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11 de outubro de 2011

Lunara e a Porto Alegre esquecida

Placa de Vidro original. Foto: Eneida Serrano

Ao concluir o curso de Jornalismo na UFRGS, em 1974, Eneida Serrano descobriu o trabalho de um fotógrafo que já conhecia de nome, ou melhor, de codinome: Lunara, pseudônimo de Luiz do Nascimento Ramos. Logo de início, as imagens chamaram a sua atenção, mas não apenas pela qualidade técnica em tempos de poucos recursos fotográficos: “Eram fotos com equilíbrio harmonioso e, principalmente, uma temática humanista”. Nas palavras dela, tratava-se de um autor de bem com a vida e encantado com a fotografia.

Sono Pesado. Foto: Lunara

Comerciante, Lunara viveu em Porto Alegre entre os anos 1867 e 1937 e foi responsável por eternizar cenas cotidianas representativas do início da modernização da capital gaúcha. Retratou com delicadeza fragmentos da chegada e da integração de imigrantes e ex-escravos ao Estado, além de outras cenas e cenários da Capital do início do século XX. A prainha da Tristeza, a Cascatinha, as lavadeiras e os pescadores do arroio Dilúvio — então riacho Ipiranga — estão entre algumas das paisagens por ele retratadas. Eneida destaca Sono Pesado e O Lago como as mais famosas.

O Lago. Foto: Lunara.

Ao contrário de seu amigo e colega no primeiro fotoclube da cidade, Virgilio Calegari, Lunara teve sempre a fotografia como hobbie, e nunca como profissão. Por se manter afastado dos estúdios, onde os retratos prometiam grande rentabilidade, exercitou seu olho jornalístico. Na definição do jornalista Pinto da Rocha publicada no jornal Gazeta do Comércio em 1903, com a linguagem rebuscada da época, “[Lunara] tem sobre todos os seus brilhantes colegas a qualidade superior de descobrir na natureza os melhores assuntos e de saber vê-los através da objetiva com uma perfeição inexcedível de arte”.

Foto: Lunara

De acordo com Eneida, a revelação das chapas era feita em uma improvisada câmara escura em um dos cantos da casa. Mesmo que eterno amador, sem clientes e sempre escolhendo o objeto de suas lentes, Lunara ganhou concursos fotográficos, incluindo um prêmio internacional, e publicou no periódico francês Revue de Photographie em 1922.

Foto: Lunara

Ainda não havia nenhuma pesquisa publicada sobre o assunto quando Eneida começou a sua busca pelas origens da fotografia gaúcha e conheceu Lunara. Durante o processo, encontrou Áureo, primogênito do fotógrafo. Ligou para todos os Ramos da lista telefônica até encontrá-lo e descobrir, com emoção, que residia na mesma quadra de sua casa. Ali, ela encontrou preciosos documentos, álbuns e chapas de vidro; ele, alguém que poderia divulgar o pouco que restava do trabalho de seu pai, guardado com carinho e cuidado.

Foto: Lunara

Eneida levou cinco anos para fazer a primeira exposição (em 1979, no Museu de Comunicação Social) e 21 para publicar o livro “Lunara, Amador 1900″, de 2001, mas valeu a pena. “Ficou como eu queria. Sinto-me honrada e acho que cumpri a missão”, orgulha-se. Na obra, constam algumas das crônicas escritas por Lunara aos 22 anos e publicadas no jornal Atleta. Para Eneida, os textos anunciam o estilo que ele desenvolveria na fotografia, com bom humor, leveza e sensibilidade artística.

Foto: Lunara

“Sempre que pego uma daquelas chapas de vidro, ou que digitalizo as imagens do Lunara, tenho a emoção de estar dando continuidade a um trabalho muito especial. E com meios que ele certamente se espantaria!
Eneida Serrano, pesquisadora e editora de “Lunara, amador, 1900″ (2001)

Foto: Lunara

Foto: Lunara

Foto: Lunara

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