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Archive for fevereiro, 2018

23
fev

Uma reflexão sobre o ensaio “Hopper Meditations”, de Richard Tuschman.

Retrato de Richard Tuschman em 1987.

Ao utilizar a pintura para retratar sua visão melancólica da sociedade americana do início do século, Edward Hopper (1882 – 1967) tornou-se um artista admirado pela forma convincente e original com que tratou de temas comuns. Solidão e isolamento aparecem em seus quadros sempre de forma poética e, para alguns, acalentadora, confortante. Consta, aliás, que Hopper lia todos os dias um ensaio do poeta Ralph Waldo Emerson (1803-1882) com a seguinte definição: “O grande homem é aquele que, no meio da multidão, mantém com perfeita doçura a independência da solidão”. Décadas depois de sua morte, Richard Tuschman, fotógrafo bem sucedido em trabalhos comercias que também se aventura no campo das artes, criou em sua homenagem o ensaio Hopper Meditations. Nele, o admirador reproduz seus quadros prediletos do autor em formatos contemporâneos utilizando a fotografia como plataforma.

Foto: Richard Tuschman.

Foto: Richard Tuschman.

Hopper estudou a cena emergente da arte na Europa, mas diferente de muitos dos seus contemporâneos seduzidos pelos abstracionismos do Cubismo foi fundamentalmente influenciado pelo realismo. Suas pinturas sempre retrataram cenas cotidianas, da vida real, fugindo de abstrações e centrando-se no mundo e seus habitantes como são. Foi isso que deu à obra sua elogiada dimensão psicológica, além, é claro, do manejo obsessivo da luz. Hopper chegava a ir a um determinado lugar diversas vezes no mesmo horário a fim de estudar minuciosamente as manias das luzes e sombras. Em recente entrevista, Tuschman contou que sempre amou seus quadros e, em suas palavras, “a forma como a economia de meios é capaz de resolver os mistérios e as complexidades da condição humana”. Para ele, seu projeto também inclui uma interpretação própria sobre a obra: não se limita a imitar as cenas, mas cria novos personagens e mistérios.

Foto: Richard Tuschman.

Foto: Richard Tuschman.

Alguns críticos discordam, como o curador de arte e professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Eduardo Veras. Para estes, a releitura de Tuschman perdeu justamente o realismo e a despretensiosa dramaticidade dos quadros que a originaram. Veras viu o ensaio mais como um tributo e um exercício técnico do que qualquer outra coisa – o primeiro a chamar a atenção é justamente como o fotógrafo foi preciso ao reproduzir as cenas. “A questão, ali, ficou muito mais focada no virtuosismo, na capacidade de conseguir refazer. As questões mais importantes que estavam na pintura ficam menores, secundárias. Nada chama mais a atenção do que a semelhança”, opina.

Foto: Richard Tuschman.

Foto: Richard Tuschman.

Assim, para Veras, tudo o que havia nos quadros, como os ares de mistério, o isolamento, a poética da solidão, ficam um pouco menores para aqueles que já conhecem as pinturas originais. “Tecnicamente é superbem realizado”, contrapõe, “o fotógrafo se propôs a fazer uma reprodução bem fiel. Mas eu acharia mais bacana se, com as fotos, ele reproduzisse o clima”. Como referência, Veras cita o filme Paris Texas, de Wim Wenders, cuja fotografia faz o espectador se sentir em um quadro de Hopper. “O que é bacana não é a reprodução, mas o clima, os espaços vazios, os planos de uma cor só com uma certa textura, aqueles tons mais baixos da pintura de Hopper…”, relembra. Refletir sobre a versão de Tuschman para os quadros de Hopper pode ser um bom exercício para os alunos do Centro que já começaram a pensar em seus trabalhos de conclusão. Afinal, mostra que meditar sobre o que queremos dizer é tão importante quanto decidir o que, e como, vamos fazer.

Foto: Richard Tuschman.

Foto: Richard Tuschman.

Tuschman começou a se aventurar no campo imagético digital ainda nos anos 1990, desenvolvendo um estilo que sintetizava seus interesses em design gráfico, fotografia, pintura e montagem. O trabalho encontrou uma vasta audiência no setor comercial, e passou a constar em páginas de revistas, capas de livros e catálogos de marcas como Adobe, The New York Times, Penguin, Sony Music, Newsweek, entre outras. Além da coleção de distinções, tem dissertado sobre sua técnica artística e processo criativo, lecionando em Cuyahoga Community Colleege, University of Akron School of Art e Ringling College of Art + Design. Atualmente, vive e trabalha no Queens, em Nova Iorque.

