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Posts from the ‘Entrevistas’ Category

12
abr

Os percursos da Lapa à Vila Mimosa, de Schari Kozak

 

Foto: Manuel da Costa

 

Resultado de uma imersão nas ruas do Rio de Janeiro ao lado de quem vive intensamente o calor do asfalto carioca, o ensaio Brutal Corre: da Lapa à VM, da fotógrafa Schari Kozak, está em cartaz no Espaço Cultural ESPM-Sul até 14 de maio. As imagens – apresentadas pela fotógrafa como trabalho de conclusão no curso de Jornalismo da ESPM-Sul – mostram a rotina do grupo de corrida Brutal Corre, surgido do coletivo Brutal Crew, que desde 1999 dissemina o rap e o hip hop, dando oportunidade a novos talentos da capital fluminense.

 

 

 

 

Ao longo de cinco meses, entre julho e novembro de 2015, Schari acompanhou – correndo ou de bicicleta – percursos de cinco quilômetros realizados entre o bairro da Lapa e a Vila Mimosa, uma das mais antigas áreas de prostituição da cidade, localizada na zona norte do Rio. “Foi uma experiência extremamente gratificante e desafiadora, não só como trabalho, mas também em relação aos limites do meu corpo”, conta a fotógrafa. Muito além do registro da prática de um exercício físico, as imagens revelam uma certa experiência do espaço urbano de pessoas que buscam outro tipo de relação com a cidade, rompendo preconceitos e interdições de barreiras sociais.

 

 

 

 

Schari destaca a transformação na rotina da VM – apelido da Vila Mimosa –  ao final das corridas, que fazem parte de uma parceria da Brutal Corre com o Interferência Sistema de Som (tradicional sound system carioca). “Essa energia me contagiou já no primeiro encontro com a Brutal Corre. Foi na reta final, depois de cruzar prédios históricos e muros pichados, ouvindo ecoar o grito que pedia passagem – ‘Brutal: só sinistro!’ –, vendo a diversidade de cores e de pessoas que povoavam a Vila Mimosa, que percebi o quanto gostaria de fazer parte daquilo de alguma forma”, relembra a fotógrafa.

 

 

 

 

Ex-monitora do Centro de Fotografia da ESPM-Sul, Schari Kozak é fotógrafa freelance. Vivendo atualmente no Rio de Janeiro, desenvolve pesquisas, projetos pessoais e trabalhos de caráter jornalístico e publicitário relacionados ao esporte. Além de Só sinistro, outros ensaios estão disponíveis em seu portfólio virtual.

 

Exposição Brutal Corre: da Lapa à VM, de Schari Kozak
Espaço Cultural ESPM-Sul
Rua Guilherme Schell, 268
Visitação: de segunda à sexta-feira, das 8h às 22h; sábados, das 9h às 15h.

 

19
ago

19 de agosto: Dia Mundial da Fotografia

Há 175 anos, em 19 de agosto de 1839, o governo francês anunciava publicamente a invenção do daguerreótipo. Desenvolvido anos antes por Louis Jacques Mandé Daguerre, o invento era capaz de formar imagens sobre uma fina camada de prata, aplicada sobre uma placa de cobre polida e revelada em vapor de mercúrio. Muita coisa aconteceu de lá pra cá, e a fotografia se disseminou pelos mais diversos campos de atuação, apresentada em inúmeros formatos a partir de processos de obtenção igualmente múltiplos.

Por aqui, aproveitamos o Dia Mundial da Fotografia para lançar uma pergunta a três professores do Centro de Fotografia da ESPM-Sul: O que há de mais essencial na sua relação com a fotografia?

“Para mim, o que é mais essencial na fotografia é o fato de ela ser uma ferramenta que permite concretizar o imaginário de tal maneira que ele se confunda com o real.”

– Clovis Dariano

Foto: Clovis Dariano

“É o ato fotográfico. Minha relação com a fotografia se justifica por este momento. O processo que conduz ao resultado final é o que me gera satisfação e produz significado. Isso é o fundamental pra mim: o processo; o ato.”

– Guilherme Lund

Foto: Guilherme Lund

“Eu gosto da fotografia que desperta uma emoção, que dá frio na barriga, causa espanto, admiração… que faz pensar. Para mim, esse processo de sentir algo e tentar entender de onde vem esse sentimento, seja ele qual for, é o mais relevante na minha relação com a fotografia. Acredito que é um processo de aprendizagem, que evolui com a prática. É preciso, inicialmente, perceber esses sentimentos, se observar, e depois de um tempo, se pensar, se descobrir. A fotografia pode ter esse papel ‘revelador’ de mundo, do mundo particular de cada um, basta se permitir.”

– Claudio Meneghetti

Foto: Claudio Meneghetti

2
out

CCMQ sedia Nephilins, de Paula Fiori com curadoria de Clóvis Dariano

Paula Fiori. Foto: Schari Kozak.

