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Archive for abril, 2018

13
abr

David Alan Harvey: olhar e alma jovens

Retrato de David Alan Harvey

David Alan Harvey é um fotógrafo veterano, mas mantem a inquietude e a empolgação dos novatos. Iniciou sua carreira com o livro auto-publicado Tell it like it is (1967), sobre uma família pobre de Norfolk, Virginia, e viajou pelo mundo por uma década pela National Geographic (tendo sido escolhido Fotógrafo de Revista do Ano durante esse período). Tornou-se membro pleno da Magnum em 1997 e é ativo desde então, não apenas publicando obras mas destacando o trabalho de outros fotógrafos por meio de sua revista e editora, a Burn.  Um dos maiores prazeres de Harvey, além de fotografar, é lecionar e amparar estudantes e amadores: “nunca senti a necessidade de competir, então sempre fui capaz de passar muita energia de volta para as outras pessoas”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Americano nascido em 1944 em São Francisco, mas criado em Virginia, Harvey descobriu seu amor pela fotografia ainda na infância, e com talento e intuição soube transformá-lo em carreira. O golpe de sorte, como o próprio define, deu-se graças a um incidente infeliz: teve pólio quando era criança e ficou hospitalizado em uma ala isolada quando tinha apenas seis anos. Em confinamento solitário, contava apenas com os livros e revistas repletas de fotos enviados por sua mãe e sua avó. “Essa era a minha fuga – livros, revistas, uma combinação de literatura e imagens”, relembrou, em entrevista à Vice. “As fotos entraram em minha vida de uma maneira real muito cedo. Em algum momento, ganhei uma câmera – provavelmente como qualquer outro garoto – mas também ganhei um laboratório fotográfico e percebi que podia fazer o que quisesse com aquilo”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Sua inspiração primordial foram as “pessoas capazes de fazer algo do nada”: “no começo, eu olhava para as fotos e via que os fotógrafos esportivos precisavam de uma Olimpíada, que os fotógrafos de moda precisavam de modelos e que os fotógrafos de guerra precisavam de uma guerra. Cartier-Bresson, Robert Frank, Riboud e esses outros caras – eles não precisavam de nada: eles só olhavam pela janela ou iam até o jardim”. Encantado pela ideia de dar sentido à vida cotidiana, atraia-se pela integridade do jornalismo, mas sempre esteve mais interessado nas fotografias que não precisavam comunicar um grande conceito, poderiam apenas ser.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Sua primeira obra, Tell it like it is (1967), surgiu da inevitável culpa após um hedonista trabalho como fotógrafo na praia. Sentindo que estava usando sua câmera para a “coisa errada”, dirigiu até Norfolk, Virginia, e entrou em uma das casas do gueto, com o objetivo de mostrar aos brancos que viviam em seu bairro como era a vida ali. “Eu nem sabia o que fazer com minhas fotos, mas publiquei um pequeno livro e vendi por dois dólares, peguei o dinheiro e dei para a igreja local”. Esse foi seu primeiro trabalho importante, e não muito depois disso começou a trabalhar para a National Geographic, de onde saiu ao se deparar com uma crise de meia-idade. Sentindo-se estagnado, divorciou-se, largou o trabalho e foi trabalhar no Chile, começando a construir o que se tornaria o livro Divided Soul (2007). Cinco anos depois foi escolhido para um trabalho de meio período na Magnum, em 1993, tornando-se membro pleno da agência quatro anos depois. Por lá, sentiu-se tão livre quanto seguro. Conheceu Vietnã, Cuba, Líbia e todos os lugares “onde os Estados Unidos não tem uma embaixada”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

As imagens que ilustram este post são de seu mais recente livro, Based on a True Story (2012), que funciona como um cubo mágico: o espectador pode ver as fotos na ordem que quiser, construindo uma sedutora história visual. A obra é focada na migração da Península Ibérica para as Américas, o que inclui a África Ocidental. Nas palavras do fotógrafo, trata-se da abordagem de quatro culturas miscigenadas: “Espanha, Portugal, África Ocidental e os indígenas que estavam aqui antes”. A aventura durou 25 anos e o levou a conhecer todos os países americanos, além da Península Ibérica e da África Ocidental. Entre as cópias da obra distribuídas de graça nos lugares fotografados estão 2.500 livros doados recentemente a favelas do Rio de Janeiro.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

6
abr

“Minha foto preferida é aquela que ainda não fiz” Bruce Davidson

Retrato de Bruce Davidson.

