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Archive for março, 2018

30
mar

O invisível de Marlos Bakker

Retrato de Marlos Bakker

Resultado de mais de 100 madrugadas em 33 residências diferentes, a série não perturbe de Marlos Bakker retrata o que acontece nas noites de sono de mais de 60 pessoas. A motivação para o trabalho tem origem no interesse do fotógrafo pela invisibilidade. “Quando digo invisível estou me referindo ao que nossos olhos não podem captar por questões físicas: o que se dá muito rápido ou muito devagar, ou o que se dá na escuridão, por exemplo. Ou, indo além, invisível simplesmente porque seria inapropriado olhar por muito tempo, uma invasão de privacidade”, explica Marlos em seu site.

Foto: Marlos Bakker

Foto: Marlos Bakker

“Em poucos dias, várias situações que eu não imaginara se apresentaram: brigas de casais, filhos vindo dormir com os pais e acendendo as luzes do quarto, gente que dizia que ia dormir em casa mas mudando de ideia durante a madrugada, gente preocupada com o que deveria ter sido uma noite calma de foto ter surpreendentemente se transformado numa noite de sexo etc”, relata o fotógrafo.

Foto: Marlos Bakker

Foto: Marlos Bakker

Afora as surpresas – que incluem um cachorro que ia dormir com a dona sem que ela se desse conta –, Marlos percebeu o quanto a obtenção das imagens interferia no sono dos seus fotografados. “Muitas pessoas chegaram a sonhar com a câmera, a incluí-la no enredo dos seus sonhos de inúmeras maneiras diferentes (algumas vezes até eu apareci nos sonhos!)”, recorda.

Foto: Marlos Bakker

Foto: Marlos Bakker

O desenvolvimento do trabalho demandou testes e pesquisas até que se chegasse ao resultado esperado e tecnicamente viável. De início, Marlos pensou em utilizar equipamento digital. Desencorajado pela fabricante de sua câmera, devido ao longo tempo de exposição ao qual inicialmente submeteria o sensor – em torno de seis horas –, experimentou obter as imagens utilizando filme.

Foto: Marlos Bakker

Foto: Marlos Bakker

Imprevistos e esquecimentos, no entanto, fizeram o fotógrafo retornar ao digital, programando capturas com exposição de, no máximo, trinta minutos cada, conforme nova orientação do fabricante. As imagens dos bastidores revelam a infraestrutura necessária para realizar a série – e para trazer à tona aquilo que não vemos enquanto dormimos.

Making of.

Carioca, Marlos Bakker descobriu a fotografia no curso de Comunicação Visual da UFRJ. Mais tarde realizou cursos de extensão de fotografia, pintura, desenho e história da arte na Scuola Lorenzo de’ Medici, em Florença, e na UCLA, em Los Angeles. Seus projetos, ou “safáris fotográficos”, procuram invadir as ilhas de privacidade que ainda nos restam como uma maneira de discutir a sociedade contemporânea. Recentemente foi finalista de prêmios como Conrado Wessel (2014), Diário Contemporâneo de Fotografia (2014), Transatlántica Photo España AECID (2013) e Descubrimientos Photo España (2013), além de ter sido premiado com uma bolsa para participar da Bienal Fotofest 2014, em Houston.

23
mar

10 coisas que Alex Webb pode ensinar sobre Fotografia de Rua

Retrato de Alex Webb

Membro pleno da Magnum desde 1979, Alex Webb (1952) é um fotógrafo de rua americano que, depois de iniciar a carreira de forma bem sucedida em P&B, passou a utilizar cores, luzes e emoções para captar imagens tão belas quanto complexas. Depois de ler e ver o livro-coletânea de seus 30 anos de carreira The Suffering of Light (“o sofrimento da luz”, em tradução literal), o também fotógrafo de rua Eric Kim apaixonou-se por seu trabalho e selecionou as 10 principais lições que aprendeu com a obra, lista que aprovamos, traduzimos e editamos. Confira:

1. Crie camadas em suas fotografias

Profundidade de campo é um elemento forte na obra de Webb. Em muitas de suas fotos, há um plano forte, com assuntos mais próximos da lente, outros mais perto da parte inferior do frame e um fundo marcado pela nitidez. O melhor dessa característica, para Eric, é que ela integra o espectador ao quadro: é possível fazer parte da cena, ver o que o fotógrafo vê.

