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Posts from the ‘Preto e Branco’ Category

23
nov

Evandro Teixeira e seus registros históricos do Brasil

Um dos grandes nomes do fotojornalismo brasileiro, Evandro Teixeira presenciou importantes momentos da história do país. Hoje, aos 83 anos, o fotógrafo é lembrado por seus registros, em diferentes partes do mundo, e suas fotos integram acervos de museus como o de Belas Artes de Zurique, na Suíça, o Museu de Arte Moderna La Tertulia, na Colômbia, e o Masp, em São Paulo.

O papa João Paulo II em sua segunda visita ao Brasil (Salvador, Bahia, 1991)

Nascido na cidade baiana de Irajuba, iniciou sua carreira jornalística em 1958, no jornal O Diário de Notícias, em Salvador, mas logo foi transferido para o Diário da Noite, na cidade do Rio de Janeiro, onde mora até hoje. Tornou-se uma figura mítica do fotojornalismo em 1963, quando ingressou no Jornal do Brasil e nele permaneceu por 47 anos.

Evandro esteve presente em lugares e momentos marcantes da história do Brasil e até de outros países. Algumas das suas coberturas mais importantes foram a chegada do general Castello Branco ao Forte de Copacabana durante o golpe militar de 1964, a repressão ao movimento estudantil no Rio de Janeiro, em 1968, e a queda do governo Salvador Allende, no Chile, em 1973, entre outras.

Tomada do Forte de Copacabana no golpe de militar (1964)

Cavalaria em ação na igreja da Candelária, em protesto durante a missa pela morte do estudante Edson Luís (1968)

Passeata dos 100 mil (Cinelândia, Rio de Janeiro, 1968

O jornalista que cobriu duas ditaduras disse ao portal Photos que se orgulha de ser um profissional inspirador para seus colegas de profissão e que o fotojornalismo é uma ferramenta importante no registro da história. Por ocasião das manifestações de 2013, Evandro foi questionado sobre como foi a sensação de reviver os protestos de 1968 e disse que procurou participar e sentir de perto o movimento. “As reivindicações são outras, mas os ideais são os mesmos. Não podia ficar fora! Hoje, não estou mais preso a um jornal, mas continuo com a minha missão e paixão, fotografar. Afinal, esta é a minha profissão.”

Redigido por Carolina Camejo
Hub ESPM-sul

16
nov

O ato fotográfico para além da fotografia – Feco Hamburger

Retrato de Fico Hamburger

 

Fotógrafo, artista e professor, Fernando Império Hamburger, conhecido como Feco Hamburger, nasceu em 1970 em São Paulo, onde vive até hoje. Estudou Física na Unicamp e Linguística na USP, mas se aproximou da fotografia se especializando em fine-art printing. Em suas obras, explora a percepção do tempo na trama entre uma relação visível com a natureza e o contraditório.

Feco é irmão do cineasta, roteirista e produtor Cao Hamburger, que dirigiu, dentre outras obras, o programa infantil Castelo Rá-tim-bum de 1994 até 1997 e o filme Xingu em 2011.

De 1991 a 1994, trabalhou como assistente de Bob Wolfenson, referência nacional como retratista, fotógrafo de nus e de moda. Em 1996, quando abriu seu próprio estúdio, Hamburger fotografou em diversos lugares do Brasil e até mesmo fora do país para revistas, capas de livros, discos e agências de publicidade. De lá pra cá, trabalhou com diversas marcas, como MTV, Tim, Pampers, Marie Claire, entre outras. No começo dos anos 2000, voltou-se para a pesquisa de novas linguagens fotográficas e outras mídias.

Em entrevista para o site do Pivô, espaço de arte contemporânea, Hamburger diz não saber se tem um processo criativo claro, às vezes tem uma ideia que surge de algum pensamento ou de uma imagem.

Sua primeira exposição individual, Noites em Claro, foi realizada em 2004 na Pinacoteca de São Paulo.

Foto: Feco Hamburger

Foto: Feco Hamburger

Seu trabalho já foi exposto na Pinacoteca do Estado de São Paulo – onde também possui acervo de obras -, no Museu de Arte Moderna e no Paço Imperial, no Rio de Janeiro. Em 2012, recebeu o Prêmio Abril de Jornalismo na categoria de melhor ensaio fotográfico e menção especial no Prêmio Brasil de Fotografia.

“O campo da arte é onde posso trabalhar com grau máximo de liberdade, ainda que na medida elástica do possível. Entre o controle e o deixar existir, as relações. As porosidades, o vazio, o contraditório. O tempo”, diz Hamburger em seu site. O artista entende seu trabalho para além da fotografia. Para ele, o ato fotográfico é um ponto de partida “para lidar com a coisa, sua natureza e condição, e não mais com seu objeto”.

Seu mais recente trabalho, chamado de Eppur si Muove, referência a polêmica frase de Galileu Galilei: “no entanto, se move”. Este projeto tem como intuito desafiar os limites da fotografia e da representação, para o fotógrafo há um espaço/tempo elástico entre o documento fotográfico e o sonho de mundo, é nisto que Feco se interessa.

Foto: Feco Hamburger. Hayabusa ou O falcão peregrino, 2018, Jato de tinta sobre papel de algodão e aço inox, 100 x 150 cm

 

Foto: Feco Hamburger. Moby Dick 2, 2018, Impressão jato de tinta sobre papel de algodão 90x150cm.

EPPUR SI MUOVE 6

Foto: Feco Hamburger. Via Lactea 3 Lago com 1 objeto voador, 2018, Impressão jato de tinta sobre papel de algodão, aço inox 71x160cm.

Redigido por Rafaela Knevitz
Hub ESPM-Sul
19
out

O conjunto de excluídos de Anders Petersen: O Café Lehmitz

Retrato de Anders Petersen

Retrato de Anders Petersen

Anders Petersen nasceu em 1944 na cidade de Estocolmo, na Suécia. Começou a estudar pintura no ano de 1961, em Hamburgo, na Alemanha. Aos 22 anos, teve contato com Christer Strömholm e sua obra. Strömholm foi seu professor, iniciando-o na fotografia.

Foto: Anders Petersen

Em 1967, Anders começa a fotografar um bar em Hamburgo, o Café Lehmitz. Suas fotos buscavam retratar os frequentadores do local: prostitutas, travestis, alcoólatras e viciados em drogas. “Lehmitz foi meu primeiro trabalho que levei a sério. Eu realmente me identifiquei com essas pessoas e sua situação, esse grupo que estava fora da sociedade. Eu os respeitava. Eu me senti fortemente ligado a eles”, contou em entrevista ao jornalista Simon Bowcock, do The Guardian.

Foto: Anders Petersen

“As pessoas do Café Lehmitz tiveram uma presença e uma sinceridade que eu sentia falta. Tudo bem estar desesperado, ser terno, ficar sozinho ou aproveitar a companhia dos outros. Houve um grande calor e tolerância neste cenário desprovido”, disse o fotógrafo ao Rosphoto.org.


Foto: Anders Petersen

As sessões duraram três anos e, em 1970, o fotógrafo realizou sua primeira exposição, contendo 350 fotografias ambientadas no Lehmitz.

Em 1978, o projeto virou livro e, hoje, é um dos mais conceituados da história da fotografia europeia. O músico Tom Waits utilizou uma foto de Petersen na capa do seu álbum “Rain Dogs”.

Foto: Anders Petersen

Seu trabalho no Café Lehmitz o tornou conhecido por suas fotografias em preto e branco, seu estilo documental e a busca por retratar o íntimo das pessoas. Petersen expôs internacionalmente e ganhou vários prêmios durante sua carreira.

Redigido por Luis Henrique Cunha
HUB ESPM-Sul 
5
out

Alex Borja – Amazônia em preto e branco

Retrato Alex Borja

 

Alex Borja, 38 anos, fotografa profissionalmente há apenas 3 anos, mas já é reconhecido nacionalmente por retratar o cotidiano nas ruas. Em entrevista para o blog do Centro de Fotografia, ele contou que herdou o amor pela fotografia de sua mãe:

“Minha primeira câmera ganhei dela em 1998. Uma Olympus Trip 35, que tenho até hoje.”

