Skip to content

10 de maio de 2013

Uma reflexão sobre o ensaio “Hopper Meditations”, de Richard Tuschman.

Retrato de Richard Tuschman em 1987.

Ao utilizar a pintura para retratar sua visão melancólica da sociedade americana do início do século, Edward Hopper (1882 – 1967) tornou-se um artista admirado pela forma convincente e original com que tratou de temas comuns. Solidão e isolamento aparecem em seus quadros sempre de forma poética e, para alguns, acalentadora, confortante. Consta, aliás, que Hopper lia todos os dias um ensaio do poeta Ralph Waldo Emerson (1803-1882) com a seguinte definição: “O grande homem é aquele que, no meio da multidão, mantém com perfeita doçura a independência da solidão”. Décadas depois de sua morte, Richard Tuschman, fotógrafo bem sucedido em trabalhos comercias que também se aventura no campo das artes, criou em sua homenagem o ensaio Hopper Meditations. Nele, o admirador reproduz seus quadros prediletos do autor em formatos contemporâneos utilizando a fotografia como plataforma.

Foto: Richard Tuschman.

Foto: Richard Tuschman.

Hopper estudou a cena emergente da arte na Europa, mas diferente de muitos dos seus contemporâneos seduzidos pelos abstracionismos do Cubismo foi fundamentalmente influenciado pelo realismo. Suas pinturas sempre retrataram cenas cotidianas, da vida real, fugindo de abstrações e centrando-se no mundo e seus habitantes como são. Foi isso que deu à obra sua elogiada dimensão psicológica, além, é claro, do manejo obsessivo da luz. Hopper chegava a ir a um determinado lugar diversas vezes no mesmo horário a fim de estudar minuciosamente as manias das luzes e sombras. Em recente entrevista, Tuschman contou que sempre amou seus quadros e, em suas palavras, “a forma como a economia de meios é capaz de resolver os mistérios e as complexidades da condição humana”. Para ele, seu projeto também inclui uma interpretação própria sobre a obra: não se limita a imitar as cenas, mas cria novos personagens e mistérios.

Foto: Richard Tuschman.

Foto: Richard Tuschman.

Alguns críticos discordam, como o curador de arte e professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Eduardo Veras. Para estes, a releitura de Tuschman perdeu justamente o realismo e a despretensiosa dramaticidade dos quadros que a originaram. Veras viu o ensaio mais como um tributo e um exercício técnico do que qualquer outra coisa – o primeiro a chamar a atenção é justamente como o fotógrafo foi preciso ao reproduzir as cenas. “A questão, ali, ficou muito mais focada no virtuosismo, na capacidade de conseguir refazer. As questões mais importantes que estavam na pintura ficam menores, secundárias. Nada chama mais a atenção do que a semelhança”, opina.

Foto: Richard Tuschman.

Foto: Richard Tuschman.

Assim, para Veras, tudo o que havia nos quadros, como os ares de mistério, o isolamento, a poética da solidão, ficam um pouco menores para aqueles que já conhecem as pinturas originais. “Tecnicamente é superbem realizado”, contrapõe, “o fotógrafo se propôs a fazer uma reprodução bem fiel. Mas eu acharia mais bacana se, com as fotos, ele reproduzisse o clima”. Como referência, Veras cita o filme Paris Texas, de Wim Wenders, cuja fotografia faz o espectador se sentir em um quadro de Hopper. “O que é bacana não é a reprodução, mas o clima, os espaços vazios, os planos de uma cor só com uma certa textura, aqueles tons mais baixos da pintura de Hopper…”, relembra. Refletir sobre a versão de Tuschman para os quadros de Hopper pode ser um bom exercício para os alunos do Centro que já começaram a pensar em seus trabalhos de conclusão. Afinal, mostra que meditar sobre o que queremos dizer é tão importante quanto decidir o que, e como, vamos fazer.

Foto: Richard Tuschman.

Foto: Richard Tuschman.

Tuschman começou a se aventurar no campo imagético digital ainda nos anos 1990, desenvolvendo um estilo que sintetizava seus interesses em design gráfico, fotografia, pintura e montagem. O trabalho encontrou uma vasta audiência no setor comercial, e passou a constar em páginas de revistas, capas de livros e catálogos de marcas como Adobe, The New York Times, Penguin, Sony Music, Newsweek, entre outras. Além da coleção de distinções, tem dissertado sobre sua técnica artística e processo criativo, lecionando em Cuyahoga Community Colleege, University of Akron School of Art e Ringling College of Art + Design. Atualmente, vive e trabalha no Queens, em Nova Iorque.

Share your thoughts, post a comment.

(required)
(required)

Note: HTML is allowed. Your email address will never be published.

Subscribe to comments