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Posts from the ‘Narrativa Visual’ Category

2
ago

Exposição Uníssono apresenta trabalho fotográfico reflexivo de aluna da ESPM-Poa

Ana Claudia Gimenez

Ana Claudia Gimenez

Dos dias 10 a 31 de agosto de 2019, o mezanino do Espaço Cultural da ESPM Porto alegre receberá a exposição Uníssono – vibrando na mesma harmonia, da aluna de do curso de Publicidade e Propaganda e fotógrafa Ana Cláudia Gimenez. Este projeto da fotógrafa teve início em 2017, quando ela começou a explorar o despertar para a conflitante relação entre o homem e a natureza.

 A Ana fez parte da equipe Co.De foto entre os anos de 2017 e 2018. Aqui no Centro de Fotografia ela se desenvolveu em diversas áreas da fotografia, produzindo outros trabalhos autorais, além das coberturas de eventos e estúdios dos alunos da escola.

Sempre conectada com a natureza, o tema da exposição faz parte do universo pessoal da fotógrafa: “Hoje em dia, o homem se separa da natureza. Ele considera-se superior a ela e acredita cegamente que seus recursos são finitos e disponíveis de bom grado para satisfazer suas necessidades. Porém, o homem se esquece do simples e irônico fato de que, ao usufruir excessivamente da natureza, acaba destruindo o próprio ambiente do qual depende”, reflete.

Essa reflexão proposta pela Gimenez vem de encontro com um tema muito debatido no final do mês de julho, o esgotamento de recursos naturais. Segundo dados contabilizados pela organização internacional Global Footprint Network, no dia 29 de julho, o planeta Terra atingiu o ponto máximo de uso de recursos naturais que poderiam ser renovados.

Uníssono, segundo a fotógrafa, foi criado a fim de influenciar o processo de conscientização ambiental: “as fotografias aliam a estética de belas paisagens à uma mensagem crítica que reflete o reencontro destes dois agentes, homem e ambiente natural. O objeto em foco – o espelho posicionado em frente ao rosto do modelo – representa a construção de uma nova identidade, refletindo um novo cenário, no qual o homem está inserido em harmonia com a natureza à sua volta”. 

Foto: Ana Gimenez – Exposição Uníssono

Foto: Ana Gimenez – Exposição Uníssono

 A inauguração ocorrerá no dia 10 de agosto, das 10h às 15 horas, a entrada é franca e a exposição ficará aberta para visitação do público até o dia 31 de agosto, de segunda a sexta-feira, das 8 às 22 horas e, aos sábados, das 9 às 15 horas.

 

www.anagimenez.46graus.com

@anagimenezphoto

 

SOBRE A EXPOSIÇÃO:
Nome: “UNÍSSONO – Vibrando na mesma harmonia”
Artista: Ana Cláudia Gimenez
Local: Espaço Cultural da ESPM Porto Alegre (Rua Guilherme Schell, 268, Bairro Santo Antônio, Porto Alegre – RS)
Data: 10 a 31 de agosto de 2019
Horário: Segunda a sexta-feira das 8 às 22 horas e sábados das 9 às 15 horas

4
jan

A diversidade retratada por Rubén Plasencia

Retrato de Rúben Plascencia
Retrato de Rúben Plascencia
Foto: www.laopinion.es

Rúben Plasencia é um fotógrafo espanhol que retrata em suas fotografias temas relacionados a preconceitos, culturas desconhecidas e emoções. Seu talento é reconhecido mundialmente, tendo concorrido a prêmios como o Festival Le Voyage à Nantes, em Nantes e o Festival Circulation, em Paris, ambos em 2014. Apesar de hoje ser um artista de sucesso, reconhece que sempre há uma fase conturbada na carreira de todos os artistas, fase que ele retratou em sua série ‘’O Artista Desconhecido”, produzida no ano de 2015.

The Unknown Artist

The Unknown Artist

The Unknown Artist

The Unknown Artist

 

Nesta obra, Plasencia retrata, como o próprio nome diz, os artistas desconhecidos. Pode ser ser observado que Plasencia oculta os rostos dos artistas e justifica essa escolha na descrição do seu projeto em seu próprio site.

“Eles começam sem rosto, sem referências, apenas com suas próprias ferramentas para enfrentar um mundo tão complexo da arte. Com apenas a melhor carta que poderiam ter: sua obra de arte.”

Rúben Plasencia começou a obter reconhecimento por suas obras algum tempo depois do início de sua carreira, sempre retratando aspectos que não são muito debatidos pela sociedade. Por exemplo, em “Luta Canária”, Plasencia retrata os lutadores da Canarian Wrestling”, uma luta tradicional do Oriente que é bastante desconhecida no Ocidente. Com isso, foca em uma cultura diferente daquela a qual estamos habituados.

Lucha Canaria

Lucha Canaria

Seu debate visual sobre culturas diferentes e preconceito atinge o ápice na obra Obscure, produzida em 2013. Nesta obra, pessoas cegas são fotografadas com intuito de debater sobre a “verdadeira essência do ser”.  A série fotográfica de Plasencia entra no assunto de preconceito, padrões de beleza e doenças genéticas, abrangendo assim uma série de assuntos polêmicos que não costumam ser debatidos pelas sociedades.

O site Lens Culture, traz um artigo escrito por Plasencia, no qual o fotógrafo explica suas fotografias, contando o que pensou ao realizá-las e o que quer transmitir com elas:

“Preconceitos e estereótipos racistas continuam a dominar nossas sociedades – julgamentos que são feitos em um nível que é apenas superficial. Em “Obscure”, criei retratos dos cegos. Esses rostos criam uma zombaria de nossa dependência irrefletida da visão. Um cego procura formas mais confiáveis de ler nas entrelinhas e entender as essências, não sendo mais capaz de recorrer à visão como o único meio confiável.”

Para o fotógrafo a importância do projeto está em nos colocar de frente aos olhos daqueles que não podem ver e que através disto possamos valorizar o que significa ter a visão.


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Obscure

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Obscure

Ainda longe de encerrar a carreira, Rúben Plasencia crava sua importância no mundo fotográfico e social, ao retratar em suas obras temas tão profundos e pouco debatidos.

Hub ESPM
11
abr

Mobstr: intervenção provocativa, registrada em fotografia


 

Diferentemente do mais habitual em grafites e pichações, as intervenções urbanas de Mobstr são fundadas no registro fotográfico de frases inscritas em muros de Londres. Pouco se sabe sobre o autor, devido à ilegalidade de seus atos. O que se vê é uma forma provocativa e polêmica de diálogo com o seu entorno. A série que vemos a seguir foi realizada ao longo de um ano, entre 2014 e 2015, e parte de uma observação: pichações sobre uma área determinada de um muro – a parte pintada de vermelho – eram apagadas por tinta vermelha, enquanto em outras áreas os riscos eram apagados com jatos d’água de alta pressão. Daí nasceu um curioso diálogo com o responsável pela manutenção do muro, cuja narrativa só existe graças às fotografias do local.



7
abr

A etnografia do insignificante de Manuel Franquelo

 

 

Uma investigação sobre o banal, o acúmulo, os cantos, os resíduos. A série Things in a Room: An Ethnography of the Insignificant [Coisas numa sala: uma etnografia do insignificante], do fotógrafo espanhol Manuel Franquelo, dedica atenção a seu estúdio, repleto de objetos acumulados ao longo dos últimos 30 anos.

 

 

 

 

Tempo, memória, inconsciente. Uma das principais influências do trabalho é o conceito de infra-ordinário do escritor francês Georges Perec, que se refere a tudo aquilo que de tão corriqueiro passa totalmente despercebido no dia a dia. A partir de reflexão semelhante, desde 2012 Franquelo fotografa seu estúdio, realizando mais tarde impressões de grandes dimensões. A série ganhou destaque nos últimos meses, sendo exposta na Michael Hoppen Gallery, em Londres.

 

 

 

 

Indo na contramão do instante decisivo, o fotógrafo diz que busca produzir imagens atemporais, numa espécie de inventário do banal. Além da sua atuação com fotografia e pintura, Franquelo tem em seu currículo a construção da impressora 3D Lucida, que imprime obras de arte com uma riqueza de detalhes que alcança os décimos de milímetro, segundo reportagem do jornal espanhol El País. Outra faceta do fotógrafo em sua relação e obsessão com as representações do real.

 

 

 

 

 

Nascido em Málaga, Espanha, em 1953, Manuel Franquelo ingressou no curso de engenharia de telecomunicações no início de sua vida adulta, mas depois de quatro anos foi estudar artes na Academia de Bellas Artes de San Fernando. Unindo conhecimentos e técnicas dessas formações, Franquelo desenvolve séries fotográficas hiper-reais e aperfeiçoa sua impressora 3D.

 

14
mar

Dawn Wooley: A substituta

 

 

O ensaio The Substitute [A substituta], da fotógrafa britânica Dawn Wooley, abre-se a diversas reflexões a partir de um procedimento bastante simples: ela encena situações em que se veem homens simulando momentos de intimidade com uma imagem bidimensional da fotógrafa, em tamanho real. As cenas são construídas de forma meticulosa, com ângulos cuidadosamente escolhidos. Em algumas das imagens, só um olhar mais atento percebe a “substituição”.

 

 

 

 

A imagem impressa colocada em cena articula algumas dimensões da série – a começar por questões em torno da imagem da mulher e suas representações. Wooley questiona a objetificação da figura feminina tornando-se ela própria tanto um objeto quanto dona de um olhar voyeurístico em direção às cenas, o que acaba se tornando uma forma bastante peculiar de autorretrato.

 

 

 

 

Além da reflexão sobre relações de poder, Wooley acaba também abordando aspectos mais amplos da fotografia. Afinal, assim como em suas imagens, a fotografia, de modo geral, explora os limites de sua bidimensionalidade, jogando com seu potencial de ilusão tridimensional. A série, portanto, acaba sobrepondo camadas de elementos que permitem pensar das questões de gênero à construção do real pela linguagem fotográfica.

 

 

 

 

Ao concluir o Ensino Médio, em 2001, Dawn Wooley passou a explorar sua criatividade realizando vídeos, performances, fotografias e instalações. Desde então também integra diversas exposições individuais e coletivas. Em 2008, concluiu estudos em fotografia no Royal College of Art. Atualmente vive e trabalha em Cambridge, na Inglaterra.