 

Foto: Alex Borja

Foto: Alex Borja

Formado em engenharia civil, Borja tinha de fazer registros fotográficos de obras em andamento. Aos poucos ele acabou deixando a profissão de lado até migrar para a fotografia, sua paixão. “No decorrer da profissão de engenheiro eu tinha que fazer relatórios técnicos do andamento das obras e isso envolvia fotografia. Fui investindo cada vez mais em equipamentos e me aprofundando nos estudos.”

Desde 2015, Alex se dedica à fotografia documental e fotografia de rua. Depois de percorrer diversas cidades do estado do Amazonas, ele também registrou o cotidiano na tríplice Fronteira do Brasil, Peru e Colômbia e no Município de Benjamin Constant no alto do Rio Solimões.

Suas primeiras exposições foram resultados de imersões no cotidiano amazônico, com cliques feitos em diversas cidades do estado do Amazonas. Foram 19 exposições nacionais e três internacionais, sendo duas em Paris e uma na Espanha.

Foto: Alex Borja

Foto: Alex Borja

Foto: Alex Borja

O fotógrafo explica por que trabalha com preto e branco: “A fotografia colorida é óbvia. As cores já existem no subconsciente das pessoas, mas as fotografias em preto e branco despertam a curiosidade, te induzem a pensar e refletir, além das luzes, contrastes e foco serem mais expressivos.”

 

Redigido por Carolina Camejo
HUB ESPM-Sul
31
mar

Supranav Dash: profissões em desaparição na Índia

 

 

O projeto Marginal Trades [Transações marginais], realizado desde 2011 pelo fotógrafo indiano Supranav Dash, documenta profissões que estão desaparecendo na Índia. Com influência marcante de grandes nomes da fotografia como Atget e August Sander, o ensaio resgata a história de diversos ofícios relacionados ao sistema de castas tradicional no país.

 

 

 

 

O fotógrafo explica que desde o início do século 19, os indianos eram proibidos de realizar outra profissão que não aquela designada para sua casta – a cada uma delas era atribuído um ofício determinado. A tradição se manteve ao longo de quase dois séculos, transformando-se apenas durante o processo de globalização iniciado nas últimas décadas do século 20.

 

 

 

 

“As gerações atuais da Índia se recusam a seguir as profissões de seus ancestrais. Elas se tornaram mais ousadas e mudam para as possibilidades de trabalho mais lucrativas. O abandono das práticas tradicionais também é resultado de salários baixos, do desejo de escapar dos estereótipos do sistema de castas, da negligência constante das classes privilegiadas – a quem essas pessoas servem – e de um governo que não se abre para reformas sociais”, define o fotógrafo, que busca de alguma forma preservar um pouco da memória de um passado que tende a desaparecer pouco a pouco.

 

 

 

 

Explorando temas como identidade, questões de gênero, deslocamentos e o sistema de castas,  Supranav Dash vive atualmente entre Calcutá e Nova York. Estudou artes e contabilidade na Índia e mais tarde especializou-se em fotografia na School of Visual Arts de Nova York. Seu trabalho já foi publicado em periódicos de destaque como Wired, Huffington Post e Time.

 

 

 

 

17
mar

Richard Sandler: os olhos da cidade

 

 

Entre 1977 e 2001 o fotógrafo norte-americano Richard Sandler registrou rostos, corpos e paisagens de Nova York – com incursões também a Boston, especialmente nos primeiros anos –, desenvolvendo um relato visual sobre uma época que marcou a história da Big Apple. As imagens deste post integram o livro The Eyes of the City, lançado no ano passado.

 

 

 

 

Tudo começou nos anos 1970, quando Sandler foi presenteado com uma Leica 3F por Mary McClelland, esposa de um psicólogo de Harvard. Ela também lhe deu acesso a um laboratório de revelação, possibilitando, assim, o início da carreira do fotógrafo. À época, Sandler era um jovem que faltava às aulas para explorar as atrações da grande metrópole.

 

 

 

 

O escritor Jonathan Ames, que escreve o posfácio do livro, descreve a cidade representada pelas imagens de Sandler como “um jogo de ganância, decadência, venalidade, beleza, espera, significados ocultos, coincidências, amor, terror, vulgaridade, sofrimento, tédio e solidão”. Tudo isso compondo a matéria das contradições entre a ostentação de Wall Street e as marcas das tensões sociais expressas no grafite dos metrôs, sinais de uma Nova York repleta de conflitos.

 

 

 

 

A série de imagens de Sandler é uma investigação profunda do cotidiano nova-iorquino e das transformações que a cidade viveu do final dos anos 1970 até o início dos anos 2000, período que tem como marco final os atentados de 11 de setembro. Sandler mostra instantes de uma realidade que modificou-se muito nesse período e nos anos seguintes, mas que de certa forma ainda compõem o nosso imaginário da vida nas ruas de Nova York.

 

 

 

 

 

Além de fotógrafo, Richard Sandler é também documentarista, tendo filmado oito filmes sobre Nova York. Suas fotografias integram coleções de instituições como New York Public Library, Brooklyn Museum, New York Historical Society e Houston Museum of Fine Art.

 

 

3
mar

Alain Laboile: celebrando os mistérios da infância

 

 

“Dia após dia, fui criando um álbum familiar que constitui um legado que transmitirei a meus filhos. Meu trabalho gira em torno da infância deles e reflete nosso estilo de vida.” A humildade marca a reflexão do francês Alain Laboile a respeito de sua produção fotográfica. Suas imagens, no entanto, vão muito além de um mero registro do crescimento de seus filhos.

 

 

 

 

 

“Embora meu trabalho seja extremamente pessoal, é também acessível, abordando a natureza humana e permitindo ao espectador entrar em meu mundo e refletir a respeito de sua própria infância”, descreve o fotógrafo. O caráter universal da série ganha força com a escolha do preto e branco e dos rostos por vezes ocultos de seus personagens.

 

 

 

 

 

As fotografias buscam captar certa aura de mistério da infância. No lugar de um imaginário de pureza, muito comum em ensaios com essa temática, encontramos instantes das crianças que sugerem descobertas, medos, encantamentos e um tanto de solidão. Ângulos inusitados reforçam essa atmosfera, remetendo a um tempo subjetivo em que tudo ainda é bastante novo, curioso, desafiador.

 

 

 

 

 

Nascido em 1968, em Bordeaux, na França, Alain Laboile é fotógrafo e pai de seis filhos. Dedicava-se à escultura até adquirir uma câmera, em 2004, para fotografar sua produção escultórica, o que desencadeou sua guinada em direção à linguagem fotográfica. Desde então, participa de exposições em diversos países, tendo também publicado livros de fotografia.

 

 

 

 

 

14
fev

Josh White e os subterrâneos de Seul

 

 

O olhar de um canadense em meio às multidões da capital sul-coreana. O fotógrafo Josh White (também conhecido como JT White) fez uma mudança repentina em sua vida: abandonou o curso de direito e foi dar aulas de inglês para crianças em Seul. Com a fotografia, encontrou uma maneira de se conectar com as pessoas e a cultura de sua nova residência.

 

 

 

 

 

Seguindo a tradição da street photography, as fotografias em preto e branco mostram fragmentos do dia a dia da cidade e dão indícios da postura do fotógrafo nas capturas. Revela-se a imersão de White no cotidiano de Seul, em busca de instantes que sugerem momentos de intimidade e de solidão na rotina agitada da metrópole.

 

 

 

 

 

Em entrevistas, o fotógrafo conta que seu interesse em fotografar os personagens anônimos de Seul nasceu da experiência incômoda de ser estrangeiro num país totalmente diferente de sua terra natal. Segundo conta, com sua câmera, White passou a entender melhor o lugar onde vivia e a se conectar mais com as pessoas ao seu redor. Junto a isso, encontrou uma linguagem para se expressar e para traduzir sua experiência em contato com uma nova e surpreendente realidade.

 

 

 

 

 

Josh White cresceu na ilha de Newfoundland, no leste do Canadá, onde foi jogador de hóquei na adolescência. Viveu um ano nos Estados Unidos, no estado de Winsconsin, e retornou ao Canadá para concluir o Ensino Médio. Iniciou a faculdade de direito e mais tarde foi viver na Coreia do Sul. Sua inspiração vem do desejo de contar histórias e dos encontros que a fotografia lhe propicia.

 

 

 

 

13
jan

Javier Corso: o lado sombrio da Finlândia

 

 

Admirada por seus elevados padrões de bem-estar e igualdade social, a Finlândia possui um lado menos conhecido internacionalmente, mas vivido de forma intensa por seus habitantes. É essa faceta de tons mais sombrios que o fotógrafo espanhol Javier Corso apresenta na série Fishshot [nome de uma bebida popular no norte da Europa].

