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Posts from the ‘Fotojornalismo’ Category

13
ago

Fotógrafa conquista o mundo fotografando com smartphone.

Divulgação: site Superinteressante


Gaúcha de Lageado (RS), Luisa Dörr ganhou projeção internacional em 2017, após ser convidada pela revista Time para retratar as maiores influentes norte-americanas – entre elas a Oprah Winfrey, Hillary Clinton e Selena Gomes. Doze retratos compuseram as capas da série de reportagem especial intitulada “Firsts: women who are changing the world”. O fato de ela ter fotografado essas grandes celebridades com seu celular causou um grande burburinho, tornando-a também uma pioneira.

O projeto Firsts cresceu rapidamente e a revista resolveu transforma-lo em uma série de 46 fotografias, além dos vídeos e, tudo isto acabou virando um livro.

Foto: Time

A Luisa foi nossa aluna no Curso Avançado de Fotografia em 2011, durante as aulas ela já explorava o celular como ferramenta. Em uma de suas entrevistas ela comentou que nem sempre tem uma câmera no bolso, mas o celular está sempre com ela.

Luisa, ao centro da fotografia, durante as aulas do Curso Avançado de Fotografia da ESPM-Sul. Foto: Centro de Fotografia ESPM.

Luisa e alunos junto com o professor Clóvis Dariano, durante as aulas do Curso Avançado de Fotografia da ESPM-Sul. Foto: Centro de Fotografia ESPM.

Além do telefone Luisa utiliza todo seu conhecimento em fotografia, composição, luz, além do aplicativo snapseed para tratar as imagens da revista e para impressão passou as fotografias por um processo de interpolarização, segundo entrevista do jornal El País.

Para ela a câmera, seja do celular ou profissional, não criam, são apenas um meio que auxiliam no processo. Quem segura e manipula a ferramenta é que estabelece o resultado final. Ela acredita que a escolha do equipamento pelo fotógrafo será cada vez mais livre.

Bastidores da Luisa com a equipe da Time.

Bastidores: Luisa fotografando Serena Williams

Além do trabalho para revista Time, Luisa tem uma aproximação muito grande com a temática do feminino, muitos de seus projetos ressaltam a beleza e o empoderamento da mulher. Entre eles estão o projeto Maysa, que documenta a trajetória de uma adolescente paulista que busca o sonho de se tornar uma miss.

Foto: Projeto Maysa, por Luisa Dorr

Foto: Projeto Maysa, por Luisa Dorr

Em 2019, Luisa foi a primeira brasileira a vencer o prêmio da World Press Photo com seu projeto Falleras. A fotógrafa contou para o jornal El País que este projeto surgiu no meio de uma viagem familiar. “…de forma despretensiosa”, conta ela. Neste projeto ela acompanhou a festa popular espanhola “Fallas de Valencia” e produziu uma série de retratos intimistas das mulheres em suas vestimentas tradicionais.

Na mesma entrevista ela pontua que o fotógrafo é um autor e protagonista, que deve ir atrás de suas próprias histórias e não esperar por um trabalho pago. “Entendo que muitos fotógrafos estão desesperados com essa falta de lugares para publicar. A falta de oportunidades e meios precisa ser recompensada com o talento do fotógrafo em achar pautas interessantes e autorais, mas é um processo cansativo em que muitos vão ficando pelo caminho”, reflete.

 

Foto: Projeto Falleras, por Luisa Dorr

Foto: Projeto Falleras, por Luisa Dorr

O trabalho de Luisa pode ser conferido através de seu site e seu instagram.

http://luisadorr.blogspot.com/
https://www.instagram.com/luisadorr/?hl=pt-br

 

23
abr

Da fotografia à literatura: a perspectiva de Cláudia Andujar sobre a tribo Ianomâmi

Divulgação: Uol

Cláudia Andujar teve uma vida bastante tensa e agitada. Em 1931, nasceu na Suíça. Pouco tempo mais tarde, a sueca perdeu o pai, judeu, em um campo de concentração. Como se não fosse o bastante, a jovem menina acabou perdendo a maior parte de sua família na Segunda Guerra Mundial. Por esse motivo, Cláudia se mudou para os Estados Unidos, onde se formou em humanidades na Hunter College e, mais tarde, trabalhou como intérprete na Organização das Nações Unidas (ONU). Lá, casou-se com Julio Andujar, refugiado da Guerra Civil Espanhola, mas acabou se divorciando poucos meses depois. Apesar disso, Cláudia resolveu manter o sobrenome do casamento para começar uma vida nova sem os tormentos da guerra.

Anos mais tarde decide se mudar para o Brasil, onde já vivia sua mãe. Dessa forma, teve a possibilidade de naturalizar-se brasileira e, a partir daí, Cláudia passa a desenvolver sua vida como fotógrafa, direcionada para a área do fotojornalismo. Não muito tempo depois de iniciar a carreira, recebeu a proposta de fotografar para a revista Realidade, que, na época, estava fazendo um especial sobre a Amazônia. Sua tarefa para a revista seria fotografar a tribo indígena dos Ianomâmi, bastante isolada das demais tribos da região. Nesse projeto, Cláudia alavancou sua vida profissional, ganhando reconhecimento após o trabalho.

Foto: Cláudia Andujar

Contudo, o projeto enquadrou-se em algumas práticas irregulares de leis de regulamentação territorial e, por isso, em 1978, Cláudia foi expulsa da região da tribo por ordem da FUNAI. Após o ocorrido, a fotógrafa viaja para São Paulo onde desenvolve estudos e grupos para a preservação da tribo Ianomâmi, o que culminou na criação na ONG Comissão pela Criação do Parque Ianomâmi, projeto que levou à demarcação das terras da tribo, oficializada em 1992.

Foto: Cláudia Andujar

Conforme a luta pelos direitos indígenas se intensificava, Cláudia diminuía sua participação na fotografia. No entanto, deixou uma vasta contribuição na literatura, publicando mais de dez livros – entre os quais Yanomami: A Casa, A Floresta, O Invisível (1998) e Amazônia (1978) – e também no cinema, com o lançamento do documentário Povo da Lua, Povo do Sangue: Yanomami (1972).

Foto: Cláudia Andujar

Foto: Cláudia Andujar

Foto: Cláudia Andujar

 Texto por Augusto Braga.

14
dez

Tim Hetherington: vida e morte na guerra

Retrato de Tim Hetherington

 

“Eu quero gravar eventos mundiais, uma grande história contada na forma de uma pequena história, a perspectiva pessoal que dá significado à minha vida. Meu trabalho é sobre construir pontes entre mim e o público”, disse Tim Hetherington cinco semanas antes de sua morte. Em abril de 2011, o fotojornalista premiado foi vítima de um ataque fatal durante a cobertura da guerra civil na Líbia.

Defensor dos direitos humanos e uma referência em inovação da mídia, Hetherington assina trabalhos que variam de ensaios fotográficos para revistas e documentários a instalações de arte, exibições multimídia e trabalhos investigativos para a Human Rights Watch e as Nações Unidas. O mais famoso de seus filmes é Restrepo. Indicado ao Oscar de melhor documentário no ano fatídico ano de 2011 e vencedor do Festival de Sundance em 2010, o filme é uma co-direção com o jornalista e escritor Sebastian Junger e mostra a guerra pela perspectiva dos jovens soldados americanos no Afeganistão.

Hetherington era britânico e se formou em 1992 em Oxford, com um diploma em Clássicos e Inglês. Também é graduado em fotojornalismo pela Universidade de Cardiff em 1997. Trabalhou inicialmente para a imprensa do Reino Unido e logo passou a se dedicar a coberturas internacionais. Ele trabalhou e viveu na África por muitos anos, explorou as consequências da guerra e chegou a documentá-lo, antes de se aprofundar em entender as origens e causas da violência. Descrito por Stephen Mayes, diretor-executivo do Tim Hetherington Charitable Trust, como um “homem de grande inteligência”, Hetherington fez da guerra um processo de autodescoberta: “Eu não conheço muitos outros homens heterossexuais discutindo masculinidade, mas definir sua masculinidade é parte do processo de guerra. A ação de ir (à guerra) é tão importante quanto o que vem à tona depois”.

Uma de suas obras, “Long Story Bit por Bit: Libéria Retold”, conta os seus oito anos na África Ocidental, quatro deles vividos na Libéria. É um livro com fotografias documentais, testemunho oral e memórias dos ocorridos, contando a tragédia e o triunfo na história recente da Libéria. O fotojornalista ficou fascinado com a dinâmica do poder que se desenrolava na África e, na obra, ele expressa esse sentimento.

Já a obra “Infiel” retrata o cotidiano do pelotão dos EUA no Vale do Korengal, área afegã considerada uma das mais perigosas na guerra contra os talibãs. Hetherington fez uma série de imagens que retratou a camaradagem e a vulnerabilidade dos militares. O livro também conta com imagens das tatuagens que os soldados deram um ao outro no acampamento, sendo uma homenagem aos “homens rudes prontos para fazer violência em nosso nome” e uma contribuição provocativa para a documentação da guerra em nosso tempo.

Infidel, Hetherington.