 

9
mar

O amor que deixamos pra trás, de Cody Bratt

 

 

Paisagens e retratos se intercalam na série Love We Leave Behind [ O amor que deixamos pra trás], do fotógrafo norte-americano Cody Bratt. Ele percorreu estradas dos estados da Califórnia e de Nevada, registrando espaços marcados por certo clima de desolação. Às imagens desses percursos, somou fotografias que produziu com modelos em ambientes da região.

 

 

 

 

“Quis lançar duas questões: ao passo que construímos espaços no território e cruzamos por eles, que tipos de marcas nossas vidas interiores deixam pra trás? Além disso, à medida que esses lugares envelhecem e desaparecem, aqueles resíduos emocionais persistem de alguma maneira perceptível?”, pergunta-se o fotógrafo.

 

 

 

 

O resultado é um ensaio que remete a grandes nomes da história da fotografia dos Estados Unidos – como William Eggleston, em suas fotos de postos de gasolina – que desbravaram o oeste do país. A série traz um forte componente ficcional com a inclusão dos retratos, compondo uma narrativa fragmentada que sugere uma viagem pelos desertos próximos ao Pacífico. Assim, Bratt não só constrói um imaginário da região, como abre espaço para o espectador criar seus próprios significados para as imagens.

 

 

 

 

Vivendo em São Francisco (Califórnia, EUA), Cody Bratt dedica-se a ensaios que têm paisagens e retratos como temáticas centrais. Suas séries são obtidas com diferentes suportes, utilizando câmeras digitais, analógicas e instantâneas. Desde 2009, participa de diversas exposições coletivas, tendo também publicado livros e reportagens.

 

 

 

 

7
mar

Aaron Blum: nascido e criado em Appalachia

 

 

Um olhar desde dentro para um lugar visto e conhecido de fora por muitos norte-americanos. A paisagem que rodeia a cidade de Appalachia no estado de West Virginia é o cenário do ensaio Born and Raised [Nascido e criado], do fotógrafo norte-americano Aaron Blum. Suas imagens mostram um entorno cotidiano que mescla sensações de contemplação e estranhamento.

 

 

 

 

“A luz desempenha um papel importante em como entendo esse lugar. O sol cria um brilho que cobre as montanhas, rios e florestas, criando sombras compridas, áreas escuras e névoas cinzas que perpassam a paisagem. Essa qualidade única é inerente às montanhas e catalisa a imaginação – um pano de fundo que se torna estranho e magnífico”, conta o fotógrafo.

 

 

 

 

Blum busca encontrar um olhar particular a partir de sua conexão com o local. No entanto, ressalta que mesmo essa visão é permeada pelo imaginário idealizado que se tem da região. Nesse caldo de imagens coletivas e pessoais, ele procura dar peso às suas experiências nos recantos da cidade.

 

 

 

 

Depois de graduar-se em fotografia pela West Virginia e pela Syracuse University, Aaron Blum teve seu trabalho reconhecido desde cedo em diversos festivais e concursos nos Estados Unidos. Já teve suas imagens apresentadas em canais de televisão como CNN e BBC e faz parte das coleções permanentes do Haggerty Museum of Art e do Houston Museum of Fine Art.

 

 

 

3
mar

Alain Laboile: celebrando os mistérios da infância

 

 

“Dia após dia, fui criando um álbum familiar que constitui um legado que transmitirei a meus filhos. Meu trabalho gira em torno da infância deles e reflete nosso estilo de vida.” A humildade marca a reflexão do francês Alain Laboile a respeito de sua produção fotográfica. Suas imagens, no entanto, vão muito além de um mero registro do crescimento de seus filhos.

 

 

 

 

 

“Embora meu trabalho seja extremamente pessoal, é também acessível, abordando a natureza humana e permitindo ao espectador entrar em meu mundo e refletir a respeito de sua própria infância”, descreve o fotógrafo. O caráter universal da série ganha força com a escolha do preto e branco e dos rostos por vezes ocultos de seus personagens.

 

 

 

 

 

As fotografias buscam captar certa aura de mistério da infância. No lugar de um imaginário de pureza, muito comum em ensaios com essa temática, encontramos instantes das crianças que sugerem descobertas, medos, encantamentos e um tanto de solidão. Ângulos inusitados reforçam essa atmosfera, remetendo a um tempo subjetivo em que tudo ainda é bastante novo, curioso, desafiador.

 

 

 

 

 

Nascido em 1968, em Bordeaux, na França, Alain Laboile é fotógrafo e pai de seis filhos. Dedicava-se à escultura até adquirir uma câmera, em 2004, para fotografar sua produção escultórica, o que desencadeou sua guinada em direção à linguagem fotográfica. Desde então, participa de exposições em diversos países, tendo também publicado livros de fotografia.

 

 

 

 

 

21
fev

Ina Schoenenburg: um mergulho no entorno familiar

 

 

Ao longo de cinco anos, a fotógrafa alemã Ina Schoenenburg dedicou-se a fotografar as pessoas de seu entorno familiar mais próximo – suas relações com a filha e com seus pais. As imagens, no entanto, escapam de uma descrição de sua rotina diária. Ina busca uma abordagem que de alguma maneira dê conta da subjetividade presente no seu olhar, que possa trazer à tona algo de mais íntimo dessa convivência.

 

 

 

 

 

“Uma história que nos fala de ser e se tornar adulto; sobre proximidade e distância em nossa família; sobre as aspirações, ansiedades enterradas, tensões não ditas – e claro, sobre o estranho e único amor que os pais sentem pelos filhos e vice-versa”, conta a fotógrafa. São esses aspectos dificilmente representáveis que orientam o ensaio.

 

 

 

 

 

Em meio ao desenvolvimento da série, a memória e a reflexão sobre raízes familiares ganha um papel central. “A família está profundamente arraigada dentro de nós, por vezes, mais do que gostaríamos. Na companhia de familiares você recorda de onde veio e relembra os dias tranquilos da infância. Mas você também pode se lembrar de conflitos e da falta de entendimento”, conta Ina.

 

 

 

 

 

Nascida em 1979, em Berlim, onde vive e trabalha, Schoenenburg tem formações em arquitetura e fotografia, realizadas ao longo dos anos 2000. Desde 2013, participa de exposições individuais e coletivas com seu trabalho, que explora um envolvimento íntimo com quem é retratado, além de um interesse pelas paisagens rurais da Alemanha.

 

 

 

 

 

31
jan

Sonja Hamad: mulheres curdas em luta por reconhecimento

 

 

Uma luta que vai muito além do contexto geopolítico. No Curdistão Sírio – região localizada no norte da Síria, também conhecida como Curdistão Ocidental –, mulheres lutam contra as incursões do Estado Islâmico e pela igualdade de gênero. A realidade das Unidades de Proteção Feminina da região é apresentada no ensaio Jin – Jiyan – Azadi [Mulheres – Vida – Liberdade], da fotógrafa síria Sonja Hamad.

 

 

 

 

Uma das combatentes, Tiyda, de 30 anos – uma das mais velhas retratadas, em um grupo composto por jovens nos seus 20 e poucos anos –, dá o tom dos ideais que movem a guerrilha: “Devemos liderar a luta por liberdade política e social, tornando central essa batalha. Devemos democratizar todas as áreas da vida. Essa é a tarefa de todo revolucionário. É, ao mesmo tempo, a tarefa de todos os seres humanos conscientes”.

 

 

 

 

Ou seja, além de uma luta pela independência de um território – um país de facto que exige autonomia –, trata-se de uma batalha pelo reconhecimento de mulheres que recusam o papel tradicionalmente aceito na região. O discurso das combatentes, bem como o ensaio de Hamad, eleva o combate no Curdistão Sírio a um patamar universal de resistência e luta por direitos.

 

 

 

 

Nascida em Damasco, capital da Síria, em 1986, Sonja Hamad é filha de pais iazidis, uma comunidade étnico-religiosa curda. A partir dos três anos de idade, passou a viver com a família na Alemanha. Mais tarde, em Berlim, estudou fotografia na Ostkreuzschule, com um trabalho em torno de retratos. Hamad vive e trabalha na capital alemã, onde atua como fotógrafa freelance.

 

 

 

20
jan

Katrina Kepule: um olhar para a Europa periférica

 

 

Sente silenciosamente. O título da série da fotógrafa Katrina Kepule é um convite para observar o cotidiano com olhos atentos. Ou como escreveu Kafka, citado no texto que acompanha o ensaio: “Você não precisa sair da sala. Permaneça sentado à mesa e escute. Nem mesmo ouça, apenas espere, fique quieto, parado e solitário. O mundo se abrirá para que você o desmascare. Ele não tem escolha, vai rolar em êxtase aos seus pés”.

 

 

 

 

No caso de Kepule, essa abertura para o mundo se dá nas imediações de Riga, capital da Letônia, sua cidade natal. As imagens sugerem a experiência de um outro tempo, desacelerado e aberto para a auto-expressão. Uma forma de estar no mundo que fica à margem – geográfica e emocionalmente – dos grandes centros urbanos.

 

 

 

 

A fotógrafa busca também retratar espaços em que a Europa contemporânea se encontra com diferentes camadas do passado. Essas sobreposições aparecem em diversos locais: dentro de casas, na rua, em retratos e fotos que mostram instantes banais. Ao mostrar a periferia de sua cidade, Kepule reflete também sobre a posição dos países do leste em relação à Europa ocidental.

 

 

 

 

 

Formada em cultura audiovisual pela Academia de Cultura da Letônia, Katrina Kepule mais tarde aprofundou seus conhecimentos fotografia contemporânea na escola EFTI, em Madri. Desde 2007 participa de exposições coletivas e desenvolve projetos pessoais em paralelo aos estudos.

 

 

17
jan

Janne Körkkö: cenas de Serra Leoa pós-Ebola

 

 

O ensaio Money State Community do fotógrafo finlandês Janne Körkkö mostra o dia a dia de um lixão em Freetown, capital de Serra Leoa. O local revela consequências não só da pobreza como também da recente epidemia de Ebola no país.