 

 

 

 

“É um documentário sobre a solidão, o isolamento emocional e repressão dos sentimentos na sociedade finlandesa”, define o fotógrafo. “Esses problemas aumentam quando as pessoas começam a beber para enfrentá-los. O consumo excessivo de álcool está presente em mais da metade dos casos de suicídio, homicídio e violência de gênero”, relata.

 

 

 

 

No documentário homônimo ao ensaio, dirigido por Lucía Pérez de Souto, com fotografia de Corso, especialistas falam especialmente sobre a dimensão do alcoolismo na sociedade finlandesa – e sobre como o consumo excessivo de álcool surge como companhia para muitas pessoas que vivem sozinhas e não buscam ajuda para tratar de suas questões mais íntimas. É esse universo subjetivo que o fotógrafo busca retratar em suas imagens.

 

 

 

 

Nascido em 1989 na Espanha, Javier Corso é diretor e fundador da agência de documentários OAK stories. Seu trabalho fotográfico visa aspectos da condição humana em microescala e já foi publicado em espaços como o site Lighbox, da revista TIME, VICE e El País.

 

13
dez

Suzanne Stein: o cotidiano de Skid Row, em Los Angeles

 

 

“As pessoas se abrem comigo porque se sentem honradas pela atenção. Me orgulha a permissão que me concedem para escutá-las e fotografá-las em momentos bastante intensos. Eu amo fotografar e busco criar coleções de imagens que reflitam a vida e seus momentos peculiares – em corridas, feiras, praias, desfiles… Mas aquelas fotos que eu me esmero para conseguir em Skid Row estão no meu coração. Descobri que todo mundo quer ser escutado por outra pessoa.”

 

 

 

 

O relato da fotógrafa norte-americana Suzanne Stein explica sua relação com os moradores de uma imensa área de Los Angeles, conhecida como Skid Row, onde vivem pelo menos seis mil pessoas em situação de vulnerabilidade – muitos dos quais, sem casa para morar.

 

 

 

 

Stein busca respeitar certos limites para preservar a imagem dos moradores de Skid Row e também sua própria integridade mental. Por vezes, diz a si mesma que é hora de partir. Ela também atende aos pedidos daqueles que não desejam ser fotografados. Dessa maneira, consegue acompanhar a vida da região e contar as histórias de quem lá vive em sua página do Tumblr.

 

 

 

 

“Enquanto me envolvo no processo, consigo me distanciar das situações que testemunho. É no fim do dia, muitas vezes, voltando para casa, que sou impactada pelo enorme peso do que vivenciei. Às vezes, quando termino uma dessas sequências, me restam poucas habilidades além do mais essencial: parar no sinal vermelho, mover meu corpo e comer algo que esteja no meu carro”, conta a fotógrafa em seu site.

 

 

 

 

Muitos dos fotografados somem sem deixar rastros, outros estão viciados em drogas e há ainda aqueles que correm riscos de serem agredidos física e sexualmente. Stein mostra o lado marginalizado de uma cidade que se notabilizou por seus estúdios de cinema e pelo imaginário da vida nos Estados Unidos construído por sua indústria. Imagens que são como um negativo do sonho americano.

29
nov

A Islândia onírica de Agnieszka Sosnowska

 

 

Deslocamentos marcam a vida da fotógrafa Agnieszka Sosnowska. Nascida na Polônia, mudou-se aos três anos para os Estados Unidos. Décadas mais tarde, casou-se com um islandês, com quem se mudou para uma região rural do país de origem do marido. Em meio à diversidade das paisagens locais, Sosnowska encontrou na fotografia uma aliada para se relacionar com as particularidades culturais e climáticas de sua nova residência.

 

 

 

 

 

As imagens de Sosnowska são variadas: vão dos autorretratos a fotografias de familiares e outras pessoas de seu convívio, sempre com um forte caráter pictórico. A fotógrafa constrói uma narrativa repleta de referências às mitologias locais e à história da arte. Em relação a seus autorretratos, Sosnowska comenta: “Frequentemente, nossas experiências requerem uma linguagem universal para serem comunicadas. A minha é a terra. Esses autorretratos começaram 17 anos atrás e seguem aumentando. São silhuetas públicas que expressam histórias privadas de relacionamentos, segredos e memórias.”

 

 

 

 

 

Sosnowska também retrata o cotidiano da região, especialmente atividades relacionadas à caça e à agricultura, mas a atmosfera onírica se mantém nas fotografias. “Muitos anos atrás aprendi que uma fotografia pode contar histórias sem responder questões – são as questões que motivam minhas histórias. De certa forma, convido o espectador a completar minhas sentenças”, reflete.

 

 

 

 

 

Agnieszka Sosnowska estudou fotografia na Massachusetts College of Art, nos Estados Unidos e possui mestrado pela Universidade de Boston. Já realizou diversas exposições individuais e coletivas nos Estados Unidos, na Islândia e na Polônia.

 

 

 

15
nov

A casa de Reynaldo, por Eduardo García

 

 

Um velho teatro que se torna uma casa com ares de palácio decadente. Nela vive Reynaldo Loti Perez, protagonista da série Home, do fotógrafo cubano Eduardo García. Suas imagens em preto e branco, de forte carga poética, mostram a rotina de um homem de poucos recursos materiais num local público que transformou em seu lar.

 

 

 

 

O interesse do fotógrafo parece ser menos o de documentar um exemplo dos problemas de moradia em Cuba, e sim retratar um personagem bastante singular que se apropriou de parte do teatro Campoamor, em Havana. García relata que Reynaldo mudou-se para a capital cubana no final dos anos 80, oriundo da província de Granna.

 

 

 

 

Com a morte de seu avô, Reynaldo ficou sem casa e acabou encontrando o teatro enquanto buscava emprego. Passou a trabalhar no local e a morar em um dos três camarins do Campoamor. Vive lá desde então, enfrentando as condições precárias da construção.

 

 

 

 

As imagens da série abrem espaço para a imaginação do espectador sobre a história de vida e a rotina de Reynaldo. De certa forma, as fotografias também servem de metáfora para a realidade de Cuba – um tempo em suspensão, alguma nostalgia e poucas perspectivas de mudança. Além disso, com o uso do preto e branco a tornar tudo mais homogêneo, é como se a construção e corpo de Reynaldo fossem feitos da mesma matéria que se desgasta, mas que resiste à passagem do tempo.

 

 

 

 

Nascido em 1978 em Havana, Eduardo García vive na capital cubana e colabora com um curso de fotografia do Novo México, nos EUA, desde 2011. Estudou no Instituto Enrique José Varona e na Academia de Arte Antonio Díaz Peláez. Desenvolveu inicialmente trabalhos em torno do audiovisual e de instalações, dedicando-se à fotografia urbana a partir de 2009. Algumas de suas fotografias fazem parte de coleções privadas de países europeus e das Américas.

 

28
out

O mundo escondido da Primeira Guerra Mundial, por Jeff Gusky

 

 

Há exatos cem anos, a humanidade defrontava-se com um conflito mundial sem precedentes, que resultou na morte de mais de 16 milhões de pessoas – dos quais 7 milhões eram civis. O impacto da brutalidade e dos traumas da I Guerra Mundial, até então inéditos em magnitude, dificilmente podem ser compreendidos nos dias de hoje. Uma parcela dessa memória é resgatada pelo fotógrafo norte-americano Jeff Gusky, que explora esconderijos subterrâneos franceses na série The Hidden World of WWI [O mundo escondido da Primeira Guerra Mundial].

 

 

 

 

“As conquistas espetaculares do progresso fizeram com que as pessoas perdessem contato com a fragilidade da civilização – e com seus instintos de autoproteção. Levou menos de 30 anos [no início do século 20] para que as novas democracias, intoxicadas pelo progresso, marchassem de forma entusiasmada em direção a um moedor de carne – a primeira destruição em massa moderna”, explica o fotógrafo.

 

 

 

 

A pesquisa de Gusky começou com a exploração de ruínas e espaços de memória da I Guerra que estavam sobre o solo. Pouco a pouco, a cada nova entrevista, o fotógrafo foi descobrindo novos locais que guardavam resquícios da história do conflito, entre eles, cidades subterrâneas – em sua maioria, localizadas em propriedades privadas, sem acesso permitido a turistas. Um mundo repleto de inscrições feitas por soldados: nomes, figuras religiosas, insígnias e escritos diversos, nas línguas mais variadas – talhados ou pintados nas pedras.

