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Archive for abril, 2018

27
abr

Cores que ofuscam: a Austrália na fotografia de rua de Trent Parke

Retrato de Trent Parke.

Foi aos 12 anos, usando a Pentax Spotmatic de sua mãe e a lavanderia de casa como laboratório, que a história de amor de Trent Parke com a fotografia começou. Nascido em Newcastle em 1971, Parke, um dos mais importantes nomes do fotojornalismo contemporâneo, é o único fotógrafo australiano representado pela agência Magnum atualmente. Não por acaso, são imagens do ensaio Coming Soon (2005), com cenas urbanas flagradas em seu país, que ilustram esta postagem.

Foto: Trent Parke.

Foto: Trent Parke.

O ensaio em questão marca uma importante mudança na carreira do jovem fotógrafo: após ter construído sua assinatura com imagens em P&B, Coming Soon assinala sua entrada na fotografia colorida. E, sem medo de utilizar recursos tecnológicos olhados com desconfiança por veteranos ortodoxos, como High Dynamic Range-technique (HDR), marca seu enorme sucesso ao explorar as possibilidades dos recursos cromáticos. Para Trent, a transição permitiu a construção de um trabalho que não apenas revela fisicamente a Austrália contemporânea, mas também inclui os efeitos psicológicos do constante confronto dos transeuntes com a publicidade.

Foto: Trent Parke.

Foto: Trent Parke.

Ainda de acordo com Parke, seu trabalho é marcado por uma intensa perseguição à luz, definida por ele como capaz de transformar o comum em mágico. Iluminados em abundância ou entrecortados por intensos feixes brilhantes, os cenários de Coming Soon revelam os personagens e os anúncios que colorem as ruas de Sydney, marcadas por uma atmosfera tão praiana quanto urbanizada. Foi um ano após essa série, feita em 2006, que Parke tornou-se membro pleno da mítica Magnum, com a qual já colaborava desde 2002.

Foto: Trent Parke.

Foto: Trent Parke.

Uma épica viagem de carro pelo país também o rendeu o prestigiado prêmio W. Eugene Smith para fotografia humanística, em 2003. Acompanhado de sua esposa e do amigo Narelle Autio, também fotógrafo, Parke viajou por quase 90 mil quilômetros fotografando lugares remotos e ocasionalmente perturbadores, caóticos e melancólicos. O ensaio fruto da jornada, Minutes to Midnight (2004), também venceu o World Press Photo Awards e tornou-se o recordista de visitas no The Australian Centre for Photography, onde foi exibido em janeiro e fevereiro de 2005.

Foto: Trent Parke.

Foto: Trent Parke.

20
abr

O olhar surrealista de Jerry N. Uelsmann


Retrato de Jerry Uelsman

“Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde”. A frase é do Manifesto do Surrealismo, lançado em 1924 por André Breton, mas diz bastante sobre a obra de Jerry N. Uelsmann – ainda que o próprio fotógrafo fuja do rótulo surrealista. Percussor da fotomontagem na década de 1960, Uelsmann é autor de imagens tecnicamente bem feitas que ajudaram a subverter a fotografia em uma época em que consideravam como seu principal mérito a capacidade de fazer um “retrato fiel da realidade”. Pelo fato de que as fotos eram consideradas infalsificáveis documentos de eventos reais, suas habilidades eram tidas como quase mágicas – causando controvérsia e ajudando a expandir os limites da fotografia artística e da reflexão sobre seu papel.

Foto: Jerry Uelsman

Foto: Jerry Uelsman

Nascido em 1934, Uelsmann encantou-se pela fotografia ainda jovem. Nascido e criado em Detroit, Michigan, dedicou-se a aprender as técnicas fundamentais da prática ainda no ensino médio, dando continuidade à formação no Rochester Institute of Technology, onde trabalhou com Minor White e Ralph Hattersley e gradou-se em 1957. Depois, estudou na Universidade de Indiana e deu início ao desenvolvimento da abordagem que o consagraria. Décadas distante das técnicas de edição de imagens modernas, revolucionou com suas manipulações e foi desaprovado por diversos fotógrafos da época. Através da combinação de vários negativos, criava imagens unificadas de cenários impossíveis, mas harmoniosos, subvertendo as expectativas que se costumava ter em relação à fotografia. Nas palavras do próprio, o cerne de sua obra era basicamente a fotomontagem, mas sem corte ou colagem, com a imagem final projetada diretamente no papel fotográfico. “A foto é produto da combinação de imagens no processo de revelação no laboratório, usando alguns ampliadores e movimentando o papel”. Até hoje, Uelsmann prefere o laboratório químico ao Photoshop.

Foto: Jerry Uelsman

Foto: Jerry Uelsman

Autointitulado “image-maker”, criador de imagens, enfatiza que distingue sua abordagem surrealista do que é considerado arte conceitual: o objetivo é chegar em um ponto onde a resposta é emocional, e não intelectual. Seu processo criativo não se dá apenas no laboratório fotográfico, tem início quando sai com a câmera e interage com o mundo: “Não há coisas desinteressantes, o que há são pessoas desinteressantes. Para mim, dar a volta no quarteirão onde moro levaria cinco minutos, mas, quando estou com a câmera, leva cinco horas”.