 

 

 

 

Ao longo de um mês, Körkkö conviveu com os frequentadores e habitantes do local – muitos deles, moradores de rua e ex-combatentes infantis em conflitos da região. O trabalho é repleto de perigos devido ao contato com o lixo e também pelos crimes que acontecem no local.

 

 

 

 

A vida de muitas dessas pessoas se dá a maior parte do tempo no lixão, sendo normal os encontros para consumo de drogas à noite – momentos de uma “folga” em um lugar absurdo para se viver. A rotina dos habitantes do lixão ainda tem outro componente sórdido: cadáveres são levados ao local por famílias que não têm condições de pagar um enterro. Tudo isso somado ao temor de novas contaminações pelo Ebola.

 

 

 

 

Além de fotógrafo, Janne Körkkö também produz vídeos documentais. Seus trabalhos focam principalmente em questões de vulnerabilidade social.

10
jan

A sopa de resíduos plásticos de Mandy Barker

 

 

A “sopa” a que se refere a série Hong Kong Soup: 1826, da fotógrafa britânica Mandy Barker, diz respeito a uma expressão em chinês para uma realidade catastrófica: a imensa quantidade de resíduos plásticos à deriva nos mares. Essa é a matéria-prima de seu trabalho, que retrata materiais coletados em mais de 30 praias de Hong Kong desde 2012.

 

 

 

 

As imagens remetem ao cotidiano e também a tradições, eventos, à natureza e à cultura de Hong Kong a partir dos objetos e fragmentos coletados: brinquedos, seringas, restos oriundos de festas populares, entre outros, organizados cuidadosamente em cada fotografia. Nesse sentido, algumas camadas de significado são melhor interpretadas por quem domina os códigos e os circuitos referentes a cada conjunto de objetos.

 

 

 

 

Na visão da fotógrafa, a série apresenta “uma contradição entre a atração estética inicial e a tomada de consciência de responsabilidade social”. De fato, à primeira vista as fotos beiram a abstração, por vezes fazendo lembrar constelações espaciais. Aos poucos, no entanto, vamos nos dando conta do trabalho meticuloso da fotógrafa em sua reflexão sobre nossas lógicas de consumo e sobre nosso futuro enquanto espécie.

 

 

 

 

Nascida no Reino Unido, Mandy Barker fez mestrado em fotografia na De Montfort University, na Inglaterra. A série que apresentamos no post de hoje foi publicada em mais de 25 países, em periódicos como as revistas TIME e National Geographic, rendendo à fotógrafa inúmeros convites para eventos e exposições relacionados a questões do clima.

 

 

15
dez

Jessica Eve Rattner: a inteligência e vulnerabilidade de Lee

 

 

A fotógrafa norte-americana Jessica Eve Rattner conheceu por acaso a senhora Lee, protagonista do ensaio House of Charm. Em 2003, elas se tornaram vizinhas. Lee, uma senhora nos seus 80 anos, chamava atenção no bairro, sempre empurrando um carrinho de supermercado com latinhas que coletava para reciclar. Aos poucos, Rattner descobriu uma pessoa com uma inteligência que poucos ao redor percebiam.

 

 

 

“Me fascinam as construções culturais da saúde mental. Quem decide se Lee (ou qualquer um de nós) é louco ou não? E se ela o for, deveria ser forçada a sair de casa? Alguém deveria diagnosticá-la, dar-lhe remédios?”, questiona a fotógrafa.

 

 

 

A casa de Lee não tem calefação nem água potável, e ela é obrigada a fazer suas necessidades no banheiro de uma loja próxima. Alguns vizinhos reagem ao estado da residência e à sua situação de vulnerabilidade com preocupação em relação a possível desvalorização dos imóveis da região.

 

 

 

“O que mais me impressiona é sua felicidade. Lee não reclama de nada. Ela se diz contente, tanto com ela própria quanto com sua vida – um estado invejável para muitos de nós”, relata a fotógrafa. Rattner, no entanto, diz não romantizar essa situação, e sim suspeitar se, em algum momento de uma vida tão difícil, Lee não desvendou algum segredo as pessoas, de modo geral, parecem não encontrar tão facilmente.

 

 

 

Jessica Eve Rattner, vive em Berkeley, na Califórnia, e é formada em Serviço Social, e trabalhou nessa área até focar sua dedicação na fotografia, quando completou 40 anos. Desde 2010 participa de diversas exposições coletivas e individuais, tendo fotos suas publicadas em dezenas de publicações especializadas, bem como na coleção do Museum of Fine Arts de Houston.

 

 

6
dez

Stacey Baker e as pernas de Nova York

 

 

Em seu tempo livre, a fotógrafa Stacey Baker, integrante do time de editores de fotografia da The New York Times Magazine, passou a fazer uma tipologia que apresenta Nova York e seus habitantes de forma bastante peculiar. Com seu iPhone, ela começou a fotografar as pernas de mulheres que encontrava em seus percursos pela cidade.

 

 

 

 

“Sempre prestei atenção nas pernas de outras mulheres pois sempre quis que as minhas fossem maiores. Vivendo em Nova York, uma cidade onde se caminha muito, você percebe os corpos de outras pessoas”, conta a fotógrafa em entrevista à revista Time. “Eu via as pernas de alguém e pensava: ‘Gostaria de ter aquelas pernas’. Comecei então a fazer fotos e a pensar se aquilo era ou não interessante. Acho que não era até eu ter a ideia de encontrar muros e pedir a alguém para se colocar em frente”, explica.

 

 

 

 

Publicadas em sua conta no Instagram (@stace_a_lace), as fotos foram aos poucos atraindo mais e mais seguidores, totalizando atualmente mais de 78 mil pessoas. O projeto ganhou formato de livro, intitulado NY Legs, que reúne 93 imagens de um total de mais de mil fotos obtidas por Baker desde 2013.

 

 

 

 

O alcance do trabalho indica sua potência como tipologia de diferentes aspectos, que vão dos corpos às estampas, passando pela escolha dos calçados e pela combinação entre as peças. Como o próprio nome da publicação deixa evidente, as imagens das pernas, além de trazerem elementos individuais de cada pessoa fotografada, são de certa forma as próprias pernas de Nova York – como os membros de um ser humano, também fundamentais para a cidade ser o que é.

 

 

 

29
nov

A Islândia onírica de Agnieszka Sosnowska

 

 

Deslocamentos marcam a vida da fotógrafa Agnieszka Sosnowska. Nascida na Polônia, mudou-se aos três anos para os Estados Unidos. Décadas mais tarde, casou-se com um islandês, com quem se mudou para uma região rural do país de origem do marido. Em meio à diversidade das paisagens locais, Sosnowska encontrou na fotografia uma aliada para se relacionar com as particularidades culturais e climáticas de sua nova residência.

 

 

 

 

 

As imagens de Sosnowska são variadas: vão dos autorretratos a fotografias de familiares e outras pessoas de seu convívio, sempre com um forte caráter pictórico. A fotógrafa constrói uma narrativa repleta de referências às mitologias locais e à história da arte. Em relação a seus autorretratos, Sosnowska comenta: “Frequentemente, nossas experiências requerem uma linguagem universal para serem comunicadas. A minha é a terra. Esses autorretratos começaram 17 anos atrás e seguem aumentando. São silhuetas públicas que expressam histórias privadas de relacionamentos, segredos e memórias.”

 

 

 

 

 

Sosnowska também retrata o cotidiano da região, especialmente atividades relacionadas à caça e à agricultura, mas a atmosfera onírica se mantém nas fotografias. “Muitos anos atrás aprendi que uma fotografia pode contar histórias sem responder questões – são as questões que motivam minhas histórias. De certa forma, convido o espectador a completar minhas sentenças”, reflete.

 

 

 

 

 

Agnieszka Sosnowska estudou fotografia na Massachusetts College of Art, nos Estados Unidos e possui mestrado pela Universidade de Boston. Já realizou diversas exposições individuais e coletivas nos Estados Unidos, na Islândia e na Polônia.

 

 

 

25
nov

Memórias e paisagens nas calçadas de Porto Alegre, de Vera Carlotto

 

 

“Para mim, muitas vezes, caminhar olhando para baixo é um ato de reflexão. Nesse caminhar me deparei com desenhos sob meus pés. Sempre digo que a pedra me escolheu, e eu pude ver os grafismos contidos nela.” Assim a fotógrafa Vera Carlotto descreve a gênese do projeto que deu origem à exposição Calçadas – Pedras, memórias e pulsações, em cartaz nas Salas Negras do MARGS até 15 de janeiro.

 

 

 

 

 

A mostra apresenta 27 imagens que revelam grafismos – “camadas de rastros, respirações, pulsações, memórias, cores, linhas e formas”, nas palavras da fotógrafa – encontrados em superfícies de pedra basáltica das calçadas de Porto Alegre. Fora do MARGS, as fotografias que compõem a série também foram instaladas em calçadas da Praça Germânia, do Instituto Ling e do bairro Petrópolis (nas ruas Cel. Corte Real, Dario Pederneiras e Professor Langendonck).

 

 

 

 

 

Ao longo de cinco anos, percorrendo em torno de cinquenta ruas da cidade, foram capturadas mais de três mil imagens. “Os desenhos na superfície são fósseis, frutos da penetração de elementos da natureza na rocha, da riqueza de minerais que ela possui, da forma de extração e da exposição a intemperes”, descreve. As fotografias se dividem em três eixos: Natureza – remetendo a trabalhos de artistas chineses de diferentes séculos –, Rupestres – fazendo alusão a desenhos pré-históricas – e Curvas – linhas e fragmentos com inspiração na obra da artista Tomie Othake.

 

 

 

 

 

A fotógrafa destaca o desenvolvimento dos primeiros passos do trabalho durante o Curso Anual de Fotografia da ESPM-Sul. “A discussão com colegas e professores foi muito rica e impulsionou meu projeto. A partir daí passei a buscar mais imagens nas calçadas”, relembra Vera. Entre outros momentos, ela destaca a sugestão dos professores para explorar arquivos de imagens antigas que havia produzido, bem como as inúmeras sugestões de referências e abordagens. Nascida em 1962, em Porto Alegre, Vera Carlotto é formada pelo Curso Anual de Fotografia da ESPM-Sul (2014). Nos anos 1990, viveu em Londres, dedicando-se à escultura e a estudos na Richmond Adult & Community College. Já realizou exposições como Portonírico (2012), na sala J.B. Scalco do Solar dos Câmara, e Mosaicografia (2016), no largo Glênio Peres, ambas na capital gaúcha, entre outras mostras.