 

 

 

 

Gusky ressalta a curiosa proximidade de quem viveu aquela época com nossos contemporâneos. “Eles amavam baseball, viviam em prédios altos, dirigiam carros e assistiam a filmes”, comenta o fotógrafo. “Eles foram as primeiras testemunhas do lado obscuro do progresso moderno, da primeira destruição massiva moderna, na qual as tecnologias que fazem a vida moderna possível foram usadas para destruir a vida numa que escala que era – e ainda é – inconcebível”, conclui.

 

 

 

 

Nascido em Dallas, Texas (EUA), Jeff Gusky é formado em medicina e divide sua atuação entre a fotografia e atendimentos de rurais emergência. Seu trabalho é dedicado a apresentar fragmentos do passado que nos revelem as fragilidades da vida moderna. Seu terceiro projeto de maior porte, The Hidden World of WWI foi amplamente noticiado pela mídia devido ao ineditismo de suas imagens.

 

14
out

O arquivo da fotógrafa polonesa Stefania Gurdowa

 

 

Na cidade polonesa de Debica, descobriu-se, pouco mais de uma década atrás, cerca de mil placas de fotografias que retratavam habitantes da localidade nas décadas de 1920 e 1930. No material encontrado, havia poucas indicações de quem seria o autor as fotografias. Após uma imersão mais aprofundada, no entanto, descobriu-se quem era a pessoa detrás da câmera.

 

 

 

 

 

 

 

O nome dela era Stefania Gurdowa, nascida em Bochnia em 1888, uma fotógrafa independente que não obteve reconhecimento enquanto vivia e que se dedicava principalmente a fazer retratos de seus vizinhos – de comerciantes a padres e integrantes da comunidade judaica da cidade.

 

 

 

 

 

 

 

Segundo informações do site Lens Culture, Stefania teria estudado fotografia e mais tarde aberto seu próprio estúdio, que funcionou de 1921 a 1937 em Debica. Durante a Segunda Guerra, o espaço foi ocupado pelo exército alemão. Stefania casou-se e se divorciou no final dos anos 1930. Teve uma filha, Zosia, que mais tarde migrou para a França. Stefania, no entanto, permaneceu na Polônia.
A maior parte da produção de Stefania perdeu-se depois de sua morte, em 1968. Os negativos encontrados estavam escondidos em uma parede de seu estúdio – não se sabe bem ao certo se por iniciativa da própria fotógrafa ou de outra pessoa que quisesse preservar o acervo. Imagens que sobreviveram ao tempo e que se apresentam repletas de indagações.

 

 

 

 

 

 

30
set

Eldar Zeytullaev: personalidades da fauna

 

 

Uma tipologia que convida o espectador a refletir sobre as distintas personalidades das plantas. O fotógrafo russo Eldar Zeytullaev explora a aparência da fauna e os significados que atribuímos a seus contornos. Com uma estética que lembra as fotografias do alemão Karl Blossfeldt, Zeytullaev apresenta espécies variadas contra um fundo branco, em imagens que remetem a desenhos.

 

 

 

 

“Todo esplendor e caos das qualidades pessoais estão dentro de uma pessoa e apenas esperam pelo momento de serem encontradas”, reflete o fotógrafo. “Resta observar como cada um vive e age em meio as fronteiras permeáveis da personalidade”, completa. Na visão de Zeytullaev, a flora segue uma lógica similar.

 

 

 

 

Embora o fotógrafo estabeleça essa relação entre plantas e humanos, as fotografias contêm quase nenhum dramatismo. As capturas são feitas com o mesmo tipo de luz, evitando sombras marcadas, como se fossem obtidas para um catálogo botânico. A série Planta Sapiens abre, assim, espaço para que novos significados se construam a partir de cada olhar.

 

 

 

 

Nascido em 1986, em Novorosiysk (Rússia), Eldar Zeytullaev estudou design gráfico na Universidade de Sholokhov. Desde 2009, já realizou duas exposições individuais em sua cidade natal, além de participar de diversas exposições coletivas e leituras de portfólio na Europa e nos Estados Unidos.

13
set

Esculturas do processo evolutivo, de Patrick Gries

 

 

Uma abordagem estética e científica, que nos fala sobre como as espécies vivas do nosso planeta chegaram a seus estágios atuais. A série Evolution [Evolução], do fotógrafo Patrick Gries, apresenta mais de 250 imagens de esqueletos de animais mantidos pelo Museu de História Natural de Paris e outras quatro instituições francesas.

 

 

 

 

São imagens em preto e branco que detalham caminhos evolutivos de espécies vertebradas. De modo rigoroso, Gries revela os ossos dos animais sem qualquer outro elemento que não seja o fundo escuro comum às imagens. É quase como um catálogo da vida na Terra, com esqueletos que adquirem um caráter escultórico sob o olhar do fotógrafo.

 

 

 

 

Na publicação que reúne as imagens, textos breves descrevem os processos evolutivos de repetição, adaptação, polimorfismo, seleção natural, entre outros observados ao longo dos estudos de cada esqueleto. Gries mostra os indícios de transformações que levaram milhões de anos até ganharem forma nos corpos dos animais.

 

 

 

 

A tipologia concebida pelo fotógrafo traz à tona a teoria da evolução de Darwin – indiscutível, embora repleta de mistérios que vão sendo solucionados à medida que são descobertos novos fósseis. Gries eterniza no plano fotográfico etapas do processo evolutivo que fascinam e servem de material de pesquisa para estudiosos de agora e dos séculos que estão por vir.

 

 

 

 

Nascido em 1959, em Luxemburgo, Patrick Gries começou a trabalhar como fotógrafo nos Estados Unidos, na década de 1980. Em 1992, mudou-se para Paris e desde então desenvolve projetos autorais e comissionados, para instituições como o Musée du Quai Branly e a marca Louis Vuitton.

2
set

Um retorno à Albânia, por Enri Canaj

 

 

A série que apresentamos hoje é fruto do retorno de um fotógrafo a sua terra natal. Enri Canaj, mudou-se para a Grécia aos 10 anos de idade, quando as fronteiras albanesas se abriram após o fim da União Soviética. Ao longo de sua adolescência e juventude, no entanto, ele manteve a Albânia em suas memórias de infância. Já atuando como fotógrafo, decidiu confrontar as imagens que guardava com o que a visita ao país lhe reservava.

 

 

 

 

“O que encontrei foi modernidade e tradição convivendo juntas. Viajei muito e comecei a conhecer meu local de nascimento, as pessoas e sua mentalidade”, relembra Canaj. De fato, as tradições dos Bálcãs seguem muito presentes no cotidiano albanês – com a queda do regime soviético, muitas delas retornaram com força ao dia a dia do país.

 

 

 

 

“Fiz essa jornada com minha esposa. Quando as pessoas se davam conta de que éramos casados, elas eram muito acolhedoras e nos recebiam em suas casas com bênçãos e saudações”, conta o fotógrafo, destacando o papel do casamento na sociedade albanesa.

 

 

 

 

Outro aspecto cultural observado por Canaj é a importância das relações entre vizinhos, o que ressalta a força dos laços comunitários na Albânia. O fotógrafo apresenta esse contexto em suas imagens, buscando também revelar em suas imagens um tempo um tanto desacelerado em comparação à Europa ocidental.

 

 

 

 

Nascido em Tirana, na Albânia, em 1980, Enri Canaj vive em Atenas e desenvolve seus trabalhos entre na Grécia e nos Bálcãs. Estudou fotografia na Leica Academy de Atenas e atua como freelancer para diversas publicações. Recentemente, tem realizado projetos que têm como tema a recente crise migratória do Mediterrâneo.

9
ago

David Shannon-Lier: o cósmico e o terrestre

Na série Of Heaven and Earth [Do céu e da Terra], David Shannon-Lier estabelece relações entre corpos celestes e marcas feitas pelo fotógrafo no solo. O resultado é uma interação das luzes do sol e da lua com a paisagem alterada pela ação do homem. O posicionamento da câmera é feito de forma meticulosa, de modo que o movimento seja registrado perfeitamente no plano fotográfico a partir de uma longuíssima exposição.

