Skip to content

Posts from the ‘Sem categoria’ Category

10
nov

Da Vogue para o campo de batalha

Retrato de Sebastiano Tomada Piccolomini.

Sebastiano Tomada Piccolomini é um jovem fotógrafo que se dedica ao fotojornalismo em zonas classificadas por ele como as “as mais voláteis do mundo”, localizadas, principalmente, no Oriente Médio e na Ásia. O início de sua carreira, entretanto, se deu no campo da fotografia de moda. Ao falar sobre as motivações de sua transição, o fotógrafo é honesto: queria sentir na pele a sensação de estar em guerra.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Nascido em 1986 no Upper East Side, em Nova Iorque, mas criado em Florença, Itália, Piccolomini retornou a sua cidade natal para graduar-se em Estudos de Mídia e Fotografia na Parsons New School for Design. De acordo com ele, foi durante a faculdade que começou a desenvolver seu estilo, focando na fotografia documental e nos retratos. Tão logo se formou, começou a ajudar fotógrafos de moda famosos, como Steven Klein e Mario Testino, mas considerou o meio “patético” e a cena “ainda pior”. Ao relembrar seu desejo na época, afirma que queria “encontrar um nicho, algo atemporal e concreto”. Como a fotografia nas zonas de conflito, algo que sempre o intrigou.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

“Eu estava além do curioso para saber qual era a sensação de estar em guerra, como era o cheiro, como era lutar e ser baleado”, recordou, definindo-se, à época, como “jovem e curioso”. Aos 22 anos, passou três meses no Afeganistão. Hoje, aos 26, já tem em seu portfólio a documentação dos conflitos na Líbia, Síria, e as consequências do terremoto de 2010 no Haiti.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Um de seus mais famosos ensaios é The Battle for Aleppo (“A batalha por Aleppo”), publicado no fim de 2012. Em meados de setembro do mesmo ano, o fotógrafo deixou a cidade fronteiriça turca de Kills e teve seu passaporte carimbado em um posto de controle operado pelo Exército Sírio Livre (FSA). Entrou na Síria e, a partir daí, sempre com a ajuda da FSA, fez a viagem de três horas para Aleppo, maior cidade do país e um verdadeiro um campo de batalha na guerra civil entre as forças do presidente Bashar Al Assad e a FSA. Perto de 30 mil pessoas já haviam sido mortas desde o início do conflito, 20 meses antes, e cerca de 100 mil já estavam na fronteira com a Turquia. O que o impressionou, entretanto, e que é evidente em suas imagens, não foi a destruição da cidade em si, mas a determinação do povo em ficar e criar o que Piccolomini expressou como “uma aparência de vida normal em face do caos e da incerteza”.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Sebastiano já recebeu diversas honras, incluindo um prêmio no World Press Photo. Sua lista de clientes inclui as publicações The Sunday Times, Vanity Fair, The New Republic, The Atlantic e Businessweek.

 

3
nov

Gjon Mili e os desenhos luminosos de Picasso

Retrato de Gjon Mili em seu estúdio.

Enquanto David Douglas Duncan retratou a intimidade do espanhol Pablo Picasso com um olhar afetivo, o fotógrafo Gjon Mili, sete anos antes, capturou os desenhos de Picasso em light painting (pintura com luz), transcendendo seus retratos ao aliá-los com o talento do artista. A espontaneidade de Picasso ao fazer seus desenhos durante as fotos, somada à técnica inovadora de Mili, deu o tom original ao trabalho.

Foto: Gjon Mili.

Foto: Gjon Mili.

Nascido na Albânia em 1904, Gjon Mili mudou-se para os Estados Unidos em 1923 e pode conhecer o mundo retratando os mais variados temas para a revista Life. No Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em parceria com Harold Edgerton, desenvolveu a técnica do flash estroboscópico para captação de imagens em um único fotograma, quando este recurso era utilizado apenas para fins científicos.

O encontro entre Gjon Mili e Pablo Picasso aconteceu quando, em 1949, Mili viajou ao sul da França pela revista Life para fazer um ensaio fotográfico sobre o pintor. Após o primeiro contato, não hesitou em compartilhar suas primeiras experiências de light painting com o artista, um ensaio no qual patinadores tiveram luzes colocadas em suas botas e foram fotografados com a utilização da técnica de longa exposição combinada com um ou mais disparos de flash eletrônico. As fotos impressionaram Picasso e o inspiraram a fazer desenhos de luz no ar, para que Mili os fotografasse. Do resultado, nasceu o Picasso’s Light Drawings; um ensaio realizado durante cinco sessões de trabalho, há mais de 60 anos.