 

Calçadas – Pedras, memórias e pulsações, de Vera Carlotto
Salas Negras do MARGS – Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Praça da Alfândega, s/n° – Centro Histórico de Porto Alegre)
Até 15 de janeiro, sempre de terça-feira a domingo, das 10h às 19h

 

22
nov

Joakim Eskildsen: novos lares, novas perspectivas (parte II)

 

 

Em nosso segundo post sobre o trabalho Home Works do dinamarquês Joakim Eskildsen, trazemos mais alguns detalhes do processo de trabalho do fotógrafo, que narra em imagens as mudanças de sua família entre seis residências de três países: Finlândia, Dinamarca e Alemanha. Se no primeiro post comentamos o papel de seus filhos como personagens da série, hoje apresentamos um olhar mais dedicado às paisagens dos locais por onde Eskildsen andou com sua trupe.

 

 

 

 

Nessas imagens, percebe-se que os “temas de casa” do título, as tarefas em torno da busca de um lar, também dizem respeito a escolher as paisagens que desejamos para o nosso dia a dia. Como se o lado de fora da casa fizesse parte – e de modo fundamental – dos interiores que habitamos. E de fato, ao longo de toda a série nos deparamos com mais imagens de exteriores do que propriamente das arquiteturas que abrigaram a família de Eskildsen durante os deslocamentos.

 

 

 

 

A publicação da série em livro condicionou o todo o processo, como relata o fotógrafo à revista Time: “Uma das principais coisas que aprendi foi que, quando temos muitas imagens boas, ainda estamos com o trabalho pela metade”. Ou seja, a edição é parte determinante e possui um grande peso dentro do desenvolvimento de seus projetos. Um cuidado minucioso que se nota na narrativa criada pelas imagens, mesmo deslocadas do suporte físico.

 

 

 

 

18
nov

“Tias”, de Nadia Sablin

 

 

O universo familiar é a matéria-prima do ensaio Aunties [Tias] da fotógrafa russa Nadia Sabin. Suas imagens, obtidas ao longo de sete anos, mostram a rotina de Alevtina e Ludmila, suas tias, nos meses mais quentes do ano, quando viajam à região noroeste da Rússia para veraneios no vilarejo de Alekhovshchina.

 

 

 

 

As imagens se revelam um comentário sobre vínculos familiares – das irmãs Alevtina e Ludmila e delas com a sobrinha. De forma bastante objetiva, dispensando recursos mais complexos, Nadia apresenta instantes desse cotidiano e abre espaço para o espectador imaginar o passar dos dias em um contexto desacelerado, de reconexão da fotógrafa com suas origens.

 

 

 

 

O dia a dia da dupla consiste em atividades domésticas – manutenção da casa, colheita de frutas, passatempos – por vezes encenadas pela fotógrafa, que resgata memórias da infância para pensar a composição de algumas das imagens. De certa forma, é como se Nadia buscasse garantir a permanência desse mundo em suas fotografias.

 

 

 

 

Há portanto um registro de caráter mais biográfico da vida das duas senhoras, como também um trabalho de colocar a própria vida de Nadia no cerne do ensaio. Mais do que isso, as memórias das personagens e da fotógrafa adquirem protagonismo com as imprecisões e invenções que fazem parte do trabalho de recordar o passado.

 

 

 

 

Nascida na Rússia, vivendo atualmente em Nova York, Nadia Sablin realizou seus estudos universitários nos Estados Unidos e já recebeu diversas distinções por sua produção fotográfica. Realizou exposições coletivas e individuais em importantes instituições norte-americanas como o Philadelphia Museum of Art. A série Aunties foi publicada em livro pela editora Duke University Press.

 

 

15
nov

A casa de Reynaldo, por Eduardo García

 

 

Um velho teatro que se torna uma casa com ares de palácio decadente. Nela vive Reynaldo Loti Perez, protagonista da série Home, do fotógrafo cubano Eduardo García. Suas imagens em preto e branco, de forte carga poética, mostram a rotina de um homem de poucos recursos materiais num local público que transformou em seu lar.

 

 

 

 

O interesse do fotógrafo parece ser menos o de documentar um exemplo dos problemas de moradia em Cuba, e sim retratar um personagem bastante singular que se apropriou de parte do teatro Campoamor, em Havana. García relata que Reynaldo mudou-se para a capital cubana no final dos anos 80, oriundo da província de Granna.

 

 

 

 

Com a morte de seu avô, Reynaldo ficou sem casa e acabou encontrando o teatro enquanto buscava emprego. Passou a trabalhar no local e a morar em um dos três camarins do Campoamor. Vive lá desde então, enfrentando as condições precárias da construção.

 

 

 

 

As imagens da série abrem espaço para a imaginação do espectador sobre a história de vida e a rotina de Reynaldo. De certa forma, as fotografias também servem de metáfora para a realidade de Cuba – um tempo em suspensão, alguma nostalgia e poucas perspectivas de mudança. Além disso, com o uso do preto e branco a tornar tudo mais homogêneo, é como se a construção e corpo de Reynaldo fossem feitos da mesma matéria que se desgasta, mas que resiste à passagem do tempo.

 

 

 

 

Nascido em 1978 em Havana, Eduardo García vive na capital cubana e colabora com um curso de fotografia do Novo México, nos EUA, desde 2011. Estudou no Instituto Enrique José Varona e na Academia de Arte Antonio Díaz Peláez. Desenvolveu inicialmente trabalhos em torno do audiovisual e de instalações, dedicando-se à fotografia urbana a partir de 2009. Algumas de suas fotografias fazem parte de coleções privadas de países europeus e das Américas.

 

8
nov

Joakim Eskildsen: novos lares, novas perspectivas

 

 

Lares, mudanças, novas perspectivas. A série Home Works [Temas de casa], do fotógrafo dinamarquês Joakim Eskildsen, é um trabalho iniciado em 2005, que consiste em fotografar o percurso realizado por Eskildsen e sua família em busca de uma nova casa, uma trajetória que os levou a seis residências na Finlândia, Dinamarca e Alemanha.

 

 

 

 

As imagens do ensaio revelam o protagonismo das crianças ao longo dos deslocamentos – como se, de certa forma, elas fossem as principais exploradoras dos novos territórios. Por meio delas, também podemos perceber a dedicação de longo prazo do trabalho, já que acompanhamos o crescimento dos filhos de Eskildsen.

 

 

 

 

“Comecei a fotografar quando tinha 14 anos, agora tenho 41. No início, fotografava em volta da casa, os campos e a floresta. Desde então, havia sempre alguma luz ou condição climática que me inspirava e me motivava a sair. Mudei-me do meu vilarejo e comecei a fotografar em diferentes jornadas”, relembra o fotógrafo.

 

 

 

 

O caráter pictórico das fotografias se sobressai, revelando justamente esse olhar que Eskildsen descreve como sendo o do início de sua carreira. Mais do que retratos ou algo que se identifique como “fotos de viagem”, vemos atmosferas cuidadosamente compostas pelo fotógrafo. Pequenos universos que se apresentam em cada imagem do ensaio a partir da atenção dispensada às crianças e suas relações com os entornos.

 

 

 

 

Nascido em Copenhague, em 1971, Joakim Eskildsen vive e trabalha atualmente em Berlim. O fotógrafo desenvolveu seus conhecimentos inicialmente como aprendiz de um fotógrafo da corte real da Dinamarca, realizando mais tarde mestrado na Universidade de Arte e Design de Helsinki, na Finlândia. Eskildsen já participou de diversas exposições internacionais e desenvolve também projetos editoriais relacionados à fotografia.

 

 

 

4
nov

O cotidiano surpreendente de Tomasz Kulbowski

 

 

Apaixonado pela fotografia de rua, o polonês Tomasz Kulbowski explora o cotidiano em busca de instantes que nos mostram a riqueza de situações da vida nas cidades. Por vezes pego de surpresa, em outras à espreita de alguma cena inusitada, Kulbowski compõe uma constelação de imagens que dão a ver as relações das pessoas com o espaço.

 

 

 

 

Nas fotos de Kulbowski, o mobiliário urbano por vezes é um dos protagonistas, contribuindo para o humor presente em certas cenas. Há momentos em que não se sabe ao certo em que medida houve alguma interferência do fotógrafo. De qualquer forma, Kulbowski parece se interessar por tudo que é mínimo no cotidiano e que passa despercebido para a maioria das pessoas.

 

 

 

 

Nota-se também o papel da composição para que as imagens se tornem potentes. Mais do que situações peculiares por si só, o que valoriza os planos é o olhar cuidadoso do fotógrafo, que escolhe os elementos que entram em cena e se relacionam uns com os outros. Em algumas das fotografias, é como se Kulbowski, antes de fotografar, apenas se afastasse alguns passos – deslocamentos simples que ressignificam momentos ordinários.

 

 

 

 

Nascido em 1975, Tomasz Kulbowski mora atualmente em Lublin, na Polônia, após ter vivido em Londres e Sydney. Possui mestrado em  Cultura e Psicologia pela Universidade Marie Curie Sklodowska, de Lublin, e é um dos diretores de Eastreet, exposição e publicação que divulga o trabalho de fotógrafos dedicados a fotografia urbana no leste europeu.

 

 

1
nov

Helge Skodvin: bestas em movimento

 

 

Uma situação inusitada possibilitou ao fotógrafo norueguês Helge Skodvin realizar um ensaio surpreendente. Durante o desenvolvimento de um projeto no Museu de História Natural de Bergen (Noruega), o fotógrafo ficou sabendo que a instituição seria fechada por um período de cinco anos. Para tanto, os animais empalhados que lá se encontravam precisariam ser trasladados, em 2013, para outra parte da cidade.

 

 

 

 

É então que nasce o projeto A Moveable Beast [Uma besta em movimento], com imagens de bastidores desse deslocamento, sempre com muito bom humor, a partir de um olhar do fotógrafo para instantes aparentemente desimportantes. Um dado que acrescenta uma camada de significado à série é que muitos dos animais empalhados permaneceram em torno de 150 anos em seus habitats simulados, acumulando desgastes e se tornando peças frágeis. O ensaio retrata a primeira saída desses animais depois de décadas ou inclusive mais de um século de clausura.