 

“Eu abordo meu lugar na escala humana e cósmica”, conta Shannon-Lier. “Assim, o cósmico encontra-se com o humano, a imensidão com o íntimo e uma das forças mais constantes do nosso mundo – o movimento dos corpos celestes –interage com uma linha de pedras ou desenhada no gramado: uma marca que é pequena e totalmente efêmera em termos de forma e sentido”, explica.

 

São tempos distintos que entram em diálogo, conforme a reflexão do fotógrafo: a constância do sol e da Lua e a mortalidade do homem que cria as condições para que a imagem se constitua. Ou seja: os corpos celestes seguem seu movimento por tempo indeterminado, numa escala totalmente distinta daquela que rege o tempo da vida humana. Ambas as escalas, no entanto, encontram-se no plano da fotografia.

 

O norte-americano David Shannon-Lier é graduado pela faculdade do Museum of Fine Arts de Boston e pela Arizona State University. Realizou diversas exposições individuais e coletivas pelos Estados Unidos. Seus trabalhos, em geral desenvolvidos em preto e branco, abordam principalmente a fotografia de paisagens.

 

29
jul

Diego Bardone: explorando os limites da privacidade

 

Uma questão conflituosa da fotografia motivou o italiano Diego Bardone a conceber Faceless: an Ode to Privacy Laws [Sem rosto: uma ode às leis de privacidade]: imagens obtidas nas ruas expõem rostos de transeuntes aos quais, na maioria dos casos, não se pede nenhuma autorização. Aproveitando a potencialidade estética dessa discussão, Bardone produziu uma série em que não se vê rostos e que revela o cuidado compositivo do fotógrafo.

 

 

 

 

“É um diário, um tributo àqueles atores inconscientes que tenho a sorte de encontrar durante minha caminhada solitária por Milão. É como me ver numa espécie de espelho virtual: sou cada um deles, e eles são minha alegria caminhante que se transforma em fotografia. Apenas por diversão, pois isso me deixa feliz”, conta o fotógrafo.

 

 

 

Ao ocultar rostos, Bardone confere outro tipo de complexidade às fotografias, que substitui os mistérios da fisionomia humana. As composições, fragmentadas, ora se apropriam de caras estampadas em anúncios e periódicos, ora mesclam elementos urbanos aos corpos, explorando o aspecto caótico das ruas. A partir de uma limitação auto-imposta – não fotografar rostos –, Bardone constrói imagens que apostam no bom humor e na surpresa diante do cotidiano.q

 

 

 

 

Diego Bardone nasceu em Milão, em 1963. No início da carreira, atuou como fotojornalista. Mais tarde, deu vasão a sua criatividade desenvolvendo projetos pessoais, exibidos desde 2011 em exposições na Europa. Desde então, suas fotografias das ruas de Milão estampas as páginas de periódicos como La Repubblica e The Independent.

19
jul

Ethan James Green: a juventude de Nova York

 

 

Desde os 14 anos, quando vivia em Michigan, Ethan James Green queria ser fotógrafo de moda. Em seguida, tendo a carreira de modelo como uma oportunidade, Green mudou-se para Nova York. Em meio a seus contatos profissionais, conheceu o fotógrafo David Armstrong, com quem passou a trabalhar – e cujos retratos passou a admirar. Inspirado pelos ensaios de Armstrong – que viria a falecer em 2014 –, Green concebeu a série Young New Yorkers [Jovens nova-iorquinos].

 

 

 

 

Os retratos de Green dialogam com a produção de Armstrong – que era amigo de Nan Goldin e que, como ela, retratou de forma crua o cotidiano de jovens de Nova York. “Me apaixonei pelos personagens que Armstrong tinha fotografado”, conta Green. “Ao passo que Armstrong me contava histórias do passado, decidi buscar equivalentes nos dias de hoje”, explica.

 

 

 

 

Pouco a pouco, Green estabeleceu uma rede de amigos para seus retratos, tendo suas contas no Instagram e no Tumblr como apoio para divulgar o projeto. Seus personagens incluem pessoas das comunidades queer e transexual de Nova York, além de frequentadores da vida noturna e cultural da cidade.

 

 

 

 

Green relata que, com o uso das redes sociais, tornou-se mais fácil para jovens de diversas localidades dos Estados Unidos fazerem contatos com moradores de Nova York, tendo assim a oportunidade de descobrirem a metrópole e se libertarem de suas rotinas e cidades natais. São esses novos personagens que tornam a cidade uma fonte inesgotável de histórias para os retratos de Green.

 

 

8
jul

Victor Sloan: Hotel Baron, na Síria

 

 

Conhecido por seus ensaios relacionados a questões sociais, Victor Sloan é um dos mais importantes fotógrafos da Irlanda. No ensaio The Baron Hotel, Syria, ele apresenta uma abordagem bastante particular da trágica realidade síria depois dos conflitos que tiveram lugar nos últimos anos.

 

 

 

O hotel Baron, situado na cidade de Aleppo, é um dos mais antigos da Síria – foi lá que, reza a lenda, ao ver um cartaz, Agatha Christie teria se inspirado para escrever Assassinato no Expresso Oriente. O estabelecimento teria recebido também personalidades como o ex-presidente francês Charles De Gaulle e o magnata David Rockfeller. Diz-se ainda que o local era frequentado por espiões alemães e ingleses na primeira metade do século 20. Em 2014, devido à guerra civil, o hotel foi fechado.

 

 

 

O ensaio de Sloan revela um fotógrafo que encontra outro tempo e outro lugar para falar de uma situação da qual temos uma infinidade de registros fotojornalísticos.

 

 

 

Trilhando outro caminho, Sloan não deixa de dialogar com essas imagens: se sabemos que se trata de um hotel em Aleppo, inevitavelmente recordamos e estabelecemos paralelos com as imagens da guerra. Somam-se, assim, diversas camadas de significado: o passado glorioso que, de alguma forma, resiste, e a tragédia que as imagens sugerem sem mostrar.

 

 


Nascido em Dungannon, na Irlanda do Norte, em 1945, Victor Sloan vive atualmente em Portadown. Trabalha como artista e educador, desenvolvendo obras em várias linguagens, da fotografia ao vídeo, muitas vezes realizando trabalhos híbridos. Possui uma vasta trajetória, participando de exposições individuais e coletivas em diversos países desde 1981.

 

 

14
jun

As marés incertas de Deb Schwedhelm

 

 

Corpos em contato com a água, ora totalmente submersos, ora emergindo do fundo. Uma relação que traz consigo um manancial de metáforas sobre a vida e o inconsciente, apresentada na série Uncertain Tides [Marés incertas], da fotógrafa norte-americana Deb Schwedhelm. Diante das fotografias, somos envolvidos pelos movimentos dos personagens e pela fluidez do elemento que os circunda.

 

 

 

 

Chama atenção o modo como a aparência da água varia no ensaio, indo de tons próximos do branco à escuridão completa – apresentando também, em alguns planos, uma variação cromática maior. São alternâncias que levam para o plano da imagem distintos simbolismos do elemento: da superfície que se modifica a cada segundo à profundidade inacessível aos olhos.

 

 

 

 

“Enquanto fotografo meus filhos e amigos, fotografo também a mim mesma, entrando e saindo de foco, permitindo que o mundo líquido ilustre a minha jornada”, reflete a fotógrafa. Ela destaca a reflexão em torno do “pertencimento” e do “senso de localização”, revelando um dado biográfico: “Por fazer parte do sistema militar, minha família vive com frequência em um mundo de incertezas – desterrada, sem âncora. O mar é uma alegoria para nossas vidas. Movendo-se com as marés, não temos outra escolha que não seja ir adiante, nadar e se manter flutuando em meio às mudanças”.

 

 

 

 

Nascida em Detroit, EUA, Deb Schwedhelm trabalhou por dez anos como enfermeira da Força Aérea norte-americana. É casada com um oficial da Marinha dos Estados Unidos, baseado no Japão. Deixou a carreira militar e passou a se dedicar integralmente à fotografia, paixão que tinha desde seus 20 anos. Desde então, possui uma trajetória profissional repleta de exposições e publicações de seu trabalho.