Infidel, Hetherington.

Long Story Bit por Bit: Libéria Retold, Hetherington.

Long Story Bit por Bit: Libéria Retold, Hetherington.

Long Story Bit por Bit: Libéria Retold, Hetherington.

Long Story Bit por Bit: Libéria Retold, Hetherington.

Em 2008, ele ganhou o prêmio Rory Peck Award, concedido a operadores de câmera freelancers que arriscam suas vidas para informar sobre eventos interessantes, como por exemplo, as guerras. Tim Hetherington trabalhava em todas as formas de mídia se redefinindo como artista e humanitário.

Para ver mais fotografias do Tim Hetherington, acesse: https://www.timhetheringtontrust.org/

Redigido por Márcia Fernandes
Hub ESPM
23
nov

Evandro Teixeira e seus registros históricos do Brasil

Um dos grandes nomes do fotojornalismo brasileiro, Evandro Teixeira presenciou importantes momentos da história do país. Hoje, aos 83 anos, o fotógrafo é lembrado por seus registros, em diferentes partes do mundo, e suas fotos integram acervos de museus como o de Belas Artes de Zurique, na Suíça, o Museu de Arte Moderna La Tertulia, na Colômbia, e o Masp, em São Paulo.

O papa João Paulo II em sua segunda visita ao Brasil (Salvador, Bahia, 1991)

Nascido na cidade baiana de Irajuba, iniciou sua carreira jornalística em 1958, no jornal O Diário de Notícias, em Salvador, mas logo foi transferido para o Diário da Noite, na cidade do Rio de Janeiro, onde mora até hoje. Tornou-se uma figura mítica do fotojornalismo em 1963, quando ingressou no Jornal do Brasil e nele permaneceu por 47 anos.

Evandro esteve presente em lugares e momentos marcantes da história do Brasil e até de outros países. Algumas das suas coberturas mais importantes foram a chegada do general Castello Branco ao Forte de Copacabana durante o golpe militar de 1964, a repressão ao movimento estudantil no Rio de Janeiro, em 1968, e a queda do governo Salvador Allende, no Chile, em 1973, entre outras.

Tomada do Forte de Copacabana no golpe de militar (1964)

Cavalaria em ação na igreja da Candelária, em protesto durante a missa pela morte do estudante Edson Luís (1968)

Passeata dos 100 mil (Cinelândia, Rio de Janeiro, 1968

O jornalista que cobriu duas ditaduras disse ao portal Photos que se orgulha de ser um profissional inspirador para seus colegas de profissão e que o fotojornalismo é uma ferramenta importante no registro da história. Por ocasião das manifestações de 2013, Evandro foi questionado sobre como foi a sensação de reviver os protestos de 1968 e disse que procurou participar e sentir de perto o movimento. “As reivindicações são outras, mas os ideais são os mesmos. Não podia ficar fora! Hoje, não estou mais preso a um jornal, mas continuo com a minha missão e paixão, fotografar. Afinal, esta é a minha profissão.”

Redigido por Carolina Camejo
Hub ESPM-sul

19
out

O conjunto de excluídos de Anders Petersen: O Café Lehmitz

Retrato de Anders Petersen

Retrato de Anders Petersen

Anders Petersen nasceu em 1944 na cidade de Estocolmo, na Suécia. Começou a estudar pintura no ano de 1961, em Hamburgo, na Alemanha. Aos 22 anos, teve contato com Christer Strömholm e sua obra. Strömholm foi seu professor, iniciando-o na fotografia.

Foto: Anders Petersen

Em 1967, Anders começa a fotografar um bar em Hamburgo, o Café Lehmitz. Suas fotos buscavam retratar os frequentadores do local: prostitutas, travestis, alcoólatras e viciados em drogas. “Lehmitz foi meu primeiro trabalho que levei a sério. Eu realmente me identifiquei com essas pessoas e sua situação, esse grupo que estava fora da sociedade. Eu os respeitava. Eu me senti fortemente ligado a eles”, contou em entrevista ao jornalista Simon Bowcock, do The Guardian.

Foto: Anders Petersen

“As pessoas do Café Lehmitz tiveram uma presença e uma sinceridade que eu sentia falta. Tudo bem estar desesperado, ser terno, ficar sozinho ou aproveitar a companhia dos outros. Houve um grande calor e tolerância neste cenário desprovido”, disse o fotógrafo ao Rosphoto.org.


Foto: Anders Petersen

As sessões duraram três anos e, em 1970, o fotógrafo realizou sua primeira exposição, contendo 350 fotografias ambientadas no Lehmitz.

Em 1978, o projeto virou livro e, hoje, é um dos mais conceituados da história da fotografia europeia. O músico Tom Waits utilizou uma foto de Petersen na capa do seu álbum “Rain Dogs”.

Foto: Anders Petersen

Seu trabalho no Café Lehmitz o tornou conhecido por suas fotografias em preto e branco, seu estilo documental e a busca por retratar o íntimo das pessoas. Petersen expôs internacionalmente e ganhou vários prêmios durante sua carreira.

Redigido por Luis Henrique Cunha
HUB ESPM-Sul 
12
out

McNally: O Mágico de Oz

Retrato de McNally

 

Joe McNally é conhecido por sua criatividade e por sua capacidade de transformá-la em fotografias impressionantes. Seu cuidado com a técnica, como iluminação e composição, fica evidente em suas produções. Com trabalhos em quase 70 países, o fotógrafo conseguiu unir o mundo da publicidade com o do fotojornalismo.

 

Foto: Joe Mcnally

Ao longo de sua carreira, trabalhou com empresas como FedEx, Sony, ESPN, Adidas, General Electric e Epson. Além disso, fotografou para capas da National Geographic, LIFE e Sports Illustrated. Segundo o artista, seu grande diferencial é sua habilidade de pesquisa.

Foto: Joe Mcnally

Ganhou o primeiro Prêmio Alfred Eisenstaedt de Impacto Jornalístico pela cobertura da LIFE intitulada “Panorama da Guerra”.

Foto: Joe Mcnally

“Essa sessão, na verdade, foi uma história posterior. Eu busquei retratar, em zonas pós-guerra, a varredura da destruição. As consequências do conflito para as pessoas e lugares. O dano em toda a sua largura”, declara o artista.

Redigido por Luis Henrique Cunha
Hub ESPM-Sul
5
out

Alex Borja – Amazônia em preto e branco

Retrato Alex Borja

 

Alex Borja, 38 anos, fotografa profissionalmente há apenas 3 anos, mas já é reconhecido nacionalmente por retratar o cotidiano nas ruas. Em entrevista para o blog do Centro de Fotografia, ele contou que herdou o amor pela fotografia de sua mãe:

“Minha primeira câmera ganhei dela em 1998. Uma Olympus Trip 35, que tenho até hoje.”

 

Foto: Alex Borja

Foto: Alex Borja

Formado em engenharia civil, Borja tinha de fazer registros fotográficos de obras em andamento. Aos poucos ele acabou deixando a profissão de lado até migrar para a fotografia, sua paixão. “No decorrer da profissão de engenheiro eu tinha que fazer relatórios técnicos do andamento das obras e isso envolvia fotografia. Fui investindo cada vez mais em equipamentos e me aprofundando nos estudos.”

Desde 2015, Alex se dedica à fotografia documental e fotografia de rua. Depois de percorrer diversas cidades do estado do Amazonas, ele também registrou o cotidiano na tríplice Fronteira do Brasil, Peru e Colômbia e no Município de Benjamin Constant no alto do Rio Solimões.

Suas primeiras exposições foram resultados de imersões no cotidiano amazônico, com cliques feitos em diversas cidades do estado do Amazonas. Foram 19 exposições nacionais e três internacionais, sendo duas em Paris e uma na Espanha.

Foto: Alex Borja

Foto: Alex Borja

Foto: Alex Borja

O fotógrafo explica por que trabalha com preto e branco: “A fotografia colorida é óbvia. As cores já existem no subconsciente das pessoas, mas as fotografias em preto e branco despertam a curiosidade, te induzem a pensar e refletir, além das luzes, contrastes e foco serem mais expressivos.”

 

Redigido por Carolina Camejo
HUB ESPM-Sul
28
abr

Chernobyl 30 anos depois, por Quintina Valero


Entre abril de 2015 e março de 2016, a fotógrafa espanhola Quintina Valero percorreu a região de Narodychi, na Ucrânia, uma das mais afetadas pela explosão da usina nuclear de Chernobyl em 1986. Localizada 50 quilômetros a sudoeste do local do acidente, estima-se que a área teve cerca de 100 mil pessoas contaminadas pela radiação – em torno de 20 mil delas, crianças.

A tragédia maior se deve, segundo o relato da fotógrafa, ao enorme atraso na evacuação da população de Narodychi, que teria acontecido somente cinco anos após o acidente. Além da falha e consequente retardo na verificação dos níveis de radiação, as remoções teriam sido mal organizadas, deixando muitas pessoas para trás.