Foto: Gjon Mili.

Foto: Gjon Mili.

As sessões aconteceram no estúdio de Picasso, em Vallauris, França, com o ambiente às escuras. Um pequeno bico de luz tornava-se uma espécie de caneta, formando grafismos luminosos à medida que ele a movimentava. Em um dado momento um flash eletrônico era disparado, congelando a imagem de Picasso no final dos percursos trilhados pela luz.

Foto: Gjon Mili.

Foto: Gjon Mili.

Harmonia entre fotografia e cinema

Autodidata, Gjon Mili iniciou sua carreira fotográfica como freelancer na revista Life, em 1939 onde permaneceu por 45 anos. Trabalhou como fotografo durante toda a sua vida, tendo milhares de publicações na Life e em outras revistas. Em 1944, dirigiu o curta-metragem de nome Jammin’ the Blues. O curta possui pouco mais de nove minutos de pura ode ao blues, no qual artistas consagrados participaram para fazer música juntos. A técnica de repetições de imagens tão utilizada por Mili nas fotografias  ganha espaço no filme, apesar dele não ter assinado a fotografia do trabalho.

Foto: Gjon Mili.

Foto: Gjon Mili.

Gjon Mili morreu em Stanford, Connecticut, em fevereiro de 1984, em decorrência de uma pneumonia aos 79 anos.

27
out

Childrens of Dust: Eric Valli e a fotografia antropológica

Já falamos aqui e aqui sobre Eric Valli e sua abordagem antropológica da fotografia. Sua relação com a ciência social, aliás, vem da maneira intuitiva, íntima e nada etnocêntrica com que se envolve com as pessoas e lugares que visita, incorporando sempre os modos e a cultura locais como forma de melhor compreendê-los e, por consequência, retratá-los.  Se nas postagens anteriores mostramos sua documentação de diferentes tipos de colheitas do mel no Himalaia, hoje mostramos outro de seus mais emblemáticos ensaios: Childrens of Dust, segundo colocado no World Press Photo de 1988. “Filhos da poeira”, em tradução literal, mostra a rotina de crianças indianas trabalhando na construção de tijolos em uma olaria.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.

“Meu ofício poderia ser definido como um construtor de pontes entre os homens. Os homens têm diferentes religiões, peles, culturas… mas os ossos são os mesmos. Não importa onde você está, as mesmas coisas te fazem rir. Somos iguais, mas viemos em diferentes caixas”.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.

Eric Valli nasceu em Dijon, França, no ano de 1952. A forma pessoal com que  faz fotojornalismo vem do fato de que o próprio se define primeiro como um viajante, e apenas depois como fotógrafo. No cinema, terreno em que se aventura com sucesso, também tem como objetivo prioritário levar as histórias que encontra a outras praças. Para ele, esses são os meios que descobriu para dar um testemunho sobre as regiões surpreendentes que conhece, mas não se tratam de sua principal paixão. “Minha motivação é viver e conhecer pessoas… e depois vem a imagem”.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.

A entrada de Valli no meio fotográfico se deu por acaso, quando aos 21 anos vivia no Himalaia, “perdido” (nas palavras do próprio), e mostrou suas imagens para alguns de seus amigos, que insistiram que ele as apresentasse a algum editor. De lá para cá, já possui mais de 15 livros publicados. Sua primeira câmera veio um pouco antes, aos 17 anos, como presente de seu pai, um pintor. Em entrevista publicada no site quesabede.com em 2006, o fotógrafo ainda se mostrava alheio à tecnologia digital. Seu equipamento permanecia uma velha Leica munida de Kodakchrome ou Ektachrome. “E quando a Kodak parar de fabricar filmes fotográficos?”, indaga o entrevistador. “O meio não importa, o que importa é que a foto transmita emoção e seja boa”, constata Valli.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.

A revista australiana Smith publicou um perfil do fotógrafo quando, depois de anos na estrada, ele estabeleceu-se na capital francesa para se dedicar a trabalhos comerciais. A introdução tem tom dramático: “depois de uma vida nômade, escalando penhascos, vencendo doenças e tirando fotografias nos cantos mais solitários do planeta, o legendário Eric Valli só pensa se sobreviverá à vida em Paris”.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.