 

27
mai

É menino, de Tytia Habing

 

 

Um ensaio sobre o que é extremamente próximo e ainda assim repleto de surpresas e prenhe de descobertas. A fotógrafa Tytia Habing narra em imagens o novo universo a que teve acesso ao criar seu primeiro filho – após esperar que fosse dar à luz a uma menina. “Desde então, minha vida se encheu de sujeira, tênis cheios de areia, adesivos, joelhos ralados, carrinhos, caixas de papelão, armas de brinquedo e um senso de diversão interminável com essa pequena criatura estrangeira que eu trouxe ao mundo”, conta a fotógrafa.

 

 

 

 

 

Habing fotografa a série This is Boy (2011-2015) em preto e branco, o que contribui para transportar o espectador a um certo tempo particular da infância em que tudo parece ser eterno. Uma aura de mistério atravessa as imagens, e o olhar da fotógrafa parece cúmplice da magia infantil que vislumbra um mundo enorme a ser descoberto.

 

 

 

 

 

Excitação, medo, tédio, alegria, assombro. Uma série de sentimentos ganha forma de modo um tanto complexa nas fotografias. As imagens nos transportam a um cotidiano de brincadeiras e instantes repletos de sensações por vezes confusas, em outras, repletas de encantamento com o mais prosaico.

 

 

 

 

 

O contato com a natureza é uma das ênfases do dia a dia do personagem da série e de sua mãe, que relata ter optado por uma vida mais conectada com a terra. De certa forma, é essa conexão que Habing parece buscar retratar: momentos aparentemente insignificantes que, no entanto, revelam um modo de vida em que se valoriza tudo aquilo que é simples.

 

 

 

 

 

Tytia Habing vive e trabalha em Watson, Illinois (EUA), localidade próxima de onde cresceu em uma fazenda. Estudou horticultura e arquitetura, tornando-se fotógrafa autodidata. Desde que passou a desenvolver seu trabalho fotográfico, já publicou suas imagens em diversos periódicos especializados, participando também de exposições.

17
mai

Fatemeh Behboudi: Mães da paciência

 

 

Em qualquer conflito armado, a tragédia das vidas perdidas se multiplica se pensarmos que cada morte traz consigo o sofrimento daqueles que ficam e precisam aprender a lidar com as ausências. Há também outro tipo de dor, perturbadora de modo distinto: aquela da expectativa de que alguém volte, por menos provável que isso possa parecer. Na série Mothers of Pacience [Mães da paciência], a fotógrafa Fatemeh Behboudi acompanha de perto a eterna espera de mulheres iranianas por seus filhos, desaparecidos durante a guerra entre Irã e Iraque.

 

 

 

 

Iniciada em 1980, com a invasão iraquiana de territórios do Irã, a guerra entre os dois países se estendeu até 1988 – considerada, portanto, o mais longo conflito bélico convencional do século 20. Depois de assinada a paz, contabilizou-se em 10 mil o número de soldados iranianos dos quais não se sabia o paradeiro.

 

 

 

 

“Nasci durante a guerra, e toda minha infância e juventude foi perdida em nome dela. Todos os dias, escutava que os corpos de um grande número de mártires haviam sido trazidos. Fui com minha família receber os corpos de desconhecidos e vi mães que procuravam os de seus filhos”, recorda a fotógrafa. Nos últimos anos, em torno de 7 mil corpos foram encontrados no Irã, mas devido a dificuldades de identificação, foram registrados como mártires anônimos e enterrados. Do outro lado da fronteira, no Iraque, estima-se que 5 mil corpos ainda estejam sem terem sido sepultados.

 

 

 

 

Na rotina das mães, o apego a cartas e roupas que ficaram para trás é constante. Depois de décadas de espera, muitas delas acabam conseguindo identificar seus filhos por meio de exames de DNA e de objetos encontrados junto aos corpos. Com intervalos de alguns meses, são realizados enterros de corpos encontrados próximos da fronteira Irã-Iraque. Os funerais são atendidos por muitas das mães que ainda aguardam alguma notícia de seus desaparecidos.

 

 

 

 

Nascida no Teerã, capital do Irã, Fatemeh Behboudi estudou fotografia e, depois de graduar-se em 2007, trabalhou em veículos e agências de comunicação iranianas. Nos últimos anos, tem participado e recebido distinções de diversas festivais e exposições relacionados à fotografia.

 

6
mai

Duane Michals: narrativa, representação e realidade (Parte III)

 

 

Em nosso terceiro post sobre o trabalho do fotógrafo Duane Michals, apresentamos a sequência Grandpa Goes to Heaven [Vovô vai para o céu], de 1989. Se é possível traçarmos algum paralelo com as outras séries que já comentamos por aqui – Chance Meeting (1972) e The Young Girl’s Dream (1969) –, podemos observar inicialmente o interesse do fotógrafo por situações de encontro entre duas pessoas e as transformações que daí se originam.

 

 

 

 

 

 

Outro aspecto que ganha evidência é o olhar atento para a sutileza dos gestos, especialmente nas mãos do garoto e do avô – elementos mínimos que dão sustentação à narrativa de quatro imagens. Questões em torno da morte e da transcendência também ganham espaço, articuladas com a variação de exposição dos planos. Michals mais uma vez constrói uma sequência que suscita profundas indagações a partir de escolhas muito precisas e cuidadosas.

 

3
mai

As trocas de Stuart Pilkington

 

 

Interessado em conectar pessoas por meio da fotografia, o curador e fotógrafo inglês Stuart Pilkington desenvolveu um projeto que traz para frente das câmeras os próprios fotógrafos. Em The Swap [A troca], realizado desde 2013, Pilkington atua como um articulador de retratos, fazendo a mediação de encontros que resultam em imagens.

 

 

 

O processo funciona da seguinte forma: uma dupla de fotógrafos se encontra duas vezes, revezando-se entre as posições de quem fotografa e quem é retratado. Depois de obtidas as imagens, elas são enviadas por e-mail para o site do projeto, que publica as fotos.

 

 

 

“A ideia de estar diante da câmera aborrece muitos fotógrafos, mas para aqueles que desejam participar é uma oportunidade de criar algo de forma colaborativa com outro profissional”, conta Pilkington.

 

 

 

O fotógrafo ainda ressalta que dá total liberdade para que os participantes se fotografem da forma como bem entenderem, sem qualquer direcionamento da parte do curador.

 

 

 

Stuart Pilkington vive no noroeste da Inglaterra e integra o projeto Documenting Britain, formado por artistas de diversas áreas que desenvolvem trabalhos criativos que abordam o Reino Unido. O fotógrafo também colabora com o British Film Institute e a família Kubrick, além de realizar a curadoria de diversos projetos fotográficos.

 

 

 

22
abr

Chris McCaw: o sol que queima a superfície fotográfica

 

 

Graças a uma noite em que dormiu mais que a cama, o norte-americano Chris McCaw obteve um resultado surpreendente em um experimento fotográfico. Certa noite, assim que o sol se pôs, McCaw posicionou uma câmera de grande formato – feita por ele próprio – para capturar o movimento das estrelas no céu. Abriu o obturador para a longa exposição e foi dormir, programando seu despertador para que pudesse acordar antes do amanhecer. O fotógrafo, no entanto, seguiu dormindo, e só pôde interromper a exposição após o nascer do sol – cuja luz intensa fatalmente tornaria inviável a imagem que ele buscava.

 

 

 

 

McCaw seguiu o processo de revelação e se deu conta de que, por acidente, havia chegado a outra possibilidade de fotografar o céu – e que dá origem a série Sunburn [algo como “queimadura do sol”]. “Esse projeto transformou a maneira como penso a fotografia e o mundo. Não apenas me vejo usando materiais fotográficos de modos que não imaginava, mas também tive que negociar realidades físicas de forma inédita”, conta McCaw.

 

 

 

 

As fotografias são feitas em papel fotográfico de gelatina de prata, em grande formato. O que varia são as exposições – por vezes, em séries interrompidas sequencialmente, ou mesmo utilizando negativos separados que depois formam uma única imagem.

 

 

 

 

Nascido na Califórnia em 1971, Chris McCaw tem formação em fotografia pela Academy of Art de San Francisco. Já realizou dezenas de exposições nos Estados Unidos e tem fotografias publicadas em diversas publicações norte-americanas e europeias.

5
abr

Christian Vium: a pesquisa antropológica revisitada

 

 

Tendo como ponto de partida o trabalho dos antropólogos Frank Gillen e Baldwin Spencer, que investigaram a vida aborígene entre 1875 e 1912, o fotógrafo dinamarquês Christian Vium percorreu a região central da Austrália ao longo dos meses de maio e junho de 2014. A série The Wake [O velório, em tradução livre] coloca lado a lado fotografias suas e imagens da pesquisa seminal de Spencer e Gillen mantidas na coleção do Museu Victoria, em Melbourne.

 

 

 

 

“A ideia não nasce tanto do desejo de criticar visões evolucionárias um tanto datadas, e sim da descoberta desconfortável que a minha própria produção era, também, marcada pelo que vim a entender como uma visão estereotipada do Outro”, conta o fotógrafo.

 

 

 

 

“Busquei reencenar as imagens antigas de forma criativa, nos locais onde foram originalmente obtidas. Quis convidar aquelas pessoas retratadas a trazer seus pontos de vista e ideias para o processo”, explica Vium. O luto era um dos principais assuntos do fotógrafo com as populações aborígenes, devido à precariedade de suas condições de sobrevivência – a expectativa de vida dos aborígenes é vinte anos menor que a média australiana.

 

 

 

 

O projeto completo de Vium inclui reencenações de fotografias da pesquisa antropológica na Amazônia brasileira e no extremo leste da Sibéria. O objetivo, conta o fotógrafo, é desenvolver uma técnica étnico-estética de crítica cultural,  mesclando “as disciplinas da prática artística e da etnografia, de modo a reconhecer a importância crucial da experimentação e dos ‘erros’ como elementos produtivos na arte contemporânea e na produção de conhecimento”.

 

 

 

 

Nascido em 1980, Christian Vium vive em Aarhus, Dinamarca. Com pós-doutorado em antropologia social, investiga as intersecções entre práticas documentais, artes e ciências sociais, tendo trabalhado em parceria com os mais variados profissionais – de antropólogos e historiadores a jornalistas e diretores de cinema. Já recebeu importantes prêmios relacionados a seu campo de atuação e exibiu fotos e vídeos em diversos países.

 

 

 

 

 

29
mar

Adam Panczuk: Karczebs, arraigados ao solo

 

 

Em 2005, um ano após o ingresso da Polônia na União Europeia, o fotógrafo Adam Panczuk decidiu viajar pelas regiões rurais do país para retratar um contexto prestes a se transformar a partir da recente integração no bloco econômico. Nesse percurso, Panczuk passou a dedicar atenção especial aos personagens dessas localidades e à sua relação com terra. A série Karczeby resulta desse processo de descoberta.

 

 

 

 

O nome do ensaio deriva de uma expressão dialetal do leste da Polônia: são chamadas de “Karczebs” as pessoas intensamente arraigadas ao solo onde vivem – e onde suas famílias residem há gerações. A mesma palavra é usada para nomear a parte que resta de uma árvore depois de ser cortada – o pedaço de tronco com raízes que não se desliga da terra. Tal imagem também serve de metáfora, lembra o fotógrafo, para a resistência dos habitantes a tentativas de remoção, especialmente nos tempos do stalinismo.

 

 

 

 

Panczuk coloca em cena o apego à terra por meio de retratos. Chama atenção como na maioria das imagens os fotografados se aferram a objetos – ou mesmo animais – e como tudo parece estar de fato intimamente conectado com o solo. Com essa abordagem, mais do que documentar uma determinada região, Panczuk torna universais seus personagens e o vínculo a seu lugar de origem.

 

 

 

 

Nascido em 1978, Adam Panczuk vive em Varsóvia. Estudou fotografia no departamento de comunicação da Universidade de Poznan. Em seus trabalhos, explora questões relacionadas à identidade de quem encontra nas suas viagens. Já recebeu prêmios como o Magnum Expression Award e teve imagens publicadas em periódicos como National Geographic e Le Monde. Também realizou exposições individuais em diversos países da Europa e nos Estados Unidos.

16
mai

Ricardo Chaves exibe mostra retrospectiva

Retrato de Ricardo Chaves

Até o dia 1º de junho, o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana) recebe a exposição A força do tempo, do fotojornalista Ricardo Chaves. A mostra do 7º FestFotoPOA, organizada por Carlos Carvalho, reúne imagens de 38 coberturas realizadas pelo fotógrafo ao longo de uma carreira de mais de 40 anos e um painel com 196 retratos. O blog do Centro de Fotografia da ESPM-Sul teve a oportunidade de visitar a retrospectiva ao lado de Kadão. Compartilhamos aqui um pouco dos bastidores das reportagens, contados pelo próprio fotógrafo e pelos documentos – fac-símiles de jornais, entre outros – que integram a exposição.

Alguns dos momentos mais importantes da trajetória profissional de Kadão tiveram lugar em coberturas internacionais. Aos 20 anos, munido de uma autorização dos pais (necessária na época) para poder viajar ao exterior, Kadão cobriu as eleições presidenciais uruguaias de 1971. “Foi muito impactante. Saí desse túmulo político que era o Brasil, onde todos tinham medo, e encontrei um país com manifestações, comícios e livros de todas as tendências sendo vendidos nas ruas”, conta. No entanto, pouco tempo depois, em 1973, um golpe militar instaurava uma ditadura no Uruguai. O Congresso fechado pelo novo governo aparece em uma das fotografias que fazem parte da exposição: um plano composto pelo edifício do Legislativo, uma avenida deserta e três crianças que brincam – uma delas, com uma arma de brinquedo em punho. Uma imagem que sugere o vazio político e a violência que tomavam conta da América Latina.

Foto: Ricardo Chaves

Em outra fotografia da mostra, surge novamente uma arma – dessa vez, de verdade e engatilhada. Três homens discutem em um posto de gasolina. Um deles aponta um revólver. Kadão, que havia acordado com o som de um tiro, observou tudo da janela do apartamento onde morava na década de 1980, em São Paulo. O homem que era ameaçado acabou fugindo. Em seguida, chegava a Polícia Militar, mas ninguém foi preso. Kadão recorda que, na apuração da matéria, nem a loja de conveniências nem a PM pareciam se importar com o seu relato. A impressão inicial de um assalto transformou-se na suspeita de que a imagem registrava o envolvimento de um policial em um “acerto de contas”. A foto foi capa do jornal O Estado de São Paulo, entretanto, permaneceu o mistério em torno do que realmente teria ocorrido. “Um pouco Blow Up: aconteceu, mas não aconteceu”, diz Kadão, associando a imagem ao filme de Michelangelo Antonioni em que uma fotografia registra por acaso um possível crime.

Foto: Ricardo Chaves

A exposição apresenta também a cobertura do incêndio de uma loja da Renner, na avenida Otávio Rocha, em Porto Alegre. A matéria foi publicada pela revista Veja, em 1976, com uma série de fotos que mostra o desespero das pessoas que estavam no edifício no momento da tragédia. Da redação, Kadão viu a coluna de fumaça que se formava e correu até a rua para descobrir o que estava acontecendo. “Quando cheguei perto do prédio, já caía o primeiro corpo”, conta.

Foto: Ricardo Chaves

Trabalhando na sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre, Kadão registrou o incêndio da redação de Zero Hora, em 1973. “O motorista do Jornal do Brasil estava indo para casa. Passava em frente a Zero Hora quando viu o incêndio. Como na época não tinha essa barbadinha do celular, ele voltou para a redação, me apanhou e eu fiz as fotos”, conta. Depois de revelar o filme e enviar uma telefoto para o JB no Rio de Janeiro, Kadão voltou ao prédio da ZH para saber se havia feridos. Chegando lá, descobriu que os jornalistas tinham saído do prédio com segurança e estavam na redação do Jornal do Comércio, que gentilmente cedia sua redação para a concorrência. A imagem estampou a capa de ZH no dia seguinte, acompanhada da manchete “Incêndio não parou jornal”.

Foto: Ricardo Chaves

“Todos nós, fotógrafos, corremos atrás de imagens que de alguma maneira representem a época em que vivemos. Somente nós, que estamos vivendo esse período, podemos fazer um registro simbólico desses momentos”, diz Kadão. Algumas das imagens tornam-se icônicas, como é o caso das fotos de conflitos entre policiais e manifestantes contrários ao regime militar, nos anos 1970. A cobertura dos enfrentamentos, na avenida João Pessoa, em Porto Alegre, rendeu a Kadão o prêmio Abril de Fotografia de 1977. Uma das imagens dá a ver de forma bem humorada a tentativa aparentemente frustrada de controlar os protestos.