Há, no entanto, aqueles que acabaram retornando às localidades, seja pelo desejo de voltar a seus lares, pela descrença nos perigos da radiação ou pela necessidade de abandonar regiões em conflito para onde tinham se deslocado após o acidente. Também por falta de opção, muitos dos moradores acabam consumindo os alimentos que plantam no solo contaminado, aumentando os riscos em relação à saúde.

O cenário encontrado pela fotógrafa é de uma região abandonada. O atendimento médico é deficitário, sendo complementado com o apoio de órgãos internacionais. Doenças cardiovasculares, problemas no sistema imunológico e mortes por câncer atingem números alarmantes. Dramas que acabam se tornando parte de uma rotina desesperadora.

Quintina Valero estudou finanças e em 2001 se mudou para Londres, onde estudou fotojornalismo na London College of Communication. Suas séries retratam populações em situações de precariedade, muitas delas tematizando a questão da migração na Europa. Valero também já investigou a vida de ciganos nos Bálcãs e em países como Jordânia, França, Espanha e Inglaterra. A fotógrafa já exibiu seu trabalho em diversos países europeus.

 

 

 

18
abr

Jakob Schnetz: o universo absurdo das grandes feiras de negócios

 

Todo ano são realizadas em torno de 170 feiras nacionais de negócios na Alemanha, das quais participam cerca de 175 mil expositores que atraem milhões de pessoas das áreas mais variadas. De armas a animais de estimação, passando por artigos de luxo e beleza e chegando a inovações tecnológicas, todos esses itens são produtos que movimentam bilhões de euros somente na Alemanha. Esse universo é o foco do fotógrafo Jakob Schnetz na série Trade Fair [Feira de negócios].

 

 

 

O fotógrafo visitou feiras em cidades como Hannover, Berlim e Dusseldorf, no período de 2012 a 2014, com um olhar voltado a instantes que nos mostram algo em comum entre os eventos. Um certo clima absurdo que perpassa os espaços e que acaba fazendo com que todas as feiras se pareçam em alguma medida – e de fato, Schnetz não parece se interessar tanto pelo que está sendo negociado, e sim no entorno dos estandes.

 

 

 

As imagens por vezes apresentam um mundo que parece saído de um filme de ficção científica. Em outras, o que vemos é o humor do fotógrafo revelando detalhes que botam em xeque a racionalidade e assepsia dos locais onde são realizadas as feiras. Como se Schnetz insistisse em mostrar o que há de humano por trás de números e cifras. Um teatro que desaparece junto com os produtos expostos tão logo se encerram os eventos.

 

 

 

Nascido em 1991 em Freiburg, Alemanha, Jakob Schnetz estudou jornalismo na Universidade de Artes Aplicadas e Ciências de Hannover e em Tomsk, na Sibéria. Colabora com diversos jornais e revistas alemães e já ganhou prêmios como o German Youth Photo Prize com a série Trade Fair.

 

 

4
abr

Kristofer Dan-Bergman: retratos pós-conflitos na África

 

 

Ruanda, Burundi e Uganda são alguns dos países africanos que, nas últimas décadas, sofreram com graves conflitos, genocídios e migrações forçadas de milhares de pessoas. Na região, atuam instituições como a Global Good Fund, da qual o fotógrafo Kristofer Dan-Bergman é colaborador. Foi através dele que a ONG desenvolveu uma parceria com outra iniciativa, a Spark Micro Grants, que ajuda comunidades rurais pobres. Dessas articulações, nasceram as imagens que vemos no post de hoje.

 

 

 

 

Os retratos buscam restaurar – junto às demais propostas das entidades – um pouco da dignidade de pessoas que sofreram diversos traumas nos últimos anos. Dan-Bergman percorreu então diversos vilarejos do leste africano em busca dessas imagens, realizando também vídeos de entrevistas utilizados pela Spark Micro Grants para divulgar suas ações.

 

 

 

 

O fotógrafo conta que buscou apresentar seus personagens em meio à simplicidade de seus entornos, com todo o cuidado para não ser demasiadamente intrusivo. Os retratos escapam da dramatização excessiva, tampouco colocam os fotografados em posturas heroicas. Dan-Bergman parece querer mostrar que aquelas pessoas são gente, apenas, em busca de uma vida com o mínimo de condições para existir e voltar a sonhar.

 

 

 

 

Kristofer Dan-Bergman nasceu na Suécia e atualmente vive em Nova York. Já desenvolveu trabalhos de cunho social em países como Ruanda, Quênia e Camboja. Divide sua atuação também com projetos comerciais e pessoais, com exposições em diversas instituições.

21
mar

Chris De Bode: fotografando sonhos

 

 

I have a dream. A frase imortalizada por Martin Luther King dá nome ao ensaio do fotógrafo holandês Chris De Bode em torno da infância. Ele percorreu diversos países, retratando crianças de diferentes nacionalidades, buscando rostos e expressões que revelam uma mensagem universal. “Toda criança sonha em conquistar seu espaço nesse mundo, onde possam ser elas mesmas, sem que suas condições de vida as restrinjam”, conta o fotógrafo.

 

 

 

 

Suas imagens colocam os personagens em relação com seus entornos, deixando ver um pouco do contexto de suas vidas, em países como Haiti, Libéria, Jordânia, Índia, México, Turquia e Uganda. Ao mesmo tempo, os espaços contribuem para construir o componente teatral e onírico dos sonhos de cada criança.

 

 

 

 

“Algumas das crianças que conheci não eram desafiadas o bastante para fantasiar. Elas estavam simplesmente ocupadas em sobreviver. Para muitos de nós, o lugar em que nascemos determina nosso destino. Soa óbvio dizê-lo, mas essa é a dura realidade. Ainda assim, ninguém pode nos tirar nossos sonhos”, afirma o fotógrafo em entrevista ao site Lens Culture.

 

 

 

 

Fotógrafo, documentarista e cineasta, Chris De Bode passou a se interessar por fotografia em sua profissão anterior, como instrutor de escalada. Após uma viagem à Palestina, decidiu focar seu trabalho em questões humanitárias. Desde então, viajou a mais de 70 países coletando histórias, fotografando para instituições como Save the Children, Greenpeace e Oxfam.

 

 

 

17
mar

Richard Sandler: os olhos da cidade

 

 

Entre 1977 e 2001 o fotógrafo norte-americano Richard Sandler registrou rostos, corpos e paisagens de Nova York – com incursões também a Boston, especialmente nos primeiros anos –, desenvolvendo um relato visual sobre uma época que marcou a história da Big Apple. As imagens deste post integram o livro The Eyes of the City, lançado no ano passado.

 

 

 

 

Tudo começou nos anos 1970, quando Sandler foi presenteado com uma Leica 3F por Mary McClelland, esposa de um psicólogo de Harvard. Ela também lhe deu acesso a um laboratório de revelação, possibilitando, assim, o início da carreira do fotógrafo. À época, Sandler era um jovem que faltava às aulas para explorar as atrações da grande metrópole.

 

 

 

 

O escritor Jonathan Ames, que escreve o posfácio do livro, descreve a cidade representada pelas imagens de Sandler como “um jogo de ganância, decadência, venalidade, beleza, espera, significados ocultos, coincidências, amor, terror, vulgaridade, sofrimento, tédio e solidão”. Tudo isso compondo a matéria das contradições entre a ostentação de Wall Street e as marcas das tensões sociais expressas no grafite dos metrôs, sinais de uma Nova York repleta de conflitos.

 

 

 

 

A série de imagens de Sandler é uma investigação profunda do cotidiano nova-iorquino e das transformações que a cidade viveu do final dos anos 1970 até o início dos anos 2000, período que tem como marco final os atentados de 11 de setembro. Sandler mostra instantes de uma realidade que modificou-se muito nesse período e nos anos seguintes, mas que de certa forma ainda compõem o nosso imaginário da vida nas ruas de Nova York.

 

 

 

 

 

Além de fotógrafo, Richard Sandler é também documentarista, tendo filmado oito filmes sobre Nova York. Suas fotografias integram coleções de instituições como New York Public Library, Brooklyn Museum, New York Historical Society e Houston Museum of Fine Art.

 

 

24
jan

Valery Melnikov: as tensões na república de Lugansk

 

 

A revolução da praça Maiden, em Kiev, na Ucrânia, ocorrida entre 2013 e 2014, segue tendo consequências. Uma delas foi a intensificação de movimentos pró-Rússia no leste do país, o que levou a criação de duas repúblicas autoproclamadas: Donetsk e Lugansk, que se declararam independentes do governo ucraniano. A última é objeto de uma série de imagens do fotógrafo russo Valery Melnikov.

 

 

 

 

“Apesar das diversas tentativas de cessar-fogo e resolução do conflito, nenhum lado está pronto para baixar as armas”, conta o fotógrafo. Ao longo de aproximadamente três meses, a população de Lugansk ficou sem água e eletricidade, após cortes realizados pelo governo ucraniano.

 

 

 

 

Recentemente, negociações para trocas de prisioneiros avançaram, contribuindo para que o suprimento voltasse ao normal. Os conflitos na região levaram centenas de pessoas a buscarem novos lares. Enquanto isso, a tensão segue constante entre o governo de Kiev e os novos estados independentes pró-Rússia.

