celebridades estão seus registros de personagens anônimos, do povo – mas essa oposição existe graças a semelhança da abordagem entre os dois tipos. Penn fotografava famosos e populares com a mesma intimidade e a mesma segurança, e foram estas as características que conduziram a resultados surpreendentes para os padrões da época.   

Three Asaro Mudmen, Nova Guiné, 1970. Foto: Irving Penn

Esse segmento de sua fotografia teve origem em dezembro de 1948, quando viajou ao Peru para um ensaio de moda intitulado “Flying down to Lima”, influenciado pela estética dos filmes Neo-Realistas, com modelos em cenas urbanas em meio a meninos de rua e engraxates. Com o término da sessão de fotos, a equipe voltou para a casa, mas Penn voou até Cuzco, no alto dos Andes, para fotografar a cidade. Logo que chegou, nauseado pela altitude, foi forçado a passar três dias de cama. Provavelmente pela doença, sentiu-se irremediavelmente diferente quando se recuperou e pôde voltar a fotografar. Encantado com os índios Quechua, alugou um estúdio local para fotografá-los e clicou, também, moradores da cidade e crianças, tendo como resultado um dos trabalhos mais importantes de sua carreira, que influenciaria uma série de outros fotógrafos. Para Penn, seu contratempo com a altitude colaborou para que sua relação com a fotografia mudasse para sempre. Já segundo a interpretação de Szarkowski, trata-se do momento em que ele entendeu seu verdadeiro potencial como fotógrafo.    

Quebrando uma Garra de Lagosta, Nova Iorque, 1999. Foto: Irving Penn   

Para James Wood, diretor e presidente do Instituto de Arte de Chicago, quem vê as fotos dos nativos imaginando-os retratados como celebridades perde totalmente o ponto da obra: os famosos clicados por Penn em Nova Iorque que eram vistos por ele como uma tribo perdida. O antropólogo Lionel Tiger recorda ter sentido “dar mais do que tinha, ser mais do que era, dizer mais do que sua história” ao ser fotografado por ele, o que interpretou intuitivamente como uma identificação ao sentimento dos guerreiros de Tambul e as mulheres de Guendra, retratados também emblematicamente por Penn décadas depois de Cuzco, ainda impulsionado pelo trabalho embrionário realizado no Peru.

À arte, o deserto dos nus e uma natureza mais morta   

Em uma tentativa de diferenciar o comercial da arte, Penn trabalhava de forma reservada em sua série de projetos pessoais, para os quais ainda não via público: o primeiro teve início nos anos 1950, com uma série de nus experimentais. O potencial erótico das imagens ficava em segundo plano não por serem desprovidos de graça, mas pela técnica da câmera escura. O outro tomou forma na década de 1970. Até então, seus retratos de natureza morta eram feitos essencialmente de objetos e alimentos sofisticados. Em suas fotografias de natureza morta independentes, deixou de lado símbolos do luxo e contemplou o lixo – em muitos casos, com a ironia de se tratarem de destroços de materiais utilizados nas produções de moda de outrora.       

Gisele Bündchen retratada por Iving Penn

    

Boca, Nova Iorque, 1986. Foto: Irving Penn

 

Nude. Foto: Irving Penn

 “Uma boa fotografia comunica um fato, toca o coração, transforma quem a vê. Ela é, em uma palavra, efetiva” Irving Penn   

A Mão de Miles Davis, Nova Iorque, 1986. Foto: Irving Penn

Para James Wood, o trabalho de Penn é fruto do casamento entre sensibilidade e perfeição técnica: “Seus retratos são mergulhados em conhecimento do bem e do mal, no desejo de transcendência”. Penn abraçou a moda com o objetivo de dar a ela um novo sentido, ainda que de forma pessoal e despretensiosa. Para Wood, o gênio particular do fotógrafo mostra que uma arte profunda e humana pode ser criada no centro de uma sociedade cada vez mais dominada pela cultura de massa e pelos meios de comunicação.   

Essa combinação, seu minimalismo e seu despojamento, acabou não apenas por torná-lo um dos mais importantes fotógrafos do século XX, mas também por inseri-lo na contemporaneidade que ele mesmo ajudou a criar.   

Dica: Uma das parcerias mais importantes da trajetória de Penn foi com o estilista japonês Issey Myake, que desde a inauguração do Miyake Design Studio em Tokio, nos anos 1970, impressiona o mundo da moda com criações inovadoras. Seus métodos elegantes e funcionais combinam tecnologia com elementos do estilismo tradicional. Os dois se conheceram em 1983 e, desde então e até a morte do fotógrafo, Miyake nunca mais executou ensaios fotográficos que não fossem assinados por Irving Penn. O trabalho completo foi selecionado para apresentar a inédita exposição “Irving Penn and Issey Miyake: Visual Dialogue”. A partir do dia 16/09 até 29/01/2012, ela será apresentada na 21 21 Design Sight, em Tóquio, no Japão.   

Issey Miyake por Irving Penn

Issey Miyake por Irving Penn

   

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