 

 

 

 

Urso polar, zebra, rinoceronte branco… As imagens provocam um estranhamento muito particular graças aos enquadramentos realizados pelo fotógrafo, que conferem certo ar de absurdo aos cenários escolhidos. De certa forma, é como se também os animais devolvessem os olhares que lhes dirigimos.

 

 

 

 

Nascido em Bergen (Noruega), Helge Skodvin trabalha para revistas, jornais e agências de publicidade. O fotógrafo já recebeu inúmeros reconhecimentos em seu país e teve uma exposição individual da série A Moveable Beast no Museu de História Natural de Bergen, em 2015.

 

 

 

25
out

Hajdu Tamás: humor e absurdo numa cidade romena

 

 

Imerso no cotidiano da cidade de Baia Mare, no noroeste da Romênia, onde vive, Hajdu Tamás elenca uma série de instantes em que se percebe seu olhar atento ao ordinário e ao inusitado das ruas. Suas imagens explicam pouco de seus contextos – o espectador é brindado apenas com pistas de cada situação retratada pelo fotógrafo.

 

 

 

 

Um humor sutil perpassa as imagens, muitas delas tendo animais como protagonistas – o que remete a um dado biográfico: Tamás é veterinário há mais de dez anos. Há, no entanto, menos um interesse pela vida animal em Baia Mare e mais uma atenção ao absurdo de certas cenas, que por vezes trazem também algo de cinematográfico em suas luzes e composições.

 

 

 

 

Em entrevista ao jornal britânico The Independent, Tamás destaca o contexto de contradições da vida romena como elemento que favorece seu trabalho – tudo aquilo que diz respeito aos tempos e ruínas que se sobrepõem da época do comunismo e dos anos que se seguiram. Nesse sentido, o periférico contemplado por Tamás parece falar também do lugar ocupado pela Romênia no mundo ocidental – o retrato de um país e sua história de transformações.

 

 

 

 

Nascido em Simleu Silvaniei, na Transilvânia (Romênia), em 1976, Hajdu Tamás atua como veterinário e fotógrafo na cidade de Baia Mare, onde desenvolve a maior parte de sua produção. Nos últimos anos, tem participado de feiras e concursos fotográficos, além de ter seu trabalho publicado em diversas revistas europeias.

 

 

 

18
out

As tribos fashion de Daniele Tamagni

 

 

O que une metaleiros de Botsuana, beldades gordas e magras de Dakar e punks de Mianmar? Esta parece ser a busca do fotógrafo italiano Daniele Tamagni no ensaio Fashion Tribes [Tribos fashion], que reúne fotografias de séries suas concebidas em diversos países. Tamagni retrata estilos de vida dissonantes dos padrões hegemônicos e suas expressões através da moda.

 

 

 

 

Há muito o que se explorar em cada contexto onde Tamagni se insere. O fotógrafo relata, por exemplo, a respeito dos punks de Burma (Mianmar), a relação – e a ruptura – dessa tribo em relação aos monges budistas das principais cidades do país. Ele também apresenta dois tipos de mulheres do Senegal, chamadas de Disquette e Drianke – vaidosas em igual medida, porém, estas defendendo a exuberância de corpos volumosos, enquanto aquelas apostam numa apropriação dos padrões skinny das modelos internacionais.

 

 

 

 

Independentemente das particularidades de cada grupo, há uma convergência em relação à postura de resistência dos personagens, de enfrentamento dos padrões de cada sociedade e de criatividade na apropriação e subversão de signos do mundo ocidental. Ao mesmo tempo, torna-se possível observar semelhanças – formais e políticas – entre as manifestações. É esse jogo identitário próprio da globalização que Tamagni revela em suas imagens.

 

 

 

 

Nascido em 1975, em Milão, na Itália, Daniele Tamagni é formado em História da Arte e alterna sua dedicação entre projetos pessoais e ensaios de moda. Tem como principal interesse retratar comunidades da África – ou de origem africana em outros países –, entre outros grupos étnicos, buscando suas formas de expressão por meio da moda. Já ganhou diversos prêmios, entre os quais um World Press Photo na categoria Artes e Entretenimento por uma série que mostra mulheres bolivianas que praticam luta livre.

 

 

11
out

O céu e as luzes noturnas, por Clarissa Bonet

 

 

A paisagem urbana noturna e sua relação com quem vive nas cidades é o principal interesse da fotógrafa norte-americana Clarissa Bonet no ensaio Stray Light [Luz difusa]. A fotógrafa compõe cada imagem a partir de uma série de capturas que retratam, em sua visão, um novo cosmos inaugurado pela modernidade e pelo crescimento das grandes metrópoles.

 

 

 

 

“Eu reformo a paisagem urbana a partir do meu olhar, que busca reconstruir os céus em sua ausência sobre a cidade. A luz que emana de cada janela diz respeito a um mundo desconhecido, evocando uma sensação de mistério e admiração”, conta a fotógrafa. “Não olhamos mais para o céu noturno – agora, olhamos para a cidade com esse encantamento”, completa.

 

 

 

 

As imagens revelam uma constelação de luzes – espaços íntimos vistos de fora, cada um com sua potência de personagens e histórias de vida. A partir de uma observação bastante singela, Clarissa amplia os significados de um visão corriqueira de quem anda pelas cidades, trazendo à tona uma reflexão sobre relação dos seres humanos com a luz, os ciclos do planeta e a nossa existência.

 

 

 

 

Clarissa Bonet vive e trabalha em Chicago. Estudou fotografia na Columbia College Chicago e na University of Central Florida. Seu trabalho já foi exibido em diversos países e faz parte da coleção de instituições como Museum of Contemporary Photography (Chicago), South East Museum of Photography  (Flórida)e The Haggerty Museum (Milwaukee).

 

4
out

Vale, de Robert Darch

 

 

Com uma atenção dedicada às sutilezas do seu entorno, o fotógrafo britânico Robert Darch apresenta Vale, série em que reflete sobre o verão – em suas palavras, o ponto culminante da vida que ressurge na primavera, momento em que novamente se atinge um estado de aparente pausa nos ciclos da natureza. A estação mais quente do ano, na visão do fotógrafo, propicia a contemplação e uma reflexão a respeito de um evento marcante de sua vida.

 

 

 

 

“O calor do verão é temperado por uma melancolia interna. A narrativa poética é uma resposta direta às emoções e aos pensamentos e sentimentos cultivados no período de isolamento que experimentei”, conta o fotógrafo. Ele se refere a um derrame que teve em 2001, aos 22 anos, cuja recuperação total lhe custou em torno de 10 anos.

 

 

 

 

“Nesse período, não queria ligar a câmera e me dar conta de minha situação. Preferi me perder em construções ficcionais da minha mente. O mundo que eu conhecia havia mudado. Tornou-se menor e mais definido, com frequência desprovido de espiritualidade. O isolamento crescente, exceto pelo contato com minha família, levou-me a uma fuga na irrealidade dos mundos fictícios do cinema e da televisão”, relembra Darch.

 

 

 

 

Independentemente do relato biográfico, as imagens de Vale de fato revelam um olhar para a passagem do tempo, seja observando a desimportância de certos cenários, a incidência da luz ou as trilhas que se abrem em seu caminho. Ao mesmo tempo que celebra certo apogeu do verão, também deixa ver a iminência da morte e de novos ciclos que, de forma discreta, se anunciam.

 

 

 

 

Robert Darch tem mestrado em fotografia pela Universidade de Plymouth (Inglaterra). Vive no sudoeste da Inglaterra atuando como fotógrafo, educador e curador. Seu interesse principal é pela experiência do espaço e pelas narrativas que se constroem nessa relação. Ao lado de sua companheira, Jessica Lennan, gerencia a galeria Dodo Photo na cidade inglesa de Exeter. Desde 2013 participa de exposições coletivas e individuais na Europa e em países como China e Austrália.

 

 

 

23
set

As casas sobre rodas de Pau Montes

 

 

“Entendemos o morar em um apartamento ou casa como uma necessidade. São lugares que nos permitem fechar a porta para nos isolarmos do entorno. O contato com outras pessoas ao nosso redor torna-se uma opção, uma escolha. Os espaços onde vivemos, como donos ou locatários, viram objetos de especulação. Muitas vezes, acabamos vivendo para podermos possuir uma residência dessas. Essa é a forma como a maioria de nós decide viver, e geralmente não a questionamos. Mas algumas o fazem.” O fotógrafo espanhol Pau Montes parte dessa constatação no ensaio Wagenkultur [Cultura do vagão, em tradução livre do alemão].

 

 

 

 

Montes conta que em diversas cidades alemãs é possível encontrar comunidades que vivem em caravanas, caminhões e trailers. Pessoas de diferentes origens e profissões que escolhem formas alternativas de habitar o espaço. Nesse sentido, o fotógrafo parece fazer um jogo de palavras com o termo Wagen [vagão] e o verbo de mesma grafia, que em alemão significa ousar, arriscar.

 

 

 

 

Não se trata unicamente de uma necessidade financeira, ressalta o fotógrafo no texto que acompanha a série. Há também – e talvez isso seja o mais importante – um desejo de mobilidade e não pertencimento – não só a um local, como também em relação ao espaço como propriedade. Nas imagens, vemos a intimidade desses lares móveis, sua funcionalidade e formas criativas de serem aproveitados.

 

 

 

 

Espanhol, Pau Montes é engenheiro e atualmente vive em Munique, na Alemanha, onde também desenvolve sua produção fotográfica. Seu trabalho é diversificado, abordando também questões relacionadas à paisagem e à arquitetura. A série Wagenkultur foi comentada em diversas publicações internacionais.

 

13
set

Esculturas do processo evolutivo, de Patrick Gries

 

 

Uma abordagem estética e científica, que nos fala sobre como as espécies vivas do nosso planeta chegaram a seus estágios atuais. A série Evolution [Evolução], do fotógrafo Patrick Gries, apresenta mais de 250 imagens de esqueletos de animais mantidos pelo Museu de História Natural de Paris e outras quatro instituições francesas.