Nascido em 1933, Bruce Davidson é um fotógrafo na corda-bamba. Entre o rigor da composição e o instinto, entre o policial e o infrator, entre o envolvimento pessoal com seus assuntos e a disciplina profissional, entre o instante que leva o espectador a um mundo de sonho e aquele que o devolve à realidade. Mais do que um contador de histórias fascinado por pessoas, trata-se de um dos mais influentes fotógrafos de nosso tempo. De forma intensamente pessoal, registrou com paixão e delicadeza personagens diversos, de um anão circense aos membros de uma gangue americana, dando ênfase às classes baixas nova-iorquinas, figuras centrais nas lutas por direitos civis nos anos 1960. Mesmo que a cidade de Nova Iorque seja o principal cenário de seus ensaios, foi em Paris que Davidson realizou seus primeiros trabalhos comerciais e conheceu Henri Cartier-Bresson. Dessa amizade, herdou a defesa da tradição preto e branco na reportagem e tornou-se membro do time da Magnum, agência onde está até os dias de hoje.

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Fotógrafo nato, Davidson cresceu em Chicago e ganhou sua primeira câmera em 1940. Antes dos 10 anos, já fotografava as crianças que brincavam em um subúrbio da vizinhança, em Ilinóis. Conseguiu um emprego em um laboratório fotográfico na adolescência e se apaixonou definitivamente pelo ofício, lembrando de seu primeiro dia de trabalho com o mesmo entusiasmo quase 70 anos depois: “Uma luz brilhou, uma folha de papel foi colocada em uma bandeja d’água e uma imagem se formou. Isso me pegou e me puxou – esse processo misterioso. Foi um breve encontro, mas que carrego comigo até hoje”. Depois de alguns dias, acabou convencendo a mãe a construir um pequeno laboratório na garagem de casa, onde passava boa parte de seu tempo livre. Após estudar no Rochester Institute of Technology na Universidade de Yale, foi convocado para o exército e estabelecido em Paris, onde conheceu Henri Cartier-Bresson. Quando deixou o serviço militar, em 1957, Davidson trabalhou como fotógrafo freelancer para a revista LIFE até se tornar um membro definitivo da Magnum, um ano depois.

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Apaixonado por sua inseparável Leica 28mm, vê na câmera uma ferramenta de trabalho pequena, leve e discreta. De acordo com Davidson, é graças a ela que consegue se aproximar tanto quanto necessário de seus assuntos e não influenciá-los enquanto clica. “Quero ser invisível e não quero ser agressivo de forma alguma. Isso significa silêncio e isso significa Leica”, contou, em entrevista. Foi pela discrição do material que conseguiu se infiltrar na gangue que o rendeu um de seus mais celebrados ensaios, “Brooklyn Gang”, que retrata um grupo de jovens rebeldes do distrito Brooklyn. A série foi feita nos primórdios dos anos 1960, bem como outros de seus ensaios seminais, “The Dwarf” e “Freedon Rides”. Em 1962, recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim e dedicou-se a documentar movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos. Logo depois, em 1963, ganhou sua primeira exposição solo no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA).

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Todos esses ensaios foram fruto de meses ou anos de dedicação. Para o melancólico retrato de um palhaço em “The Dwarf”, Davidson viveu como nômade em um grupo circense durante um ano. O fotógrafo explica que seu trabalho tem um efeito cumulativo: “Eu sou como uma espécie de serial killer, leva um longo tempo antes que eu possa compreender o que estou olhando.[...] Além disso, se você já entrou na vida de alguém, você tem que viver lá por um tempo”.

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Depois de receber a primeira concessão para trabalhos fotográficos do National Endowment for the Arts, passou dois anos registrando as precárias condições de vida dos moradores de um condomínio em East Harlem, um dos mais pobres bairros nova-iorquinos. O trabalho foi publicado pela primeira vez em 1970 na Harvard University Press sob o título “East 100th Street” e depois expandido e republicado na St. Ann’s Press. Extremamente impactante, trata-se de uma das mais poderosas documentações da pobreza e da discriminação já registradas nos Estados Unidos. Causou controvérsia justamente pela proximidade de Davidson com os assuntos e tornou-se exposição, sediada no MoMA.

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Em 1980, passou a arriscar-se, também, na fotografia colorida, dedicando-se a uma das temáticas que mais atrai fotógrafos nova-iorquinos, o metrô. “Subway” registrou a vitalidade e a efervescência do mais popular transporte público da Big Apple e foi publicado no Internacional Center of Photography em 1982. Dos anos 1990, vale destacar sua série sobre paisagens (também um novo desafio) do Central Park. Em 2006, voltou-se a uma temática distante da sua cidade predileta em “The Nature of Paris”, marcando um retorno à França, país sede de importantes episódios em seu crescimento como fotógrafo.

“Se eu estou procurando uma história, ela se encontra na minha relação com o assunto – é isso o que a história conta, mais do que o que a imagem mostra”
Bruce Davidson

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.