Skip to content

Posts from the ‘Sem categoria’ Category

5
jan

Oliviero Toscani: “Não existem fotografias chocantes, apenas realidades chocantes “

Retrato de Oliviero Toscani.

Nascido em 1942, em Milão, Oliviero Toscani ajudou a redefinir a propaganda na transição para o século 21. Suas controversas campanhas para a marca italiana Benetton nas décadas de 1980 e 1990 representaram uma proposta de reflexão sobre o poder e o propósito da publicidade, além de e o consagrarem como um dos mais notórios fotógrafos do nosso tempo.

Filho do fotojornalista italiano Fedele Toscani, Oliviero se apaixonou pelo ofício ainda na infância, inspirado pelo trabalho do pai. Depois de estudar na escola Vittorio Veneto, em Milão, formou-se em fotografia e geografia na Kunstgewerbeschule, de Zurique. Começou trabalhando na mídia, mas logo migrou para a publicidade, assinando trabalhos para as melhores revistas de moda italianas, como Elle, Vogue e Harpers Bazaar. Não demorou muito para que a plasticidade de suas imagens chamasse a atenção, também, das principais marcas de moda do país, entre elas Valentino e Chanel, mas foi com a Benetton que consolidou seu estilo e impôs sua visão crítica de como a fotografia era usada no meio em que atuava.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

A fórmula da propaganda Benetton desenvolvida por ele a partir de 1982 consistia no seguinte princípio: ao invés de sobrecarregar o público com a repetição de modelos conhecidos e clichês, uniu questões sociais à venda de roupas. Sua propaganda é insitucional, de marca, e não apenas do produto. Pela Benetton, Oliviero clicou e publicou imagens de soropositivos no leito de morte, cadáveres vítimas da máfia, americanos sentenciados à pena máxima pouco antes de morrerem, trabalho escravo, crianças recém nascidas, padres beijando noviças. Tocou em tabus sexuais, religiosos e raciais excluindo de forma definitiva o ar pedante que os anúncios costumavam ter e a lição de moral pobre embutida naqueles com pretensão social. Ao abordar de forma impactante temas delicados que a marca, ou o próprio Toscani, questionavam, a Benetton se construiu como algo bem maior do que apenas uma marca de roupas. E sua atitude, nos sentidos formal e informal do termo, teve um preço.

A postura é até hoje questionada por profissionais do meio. O que almejava uma empresa como a Benetton, de alto nível e com uma imensa quantidade de patrocínios, ao abraçar polêmicas, enfrentando o próprio público nas ruas e figuras politicamente poderosas em tribunais? Toscani é quem explica, já que se expressa não apenas com imagens, mas com palavras. Em seu livro A Publicidade e um Cadáver que nos Sorri (1986), afirma que a propaganda raramente ensina alguma coisa: “ela é somente o martelamento infinito destinado a gerar capitais”. Sua luta, de acordo com o próprio, é exatamente contra esse martelamento.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

Ao colocar em discussão um sistema publicitário que se transformou em regra, onde, em suas palavras “a beleza deve ser de certo modo, o sucesso deve ser de certo modo e o comportamento deve se dar apenas com o consumo certos produtos”, Oliviero buscou quebrar tabus, tornar visiveís problemas sociais e provocar a reflexão e a crítica, até mesmo sobre o consumo. Para ele, trata-se de uma proposta modesta, como afirmou na época: “o mundo vê a publicidade de forma plana, mas eu vejo a publicidade em um mundo redondo. E por isso estou sendo inquerido”. Nesse contexto, Toscani também destaca o fato de que algumas imagens censuradas em certos países ganham prêmios em outros. “Cada cultura pensa ser a correta, a justa, mas a realidade não é assim”.
Em 1990, Toscani fundou a revista Colors em parceria com Tibor Kalman. Dois anos depois, fundaram o Fabrica, um centro internacional de artes que tem como declarado objetivo a busca por uma forma moderna de comunicação. O estúdio produz projetos editoriais, livros, programas de televisão e exposições para clientes que vão da ONU à MTV. Tanto a escola como a revista integram um conceito de “usina de idéias” idealizado por Toscani e Benetton. Trata-se de um grande centro de comunicação da empresa, que funciona, em um só tempo, como propaganda indireta e formação de novos talentos.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

Relembre algumas campanhas impactantes assinadas por Toscani:

- Em 1992, a marca usou em um anúncio uma imagem do soropositivo David Kirby já em fase terminal, deitado na cama acompanhado da família. O clique é uma alusão à obra de Michelangelo e fazia parte de uma série de anúncios cujo foco era a luta contra a Aids. A imagem de peles com o carimbo “H.I.V positive” também são desta campanha.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

- Enquanto muitas grandes marcas se utilizam sem constrangimento de mão de obra de menores de idade ou escrava, a Benetton usou seus anúncios para protestar contra o trabalho infantil, também em 1992.
- As campanhas que abordam questões raciais estão entre as mais bem sucedidas de Toscani por um motivo óbvio: o estético. O contraste entre as cores e as texturas dos lábios, do cabelo e da pele dos modelos magnetizava cada anúncio, alçando muitos deles ao status de fotografia artística.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

- A imagem de um padre beijando uma noviça, usado na divulgação da campanha outono/inverno de 1992, chocou a igreja ao aparecer em outdoors do mundo inteiro e na revista ”Max”, da França, a única que teve coragem de publicá-lo. Mais de dez anos depois, a marca voltou a ter problemas com o Vaticano, já que o Papa Bento XVI protagoniza um dos anúncios de Unhate, de 2011, que mostra beijos entre líderes políticos mundiais. A mais recente campanha representou um retorno às origens polêmicas da marca.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

Campanha da Benetton. Foto: Oliviero Toscani.

1
dez

Cem anos de Harry Callahan

Autorretrato. Foto: Harry Callahan

Pesquisar o acervo de fotografias deixado pelo norte-americano Harry Callahan (1912-1999) é conhecer as pessoas e lugares que ele amava. A sua aguda sensibilidade combinada com o experimentalismo incessante garantiu que, durante uma carreira de mais de 50 anos, ele sempre tenha encontrado novas maneiras de explorar temas pessoais, transformando a sua própria família e as cidades onde viveu em imagens capazes de fascinar um grande público.

Foto: Harry Callahan.

Eleanor and Barbara. Foto: Harry Callahan.

Se estivesse vivo, Callahan estaria comemorando seu centenário em 2012. Autodidata, ele se tornou fotógrafo amador no final dos anos 1930, quando adquiriu uma câmera e se uniu ao fotoclube da empresa Chrysler Motors de Detroit, onde trabalhava. Em 1941, influenciado por uma palestra de Ansel Adams, decidiu assumir a fotografia como profissão. Nos anos seguintes, Callahan chamou a atenção de grandes mestres da geração anterior à sua: László Moholy-Nagy o convidou para ensinar fotografia no Institute of Design (ID), em Chicago, e Edward Steichen selecionou suas fotografias para várias mostras no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque.

Eleanor and Barbara. Foto: Harry Callahan.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

A versatilidade de Callahan está ligada ao uso de diversas técnicas, como alto contraste, múltiplas exposições e desfocados. Além disso, ele trabalhou com filmes em preto e branco e colorido, em pequeno, médio e grande formato. Uma de suas práticas comuns era reduzir seu objeto a formas tão simples que este beirava a abstração, como se buscasse a essência visual das coisas. Seu objetivo, no entanto, estava mais próximo de descrever com o mínimo do que dissimular ou distorcer. O resultado, fotografias extremamente elegantes, atualmente está preservado em algumas das mais prestigiadas coleções de arte no mundo.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

Como professor, atividade que exerceu por boa parte de sua vida, Callahan aconselhava os alunos a seguirem seu exemplo enfocando temas familiares a cada um. No seu caso, isso significava fotografar a própria esposa e filha, assim como as ruas de cidades em que viveu e paisagens de lugares para onde viajava seguidamente. Dentro desse repertório, a presença da esposa Eleanor é especialmente frequente. Ela aparece nua ou vestida, na privacidade da sua casa ou em praças, em rios ou em meio a vegetação de florestas. A intimidade e confiança entre Callahan e Eleanor transparece nas fotos, que acabam revelando a força da relação que unia os dois. Em muitas imagens, Callahan mostra Eleanor e a filha do casal, Barbara, como pequenas figuras numa extensa paisagem rural ou urbana.

Eleanor and Barbara. Foto: Harry Callahan.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

O crítico John Szarkowski aponta que a maestria de Callahan estava na maneira como, durante décadas, ele foi capaz de expandir o potencial de assuntos banais ou íntimos encontrando novas formas de olhar para eles. Szarkowski, que comandou o departamento de fotografia do MoMA por mais de 30 anos, acredita que Callahan foi capaz de cumprir essa façanha porque a fotografia não era apenas a sua resposta às cenas que via, mas o próprio meio pelo qual ele vivenciava o mundo. A lógica da câmera estava sempre presente no seu olhar.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

Eleanor. Foto: Harry Callahan.