16
fev

Jimmy Nelson: etnofotografia antes que seja tarde

Retrato de Jimmy Nelson

Em português, não há um eufemismo para a palavra “morte” tão eficiente quanto no inglês, “pass away” – algo como ir embora para sempre, deixar o mundo. Ainda que atenuado pelo termo em questão, o projeto Before They Pass Away (algo como “antes que eles se vão”), é literal em seu objetivo: eternizar em imagens tribos do mundo inteiro que, ameaçadas pelo progresso padronizador do homem ocidental, estão condenadas a desaparecerem. Com seus últimos membros, morreriam, também, suas histórias, suas culturas, seus dialetos, seus costumes. Para fazer um registro a altura desses grupos fadados à extinção, o fotógrafo Jimmy Nelson orquestrou cuidadosamente seus retratos, sempre captando aspectos da natureza que os cerca e de suas tradições.

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Britânico nascido em Stevenoaks, Jimmy Nelson carregou sua câmera de grande formato durante três anos por 44 países, do Deserto da Namíbia às quase inacessíveis ilhas da Oceania. Fotógrafo desde 1987, tornou-se conhecido quando, após passar 10 anos em um internato jesuíta ao norte da Inglaterra, decidiu cruzar o Tibete a pé. A viagem durou um ano e seus registros dela fizeram um enorme sucesso. Depois disso, cobriu histórias na Rússia e no Afeganistão e conflitos em curso como as tensões entre a Índia e o Paquistão e o início da guerra na ex-Iugoslávia.

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

No projeto, a força dos retratos dos guardiões dessas tradições contrasta com a ameaçadora e implícita fragilidade de culturas que se mantém por séculos. É possível sentir a importância do trabalho, por exemplo, nas imagens da tribo neozelandesa Maori, cujas origens podem ser rastreadas até o século 13, com a mítica pátria Hawaiki na Polinésia Oriental. Mesmo após a chegada dos colonizadores europeus no século 18, a tribo sobreviveu, isolada, estabelecendo uma sociedade distinta, com arte, linguagem e mitologia características. Um de seus provérbios angustia o espectador diante de seu possível fim: “minha língua é meu despertar, a minha língua é a janela para a minha alma”.

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

O fotógrafo conta que para apenas uma foto chegava a passar três horas, entre planejamento e execução. Como manda a metodologia antropológica, que renega o etnocentrismo e vê o novo sem julgá-lo, o fotógrafo buscava incorporar os costumes e ser aceito pelos grupos, tornando-se amigo das tribos antes de sacar a câmera. Muitas vezes, em lugares onde os nativos andavam nus, até se desfazia das roupas.

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

O preço do livro especial para colecionadores será de 8 mil dólares, mas uma versão mais modesta está disponível desde setembro por 95.

9
fev

Muhammed Muheisen e o poder transformador da fotografia cotidiana em zonas de conflito

Retrato de Muhammed Muheisen

Enquanto centenas de fotógrafos dedicados abastecem diariamente os bancos de imagens das agências de notícias com o que é assunto no mundo, apenas os fotojornalistas mais excepcionais conseguem rotineiramente criar registros que oferecem novas perspectivas sobre os eventos que definem nossa era. Muhammed Muheisen, da Associated Press (AP), é um desses nomes. Suas imagens tornaram-se indispensáveis para quem deseja compreender os conflitos no Oriente Médio além do julgamento superficial. Inspirado por um espírito de humanismo e pela consciência do poder da narrativa visual, seu trabalho surpreende e já é consagrado com inúmeras distinções, o que inclui dois Pulitzers e o prêmio da revista Time de Best Wire Photographer of 2013.  