Foto: Jerry Uelsman

Foto: Jerry Uelsman

Apesar de suas abordagens distintas, quase contrastantes, Uelsmann era amigo de Ansel Adams, que o convidou para ensinar em um dos workshops de Yosemite. Ueslmann também fez retratos lúdicos de Adams em honra ao amigo. Um dos componentes-chave de sua estratégia era justamente o trabalho de “pós-visualização”, uma referência ao conceito de “pré-visualização” de Adams. Em 1967, Uelsmann foi premiado com uma bolsa da Guggenheim Fellowship para “Experimentos em variadas técnicas em fotografia”. No mesmo ano sediou uma exposição solo no MoMA. Desde então, seu trabalho é exibido em acervos do mundo inteiro.

Foto: Jerry Uelsman

Foto: Jerry Uelsman

13
abr

David Alan Harvey: olhar e alma jovens

Retrato de David Alan Harvey

David Alan Harvey é um fotógrafo veterano, mas mantem a inquietude e a empolgação dos novatos. Iniciou sua carreira com o livro auto-publicado Tell it like it is (1967), sobre uma família pobre de Norfolk, Virginia, e viajou pelo mundo por uma década pela National Geographic (tendo sido escolhido Fotógrafo de Revista do Ano durante esse período). Tornou-se membro pleno da Magnum em 1997 e é ativo desde então, não apenas publicando obras mas destacando o trabalho de outros fotógrafos por meio de sua revista e editora, a Burn.  Um dos maiores prazeres de Harvey, além de fotografar, é lecionar e amparar estudantes e amadores: “nunca senti a necessidade de competir, então sempre fui capaz de passar muita energia de volta para as outras pessoas”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Americano nascido em 1944 em São Francisco, mas criado em Virginia, Harvey descobriu seu amor pela fotografia ainda na infância, e com talento e intuição soube transformá-lo em carreira. O golpe de sorte, como o próprio define, deu-se graças a um incidente infeliz: teve pólio quando era criança e ficou hospitalizado em uma ala isolada quando tinha apenas seis anos. Em confinamento solitário, contava apenas com os livros e revistas repletas de fotos enviados por sua mãe e sua avó. “Essa era a minha fuga – livros, revistas, uma combinação de literatura e imagens”, relembrou, em entrevista à Vice. “As fotos entraram em minha vida de uma maneira real muito cedo. Em algum momento, ganhei uma câmera – provavelmente como qualquer outro garoto – mas também ganhei um laboratório fotográfico e percebi que podia fazer o que quisesse com aquilo”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Sua inspiração primordial foram as “pessoas capazes de fazer algo do nada”: “no começo, eu olhava para as fotos e via que os fotógrafos esportivos precisavam de uma Olimpíada, que os fotógrafos de moda precisavam de modelos e que os fotógrafos de guerra precisavam de uma guerra. Cartier-Bresson, Robert Frank, Riboud e esses outros caras – eles não precisavam de nada: eles só olhavam pela janela ou iam até o jardim”. Encantado pela ideia de dar sentido à vida cotidiana, atraia-se pela integridade do jornalismo, mas sempre esteve mais interessado nas fotografias que não precisavam comunicar um grande conceito, poderiam apenas ser.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Sua primeira obra, Tell it like it is (1967), surgiu da inevitável culpa após um hedonista trabalho como fotógrafo na praia. Sentindo que estava usando sua câmera para a “coisa errada”, dirigiu até Norfolk, Virginia, e entrou em uma das casas do gueto, com o objetivo de mostrar aos brancos que viviam em seu bairro como era a vida ali. “Eu nem sabia o que fazer com minhas fotos, mas publiquei um pequeno livro e vendi por dois dólares, peguei o dinheiro e dei para a igreja local”. Esse foi seu primeiro trabalho importante, e não muito depois disso começou a trabalhar para a National Geographic, de onde saiu ao se deparar com uma crise de meia-idade. Sentindo-se estagnado, divorciou-se, largou o trabalho e foi trabalhar no Chile, começando a construir o que se tornaria o livro Divided Soul (2007). Cinco anos depois foi escolhido para um trabalho de meio período na Magnum, em 1993, tornando-se membro pleno da agência quatro anos depois. Por lá, sentiu-se tão livre quanto seguro. Conheceu Vietnã, Cuba, Líbia e todos os lugares “onde os Estados Unidos não tem uma embaixada”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

As imagens que ilustram este post são de seu mais recente livro, Based on a True Story (2012), que funciona como um cubo mágico: o espectador pode ver as fotos na ordem que quiser, construindo uma sedutora história visual. A obra é focada na migração da Península Ibérica para as Américas, o que inclui a África Ocidental. Nas palavras do fotógrafo, trata-se da abordagem de quatro culturas miscigenadas: “Espanha, Portugal, África Ocidental e os indígenas que estavam aqui antes”. A aventura durou 25 anos e o levou a conhecer todos os países americanos, além da Península Ibérica e da África Ocidental. Entre as cópias da obra distribuídas de graça nos lugares fotografados estão 2.500 livros doados recentemente a favelas do Rio de Janeiro.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey