Skip to content

4 de maio de 2012

1

William Eggleston: cotidiano colorido com olhos de pintor

William Eggleston Self-Portrait, 1971.

Já falamos aqui sobre Joel Meyerowitz, um dos principais defensores da fotografia em cores como uma forma de arte legítima. A importância de William Eggleston, seu contemporâneo, tem origem semelhante: foi sua a primeira exposição individual a mostrar uma foto colorida no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa), em 1976, e o primeiro livro de fotografias em cores publicado pelo museu, ambos intitulados William Eggleston’s Guide (1976).

Dolls. Foto: William Eggleston.

Foto: William Eggleston.

Na época, mostra e livro causaram polêmica, em um desses raros momentos em que a crítica se divide com opiniões apaixonadas, tanto favoráveis quando contrárias. Trata-se da representação perfeita de um período de inovação e ruptura — e de um bom ponto de partida para compreender a obra e relevância de Eggleston. Como relembra o curador e crítico de arte Steven Boone, “[os críticos] simplesmente não sabiam para o que estavam olhando. E este era o seu trabalho”.

Foto: William Eggleston.

Foto: William Eggleston.

Nascido em 1938 em uma fazenda de algodão em Mississippi, Eggleston transmitiria em suas imagens a atmosfera do conservador sul dos Estados Unidos. Nas fotografias do lugar onde cresceu, sua família assume um papel importante, muitas vezes como meros assuntos, estranhos em meio à paisagem bucólica, em outras como representações da austeridade sulista. Na juventude, depois de passar por três universidades e não se formar em nenhuma, Eggleston ganhou uma câmera Leica e passou a estudar fotografia. Identificou-se, na mesma época, com o expressionismo abstrato introduzido por seu amigo e pintor Tom Young.

Foto: William Eggleston.

On the Road. Foto: William Eggleston.

Tão logo começou a trabalhar na área, entediou-se com o fotojornalismo profissional e passou a buscar novas formas de representação da realidade. Sob esse prisma, as imagens em preto e branco das ruas de Paris feitas por Henri Cartier-Bresson foram uma revelação: eram o casamento da composição rigorosa com o espontâneo, o acaso. A partir daí, aderiu ao método à sua maneira, transformando cores em personagens e cenários ordinários em enigmas.

Woman with Hair. Foto: William Eggleston.

The Embessey, 1999. Foto: William Eggleston.

Inspirado por Cartier-Bresson, Eggleston capturava a vida cotidiana com olhos de pintor no que se referia à composição e, em seus mais célebres trabalhos, à cor. Em suas fotografias, não privilegia os olhos, o status social ou a emoção dos personagens: seu valor está focado em seu papel como objetos do cenário. Suas únicas estrelas são sempre as formas e as cores — e o vermelho é um dos protagonistas. Em sintonia despretensiosa com a Geração Beat efervescente na época, que destruía e reinventava o conceito de american dream, seu interesse era justamente o estilo de vida americano. Nessas imagens, uma flor, um pedaço de roupa, um papel de parede, um móvel evocavam mais do que qualquer representação tradicional de drama humano ou de personalidade.

Foto: William Eggleston.

Foto: William Eggleston.

A riqueza de detalhes e a profundidade de suas imagens é atribuída ao dye transfer, tradicionalmente reservado a brilhantes anúncios de revista. Sua alta qualidade era fundamentada em três matrizes que se sobrepunham, uma para cada cor primária. A técnica foi popularizada pela Kodak em 1940 e tornou-se obsoleta em 1994, quando a empresa cancelou a produção do filme responsável pela separação desses tons, o Matrix Film. Ao se apropriar do recurso, Eggleston fez ainda mais do que levar o uso de cores a outros campos além da fotografia comercial: ajudou a tornar a fotografia colorida reconhecida como arte e criou uma arte original a partir de coisas comuns. Sem sua transformação de fragmentos do cotidiano em matéria poética, seria difícil imaginar o trabalho de artistas como Martin Parr, Andreas Gursky e Thomas Ruff e de cineastas como Gus Van Sant, David Lynch e Sofia Coppola, apenas para citar alguns exemplos. Hoje, é reconhecido como um dos maiores fotógrafos americanos vivos. Mora em Memphis e viaja constantemente para participar de projetos fotográficos.

Airline Window. Foto: William Eggleston.

Man with Gun. Foto: William Eggleston.

Share your thoughts, post a comment.

(required)
(required)

Note: HTML is allowed. Your email address will never be published.

Subscribe to comments