 

 

 

 

São imagens em preto e branco que detalham caminhos evolutivos de espécies vertebradas. De modo rigoroso, Gries revela os ossos dos animais sem qualquer outro elemento que não seja o fundo escuro comum às imagens. É quase como um catálogo da vida na Terra, com esqueletos que adquirem um caráter escultórico sob o olhar do fotógrafo.

 

 

 

 

Na publicação que reúne as imagens, textos breves descrevem os processos evolutivos de repetição, adaptação, polimorfismo, seleção natural, entre outros observados ao longo dos estudos de cada esqueleto. Gries mostra os indícios de transformações que levaram milhões de anos até ganharem forma nos corpos dos animais.

 

 

 

 

A tipologia concebida pelo fotógrafo traz à tona a teoria da evolução de Darwin – indiscutível, embora repleta de mistérios que vão sendo solucionados à medida que são descobertos novos fósseis. Gries eterniza no plano fotográfico etapas do processo evolutivo que fascinam e servem de material de pesquisa para estudiosos de agora e dos séculos que estão por vir.

 

 

 

 

Nascido em 1959, em Luxemburgo, Patrick Gries começou a trabalhar como fotógrafo nos Estados Unidos, na década de 1980. Em 1992, mudou-se para Paris e desde então desenvolve projetos autorais e comissionados, para instituições como o Musée du Quai Branly e a marca Louis Vuitton.

9
set

A banheira de George, por Corinna Kern

 

 

O ensaio George’s Bath [A banheira de George] da fotógrafa alemã Corinna Kern restringe-se a um único ponto de observação, sempre numa mesma peça da residência de seu personagem. As imagens, obtidas a 90 graus da banheira, mostram uma estanha rotina, colocando o espectador em dúvida sobre o que está acontecendo. Por que aqueles objetos estão naquele local de banho?

 

 

 

 

A chave para o entendimento da série está fora das imagens: George Fowler, 72 anos à época do ensaio, é um acumulador compulsivo. A banheira é um dos únicos espaços de sua casa em que (ainda) é possível fazer atividades como lavar louça e roupas, ler e, claro, tomar banho.

 

 

 

 

É possível perceber uma dupla abordagem no trabalho de Corinna. Por um lado, a fotógrafa documenta o uso atípico da banheira e o raro dinamismo da casa de um acumulador. O ponto de vista adotado ressalta os diferentes momentos dessa rotina e sua repetição – sem qualquer dramatismo, vale destacar.

 

 

 

 

O segundo aspecto que podemos observar é a forma como Corinna aborda uma questão – o comportamento compulsivo de George – sem mostrar diretamente o acúmulo de objetos. A fotógrafa demanda que o espectador imagine o que acontece nos outros cômodos da casa, apresentando a situação a partir de um olhar oblíquo que revela sua potência justamente pelo que não é visível nas fotografias.

 

 

 

 

Alemã, a fotógrafa Corinna Kern vive entre Israel e Alemanha. Seus trabalhos retratam comunidades marginalizadas e modos de vida pouco convencionais. Possui mestrado em fotojornalismo pela Universidade de Westminster, de Londres, e teve suas fotos publicadas em periódicos como Time, CNN, Vice, Die Zeit e Esquire.

 

 

 

27
ago

Jesse Marlow: a cidade em fragmentos

 

 

Obtidas entre 2005 e 2012, as imagens da série Don’t Just Tell Them, Show Them [Não conte apenas, mostre a eles] revelam o olhar muito particular de Jesse Marlow. As fotos apresentam ruas de cidades australianas – Marlow vive em Melbourne – e de lugares visitados pelo fotógrafo em suas viagens. Mistério, surpresas, poesia. Tudo isso em situações banais do cotidiano.

 

 

 

 

A interação entre personagens e paisagens é um dos principais aspectos que observamos nas fotografias. Marlow busca enquadramentos que ressaltem elementos arquitetônicos, criando cenários inusitados no plano da imagem. Mais do que momentos corriqueiros, vemos composições cuidadosas que abordam a forma como habitamos esses espaços.

 

 

 

 

É praticamente impossível identificar onde o fotógrafo está. Mais do que imagens de cidades, Marlow compartilha uma certa sensibilidade em relação ao contexto urbano, um olhar que procura encontros – entre pessoas e espaços, objetos e espaços – exibidos de forma fragmentada. Ele nos retira os contextos, trazendo à tona instantes de um observador que se abre para o acaso ao seu redor.

 

 

 

 

Australiano, nascido em 1978, Jesse Marlow vive e trabalha em Melbourne. Desde 2003, publica livros e realiza exposições coletivas e individuais na Austrália e na Europa. Participou do coletivo fotográfico Oculi entre 2003 e 2012 e é integrante do grupo de fotografia urbana In-Public desde 2001.

 

 

 

23
ago

Christian Houge: o homem, o lobo e a sombra

 

 

Os limites entre natureza e cultura são abordados pelo norueguês Christian Houge na série Shadow Within [Sombra interior]. “Busco explorar profundamente na psique do espectador o que ele pode aprender de seus lados sombrios e seu instinto animal – medo, agressividade, hierarquia, sexualidade e solidão, para citar alguns aspectos”, reflete o fotógrafo.

 

 

 

 

Houge conta que, no convívio com os lobos, descobriu indivíduos de distintas personalidades, as quais, na sua visão, guardam muita semelhança em relação aos seres humanos. “Como os lobos, nós temos estruturas sociais robustas e baseamos muito de nossas vidas no medo. Além disso, a linguagem corporal tende a se sobrepor em relação a falada”, exemplifica.

 

 

 

 

Para realizar a série, Houge precisou conquistar a confiança dos lobos – apenas uma parte da imersão do fotógrafo no contexto de vida dos animais. Ele também realizou cursos de linguística para entender melhor a comunicação entre e com os animais. “Tive que buscar dentro de mim e de minhas sombras para que essa série pudesse acontecer”, completa o fotógrafo.

 

 

 

 

Nascido em 1972, em Oslo, Noruega, Christian Houge explora as relações entre natureza e cultura de diversas formas. Desde 1997, apresenta seus trabalhos em exposições coletivas e individuais pela Europa.

16
ago

Graciela Magnoni: um olhar atento ao acaso urbano

Índia, China, Etiópia, Nepal, Turquia. Esses são alguns dos tantos países visitados pela fotógrafa franco-uruguaia Graciela Magnoni. Imersa no contexto de cada lugar que visita, ela direciona sua produção à fotografia de rua, produzindo imagens que são resultado de uma observação atenta e aberta ao acaso.

 

Magnoni nos convida a viajar por cenas em que um pouco de nada e um pouco de tudo acontece. Uma equação de difícil medida, que foge de metáforas visuais óbvias. A construção de cada plano se dá de forma muito aberta ao caos do cotidiano.

 

Percebe-se a atenção da fotógrafa às cores e à luz de onde fotografa. A partir desses e de outros elementos, Magnoni captura instantes em que algo curioso está ocorrendo ou prestes a acontecer – sutilezas que ganham status de inusitado graças ao olhar da fotógrafa.

 

A composição das fotos apresenta um mundo repleto de encontros potenciais e fragmentos da vida de personagens totalmente desconhecidos. Magnoni viaja o mundo não para mostrar o típico de cada lugar, mas sim o prosaico que de certa forma envolve a vida de todos.

 

Graciela Magnoni nasceu no Uruguai – filha de pai francês e de mãe uruguaia. Na infância, viveu no Brasil, na França e em outros países. Mais tarde viveu também nos Estados Unidos e desde 2003 vive em Singapura. Estudou jornalismo na PUC-SP e possui mestrado, também em jornalismo, pela Universidade de Minnesota.

 

 

 

 

12
ago

O Rio dos esportes visto de cima, por Edoardo Delille e Gabriele Galimberti

Em tempos de Olimpíadas, apresentamos no post de hoje o ensaio En Plein Air [Ao ar livre], que aborda a paixão dos cariocas pelo esporte. O ângulo é bastante peculiar: utilizando um drone, Edoardo Delille e Gabriele Galimberti retratam desde cima, num ângulo de 90 graus, espaços destinados a práticas esportivas e suas relações com as paisagens do Rio de Janeiro.

 

Encontramos uma variedade de habitats dos esportistas: quadras de futebol ao lado de pistas de automóveis, clubes, parques e claro, a praia. Em meio a essa diversidade, as fronteiras sociais também se borram, ganhando novas nuances. “As diferenças entre alto e baixo se equilibram. Crianças das favelas descem ao asfalto, perdendo-se entre a burguesia de Ipanema e do Leblon”, comentam os fotógrafos.

 

As imagens deixam ver um pouco do contexto urbano onde esses espaços se situam, próximos da movimentação dos carros mas também rodeados pela natureza da cidade. Assim, revelam como o esporte é parte fundamental da vida dos cariocas. Mais do que simplesmente capturar imagens aéreas, a dupla ainda concebe um mise en scène dos atletas amadores, que se posicionam no solo – ou na água – olhando para cima.

 

Esse detalhe confere algo de muito particular às fotografias de Delille e Galimberti: como se a pausa das atividades dos esportistas abrisse um canal de contemplação – de quem olha para o céu e entre essas pessoas e o espectador que observa a imagem. Nada de uma visão topográfica e desinteressada, portanto: a dupla parece reivindicar certa troca de olhares e um tempo destinado a pensarmos na paisagem urbana do Rio e seus habitantes.

 

Nascido em Florença, em 1974, Edoardo Delille estudou fotografia na Fondazione Marangoni. Começou a trabalhar com fotografia publicitária e de moda, desenvolvendo mais tarde seus trabalhos autorais, já publicados em diversos países. Gabriele Galimberti, nascido em 1977, realiza ensaios documentais, já tendo publicado suas fotografias em importantes periódicos europeus.

 

 

 

8
jul

Victor Sloan: Hotel Baron, na Síria

 

 

Conhecido por seus ensaios relacionados a questões sociais, Victor Sloan é um dos mais importantes fotógrafos da Irlanda. No ensaio The Baron Hotel, Syria, ele apresenta uma abordagem bastante particular da trágica realidade síria depois dos conflitos que tiveram lugar nos últimos anos.