 

 

 

 

A posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos é mais um elemento que provavelmente terá consequências na situação geopolítica do leste europeu e nas relações entre Rússia e Europa ocidental. Novos capítulos da história de lugar de fronteira que demarca tensões entre as principais potências do mundo.

 

 

 

 

Valery Melnikov é um fotógrafo russo que já recebeu diversos prêmios por conta de coberturas de conflitos recentes como os da Síria e de Kiev. Dedica-se ao fotojornalismo desde o início de sua carreira e já teve imagens publicadas nos principais periódicos da Europa e dos Estados Unidos. Suas fotos de Lugansk lhe renderam um dos prêmios do concurso internacional da Magnum em 2016.

 

 

17
jan

Janne Körkkö: cenas de Serra Leoa pós-Ebola

 

 

O ensaio Money State Community do fotógrafo finlandês Janne Körkkö mostra o dia a dia de um lixão em Freetown, capital de Serra Leoa. O local revela consequências não só da pobreza como também da recente epidemia de Ebola no país.

 

 

 

 

Ao longo de um mês, Körkkö conviveu com os frequentadores e habitantes do local – muitos deles, moradores de rua e ex-combatentes infantis em conflitos da região. O trabalho é repleto de perigos devido ao contato com o lixo e também pelos crimes que acontecem no local.

 

 

 

 

A vida de muitas dessas pessoas se dá a maior parte do tempo no lixão, sendo normal os encontros para consumo de drogas à noite – momentos de uma “folga” em um lugar absurdo para se viver. A rotina dos habitantes do lixão ainda tem outro componente sórdido: cadáveres são levados ao local por famílias que não têm condições de pagar um enterro. Tudo isso somado ao temor de novas contaminações pelo Ebola.

 

 

 

 

Além de fotógrafo, Janne Körkkö também produz vídeos documentais. Seus trabalhos focam principalmente em questões de vulnerabilidade social.

13
dez

Suzanne Stein: o cotidiano de Skid Row, em Los Angeles

 

 

“As pessoas se abrem comigo porque se sentem honradas pela atenção. Me orgulha a permissão que me concedem para escutá-las e fotografá-las em momentos bastante intensos. Eu amo fotografar e busco criar coleções de imagens que reflitam a vida e seus momentos peculiares – em corridas, feiras, praias, desfiles… Mas aquelas fotos que eu me esmero para conseguir em Skid Row estão no meu coração. Descobri que todo mundo quer ser escutado por outra pessoa.”

 

 

 

 

O relato da fotógrafa norte-americana Suzanne Stein explica sua relação com os moradores de uma imensa área de Los Angeles, conhecida como Skid Row, onde vivem pelo menos seis mil pessoas em situação de vulnerabilidade – muitos dos quais, sem casa para morar.

 

 

 

 

Stein busca respeitar certos limites para preservar a imagem dos moradores de Skid Row e também sua própria integridade mental. Por vezes, diz a si mesma que é hora de partir. Ela também atende aos pedidos daqueles que não desejam ser fotografados. Dessa maneira, consegue acompanhar a vida da região e contar as histórias de quem lá vive em sua página do Tumblr.

 

 

 

 

“Enquanto me envolvo no processo, consigo me distanciar das situações que testemunho. É no fim do dia, muitas vezes, voltando para casa, que sou impactada pelo enorme peso do que vivenciei. Às vezes, quando termino uma dessas sequências, me restam poucas habilidades além do mais essencial: parar no sinal vermelho, mover meu corpo e comer algo que esteja no meu carro”, conta a fotógrafa em seu site.

 

 

 

 

Muitos dos fotografados somem sem deixar rastros, outros estão viciados em drogas e há ainda aqueles que correm riscos de serem agredidos física e sexualmente. Stein mostra o lado marginalizado de uma cidade que se notabilizou por seus estúdios de cinema e pelo imaginário da vida nos Estados Unidos construído por sua indústria. Imagens que são como um negativo do sonho americano.

10
nov

Kemal Jufri: a erupção do vulcão Merapi

 

 

Maior arquipélago – e 10º maior país – do mundo, a Indonésia está situada entre as placas tectônicas do Pacífico, Euro-Asiática e Indo-Australiana. São ao todo mais de 17 mil ilhas de origem vulcânica, com um histórico de erupções devastadoras ao longo da história, devidas aos sismos que atingem a região. Um desses eventos aconteceu em 2010, com a erupção do vulcão Merapi, que causou mais de 300 mortes e obrigou o deslocamento de 14 mil pessoas. As fotos de Kemal Jufri mostram as consequências desse evento e a relação do povo indonésio com os vulcões.

 

 

 

 

Em entrevista ao World Press Photo, o fotógrafo comenta que essa foi a maior erupção em 100 anos. Muitas pessoas já tinham sido evacuadas da região, mas tentaram voltar a suas casas para ver o que havia acontecido com o gado e seus pertences. Um retorno que foi fatal para muitos habitantes de vilarejos próximos ao vulcão.

 

 

 

 

Nas imagens, Jufri mostra não só registros mais objetivos e trágicos da erupção, como também detalhes da convivência dos indonésios com os vulcões, aos quais são associados divindades. Colheitas e oferendas são destinadas aos vulcões, muitas vezes vistos como vinculados à fertilidade do solo. Uma relação bastante particular, apesar do potencial destrutivo sempre presente na região.

 

 

 

 

Vivendo em Jacarta, capital da Indonésia, Kemal Jufri começou sua carreira como fotógrafo da agência France Presse. A partir do início dos anos 2000, passou a atuar como fotógrafo freelance, realizando coberturas para veículos como a revista Time e o jornal The New York Times, entre outras publicações consagradas. Suas imagens da erupção de 2010 foram reconhecidas em diversas premiações de fotojornalismo ao redor do mundo.

27
set

O edifício Moth, por Fredrik Lerneryd

 

 

Em Joanesburgo, capital da África do Sul, cerca de 400 pessoas haviam sido removidas de uma área residencial, tendo suas casas derrubadas para a construção de um shopping. Elas foram transferidas para o edifício Moth, localizado a alguns minutos de caminhada da estação central de trens. Era pra ser uma moradia temporária, ocupada pelo prazo de um ano. O período, no entanto, estendeu-se para seis anos.

 

 

 

 

As condições são precárias, embora desde fora não seja possível ter uma noção mais precisa de como é o interior do edifício. Em vez de paredes, as habitações são divididas por cortinas. Grande parte dos banheiros não funciona e o banho é sempre com água fria. A falta de saneamento resulta em um ambiente fétido. Além disso, focos de incêndio são comuns em alguns dos espaços.

 

 

 

 

Os problemas estruturais do edifício correspondem à vulnerabilidade dos moradores. Sem qualquer dinheiro, as famílias não conseguem colocar seus filhos em escolas. Para protegê-los, as mulheres assumem a posição de mães de todas as crianças. Desemprego e alcoolismo também fazem parte da rotina do Moth, que pouco a pouco vai se tornando um local de moradia sem perspectivas de mudança.

 

 

 

 

Fredrik Lerneryd é um fotojornalista sueco, vivendo em Nairobi, no Quênia, realizando coberturas para a agência AFP, para a mídia sueca e veículos como Al Jazeera e The Guardian. Em seus trabalhos, busca histórias de cunho social.

 

 

2
ago

Faisal Al Fouzan: os trabalhadores imigrantes e apátridas do Kuwait

À margem do progresso sugerido pela arquitetura espetacular do Kuwait, milhares de pessoas sobrevivem de forma precária e trabalham em condições deploráveis, já denunciadas por entidades como a Human Rights Watch. Na série Friday Gathering [Reunião de sexta-feira], Faisal Al Fouzan aproxima-se desse cotidiano e dos contrastes dessa realidade.

Pelo menos dois grupos marginalizados integram a força de trabalho no Kuwait. Os imigrantes figuram em maior volume: estima-se que componham 80% do total de trabalhadores do país. Além deles, há também os Bidun, como são chamadas os mais de cem mil apátridas que residem – muitas vezes de forma ilegal – no Kuwait e que encontram inúmeras dificuldades para mudar sua situação dentro do país.

Desde 2010, os imigrantes contam com uma legislação que determina um máximo de horas de trabalho, folga semanal e férias. A regulamentação, no entanto, excluiu trabalhadores domésticos, os quais se queixam de confinamentos, trabalhos prolongados, falta de pagamento ao longo de meses, bem como abusos verbais, físicos e sexuais.

A situação torna-se ainda mais complicada devido ao sistema de “patrocínio” (kafala), espécie de tutela à qual os imigrantes precisam se submeter: a residência legal de cada um deles está vinculada a um empregador. Para desvincular-se antes de três anos de kafala, é necessário o consentimento do empregador. Caso o imigrante, no decorrer desse período, deixe seu patrocinador sem consentimento, ele é considerado um foragido, podendo ser detido e mesmo deportado.

Fotógrafo auto-didata, Faisal Al Fouzan dedica-se à paisagem urbana do Kuwait e seus conflitos sociais, retratando principalmente populações marginalizadas. Fouzan também lança um olhar para o cotidiano do país – sua arquitetura e suas cenas cotidianas. Participou da Bienal de Veneza de 2012 e participou de diversas exposições coletivas no Oriente Médio e na Europa. Em 2014, foi premiado pela Magnum Foundation.


