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6 de junho de 2013

Estudo de Caso: Kadão sobre “Gaza Burial”, de Paul Hansen

Gaza Burial. Foto: Paul Hansen.

A fotografia “Gaza Burial”, de Paul Hansen, ganhadora do prêmio World Press Photo 2013, gerou polêmica no meio fotográfico mundial logo após o anúncio de sua vitória. A imagem capturou a dor de uma família palestina em cortejo fúnebre, carregando duas crianças mortas na Faixa de Gaza, e causou discussão por se tratar, sem dúvida, de uma fotografia retocada.

Contudo, a acusação mais grave se deu quando a veracidade da foto foi questionada. O autor sofreu acusações de que seu trabalho seria uma montagem, a combinação de elementos de duas fotografias ou mais para dar um efeito mais dramático à cena. Porém, realizadas as análises de peritos em fotografia, a obra foi considerada legítima e seu valor foi reforçada pela Fundação World Press Photo. Em nota, reconheceram a existência de retoques na cor e no tom, mas sem indícios de manipulação.

O fotógrafo Ricardo Chaves, o Kadão, lamenta que as manipulações aconteçam no fotojornalismo por considerar que a veracidade é característica que difere a fotografia das outras formas de comunicação e expressão. Munidos de amplos recursos para ajustes de imagem, os fotógrafos criaram uma relação com a tecnologia que os compromete quando estes recursos viram uma necessidade. Segundo Kadão, o uso excessivo de recursos, como o HDR, pode resultar em hiper fotografias: “A foto vai ficando de tal forma, digamos, artificial, que perde o que tem de mais interessante. Isso, em vez de ajudar, em minha opinião, atrapalha. Não sei se ele [Paul Hansen] chegou a esse ponto, mas isso é muito comum”, opina. Kadão explica que não se posiciona contra fotografias retocadas ou manipuladas desde que encontradas em outro segmento: “Pode ser interessante artisticamente, mas não é compatível com o fotojornalismo”. Para ele, não se trata do caso de “Gaza Burial”, ainda que a fotografia seja visivelmente retocada.

Fotos originais (acima) e a fotomontagem (abaixo). Fotos: Brian Walski.

A polêmica envolvendo Paul Hansen levou Kadão a lembrar-se do caso de outro fotógrafo, Brian Walski. Walski cobria a guerra do Iraque para o Los Angeles Times em 2003 quando manipulou uma foto utilizando duas imagens para compor uma só. A fotografia saiu na primeira página do jornal e a farsa foi descoberta por um funcionário de outra publicação, que procurava amigos moradores do Iraque entre as pessoas retratadas quando percebeu a duplicação. Brian foi demitido após o escândalo.

Kadão ressalta que a humildade deve ser o guia da profissão. E, ainda, que o profissional que sabe exatamente onde quer chegar jamais conseguirá sucesso forjando algo. Portanto, alerta que, apesar da realidade ser uma característica repleta de nuances subjetivas, “ela continua sendo o melhor lugar para se comer um bom bife”.

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