 

 

 

O hotel Baron, situado na cidade de Aleppo, é um dos mais antigos da Síria – foi lá que, reza a lenda, ao ver um cartaz, Agatha Christie teria se inspirado para escrever Assassinato no Expresso Oriente. O estabelecimento teria recebido também personalidades como o ex-presidente francês Charles De Gaulle e o magnata David Rockfeller. Diz-se ainda que o local era frequentado por espiões alemães e ingleses na primeira metade do século 20. Em 2014, devido à guerra civil, o hotel foi fechado.

 

 

 

O ensaio de Sloan revela um fotógrafo que encontra outro tempo e outro lugar para falar de uma situação da qual temos uma infinidade de registros fotojornalísticos.

 

 

 

Trilhando outro caminho, Sloan não deixa de dialogar com essas imagens: se sabemos que se trata de um hotel em Aleppo, inevitavelmente recordamos e estabelecemos paralelos com as imagens da guerra. Somam-se, assim, diversas camadas de significado: o passado glorioso que, de alguma forma, resiste, e a tragédia que as imagens sugerem sem mostrar.

 

 


Nascido em Dungannon, na Irlanda do Norte, em 1945, Victor Sloan vive atualmente em Portadown. Trabalha como artista e educador, desenvolvendo obras em várias linguagens, da fotografia ao vídeo, muitas vezes realizando trabalhos híbridos. Possui uma vasta trajetória, participando de exposições individuais e coletivas em diversos países desde 1981.

 

 

5
jul

Os personagens introspectivos de Kate Smuraga

 

 

“Minha cidade vem sendo constantemente destruída e reconstruída. Não se trata de uma cidade – melhor defini-la como uma ilusão de uma cidade. Enquanto você vive por lá, parece que tudo é um sonho. Amo minha cidade por essa estranha característica: a realidade empurra você para fora dela, de modo que o único a fazer é soltar as rédeas da imaginação.” A partir dessa reflexão sobre Vitebsk, em Belarus, sobre os empurrões que a levam para outros lugares e de volta a sua cidade natal, Kate Smuraga desenvolve a série Letter from the Quiet Town [Carta da cidade quieta], com um olhar que revela as inquietações e os universos particulares de jovens em países da antiga União Soviética.

 

 

 

 

Seus retratos mostram personagens em momentos de introspecção, em cidades como Vitebsk, Odessa (Ucrânia) e São Petersburgo (Rússia). Em cada um deles, percebe-se o interesse por uma aproximação com o que de mais íntimo em cada um dos fotografados. A composição cuidadosa, no entanto, não prejudica o ar de espontaneidade presente nas fotografias, como se Smuraga nos permitisse entrar no espaço de seus afetos com os amigos mais próximos.

 

 

 

 

Uma sensação de expectativa e de tédio perpassa as imagens, acompanhada de elementos que sugerem a criatividade necessária para lidar com as limitações e frustrações do cotidiano. Questões existências de uma geração da qual a fotógrafa faz parte e parece querer dar voz de forma sutil, por meio de encontros e deslocamentos.

 

 

 

 

Nascida em 1990, em Vitebsk (Belarus), Kate Smuraga graduou-se em história, teoria e crítica de arte pela Universidade de Cultura e Artes de São Petersburgo. Atualmente vive e trabalha em Minsk (Belarus), onde desenvolve seus projetos e colabora com artistas e pesquisadores.

 

28
jun

Donna Pinckley: retratos da infância e adolescência no sul dos EUA

 

 

Imagens obtidas entre 1992 e 2015 formam a série Southern Depictions [Representações do sul], de Donna Pinckley. O período pelo qual se estende a série já indica o tipo de relação que a fotógrafa norte-americana constrói com seus temas de interesse: um trabalho prolongado, que oferece um panorama amplo a respeito de um determinado contexto. No ensaio que apresentamos no post de hoje, Pinckley direciona seu olhar para crianças e adolescentes do sul dos Estados Unidos, suas expressões misteriosas e sua potência subjetiva.

 

 

 

 

Os retratos remetem às fotografias de Rineke Dijkstra e de outros tantos fotógrafos que se debruçaram sobre as transformações da infância e da adolescência, as quais colocam em cena olhares marcantes, por vezes um tanto confusos, reveladores de identidades que estão em processo de construção. Olhares que não são meramente inocentes – aqui não vemos instantes idílicos –, pelo contrário: são janelas para existências que já se mostram complexas nessa fase da vida.

 

 

 

 

Pinckley faz questão de incluir em cada plano algumas pistas sobre o dia a dia de seus fotografados, a quem ela pede para se colocar nos lugares onde se sentem confortáveis. Desses encontros e dessa dedicação de décadas, surge um panorama ao mesmo tempo local, da vida pré-adulta da classe média norte-americana, como também um retrato universal da infância e da adolescência – seus enigmas, medos, encantos e descobertas.

 

 

 

 

Nascida no estado de Louisiana, Donna Pinckley graduou-se em fotografia pela Louisiana Tech University e obteve mestrado, também em fotografia, pela Universidade do Texas. Já participou de mais de 200 mostras, sendo reconhecida pela abordagem de cunho social da sua atuação como fotógrafa, que também tematiza questões raciais nos EUA. Atualmente, é professora da University of Central Arkansas.

 

24
jun

Emy & Ana, de Pep Karsten

 

 

Uma espécie de sinopse apresenta a série Emy & Ana, do fotógrafo francês Pep Karsten: “Emy e Ana não podem viver longe uma da outra. Melhores amigas, têm a mesma idade, no entanto, vivem uma relação do tipo mãe e filha. Após um acidente, precisam defrontar-se com a terrível situação de estarem separadas.”

 

 

 

 

De fato, as imagens da série possuem um apelo cinematográfico – a própria apresentação dos trabalhos em seu site assume ares de lançamentos do cinema, como se fossem cartazes e stills de filmes prestes a entrar em cartaz. Não à toa, o fotógrafo define Emy & Ana como “uma narrativa ficcional de 19 fotografias” e “uma metáfora da transição para a vida adulta, a partir da relação entre os vivos e os mortos”.

 

 

 

 

“Meu trabalho tem a transcendência como foco. Atualmente, exploro o tema da morte, a partir de uma perspectiva otimista. O que as pessoas que amamos podem nos dar depois de partir? Elas podem nos ajudar a transformar nosso sofrimento em força e sabedoria? Podemos, de alguma maneira, prolongar suas vidas?”, pergunta-se o fotógrafo.

 

 

 

 

Nascido em 1977, em Cannes, Pep Karsten trabalha entre sua cidade natal e Berlim. Tem fotografias suas em coleções como a National Museum of Photography Collection Thessaloniki de Atenas, e a AOP Photography Collection de Londres, e já recebeu importantes prêmios como o International Photography Awards e o Hasselblad Photographer of the Month.

 

 

 

 

21
jun

As leis do silêncio, de Jennifer McClure

 

 

“Essas imagens vêm daquele espaço emocional da expectativa, do desejo por coisas que nunca aconteceram e talvez nunca aconteçam.” Assim, a fotógrafa norte-americana Jennifer McClure define o ensaio Laws of Silence [Leis do silêncio], que desafia o espectador com suas imagens enigmáticas, reveladoras de uma subjetividade que deixa apenas rastros para qualquer tentativa de compreensão.

 

 

 

 

A narrativa construída por McClure é construída a partir de fragmentos. Um olhar que busca naquilo que está próximo os ecos de um universo muito particular, marcado, nas palavras da fotógrafa, por uma certa desconexão existencial. “Sou descrente das pessoas e das ideias do sonho americano. Sempre evitei os ritos ou rituais ligados ao ‘sucesso’, mas não consegui substituir essa mitologia fracassada por qualquer outra”, conta a fotógrafa no texto que acompanha a série.

 

 

 

 

A fotografia ganha espaço na vida de McClure como operação simbólica para tentar encontrar essa nova mitologia pessoal. “Comecei a procurar sinais de relações significativas e oportunidades perdidas, tentando formar um mapa de como existir. Precisava ver o passado, olhá-lo claramente, para então enxergar além”, reflete a fotógrafa, que vai em busca desse “além” nos objetos e detalhes prosaicos do seu entorno. Fragmentos que constituem uma imagem – sempre incompleta – do que queremos ser.

 

 

 

 

Nascida no estado da Virginia, nos Estados Unidos, Jennifer McClure vive em Nova York. Estudou teoria literária e trabalhou por anos em restaurantes. Em 2001, retomou o interesse pela fotografia, estudando na School of Visual Arts e no International Center of Photography, em Nova York, atuando como assistente desta instituição. Já participou de diversas exposições nos EUA e teve seu trabalho publicado em veículos especializados como Lenscratch e The Photo Review.

 

 

 

7
jun

Duane Michals: narrativa, representação e realidade (Parte IV)

 

 

Em nosso quarto post sobre o trabalho de Duane Michals – confira aqui as partes I, II e III –, encontramos novamente o interesse do fotógrafo em explorar os limites da linguagem fotográfica. Com humor sutil, a série Madame Schrödinger’s Cat [O gato de Madame Schrödinger, 1998] aborda uma reflexão do físico austríaco Erwin Schrödinger, de 1935, que busca enxergar na prática os desdobramentos de uma questão da física quântica. A partir dessa referência, Michals faz uma espécie de tradução do pensamento de Schrödinger.

[LEGENDAS TRADUZIDAS]

 

Madame Schrödinger pergunta-se: seu gato perdido estará ou não dentro da caixa?

 

O gato, que pode estar ou não dentro da caixa, pergunta-se: Madame Schrödinger está ou não fora da caixa?

 

Madame Schrödinger e seu gato perguntam-se: quais as probabilidades de você estar lendo isso nesse momento?

 

Levada para o campo da fotografia, a questão de Schrödinger nos faz pensar nos limites da compreensão do espectador diante de uma imagem – tudo aquilo que ele não percebe e que está fora do enquadramento. Michals mostra também o quanto a linguagem fotográfica é rica para pensarmos não só seus próprios limites, como também outros limites interpretativos – da física quântica à realidade mais cotidiana. Que informações Madame Schrödinger, o gato e o espectador têm à disposição para entender o mundo a sua volta? Como cada um constrói suas verdades? Como abordam aquilo que não conseguem enxergar? Mais uma vez, Michals nos conduz em direção a questões complexas, construindo narrativas com o mínimo de elementos, levados a sua potência máxima com o apoio de legendas.