22
jul

Matjaz Krivic: Cavando o futuro

 

 

“Quero mostrar como as crianças ocidentais brincam no Playstation, enquanto as crianças nascidas no lado errado do mundo estão morrendo por isso.” O paralelo traçado pelo fotógrafo esloveno Matjaz Krivic é consequência de seu contato com mineiros de Burkina Faso, na África, na série Digging the Future [Cavando o futuro] – mais especificamente da região próxima à cidade de Bani, onde cerca de 15 mil trabalhadores, dos quais um terço é composto por crianças, se expõem aos perigos da mineração.

 


 

 

“Às vezes, leva-se duas semanas até que seja encontrada a quantidade de ouro usada em um smartphone. Concessionários autorizados pelo governo fazem vistas grossas para as crianças das minas, que sofrem e morrem sonhando com seu próprio Eldorado, ao custo de nossos telefones”, conta o fotógrafo.

 

 


 

Krivic relata ainda que a maioria das crianças exploradas na mineração nunca foi à escola – muitas delas, inclusive, não têm onde morar, e dormem amontoadas ao lado das minas. Ou seja, mais um exemplo de escravidão no mundo contemporâneo, com o agravante dos riscos imediatos e dos problemas de saúde que a longo prazo são comuns entre os mineiros.

 



 

Além de serem inalados no interior das minas, os metais pesados estão presentes na água utilizada pelos trabalhadores para consumo e higiene. O contato com essas substâncias ocorre também no processo de extração do ouro – que, por fim, ainda poluem o solo.

 

 


 

Ao longo de mais de 18 anos, Krivic retratou comunidades nativas de diversas regiões do planeta. Desde que passou a se dedicar à fotografia, viaja pela Ásia e pela África em busca de novas histórias. Seu trabalho também tem como foco as paisagens urbanas de países em desenvolvimento.

 



 

Os projetos multimídia e as instalações de Krivic são exibidas ao redor do mundo desde 1999, com mostras individuais realizadas em países como China, Rússia, Tibet, Croácia e Eslovênia, além de exposições coletivas apresentadas na Europa, na Austrália e nos Estados Unidos.

 



15
jul

Stefano Schirato: Olho por olho

 

 

Na Albânia, a fragilidade do Estado nas décadas que se seguiram ao fim da União Soviética levou o país a um resgate de leis tradicionais do seu passado tribal. Entre elas, o direito de uma pessoa se vingar de um assassinato matando um membro da família do assassino – artigo 7 do Kanun, espécie de código tradicional albanês. O ensaio Eye for an Eye [Olho por olho], do fotógrafo Stefano Schirato, traz à tona esse contexto.

 

 

 

 

Schirato conta que em torno de três mil famílias albanesas vivem num regime de isolamento voluntário, numa tentativa de evitar o destino trágico de vingança contínua entre famílias – em certos casos, fazer justiça com as próprias mãos é visto como uma obrigação pela comunidade. “Aqueles que não se vingam correm o risco de serem completamente excluídos”, afirma o fotógrafo.

 

 

 

 

“Para esse projeto, busquei retratar o impacto dessa situação na vida das famílias, especialmente na de seus membros mais jovens. Aqueles que são bem mais novos, de fato, passam o dia trancados em casa sem nada para fazer. Tentei encontrar famílias dos dois lados de um conflito, e me surpreendi ao encontrar algumas que ansiavam por vingança. Além desse sentimento, encontrei instabilidade emocional, raiva e depressão”, relata.

 

 

 

 

Nascido em Bolonha, Itália, em 1974, Stefano Schirato é graduado em ciências políticas. Desenvolve um trabalho voltado a questões sociais, tendo publicado suas fotografias em periódicos como Le Figarò e The Washington Post.

 

 

 

5
jul

Os personagens introspectivos de Kate Smuraga

 

 

“Minha cidade vem sendo constantemente destruída e reconstruída. Não se trata de uma cidade – melhor defini-la como uma ilusão de uma cidade. Enquanto você vive por lá, parece que tudo é um sonho. Amo minha cidade por essa estranha característica: a realidade empurra você para fora dela, de modo que o único a fazer é soltar as rédeas da imaginação.” A partir dessa reflexão sobre Vitebsk, em Belarus, sobre os empurrões que a levam para outros lugares e de volta a sua cidade natal, Kate Smuraga desenvolve a série Letter from the Quiet Town [Carta da cidade quieta], com um olhar que revela as inquietações e os universos particulares de jovens em países da antiga União Soviética.

 

 

 

 

Seus retratos mostram personagens em momentos de introspecção, em cidades como Vitebsk, Odessa (Ucrânia) e São Petersburgo (Rússia). Em cada um deles, percebe-se o interesse por uma aproximação com o que de mais íntimo em cada um dos fotografados. A composição cuidadosa, no entanto, não prejudica o ar de espontaneidade presente nas fotografias, como se Smuraga nos permitisse entrar no espaço de seus afetos com os amigos mais próximos.

 

 

 

 

Uma sensação de expectativa e de tédio perpassa as imagens, acompanhada de elementos que sugerem a criatividade necessária para lidar com as limitações e frustrações do cotidiano. Questões existências de uma geração da qual a fotógrafa faz parte e parece querer dar voz de forma sutil, por meio de encontros e deslocamentos.

 

 

 

 

Nascida em 1990, em Vitebsk (Belarus), Kate Smuraga graduou-se em história, teoria e crítica de arte pela Universidade de Cultura e Artes de São Petersburgo. Atualmente vive e trabalha em Minsk (Belarus), onde desenvolve seus projetos e colabora com artistas e pesquisadores.

 

1
jul

O povo Awá-Guajá, por Domenico Pugliese

 

 

O ensaio Awá: Alto Turiaçu, do fotógrafo italiano Domenico Pugliese, retrata o grupo do povo Awá-Guajá que habita a terra indígena Alto Turiaçu, no Maranhão. Além desse território, segundo informações da Funai, os Awá vivem em outras duas terras indígenas do estado, somando uma população de mais de 400 pessoas, também formada por grupos que vivem isolados.

 

 

 

 

 

 

Caçadores, os Awá necessitam de florestas vastas, pois percorrem grandes distâncias em busca de alimento – eles conhecem e dominam o território tendo como base os caminhos percorridos para caça. Essa forma de relação com a terra, no entanto, vem sofrendo diversas restrições, o que coloca em risco a sobrevivência dos Awá.

 

 

 

 

 

 

Com a pressão da colonização, os Awá movimentaram-se em direção aos rios Turiaçu, médio Gurupi e alto Caru, no Maranhão, onde viviam inimigos tradicionais – Kaa’por e Tenetehara. O encontro de característica belicosa foi um primeiro capítulo da redução de sua população, segundo a Funai. Mais tarde, na década de 1940, o desenvolvimento da produção de algodão empurrou novamente os Awá para outros locais, nos quais se expuseram ao contato com a sociedade nacional.

 

 

 

 

 

 

Na década de 1970, o fluxo migratório aumentou por conta da abertura das rodovias BR-316 e 222, o que levou a Funai a estabelecer contato com os Awá em 1979. A proteção dos indígenas se dá pela garantia de proteção territorial das áreas ocupadas. No entanto, há décadas os Awá lidam com invasões de posseiros, garimpeiros e madeireiros, que além de lhes roubar a terra, colocam os grupos em contato com doenças como a malária.

 

 

 

 

 

 

Nascido na Itália em 1967, Domenico Pugliese vive em Londres desde 1991. Estudou fotojornalismo na Hamlet College e é fotógrafo freelance desde 1999, dedicando-se a trabalhos documentais no continente americano, do México a Terra do Fogo.

 

17
jun

Paul Nicklen: as focas-leopardo da Antártida

 

 

Em nosso segundo post sobre os trabalhos do fotógrafo Paul Nicklen, apresentamos uma reportagem sua sobre as focas-leopardo (ou leopardos-do-mar), na Antártida. Segundo a matéria da National Geographic que teve Nicklen como repórter fotográfico, essa espécie é a única considerada de fato uma predadora entre as focas, chegando a ter 4 metros de cumprimento e mais de 450 quilos de peso.

 

 

 

 

“Essa foi a reportagem mais gratificante que já fiz em minha carreira. As focas-leopardo são os animais mais incríveis que tive o prazer de fotografar”, conta Nicklen à National Geographic. “Quando você está na água com um animal selvagem, você se entrega àquele animal, pois nós, humanos, somos extremamente vulneráveis nessas circunstâncias”, explica.

 

 

 

 

No verão austral, as focas-leopardo esperam em águas rasas, próximas a colônias de pinguins, para se alimentar de pássaros jovens que se aproximam da água pela primeira vez. Também fazem parte da alimentação dessa espécie pinguins, peixes, crustáceos, lulas e outras focas.

 

 

 

 

As imagens dão conta do nível de conhecimento sobre a vida marinha que Nicklen acumulou ao longo de sua trajetória. A proximidade com os animais permite um grau de realismo e crueza raramente alcançados.