A Casa de Cultura Mário Quintana (CCMQ) sedia até o dia 21 de outubro a exposição Nephilins, de Paula Fiori com curadoria de Clóvis Dariano. Formada em 2010 pelo Centro de Fotografia da ESPM-Sul, Paula teve seu trabalho selecionado no 2º Prêmio IEAVi de incentivo à produção de artes visuais. As imagens, expostas na Fotogaleria Virgílio Calegari, revisitam a história de Porto Alegre ao retratarem as estátuas construídas no fim do século 19 e início do século 20 localizadas no Centro da Capital.

Atlante Jovem. Foto: Paula Fiori.

Atlante do Velho Mundo. Foto: Paula Fiori.

Nascida em Erechim, Paula sempre teve a fotografia como meio de expressão, de compreensão da realidade e, em suas palavras, até mesmo de crescimento pessoal. Foi depois de 18 anos em seu ramo de origem, a Terapia Ocupacional, que decidiu optar em definitivo pela fotografia como profissão. Na época, estudava no Centro de Fotografia na ESPM-Sul e começava a entrar em contato com o reduto multifacetado do ofício, com seus inúmeros meios de atuação. Além da fotografia artística, inclinou-se para o fotojornalismo. Trabalhou durante quatro anos no staff do Palácio Piratini atendendo ao Governo do Estado e, justamente em meio a agitada rotina desse serviço, encontrou tempo e inspiração para fotografar as estátuas de Nephilins.

Guardião. Foto: Paula Fiori.

Guerreiro. Foto: Paula Fiori.

“O projeto estava em seu subconsciente”, conta Paula, “quando era criança, visitava Porto Alegre com meus pais e eles se hospedavam na Casa de Cultura Mario Quintana, na época, ainda Hotel Majestic”. Ao passear pela Rua da Praia de mãos dadas com a mãe, impressionava-se com o semblante, a roupa e o tamanho das estátuas que adornavam o Centro Histórico. “Por que elas eram assim? Pareciam deuses, anjos, eram misteriosas, emblemáticas. Não havia nada parecido com elas na minha cidade”, relembra. Agora, é justamente na CCMQ que sua visão e interpretação dessas estátuas está exposta.

Quando o período do TCC no Curso Avançado de Fotografia se aproximou, Paula optou por esse conteúdo cheio de significado, já orientada por Clóvis Dariano, e iniciou sua pesquisa histórica. Entre os especialistas da área com os quais teve contato, destaca o professor Arnoldo Doberstein, cuja tese de doutorado foi exclusivamente sobre a estatuária porto-alegrense. “Se eu já gostava das estátuas, foi aí que terminei de me apaixonar. Elas realmente não estão ali por acaso, bem como seu conteúdo prático. Tudo nelas, do tecido da roupa à pose, tem um por quê”.

Portal de Demetér. Foto: Paula Fiori.

Portal de Hermes. Foto: Paula Fiori.

Pertencentes à herança do Positivismo, teoria do sociólogo francês Auguste Comte que teve excepcional adesão no Rio Grande do Sul, essas estátuas foram construídas seguindo a lógica de industrialização e progresso que marcou a transição para o século 20 no mundo. Vibrantes com a implantação da República, os gaúchos detentores do poder econômico e político faziam da arquitetura um meio tanto de autoafirmação quanto de comunicação com a classe subordinada. Como conta Paula, as estátuas eram equivalentes aos outdoors de hoje. Nelas, as figuras de semideuses eram feitas para os próprios poderosos se vangloriarem. Já aquelas que carregam mundos nas costas representavam a classe trabalhadora – daí seu rosto sereno, de resignação e plenitude, em contraste com o físico, repleto de músculos, força de trabalho. Em suas imagens, Paula as descontextualiza para que sejam percebidas em toda a sua magnitude e com todos os detalhes que foram cuidadosamente projetadas para ter. A fim de conseguir a definição necessária para mostrar tais características, só pôde fotografar em dias nublados, com luz natural difusa.

Gaia. Foto: Paula Fiori.

Ariadne. Foto: Paula Fiori.

O nome Nephilins, termo proveniente do latim, tem diversos significados e foi escolhido por um em especial: gigantes. “Na época, a lógica de construção pedia que elas fossem feitas em escala colossal, maiores em relação à estrutura em que estavam sendo fixadas”, conta. Para Paula, o nome também reafirma que elas eram tão gigantes em sua concepção espacial quanto em seu significado. Mais tarde, quando Porto Alegre é tomada por arranha-céus e torna-se uma metrópole de prédios suntuosos no estilo parisiense, a estatuária é abandonada. Extremamente deterioradas, elas resistem até hoje como legado histórico. E gigantes, mesmo sem nenhum programa de restauro ou reparo.

Com uma generosa dose de gratidão, Paula também faz do nome um tributo a Dariano e Manuel da Costa, definidos por ela como seus “Nephilins maiores”, professores e fontes de inspiração.

Nephilins, por Paula Fiori
Exposição do 2º Prêmio IEAVi – Incentivo à produção de Artes Visuais
Local: Fotogaleria Virgílio Calegari (7º andar)
Visitação: até 21 de outubro, segundas, a partir das 14h; de terças a sextas, das 9h e sábados, domingos e feriados, das 12h, com encerramento sempre 21h.