Foto: Alex Webb

2. Preencha o quadro

“Não é só aquilo, aquilo e aquilo que existe. É aquilo, aquilo, aquilo e aquilo que existem em um mesmo frame. Estou sempre à procura de algo mais. Se você integra em demasia, talvez isso se torne um caos total. Estou sempre jogando nessa linha: adicionando elementos a mais, mas mantendo apenas uma espécie de caos ”Alex Webb

Se Eric pudesse resumir alguns dos mais famosos trabalhos de Webb, o faria com a expressão “caos ordenado”: “ele frequentemente preenche frames com tantos assuntos que a foto quase parece poluída. Ainda assim, muitos dos elementos que adiciona nas imagens não se sobrepõem. Há várias pequenas interações em um mesmo quadro, o que torna possível que se conte diversas histórias em um só frame”, observa. A dica para conseguir esse feito é tentar adicionar elementos, com paciência e esperando os personagens retratados interagirem, mas confiar na intuição quando sentir que se chegou a um limite. Deve haver um equilíbrio das sobreposições, das sombras e das luzes.

Foto: Alex Webb

3. Caminhe. Muito.

“Eu só sei como abordar um lugar caminhando. Porque é o que um fotógrafo de rua faz: caminhar, observar, esperar, falar e aí observar e esperar mais um pouco, tentando se manter confiante de que o inesperado, o desconhecido, o coração secreto do que conhecemos nos  espera ao virar a esquina.”

A única maneira de fazer boas fotografias de rua é fotografando nas ruas. Quando fazemos isso, nos abrimos para muitas oportunidades, além de termos a experiência de, de fato, sentirmos a atmosfera de um lugar. Um bom exercício, Eric aconselha, é andar sempre com sua câmera e optar por ir caminhando a lugares e compromissos sempre que possível.

Foto: Alex Webb

4. Procure a luz

Não foi por acaso que a obra que reúne imagens assinadas por Webb nos últimos 30 anos ganhou o título de “The Suffering of Light”. Ele remete a uma frase de Johann Wolfgang Von Goethe, “as cores são as obras e o sofrimento da luz”. Webb explica que mesmo sem ser filósofo ou cientista, sente que um aspecto da teoria das cores de Goethe é o fato de que ele sentia que a cor tinha origem na tensão entre a luz e a escuridão. Assim, Webb busca sempre pensar na mensagem e no significado que cada tom transmite, o que se aplica bem em suas constantes abordagens da tensão entre zonas fronteiriças. A luz assumiu um papel fundamental, por exemplo, em seus dois trabalhos sobre Istambul, um marco divisório entre Oriente e Ocidente marcado pelas nuances coloridas de diversas culturas. O conselho de Webb para conseguir a luz adequada para registrar essas tonalidades é fotografar sempre nos bons horários, o início e o fim do dia.

Foto: Alex Webb

5. Perceba que 99,9% da fotografia de rua é fracasso

“A sorte, ou talvez o acaso, desempenha um grande papel, mas você nunca sabe o que vai acontecer. E o mais empolgante é quando algo totalmente inesperado acontece e você está lá, no lugar certo e na hora certa, e pressiona o botão no momento exato. Na maioria das vezes, não funciona dessa maneira. Esse tipo de fotografia é 99,9% fracasso.”

Mesmo que afirme que a fotografia de rua se trata majoritariamente de fracasso, Webb tem uma carreira notória e um portfólio repleto de “instantes decisivos” impressionantes. O segredo, de acordo com ele, é o domínio técnico e a prática. Isso remete a uma frase presente no texto “Aprender fotografia por quê?”, do Catálogo de Cursos do Centro de Fotografia da ESPM-Sul: “Só quem viveu o desgosto de ter feito uma foto banal de algo extraordinário, ou já se encantou com a situação inversa, sabe que a possibilidade dessa quebra de expectativa é o que transforma a câmera fotográfica em uma ‘caixa preta’ cheia de surpresas”.

Foto: Alex Webb

6. Dedique-se a projetos

“A maioria dos meus projetos parece começar como viagens exploratórias sem fim visível à vista.”

Trabalhar em projetos é uma bela forma de abordar a fotografia de rua por dar ao aspirante direção, propósito a possibilidade de criar uma narrativa. No entanto, nem sempre é fácil. Não é possível saber ao certo quanto tempo eles vão levar, o que iremos (ou até mesmo o que queremos) fotografar. O conselho de Webb para isso é saber que “diferentes projetos parecem ter diferentes arcos de conclusão”. O mais importante é pensar em si mesmo antes de escolher um objetivo e ir aos lugares escolhidos sempre com a mente aberta para possibilidades inesperadas.

Foto: Alex Webb

7. Se você está preso, tente algo novo

Até 1975, Webb fotografava apenas em preto e branco. Em um projeto sobre cenários americanos nas ruas de Nova Iorque e Nova Inglaterra, viu-se encurralado: mesmo conseguindo fotos boas, sentiu que não estava chegando a nenhum lugar novo. “Parecia que estava explorando o território que outros fotógrafos já haviam descoberto, como Lee Friedlander e Charles Harbutt”, relembra. Após essa constatação, Webb ingressou em um projeto no Haiti que o transformou, influenciando-o a começar a trabalhar com cores.