 

 

 

 

“Foi ótimo ter a aceitação desse animal para interagir da forma como interagimos. As focas-leopardo não somente não me atacaram, como alguns esperavam: elas me seguiram e fizeram um verdadeiro show para mim. Já fotografei diferentes espécies ao redor do mundo, mas essa reportagem ficará comigo para sempre”, relembra o fotógrafo.

10
jun

Paul Nicklen: a vida no gelo e nos mares

 

 

“Se me vejo lado a lado com um monte de fotógrafos, sei que estou no lugar errado. Se estou com frio, em situação deplorável, sozinho e imerso no mar congelado – meus assistentes odeiam que eu faça isso –, em meio a animais gigantes me olhando com partes do corpo afiadas e proeminentes, sei que estou no lugar certo.” Assim, o fotógrafo canadense Paul Nicklen descreve sua forma de atuar – e de fato, suas imagens atestam o tipo de envolvimento que ele busca em cada reportagem.

 

 

 

 

Nicklen cresceu nas ilhas Baffin, no Ártico canadense. Por quatro anos, trabalhou como biólogo na região norte do Canadá. Nessa experiência, descobriu-se com interesses mais artísticos do que exatamente científicos. A partir de 1994, passou então a se dedicar exclusivamente à fotografia.

 

 

 

 

Ao longo de sua trajetória, Nicklen já realizou dezenas de reportagens para a National Geographic, cobrindo assuntos ligados à preservação do meio ambiente e à história natural. Sua relação íntima com a natureza tem origem na infância, mais exatamente no período que conviveu com os Inuit, uma das nações indígenas esquimós.

 

 

 

 

Com os esquimós, Nicklen diz ter aprendido sobre os ecossistemas das regiões mais frias do planeta e sobre as técnicas necessárias para sobreviver em temperaturas extremas. Essa bagagem formou os alicerces para uma carreira especializada em reportar a vida selvagem nas regiões polares e nos oceanos.

 

 

 

 

A partir de seus ensaios, Nicklen busca contribuir de alguma forma com a preservação de ecossistemas e espécies em risco. O fotógrafo é um dos fundadores da SeaLegacy, entidade que busca chamar atenção para questões relacionadas à vida marinha. Seu trabalho já lhe rendeu mais de trinta prêmios internacionais dedicados a temáticas ambientais.

 

 

 

 

 

17
mai

Fatemeh Behboudi: Mães da paciência

 

 

Em qualquer conflito armado, a tragédia das vidas perdidas se multiplica se pensarmos que cada morte traz consigo o sofrimento daqueles que ficam e precisam aprender a lidar com as ausências. Há também outro tipo de dor, perturbadora de modo distinto: aquela da expectativa de que alguém volte, por menos provável que isso possa parecer. Na série Mothers of Pacience [Mães da paciência], a fotógrafa Fatemeh Behboudi acompanha de perto a eterna espera de mulheres iranianas por seus filhos, desaparecidos durante a guerra entre Irã e Iraque.

 

 

 

 

Iniciada em 1980, com a invasão iraquiana de territórios do Irã, a guerra entre os dois países se estendeu até 1988 – considerada, portanto, o mais longo conflito bélico convencional do século 20. Depois de assinada a paz, contabilizou-se em 10 mil o número de soldados iranianos dos quais não se sabia o paradeiro.

 

 

 

 

“Nasci durante a guerra, e toda minha infância e juventude foi perdida em nome dela. Todos os dias, escutava que os corpos de um grande número de mártires haviam sido trazidos. Fui com minha família receber os corpos de desconhecidos e vi mães que procuravam os de seus filhos”, recorda a fotógrafa. Nos últimos anos, em torno de 7 mil corpos foram encontrados no Irã, mas devido a dificuldades de identificação, foram registrados como mártires anônimos e enterrados. Do outro lado da fronteira, no Iraque, estima-se que 5 mil corpos ainda estejam sem terem sido sepultados.

 

 

 

 

Na rotina das mães, o apego a cartas e roupas que ficaram para trás é constante. Depois de décadas de espera, muitas delas acabam conseguindo identificar seus filhos por meio de exames de DNA e de objetos encontrados junto aos corpos. Com intervalos de alguns meses, são realizados enterros de corpos encontrados próximos da fronteira Irã-Iraque. Os funerais são atendidos por muitas das mães que ainda aguardam alguma notícia de seus desaparecidos.

 

 

 

 

Nascida no Teerã, capital do Irã, Fatemeh Behboudi estudou fotografia e, depois de graduar-se em 2007, trabalhou em veículos e agências de comunicação iranianas. Nos últimos anos, tem participado e recebido distinções de diversas festivais e exposições relacionados à fotografia.

 

12
abr

Os percursos da Lapa à Vila Mimosa, de Schari Kozak

 

Foto: Manuel da Costa

 

Resultado de uma imersão nas ruas do Rio de Janeiro ao lado de quem vive intensamente o calor do asfalto carioca, o ensaio Brutal Corre: da Lapa à VM, da fotógrafa Schari Kozak, está em cartaz no Espaço Cultural ESPM-Sul até 14 de maio. As imagens – apresentadas pela fotógrafa como trabalho de conclusão no curso de Jornalismo da ESPM-Sul – mostram a rotina do grupo de corrida Brutal Corre, surgido do coletivo Brutal Crew, que desde 1999 dissemina o rap e o hip hop, dando oportunidade a novos talentos da capital fluminense.

 

 

 

 

Ao longo de cinco meses, entre julho e novembro de 2015, Schari acompanhou – correndo ou de bicicleta – percursos de cinco quilômetros realizados entre o bairro da Lapa e a Vila Mimosa, uma das mais antigas áreas de prostituição da cidade, localizada na zona norte do Rio. “Foi uma experiência extremamente gratificante e desafiadora, não só como trabalho, mas também em relação aos limites do meu corpo”, conta a fotógrafa. Muito além do registro da prática de um exercício físico, as imagens revelam uma certa experiência do espaço urbano de pessoas que buscam outro tipo de relação com a cidade, rompendo preconceitos e interdições de barreiras sociais.

 

 

 

 

Schari destaca a transformação na rotina da VM – apelido da Vila Mimosa –  ao final das corridas, que fazem parte de uma parceria da Brutal Corre com o Interferência Sistema de Som (tradicional sound system carioca). “Essa energia me contagiou já no primeiro encontro com a Brutal Corre. Foi na reta final, depois de cruzar prédios históricos e muros pichados, ouvindo ecoar o grito que pedia passagem – ‘Brutal: só sinistro!’ –, vendo a diversidade de cores e de pessoas que povoavam a Vila Mimosa, que percebi o quanto gostaria de fazer parte daquilo de alguma forma”, relembra a fotógrafa.

 

 

 

 

Ex-monitora do Centro de Fotografia da ESPM-Sul, Schari Kozak é fotógrafa freelance. Vivendo atualmente no Rio de Janeiro, desenvolve pesquisas, projetos pessoais e trabalhos de caráter jornalístico e publicitário relacionados ao esporte. Além de Só sinistro, outros ensaios estão disponíveis em seu portfólio virtual.

 

Exposição Brutal Corre: da Lapa à VM, de Schari Kozak
Espaço Cultural ESPM-Sul
Rua Guilherme Schell, 268
Visitação: de segunda à sexta-feira, das 8h às 22h; sábados, das 9h às 15h.

 

1
abr

Antonio Faccilongo: a espera das mulheres palestinas

 

 

Um olhar em direção a uma das consequências do conflito entre israelenses e palestinos no Oriente Médio é apresentado pelo fotógrafo italiano Antonio Faccilongo no ensaio (Single) Women. A série retrata histórias de mães, filhas e esposas de presos políticos palestinos que estão em prisões de Israel.

 

 

 

 

“Ao aguardar o retorno de seus companheiros, essas mulheres lutam para ajudar suas famílias, econômica e emocionalmente, encontrando-se, muitas vezes, com muitas crianças para criar”, conta o fotógrafo. “Me intrigava pensar em como a vida delas ficava em suspenso durante essa espera”, completa.

 

 

 

 

A suspensão mencionada por Faccilongo é sugerida nos parênteses do título (Single) Women – uma indicação de que o distanciamento das famílias seja, talvez, provisório. Nas imagens, além da postura de recolhimento das mulheres, chamam atenção os detalhes da decoração das casas e o vazio que preenche os espaços domésticos ao redor das fotografadas.

 

 

 

 

Fotojornalista, Antonio Faccilongo vive em Roma. Estudou Comunicação, com mestrado em Fotografia, e passou então a se dedicar ao trabalho documental, cobrindo questões sociais e políticas na Ásia e no Oriente Médio. Suas reportagens já foram publicadas em periódicos como Le Monde, L’Espresso e The Guardian.

 

 

 

29
mar

Adam Panczuk: Karczebs, arraigados ao solo

 

 

Em 2005, um ano após o ingresso da Polônia na União Europeia, o fotógrafo Adam Panczuk decidiu viajar pelas regiões rurais do país para retratar um contexto prestes a se transformar a partir da recente integração no bloco econômico. Nesse percurso, Panczuk passou a dedicar atenção especial aos personagens dessas localidades e à sua relação com terra. A série Karczeby resulta desse processo de descoberta.