Foto: Ricardo Chaves

Nascido em 1951, Ricardo Chaves passou a consolidar o seu interesse pela fotografia em 1969, frequentando a redação de Zero Hora. Na equipe da Veja, cobriu a visita do Papa João Paulo II à Polônia, ainda governada por dirigentes comunistas, em 1979 – o retorno de Karol Wojtyla a seu país de origem foi fundamental para o movimento antissoviético Solidariedade, liderado por Lech Walesa, que mais tarde se tornaria presidente da Polônia. Ainda pela Veja, cobriu em 30 de abril de 1981 o atentado do Riocentro, no Rio de Janeiro – acontecimento que contribuiu para o enfraquecimento do regime militar no Brasil. Trabalhou ainda na revista Istoé e na Agência Estado, cobrindo importantes acontecimentos da política brasileira e do esporte. Em 1992, retornou a Porto Alegre como editor de fotografia de Zero Hora, função que ocupou por duas décadas. Desde 2011 é editor da coluna Almanaque Gaúcho, de ZH, que resgata fatos e curiosidades históricas.

Foto: Ricardo Chaves

Exposição A força do tempo, de Ricardo Chaves
Aberta até 1º de junho de 2014
Local: Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – 6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico – Porto Alegre)
Visitação: segunda-feira, 14h-19h; terça a sexta-feira, 10h-19h; sábado, domingo e feriados, 12h-19h
Entrada franca

10
jun

“Eu acredito que há coisas que ninguém veria se eu não as fotografasse” Diane Arbus

Retrato de Diane Arbus.

“O que eu nunca vi antes é o que reconheço.” Com esta frase, a fotógrafa Diane Arbus define o caminho que escolheu trilhar como artista e fotógrafa. A singularidade de seus retratos e a marca por ela deixada na história da fotografia americana se dá tanto em razão das pessoas que escolhia fotografar quanto por seu intenso interesse por elas.

Diane Arbus assumiu um olhar intimista e o explorou com esmero em seus trabalhos mais reconhecidos. Movida por uma sensibilidade nata, buscava perfis de pessoas diferentes, o que acabou se tornando quase um requisito para suas fotos: seus retratados eram totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade. Nascida em 1923 como Diane Nemerov, em Nova Iorque, encontrou em sua cidade natal inspiração para suas imagens. As fotografias deveriam traduzir o envolvimento que Diane construía com as pessoas, tornando-se, de fato, o resultado de um encontro.

Foto: Diane Arbus.

Foto: Diane Arbus.

Diane começou a trabalhar com fotografia junto com seu marido, Allan Arbus, na década de 1940. Os dois se conheceram quando ela tinha 13 anos e casaram cinco anos mais tarde, formando uma parceria no ramo da moda. Em 1959, a sociedade terminou para que Diane pudesse seguir seus interesses pessoais e, com o rompimento profissional, o casamento também chegou o fim. Apesar de ter passado por uma fase difícil, Diane conseguiu desenvolver ainda mais sua fotografia. Um aspecto importante para sua revolução veio da influência da fotógrafa Lisette Model, imigrante europeia que encorajou Arbus a desenvolver o tema da heterodoxia e, ao mesmo tempo, aperfeiçoar aspectos técnicos.

Com raras exceções, Arbus fazia apenas fotos de pessoas. O interesse dela no indivíduo não estava em seus possíveis estilos de vida ou posições filosóficas, mas no mistério que o envolvia. Suas lentes registravam a leitura do diferente e, ao mesmo tempo, expunham os personagens, procurando neles histórias a serem contadas e aprendidas. A foto significava, sobretudo, uma celebração das pessoas como elas são.

Foto: Diane Arbus.

Foto: Diane Arbus.

Arbus passava horas com os fotografados, seguia-os até suas casas ou locais de trabalho, conversava com eles e tentava fazê-los chegarem ao momento em que começavam a se desfazer de suas imagens públicas ordinariamente aceitáveis. As pessoas que Diane escolhia acatavam sua proposta e se revelavam sem pudor, confiantes de que não seriam expostas de maneira pejorativa nos ensaios.

Os trabalhos não-comerciais de Diane Arbus venceram o Prêmio Guggenheim Fellowship nos anos de 1963 e 1966, com o projeto “American Rites, Mannersand Customs”. Ela compôs o ensaio indo a concursos, festivais e ambientes privados nas cidades de Nova Iorque e Nova Jersey, além de algumas visitas a Pensilvânia, Flórida e Califórnia.

Foto: Diane Arbus.

Foto: Diane Arbus.

Entre 1969 e 1971, Diane realizou um intenso trabalho retratando pessoas com necessidades especiais. Ela também fez uma coleção intitulada “A box of ten photographs” (“uma caixa de dez fotografias”, em tradução literal), que seria o primeiro de uma série de trabalhos com edições limitadas.

Arbus cometeu suicídio em 1971. Passados mais de 40 anos de sua morte, sua visão original continua provocando as mesmas reações de quando foram apresentadas ao mundo pela primeira vez.

14
mai

“Eu não escrevi as regras, por que deveria segui-las?” W. Eugene Smith

Retrato de William Eugene Smith.

 

Americano nascido no Kansas, William Eugene Smith (1918 – 1978) é considerado um clássico: sua obra permanece repleta de significado histórico e estético mesmo com o passar das décadas. Fotojornalista, tornou-se membro da Magnum em 1955, quando já era conhecido pelas imagens sensíveis e brutais feitas durante a Segunda Guerra Mundial e pelo rigor com que se mantinha fiel a seus princípios profissionais. Entretanto, foi no campo da fotografia social que se tornou referência. Até então, nunca havíamos falado diretamente sobre o fotógrafo no blog, mas seu nome aparece em diversas postagens sobre jovens fotógrafos agraciados com o prêmio da fundação que carrega seu lema. Seguindo a tradição humanista, a Eugene Smith Foundation concede desde 1979 bolsas para o desenvolvimento de ensaios com temáticas sociais.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Ilustram este post imagens de uma de suas reportagens mais inovadoras, Country Doctor, publicada na LIFE em 1948. Para fazê-la, Smith passou 23 dias em Kremmling, Colorado, transformando em crônicas fotográficas os desafios da rotina de um médico. Ao republicá-la online seis décadas depois, a publicação sublinhou que as imagens pareciam tão frescas quanto no momento em que chegaram na redação. Como o médico retratado, Smith também era considerado incansável. Por sua dedicação excessiva, muitos editores o classificavam como “problemático”.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Precoce, Smith tirou suas primeiras fotos publicadas aos 15 anos, para dois jornais locais. Em 1936, ingressou na Notre Dame University, em Witchita, que criou uma bolsa para estudos fotográficos especialmente para ele. Deixou a universidade um ano depois e partiu para Nova Iorque, onde estudou com Helene Sanders no New York Institute of Photography. A primeira experiência profissional veio em 1937, na Newsweek (ainda News-Week), mas foi logo demitido por se recusar a utilizar câmeras de médio-formato. A partir daí, tornou-se integrante da agência Black Star como freelancer.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Smith trabalhou como correspondente de guerra para a revista Flying entre 1943 e 1944, e um ano depois para a Life, onde publicou suas mais conhecidas imagens. Por cobrir a mítica ofensiva norte-americana no Japão simulando ser um combatente, sofreu um grave ferimento que o rendeu mais de trinta cirurgias. Seguindo a máxima cunhada por Robert Capa (“Se suas fotos não estão boas o suficiente, você não está perto o suficiente”), suas imagens impressionavam justamente pela proximidade com os assuntos, mostrando o terror da guerra quase dos olhos de um oficial do exército.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Entretanto, Smith tornou-se referência pelos ensaios que exploravam temas sociais. Um dos mais famosos, Aldeia Espanhola, exemplifica a forma como personificou a fotografia humanística. Publicada na LIFE, em 1952, a reportagem mostrava a rotina de uma vila espanhola em meio à miséria durante a ditadura franquista. Em 1955, ingressou no time de veteranos da Magnum e seguiu desenvolvendo grandes ensaios – alguns realizados durante meses ou anos de profunda imersão.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

“A fotografia é uma pequena voz, na melhor das hipóteses, mas às vezes, apenas às vezes, uma fotografia ou um grupo delas pode atrair nossos sentidos à consciência. Muito depende do espectador. Em alguns, as fotografias podem convocar a emoção o suficiente para se tornarem um catalisador para o pensamento.”
W. Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.