A dica, então, é evitar o marasmo quando não se está feliz. Costuma trabalhar em preto e branco? Tente cores. É adepto das câmeras digitais? Aventure-se no filme. Eric afirma que experimentou o suficiente diferentes abordagens e temáticas até se sentir seguro na fotografia de rua.

Foto: Alex Webb

8. Siga sua obsessão.

Para Alex Webb, mesmo que as dúvidas sempre existam, seguir sua obsessão é algo importante para se tornar um bom profissional. Para que tudo dê certo, é necessário levar a fotografia à sério –  é só assim que o trabalho duro supera os anseios. Ter projetos, conhecer e conversar com outros fotógrafos, buscar referências, ler livros sobre técnica, tudo isso ajuda o aspirante a se focar por completo, e colher os frutos desse esforço, na fotografia.

Foto: Alex Webb

9. Capture a emoção de um lugar

Para Webb, as diferentes tonalidades dizem respeito à atmosfera, à emoção, à sensação de um lugar, e fotografar em cores é uma bela forma de capturara o humor e o clima dos assuntos. Assim, vale pensar em como as cores presentes em uma cena podem adicionar significado às fotografias antes de disparar.

Foi em sua viagem ao Haiti que Webb percebeu que as intensas e vibrantes cores daquele mundo deveriam ser levadas em conta em suas fotos. Esse brilho, até então inédito para ele autoralmente, o ajudou a incorporar nos cliques a alma das culturas que estava retratando.

Foto: Alex Webb

10. Viaje

Webb enfatiza como sua primeira viagem ao Haiti transformou seu modo de ver o mundo, o que teve uma influência determinante em sua produção. “Eu fotografei uma espécie de mundo que nunca tinha experimentado antes”, recorda, “um mundo de vibração emocional e intensidade: cru, desarticulado e muitas vezes trágico”. Descontextualizar-se, ter acesso a outras formas de viver, é algo que ajuda os fotógrafos que buscam o afamado e necessário aprimoramento do olhar.

Foto: Alex Webb

16
mar

O Caminho da Praia: uma jornada fotográfica pelo litoral gaúcho

Fotógrafos Marcelo Curia e Anderson Astor durante a jornada pelo litoral gaúcho. Foto: O Caminho da Praia

No inverno de 2011, dois fotógrafos iniciaram uma jornada a pé por uma parte muito especial do litoral brasileiro. Engana-se quem pensa que o espaço escolhido para ser documentado é um dos enaltecidos trechos de fauna, flora e demais belezas naturais exuberantes do Brasil: trata-se da faixa de areia entre o balneário de Torres e a foz do Arroio Chuí. Localizado no extremo sul do Estado, o espaço contrasta com o resto da costa. É conhecido pelas águas revoltas e geladas, o vento incessante e as dunas extensas e com pouca vegetação. Mas, agora, ele será registrado em um projeto multimídia que envolve fotografia, vídeo e texto em plataformas online e offline.

Urias. Foto: O Caminho da Praia

Nosso norte é o sul. Foto: O Caminho da Praia

Os responsáveis pelo projeto são Marcelo Curia e Anderson Astor. O primeiro é autor do livro História de Pescador (2001) e colabora regularmente para revistas como National Geographic Brasil, Viagem e Turismo, Globo Rural, entre outras. O segundo é ex-aluno do curso de Fotografia Digital Avançada na ESPM-Sul, no qual graduou-se em 2010. Também freelancer, cursou Artes Plásticas na UFRGS e já publicou nos jornais Zero Hora e Correio do Povo e em veículos institucionais e de livre circulação.

Entardecer. Foto: O Caminho da Praia

Durante aproximadamente 30 dias, os dois percorrem os 622 quilômetros da costa. Fotografam, filmam e registram em textos suas impressões sobre o litoral gaúcho, publicadas primeiramente em um blog. O resultado total e final tomará forma na elaboração de um documentário, um livro e uma exposição. A caminhada deve cruzar os municípios de Torres, Arroio do Sal, Capão da Canoa, Xangri-lá, Osório, Imbé, Tramandaí, Cidreira, Balneário Pinhal, Palmares do Sul, Mostardas, Tavares, São José do Norte, Rio Grande , Santa Vitória do Palmar e Chuí.

Acampamento. Foto: O Caminho da Praia

O objetivo da dupla é gerar documentação, além de promover um registro que sirva para ampliar a consciência local sobre o litoral gaúcho — o que pensamos, conhecemos e falamos sobre ele. Para acompanhar essa aventura, basta conferir as atualizações do blog.

Plataforma de pesca. Praia de Cidreira. Rio Grande do Sul. Junho.2010. Foto: O Caminho da Praia