 

 

 

 

O nome do ensaio deriva de uma expressão dialetal do leste da Polônia: são chamadas de “Karczebs” as pessoas intensamente arraigadas ao solo onde vivem – e onde suas famílias residem há gerações. A mesma palavra é usada para nomear a parte que resta de uma árvore depois de ser cortada – o pedaço de tronco com raízes que não se desliga da terra. Tal imagem também serve de metáfora, lembra o fotógrafo, para a resistência dos habitantes a tentativas de remoção, especialmente nos tempos do stalinismo.

 

 

 

 

Panczuk coloca em cena o apego à terra por meio de retratos. Chama atenção como na maioria das imagens os fotografados se aferram a objetos – ou mesmo animais – e como tudo parece estar de fato intimamente conectado com o solo. Com essa abordagem, mais do que documentar uma determinada região, Panczuk torna universais seus personagens e o vínculo a seu lugar de origem.

 

 

 

 

Nascido em 1978, Adam Panczuk vive em Varsóvia. Estudou fotografia no departamento de comunicação da Universidade de Poznan. Em seus trabalhos, explora questões relacionadas à identidade de quem encontra nas suas viagens. Já recebeu prêmios como o Magnum Expression Award e teve imagens publicadas em periódicos como National Geographic e Le Monde. Também realizou exposições individuais em diversos países da Europa e nos Estados Unidos.

14
jan

O ano de 2014 em imagens

O jornal The New York Times fez uma seleção das imagens que marcaram o ano de 2014 na imprensa internacional. No texto que acompanha a retrospectiva, Dana Jennings, um dos editores do periódico, destaca a importância do fotojornalismo, ainda mais em tempos nos quais vivemos cercados por estímulos visuais. “Com uma única imagem poderosa, você precisa parar, observar e então mergulhar, cair na pureza do seu momento”, observa Jennings. Confira um apanhado das fotografias:

 

Kiev, Ucrânia. 19 de fevereiro de 2014. Manifestantes antigoverno queimam barricadas para impedir que a polícia entre na Praça da Independência. Sergey Ponomarev para The New York Times

 

Jerusalém, Israel. 26 de maio de 2014. Acompanhado por um rabino, o Papa Francisco reza no Muro das Lamentações, o lugar mais sagrado do Judaísmo. Vincenzo Pinto/Associated Press

 

Detroit, Estados Unidos. 30 de abril de 2014. Theodore Roosevelt Pritchett Jr. em sua casa, entre duas residências abandonadas. Fred R. Conrad/The New York Times

 

Belle Plaine (Minnesota), Estados Unidos. 30 de abril de 2014. Aula de educação física do oitavo ano de uma escola é interrompida por alerta de tiroteio. Alec Soth/Magnum Photos

 

Campo de refugiados de Zaatari, Jordânia. 27 de agosto de 2014. Yasmeen Ritaj (16 anos), com sua filha, abandonou o marido violento durante a gravidez e retornou à sua família. Lynsey Addario para The New York Times

 

Monrovia, Libéria. 09 de maio de 2014. Médicos levam James Dorbor (8 anos) para um centro de tratamento contra o Ebola, após ele ter esperado horas do lado de fora. Daniel Berehulak para The New York Times

 

Istambul, Turquia. 12 de março de 2014. Uma garota é ferida no conflito entre a polícia e os manifestantes antigoverno. Bulent Kilic/Agence France-Presse – Getty Images

 

Rio de Janeiro. 9 de janeiro de 2014. Pessoas jogam futebol durante o pôr-do-sol em Ipanema, antes da Copa do Mundo. Yasuyoshi Chiba/Agence Frence-Presse – Getty Images

16
mai

Ricardo Chaves exibe mostra retrospectiva

Retrato de Ricardo Chaves

Até o dia 1º de junho, o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana) recebe a exposição A força do tempo, do fotojornalista Ricardo Chaves. A mostra do 7º FestFotoPOA, organizada por Carlos Carvalho, reúne imagens de 38 coberturas realizadas pelo fotógrafo ao longo de uma carreira de mais de 40 anos e um painel com 196 retratos. O blog do Centro de Fotografia da ESPM-Sul teve a oportunidade de visitar a retrospectiva ao lado de Kadão. Compartilhamos aqui um pouco dos bastidores das reportagens, contados pelo próprio fotógrafo e pelos documentos – fac-símiles de jornais, entre outros – que integram a exposição.

Alguns dos momentos mais importantes da trajetória profissional de Kadão tiveram lugar em coberturas internacionais. Aos 20 anos, munido de uma autorização dos pais (necessária na época) para poder viajar ao exterior, Kadão cobriu as eleições presidenciais uruguaias de 1971. “Foi muito impactante. Saí desse túmulo político que era o Brasil, onde todos tinham medo, e encontrei um país com manifestações, comícios e livros de todas as tendências sendo vendidos nas ruas”, conta. No entanto, pouco tempo depois, em 1973, um golpe militar instaurava uma ditadura no Uruguai. O Congresso fechado pelo novo governo aparece em uma das fotografias que fazem parte da exposição: um plano composto pelo edifício do Legislativo, uma avenida deserta e três crianças que brincam – uma delas, com uma arma de brinquedo em punho. Uma imagem que sugere o vazio político e a violência que tomavam conta da América Latina.

Foto: Ricardo Chaves

Em outra fotografia da mostra, surge novamente uma arma – dessa vez, de verdade e engatilhada. Três homens discutem em um posto de gasolina. Um deles aponta um revólver. Kadão, que havia acordado com o som de um tiro, observou tudo da janela do apartamento onde morava na década de 1980, em São Paulo. O homem que era ameaçado acabou fugindo. Em seguida, chegava a Polícia Militar, mas ninguém foi preso. Kadão recorda que, na apuração da matéria, nem a loja de conveniências nem a PM pareciam se importar com o seu relato. A impressão inicial de um assalto transformou-se na suspeita de que a imagem registrava o envolvimento de um policial em um “acerto de contas”. A foto foi capa do jornal O Estado de São Paulo, entretanto, permaneceu o mistério em torno do que realmente teria ocorrido. “Um pouco Blow Up: aconteceu, mas não aconteceu”, diz Kadão, associando a imagem ao filme de Michelangelo Antonioni em que uma fotografia registra por acaso um possível crime.

Foto: Ricardo Chaves

A exposição apresenta também a cobertura do incêndio de uma loja da Renner, na avenida Otávio Rocha, em Porto Alegre. A matéria foi publicada pela revista Veja, em 1976, com uma série de fotos que mostra o desespero das pessoas que estavam no edifício no momento da tragédia. Da redação, Kadão viu a coluna de fumaça que se formava e correu até a rua para descobrir o que estava acontecendo. “Quando cheguei perto do prédio, já caía o primeiro corpo”, conta.

Foto: Ricardo Chaves

Trabalhando na sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre, Kadão registrou o incêndio da redação de Zero Hora, em 1973. “O motorista do Jornal do Brasil estava indo para casa. Passava em frente a Zero Hora quando viu o incêndio. Como na época não tinha essa barbadinha do celular, ele voltou para a redação, me apanhou e eu fiz as fotos”, conta. Depois de revelar o filme e enviar uma telefoto para o JB no Rio de Janeiro, Kadão voltou ao prédio da ZH para saber se havia feridos. Chegando lá, descobriu que os jornalistas tinham saído do prédio com segurança e estavam na redação do Jornal do Comércio, que gentilmente cedia sua redação para a concorrência. A imagem estampou a capa de ZH no dia seguinte, acompanhada da manchete “Incêndio não parou jornal”.

Foto: Ricardo Chaves

“Todos nós, fotógrafos, corremos atrás de imagens que de alguma maneira representem a época em que vivemos. Somente nós, que estamos vivendo esse período, podemos fazer um registro simbólico desses momentos”, diz Kadão. Algumas das imagens tornam-se icônicas, como é o caso das fotos de conflitos entre policiais e manifestantes contrários ao regime militar, nos anos 1970. A cobertura dos enfrentamentos, na avenida João Pessoa, em Porto Alegre, rendeu a Kadão o prêmio Abril de Fotografia de 1977. Uma das imagens dá a ver de forma bem humorada a tentativa aparentemente frustrada de controlar os protestos.

Foto: Ricardo Chaves

Nascido em 1951, Ricardo Chaves passou a consolidar o seu interesse pela fotografia em 1969, frequentando a redação de Zero Hora. Na equipe da Veja, cobriu a visita do Papa João Paulo II à Polônia, ainda governada por dirigentes comunistas, em 1979 – o retorno de Karol Wojtyla a seu país de origem foi fundamental para o movimento antissoviético Solidariedade, liderado por Lech Walesa, que mais tarde se tornaria presidente da Polônia. Ainda pela Veja, cobriu em 30 de abril de 1981 o atentado do Riocentro, no Rio de Janeiro – acontecimento que contribuiu para o enfraquecimento do regime militar no Brasil. Trabalhou ainda na revista Istoé e na Agência Estado, cobrindo importantes acontecimentos da política brasileira e do esporte. Em 1992, retornou a Porto Alegre como editor de fotografia de Zero Hora, função que ocupou por duas décadas. Desde 2011 é editor da coluna Almanaque Gaúcho, de ZH, que resgata fatos e curiosidades históricas.