13
mai

Pushkar Raj Sharma: identidades em jogo

 

 

Ao longo de um ano, na parte antiga da cidade de Deli, o fotógrafo Pushkar Raj Sharma buscou ângulos variados para explorar questões em torno da identidade dos habitantes da segunda maior cidade indiana. O ensaio Losing Identity [Perdendo a identidade], apresenta indivíduos com seus rostos cobertos por objetos presentes no dia a dia – de roupas penduradas a materiais da rotina de trabalho das pessoas fotografadas.

 

 

 

“Esses momentos são surpreendentes, engraçados, misteriosos, cheios de esperança, suaves… As pessoas se relacionam com cada imagem de formas diversas”, conta o fotógrafo.

 

 

 

O ensaio acaba por trazer à tona também o cotidiano um tanto caótico da cidade, que parece contribuir para dissolver as identidades de seus habitantes.

 

 

 

Embora não se possa enxergar rostos, cada imagem deixa ver detalhes que no mínimo dão pistas para tentarmos entender a vida em Deli e a sociedade indiana de modo geral.

 

 

 

Pushkar Raj Sharma trabalha como fotógrafo freelance em Deli e se tornou conhecido após menção no livro Street Photography Now, de 2014. Fascinado pela fotografia urbana, interessa-se sobretudo pela riqueza da vida cotidiana na Índia.

 

 

 

6
mai

Duane Michals: narrativa, representação e realidade (Parte III)

 

 

Em nosso terceiro post sobre o trabalho do fotógrafo Duane Michals, apresentamos a sequência Grandpa Goes to Heaven [Vovô vai para o céu], de 1989. Se é possível traçarmos algum paralelo com as outras séries que já comentamos por aqui – Chance Meeting (1972) e The Young Girl’s Dream (1969) –, podemos observar inicialmente o interesse do fotógrafo por situações de encontro entre duas pessoas e as transformações que daí se originam.

 

 

 

 

 

 

Outro aspecto que ganha evidência é o olhar atento para a sutileza dos gestos, especialmente nas mãos do garoto e do avô – elementos mínimos que dão sustentação à narrativa de quatro imagens. Questões em torno da morte e da transcendência também ganham espaço, articuladas com a variação de exposição dos planos. Michals mais uma vez constrói uma sequência que suscita profundas indagações a partir de escolhas muito precisas e cuidadosas.

 

15
abr

Fabio Moscatelli: estranhamento e desamparo familiar

 

 

Um drama familiar é o pano de fundo do ensaio Arriving Somewhere Not Here [Chegando a algum lugar que não é aqui], do fotógrafo italiano Fabio Moscatelli. Ele acompanha a rotina de um menino romeno, Andrei (10 anos), em sua nova vida em Tivoli, nos arredores de Roma, após a separação dos pais. Somado a esse trauma, o estranhamento de viver em outro país passa a ser uma questão com a qual Andrei precisa lidar.

 

 

 

 

A mudança para o sul da Europa decorre da mais recente crise econômica global. Seu pai perde o emprego, e sua mãe se muda para a Itália em busca de trabalho. Depois de um divórcio litigioso – e muito devido ao alcoolismo do pai –, Andrei transfere-se para o lar materno. Lá, no entanto, enfrenta dificuldades de adaptação e problemas de relacionamento com seu padrasto.

 

 

 

 

 

“Andrei começa a fechar-se para o mundo exterior. Ele evita as pessoas e se isola numa prisão psicológica”, conta o fotógrafo. Na série, Moscatelli procura transformar em imagens um pouco desse sentimento de isolamento e frustração em relação a um lugar que Andrei não consegue chamar exatamente de casa. O fotógrafo volta sua câmera ao entorno de Andrei na intenção de captar o que se passa no melancólico mundo interior do garoto.

 

 

 

 

Nascido em 1974, em Roma, Fabio Moscatelli estudou Reportagem na Scuola Romana di Fotografia. Já foi premiado pela National Geographic na categoria Retratos e esteve entre os finalistas do Leica Award. Já publicou fotografias em periódicos como The Post Internazionale, GUP Magazine e Private International Review of Photography, e colabora com a agência Echo.

 

 

 

 

12
abr

Os percursos da Lapa à Vila Mimosa, de Schari Kozak

 

Foto: Manuel da Costa

 

Resultado de uma imersão nas ruas do Rio de Janeiro ao lado de quem vive intensamente o calor do asfalto carioca, o ensaio Brutal Corre: da Lapa à VM, da fotógrafa Schari Kozak, está em cartaz no Espaço Cultural ESPM-Sul até 14 de maio. As imagens – apresentadas pela fotógrafa como trabalho de conclusão no curso de Jornalismo da ESPM-Sul – mostram a rotina do grupo de corrida Brutal Corre, surgido do coletivo Brutal Crew, que desde 1999 dissemina o rap e o hip hop, dando oportunidade a novos talentos da capital fluminense.

 

 

 

 

Ao longo de cinco meses, entre julho e novembro de 2015, Schari acompanhou – correndo ou de bicicleta – percursos de cinco quilômetros realizados entre o bairro da Lapa e a Vila Mimosa, uma das mais antigas áreas de prostituição da cidade, localizada na zona norte do Rio. “Foi uma experiência extremamente gratificante e desafiadora, não só como trabalho, mas também em relação aos limites do meu corpo”, conta a fotógrafa. Muito além do registro da prática de um exercício físico, as imagens revelam uma certa experiência do espaço urbano de pessoas que buscam outro tipo de relação com a cidade, rompendo preconceitos e interdições de barreiras sociais.

 

 

 

 

Schari destaca a transformação na rotina da VM – apelido da Vila Mimosa –  ao final das corridas, que fazem parte de uma parceria da Brutal Corre com o Interferência Sistema de Som (tradicional sound system carioca). “Essa energia me contagiou já no primeiro encontro com a Brutal Corre. Foi na reta final, depois de cruzar prédios históricos e muros pichados, ouvindo ecoar o grito que pedia passagem – ‘Brutal: só sinistro!’ –, vendo a diversidade de cores e de pessoas que povoavam a Vila Mimosa, que percebi o quanto gostaria de fazer parte daquilo de alguma forma”, relembra a fotógrafa.

 

 

 

 

Ex-monitora do Centro de Fotografia da ESPM-Sul, Schari Kozak é fotógrafa freelance. Vivendo atualmente no Rio de Janeiro, desenvolve pesquisas, projetos pessoais e trabalhos de caráter jornalístico e publicitário relacionados ao esporte. Além de Só sinistro, outros ensaios estão disponíveis em seu portfólio virtual.

 

Exposição Brutal Corre: da Lapa à VM, de Schari Kozak
Espaço Cultural ESPM-Sul
Rua Guilherme Schell, 268
Visitação: de segunda à sexta-feira, das 8h às 22h; sábados, das 9h às 15h.

 

8
abr

Duane Michals: narrativa, representação e realidade (Parte II)

 

 

No primeiro post de nossa série sobre o fotógrafo norte-americano Duane Michals, apresentamos Chance Meeting, de 1972. Hoje, trazemos mais uma sequência de imagens – dessa vez, as fotos de The Young Girl’s Dream (1969). Novamente, Michals produz um exercício visual em torno de como o movimento – e o que é estático – pode ser representado na fotografia. Além disso, percebemos também o interesse do fotógrafo pelo caráter espectral da imagem fotográfica.

 

 

 

 

 

 

Assim como em Chance Meeting, aliada à reflexão mais relacionada à linguagem fotográfica em si, nos deparamos com uma narrativa curta a respeito dos afetos presentes em um encontro – um olhar para as transformações provocadas por um Outro que não é claramente identificável. O final da sequência – em ambas as séries – nos deixa diante do efeito do encontro e da tentativa de compreensão sobre o que aconteceu, o que pode ter resultado daquela troca silenciosa. Com muito pouco – um mesmo enquadramento, movimentos sutis dos elementos que estão no plano –, apostando em gestos singelos e delicados, Michals concebe uma narrativa potente e instigante.

5
abr

Christian Vium: a pesquisa antropológica revisitada

 

 

Tendo como ponto de partida o trabalho dos antropólogos Frank Gillen e Baldwin Spencer, que investigaram a vida aborígene entre 1875 e 1912, o fotógrafo dinamarquês Christian Vium percorreu a região central da Austrália ao longo dos meses de maio e junho de 2014. A série The Wake [O velório, em tradução livre] coloca lado a lado fotografias suas e imagens da pesquisa seminal de Spencer e Gillen mantidas na coleção do Museu Victoria, em Melbourne.

 

 

 

 

“A ideia não nasce tanto do desejo de criticar visões evolucionárias um tanto datadas, e sim da descoberta desconfortável que a minha própria produção era, também, marcada pelo que vim a entender como uma visão estereotipada do Outro”, conta o fotógrafo.

 

 

 

 

“Busquei reencenar as imagens antigas de forma criativa, nos locais onde foram originalmente obtidas. Quis convidar aquelas pessoas retratadas a trazer seus pontos de vista e ideias para o processo”, explica Vium. O luto era um dos principais assuntos do fotógrafo com as populações aborígenes, devido à precariedade de suas condições de sobrevivência – a expectativa de vida dos aborígenes é vinte anos menor que a média australiana.

 

 

 

 

O projeto completo de Vium inclui reencenações de fotografias da pesquisa antropológica na Amazônia brasileira e no extremo leste da Sibéria. O objetivo, conta o fotógrafo, é desenvolver uma técnica étnico-estética de crítica cultural,  mesclando “as disciplinas da prática artística e da etnografia, de modo a reconhecer a importância crucial da experimentação e dos ‘erros’ como elementos produtivos na arte contemporânea e na produção de conhecimento”.

 

 

 

 

Nascido em 1980, Christian Vium vive em Aarhus, Dinamarca. Com pós-doutorado em antropologia social, investiga as intersecções entre práticas documentais, artes e ciências sociais, tendo trabalhado em parceria com os mais variados profissionais – de antropólogos e historiadores a jornalistas e diretores de cinema. Já recebeu importantes prêmios relacionados a seu campo de atuação e exibiu fotos e vídeos em diversos países.