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9 de maio de 2012

Estudo de Caso: Kadão sobre André Liohn

Retrato de André Liohn.

Não é exagero dizer que a rotina de trabalho de André Liohn se dá em uma corda bamba, com a vida de um lado e a morte de outro. Fotógrafo de guerra, cobre alguns dos mais brutais acontecimentos do mundo. Um deles, a mais sangrenta rebelião da Primavera Árabe, na Líbia, rendeu a ele o Robert Capa Gold Medal, um dos mais conceituados prêmios de fotografia, o principal no gênero em questão. O brasileiro de Botucatu (SP) foi o primeiro latino-americano a receber a honraria, instituída em 1955.

Foto: André Liohn.

Foto: André Liohn.

Foto: André Liohn.

A série de imagens premiada reúne 12 fotos tiradas em Mistrata, cidade sitiada por tropas do ditador Muamar Kadafi durante dois meses, entre março e abril de 2011. Na cerimônia, Liohn declarou que a ampliação da visibilidade de seu trabalho o daria mais chances de ajudar o povo líbio, seu objetivo essencial. Para o fotojornalista e professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Ricardo Chaves, o Kadão, o que mais chama a atenção no profissional é seu discurso, muito mais político do que voltado à fotografia. “Antes de receber o prêmio, ele declarou nem saber direito quem era Robert Capa, o que eu achei espantoso. Sua característica mais marcante é o engajamento político, social e pessoal, não a fotografia”, opina.

Foto: André Liohn.

Foto: André Liohn.

O próprio Liohn confirma essa postura. Manifestou interesse pelo ofício aos 6 anos, mas só aos 30 teve condições de começar a fotografar. Queria apenas um meio de expressar sua revolta, que começou na infância pobre e permanece até hoje. Nas palavras dele, tratou-se de uma desculpa para poder participar e opinar sobre o que está acontecendo. “Cresci em uma sociedade, em Botucatu, em que todos já eram sentenciados a ser algo específico. Se eu fosse nada, seria nada para sempre”, contou, em entrevista ao programa Roda Viva.

Foto: André Liohn.

Foto: André Liohn.

Foto: André Liohn.

Uma das imagens premiadas causou polêmica: foi tirada durante uma filmagem, um recurso atual bastante comum nas câmeras de última geração. Não se trata de um frame do vídeo, e sim de um clique feito durante a captação. Para Kadão, isso fortalece o fato de que suas fotos são boas, mas dentro do discurso, são secundárias. Liohn não quer tirar uma fotografia, quer contar uma história. “Ela deve ter início, meio e fim — e claro que o filme é melhor para isso”, confirmou. Kadão também valoriza o fato dele utilizar as novas tecnologias de forma inteligente e espontânea. “Poder escolher os melhores momentos e não precisar deixar de filmar para fotografar deve ser prazeroso e estimulante”.

Foto: André Liohn.

Foto: André Liohn.

Kadão reforça que os fotojornalistas convivem muito com a morte em seu cotidiano, o que é maximizado na Fotografia de Guerra, e conta que quanto pior a situação, mais difícil é fazer esse trabalho — o próprio Liohn mais de uma vez cobriu conflitos de forma autônoma. “Ninguém quer bancar. Quando a coisa aperta, a imprensa retira seus repórteres. Restam os freelancers”, lamenta. Ainda de acordo com o professor, esse trabalho precisa existir, mesmo com toda a dificuldade: “O fotógrafo de guerra é uma espécie de médico legista da sociedade. Chega muito perto do que há de mais horrível. Seu trabalho é péssimo, mas alguém deve fazê-lo”.

Foto: André Liohn.

Foto: André Liohn.

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