Foto: Ricardo Chaves

Exposição A força do tempo, de Ricardo Chaves
Aberta até 1º de junho de 2014
Local: Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – 6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico – Porto Alegre)
Visitação: segunda-feira, 14h-19h; terça a sexta-feira, 10h-19h; sábado, domingo e feriados, 12h-19h
Entrada franca

14
mai

“Eu não escrevi as regras, por que deveria segui-las?” W. Eugene Smith

Retrato de William Eugene Smith.

 

Americano nascido no Kansas, William Eugene Smith (1918 – 1978) é considerado um clássico: sua obra permanece repleta de significado histórico e estético mesmo com o passar das décadas. Fotojornalista, tornou-se membro da Magnum em 1955, quando já era conhecido pelas imagens sensíveis e brutais feitas durante a Segunda Guerra Mundial e pelo rigor com que se mantinha fiel a seus princípios profissionais. Entretanto, foi no campo da fotografia social que se tornou referência. Até então, nunca havíamos falado diretamente sobre o fotógrafo no blog, mas seu nome aparece em diversas postagens sobre jovens fotógrafos agraciados com o prêmio da fundação que carrega seu lema. Seguindo a tradição humanista, a Eugene Smith Foundation concede desde 1979 bolsas para o desenvolvimento de ensaios com temáticas sociais.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Ilustram este post imagens de uma de suas reportagens mais inovadoras, Country Doctor, publicada na LIFE em 1948. Para fazê-la, Smith passou 23 dias em Kremmling, Colorado, transformando em crônicas fotográficas os desafios da rotina de um médico. Ao republicá-la online seis décadas depois, a publicação sublinhou que as imagens pareciam tão frescas quanto no momento em que chegaram na redação. Como o médico retratado, Smith também era considerado incansável. Por sua dedicação excessiva, muitos editores o classificavam como “problemático”.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Precoce, Smith tirou suas primeiras fotos publicadas aos 15 anos, para dois jornais locais. Em 1936, ingressou na Notre Dame University, em Witchita, que criou uma bolsa para estudos fotográficos especialmente para ele. Deixou a universidade um ano depois e partiu para Nova Iorque, onde estudou com Helene Sanders no New York Institute of Photography. A primeira experiência profissional veio em 1937, na Newsweek (ainda News-Week), mas foi logo demitido por se recusar a utilizar câmeras de médio-formato. A partir daí, tornou-se integrante da agência Black Star como freelancer.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Smith trabalhou como correspondente de guerra para a revista Flying entre 1943 e 1944, e um ano depois para a Life, onde publicou suas mais conhecidas imagens. Por cobrir a mítica ofensiva norte-americana no Japão simulando ser um combatente, sofreu um grave ferimento que o rendeu mais de trinta cirurgias. Seguindo a máxima cunhada por Robert Capa (“Se suas fotos não estão boas o suficiente, você não está perto o suficiente”), suas imagens impressionavam justamente pela proximidade com os assuntos, mostrando o terror da guerra quase dos olhos de um oficial do exército.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Entretanto, Smith tornou-se referência pelos ensaios que exploravam temas sociais. Um dos mais famosos, Aldeia Espanhola, exemplifica a forma como personificou a fotografia humanística. Publicada na LIFE, em 1952, a reportagem mostrava a rotina de uma vila espanhola em meio à miséria durante a ditadura franquista. Em 1955, ingressou no time de veteranos da Magnum e seguiu desenvolvendo grandes ensaios – alguns realizados durante meses ou anos de profunda imersão.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

“A fotografia é uma pequena voz, na melhor das hipóteses, mas às vezes, apenas às vezes, uma fotografia ou um grupo delas pode atrair nossos sentidos à consciência. Muito depende do espectador. Em alguns, as fotografias podem convocar a emoção o suficiente para se tornarem um catalisador para o pensamento.”
W. Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

 

Foto: William Eugene Smith.

18
mar

“Fotografia é a única língua que pode ser entendida em qualquer lugar do mundo” Bruno Barbey

 

Nascido no Marrocos em 1941, Bruno Barbey é um fotógrafo prolífico, conhecido por se expressar através de seus livros, projetos autorais, documentais e jornalísticos. Radicado na França, passou a integrar a equipe de fotógrafos da Magnum em 1964, tornando-se um membro pleno em 1968. Sua carreira já soma mais de quatro décadas repletas de viagens pelos cinco continentes, o que inclui inúmeras zonas de conflitos. Ainda que não se considere um fotógrafo de guerra, cobriu tumultos militares e civis na Nigéria, Vietnã, Oriente Médio, Bangladesh, Camboja, Irlanda, Iraque e Kuait. As imagens neste post, entretanto, são exemplos de seu esforço em capturar características culturais de países como Índia, China, Filipinas, Nigéria e Marrocos, país de sua infância e tema de boa parte de seu portfólio.

 

 

 

Publicado nas principais revistas do mundo, Barbey é conhecido especialmente por seu livre e harmonioso uso de cores, ainda que tenha trabalhado com imagens P&B no início de sua carreira. De 1959 a 1960, estudou fotografia e artes gráficas na Ecole des Arts et Métiers em Vevey, na Suíça. Seu primeiro ensaio de destaque, Naples’, Switzerland (1964), retratou italianos como protagonistas de um “mundo pequeno e teatral” – tudo com o declarado objetivo de capturar fotograficamente o espírito de uma nação.

 

 

 

Durante os anos 1960, foi comissionado pela Editions Recontre para documentar situações de conflito em países europeus e africanos, além de contribuir regularmente com a revista Vogue. A relação com a Magnum iniciou em 1964. No ano em que se tornou um membro pleno, 1968, documentara a agitação política e as manifestações de estudantes franceses em Paris.

 

 

 

Outra de suas mais aclamadas obras é Poland (1981), fruto de dois anos vivendo na Polônia com o objetivo de registrar um momento de virada na história do país. Barbey já recebeu diversos prêmios por seu trabalho, incluindo o Oversees Press Club Award, o University of Missouri Photojournalism Award e a Ordem Nacional de Mérito francesa. Em 1999, o Petit Palais (Musée des Beaux Arts) da cidade de Paris produziu uma grande exposição de suas fotografias feitas no Marrocos ao longo de 30 anos.

 

 

20
dez

A vertigem de Entre Morros, por Claudia Jaguaribe

 

Formada em História da Arte pela Boston University, a carioca Claudia Jaguaribe (1956) se dedica intensamente à pesquisa plástica com um trabalho que se vale de diferentes mídias: vídeo, internet e especialmente fotografia. A cada novo ensaio, evidencia o que os críticos chamam de “inquietação visual”: uma busca por retratar os desafios do mundo contemporâneo – seu ritmo acelerado e suas constantes incertezas, inseguranças e idiossincrasias – e ao mesmo tempo satisfazer sua veia criativa. São os contrastes da realidade dos morros de sua terra natal vistas em um contexto panorâmico que chamam a atenção no recém lançado Entre Morros (2012), cujas imagens ilustram este post. Depois do livro Rio de Janeiro (2006), fruto de uma parceria com Luiz Alfredo Garcia-Roza, Jaguaribe volta a clicar a cidade com a proposta de levar o espectador a uma viagem imaginária, surpreendente e com ares de metalinguagem.

 

 

 

Nas palavras do jornalista Alexandre Belém, a obra mescla cenários gerados pela câmera com aqueles presentes na memória afetiva de Claudia, radicada há muito em São Paulo. Cartões postais ganham novos ângulos e cenas típicas da cidade não aparentam ser tão reais. Editado pela Cosac Naify, a obra traz textos do professor da UFRJ Mauricio Lissovsky, de Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, e do jornalista Antonio Gonçalves Filho. A concepção do livro é diferenciada e dá outro caráter às imagens: as páginas são compostas por um conjunto de fotografias panorâmicas verticais que, interrompidas por um folder, demandam manuseio. Após sua abertura é possível conferir, também, um panorama horizontal.

 

 

 

Com quase 25 anos de carreira, Jaguaribe começou sua trajetória profissional aliando a experiência didático-acadêmica à editorial. Realizou trabalhos de moda e publicidade para revistas e jornais brasileiros e internacionais, como Veja, Exame, Playboy, The Harvard Magazine, Vogue, Marie Claire, O Globo, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil. Claudia realizou sua primeira mostra individual em 1982. A partir daí, passou a expor regularmente em capitais brasileiras e no exterior. Trabalhos de sua autoria foram exibidos nos Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo (MAM), no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo; no Kennedy Center, em Washington, e no Paço das Artes, no Rio. Além disso, seus vídeos foram exibidos nos principais festivais nacionais e internacionais, como o Alucine – Toronto, Mostra Audiovisual Paulista, e Festival de Santiago Alvarez – Cuba.