17
nov

A excentricidade inventiva de Félix Nadar (1820 – 1910)

Auto Retrato de Felix Nadar.

Para muitos, as fotografias de Félix Nadar, pseudônimo de Gaspard-Félix Trounachon (1820 – 1910), são um reflexo de sua excêntrica personalidade. Também jornalista e caricaturista, tornou-se famoso não apenas por seus retratos e desenhos de importantes personalidades francesas, mas também por sua paixão por tecnologia e aventura.
Antes de tornar-se fotógrafo, o parisiense estudou Medicina, mas devido à falência da editora de seu pai teve de abandonar os estudos para começar a trabalhar. Adotou o sobrenome Nadar para escrever em jornais e passou a vender suas caricaturas para folhetins humorísticos. Mesmo que no início da década de 1850 já fosse um fotógrafo renomado, foram suas extravagâncias que o tornaram famoso. O edifício que abrigava seu estúdio, por exemplo, foi pintado de vermelho e ganhou uma imponente fachada para se tornar uma de referência, transformando-se rapidamente em um ponto de encontro da elite intelectual de Paris.

Charles Baudelaire. Foto: Félix Nadar

Eugene Delacroix. Foto: Félix Nadar

Félix dedicava-se à construção de projetos batizados de PantheonNadar: paineis gigantes repletos de caricaturas de parisienses famosos. Para preparar a segunda edição de um desses murais, começou a fotografar os personagens que desenharia, o que originou muitos de seus mais conhecidos retratos. Por conta dessa proposta suas imagens de Gustave Doré, Charles Baudelaire e Eugène Delacroix, todas realizadas por volta de 1855, mostram os artistas em poses naturais, mais despojadas do que os sisudos retratos em voga na época.

Claude Monet. Foto: Felix Nadar.

Edouard Manet. Foto: Félix Nadar

Durante anos, balonismo, mapas e fotografia foram sua principal ocupação, paixões que fizeram com que ele patenteasse a fotografia aérea na cartografia e publicasse, em 1863, o Manifeste de l’autolocomotion aérienne (“Manifesto da autolocomoção aérea”, em livre tradução). Também fundou uma sociedade dedicada ao tema em parceria com Julio Verne — ele era o presidente e Verne o secretário. Quando, no outono de 1858, Nadar conseguiu concretizar seu tão sonhado registro, uma pioneira fotografia aérea de Paris, empolgou-se tanto que decidiu criar seu próprio balão. Com capacidade para dezenas de viajantes, Le Géant (em português, “o gigante”), como era chamado, era um balão gigantesco que se tornou lendário na Europa. Sua gôndola tinha uma sacada e foi divida em seis compartimentos separados, incluindo um lavabo e um quarto que servia como laboratório fotográfico. Em sua segunda viagem, Le Géant voou de Paris para a Alemanha, onde perdeu o rumo, caiu e quase explodiu, ferindo gravemente muitos dos passageiros. Apesar do desastre, Nadar reconstruiu a gôndola, substituiu o envelope e continuou com seus vôos, além de ter construído outros balões, como The Célest.

Gondala of Nadar's balloon, 1863. Foto: Félix Nadar.

Paris. Foto: Félix Nadar.

Mas seus experimentos não se restringem a este campo. Em 1858, foi pioneiro, também, no uso de iluminação artificial na fotografia, valendo-se de luz de magnésio para registrar as escuras catacumbas e esgotos de Paris. Também é atribuída a ele a primeira entrevista fotográfica da história, uma série de 21 imagens do cientista francês Eugène Chevreul legendadas com respostas a perguntas feitas por Nadar durante os cliques.

Catacumbas de Paris. Foto: Felix Nadar

Esgotos de Paris. Foto: Felix Nadar.

Vale destacar que em 1874 Nadar emprestou seu estúdio para a primeira exposição de pintores impressionistas, com quadros de nomes vanguardistas até então pouco valorizados como Monet, Cézanne e Renoir. É possível afirmar que o trabalho desses artistas teve certa influência em sua obra, considerada por muitos fotografia pré-pictorialista.

Victor Hugo, 1878. Foto: Félix Nadar

Victor Hugo, 1885. Foto: Felix Nadar.