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Muheisen nasceu em Jerusalém, em 1981, e graduou-se em Jornalismo e Ciência Política em 2002. Atualmente, vive em Islamabad como chefe de fotografia da Associated Press (AP) no Paquistão. Ele passou a integrar a AP em 2001, aos 19 anos, cobrindo histórias no Oriente Médio como conflitos iraquianos e árabe-israelenses. “Nascer em uma região em conflito tem algumas vantagens, por incrível que pareça”, conta. Para ele, estar no centro dos acontecimentos, envolvido pessoal e fundamentalmente com o conflito, não apenas o ajudou a se tornar fotógrafo, mas germinou a consciência necessária à abordagem que o consagrou.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Mesmo dedicado à cobertura do que é notícia, indelével para qualquer repórter, Muheinsen encontra tempo para clicar a rotina das ruas, procurando momentos reveladores principalmente quando a cidade desperta. Ele levanta cedo para pegar a luz da manhã escorrendo pelas favelas empoeiradas na periferia da cidade ou para clicar o início das aulas em uma escola local. “Eu amo a tranquilidade dessa hora”, conta, acrescentando que procura cenas que carreguem uma mensagem de vida ou alegria. Muheisen descobriu que a fotografia cotidiana em zonas de conflito realmente pode criar uma mudança: “Não é apenas o meu projeto, mas a minha paixão”.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

As imagens selecionadas neste posts mostram sua predileção por fotografar crianças, sempre com uma abordagem delicada. De acordo com ele, foca nelas suas lentes por acreditar que se tratam das verdadeiras vítimas de qualquer conflito. “Não é uma foto de criança, é a mensagem de uma criança sendo enviada para outra parte do mundo”, reflete.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Em 2013, cobriu com sua equipe de fotógrafos a incerteza nas ruas da África do Sul diante do estado de saúde delicado de Nelson Mandela. Ele continuou, entretanto, produzindo imagens encantadoras da vida diária em torno de Islamabad, onde já se encontra há três anos.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

2
fev

Dias de noite – noites de dia, por Elena Chernyshova

Retrato de Elena Chernyshova

Mais de 250 dias por ano com ruas cobertas pela neve. Temperaturas que chegam a -50°C no inverno. Para completar, entre dezembro e meados de janeiro, a noite polar: período no qual o sol não cruza a linha do horizonte. Com uma população de aproximadamente 175 mil habitantes, Norilsk está situada na Sibéria, cerca de 240 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico. O cotidiano dessa cidade fabril – uma das dez mais poluídas do mundo – é apresentado pela fotógrafa russa Elena Chernyshova na série Days of Night – Nights of Day [Dias de noite – noites de dia].

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

“Por dez anos, minha mãe viveu em Chukotka (no extremo nordeste da Rússia), em uma pequena cidade ao norte do Círculo Polar. Quando criança, eu era fascinada pelas suas histórias a respeito da noite e do dia polares, das luzes do norte, das temperaturas que chegavam aos 60 graus negativos, da neve cintilante e da comida seca ou em pó. Essas condições soavam totalmente inusitadas, pareciam ter origem em um conto de fadas”, conta Elena em entrevista a National Geographic. “Cinco anos atrás conheci uma garota de Norilsk. Suas histórias despertaram novamente minha curiosidade. Dali em diante já não sabia dizer se queria contar uma história sobre a adaptação das pessoas ao ambiente hostil do norte, ou sobre a própria Norilsk. Elas eram inseparáveis”, explica a fotógrafa.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Fundada em 1935, Norilsk está situada em uma região de solo rico em minérios, tais como níquel, cobalto, platina e paládio. A cidade tem um dos maiores complexos de mineração e metalurgia do mundo. Foi um gulag soviético até 1956 – durante esse período, estima-se que cerca de 17 mil pessoas tenham morrido nas minas e na construção da cidade, enfrentando frio intenso, fome e trabalhos forçados. Ainda hoje os trabalhadores sofrem com a poluição – são observados elevados índices de câncer, doenças pulmonares, desordens sanguíneas e de pele, além de inúmeros casos de depressão.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

A quantidade de dióxido de enxofre é tão alta que exterminou a vegetação em um raio de aproximadamente 30 quilômetros. Numa tentativa de compensar as condições insalubres, com 60% da população trabalhando na indústria, há 90 feriados oficiais por ano. Além disso, é oferecida a aposentadoria aos 45 anos de idade.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

“Queria mostrar as particularidades dessa cidade: isolamento, condições climáticas extremas, a noite polar, sua origem, a arquitetura, suas dimensões imensas e o cotidiano dos seus habitantes. Também procurei mostrar a catástrofe ambiental e a domesticação desse ambiente”, diz Elena, que viveu oito meses em Norilsk, divididos em três estadas da fotógrafa, entre 2012 e 2013.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Vencedora do terceiro prêmio da categoria “Daily Life” do World Press Photo 2014, a série mostra também os momentos de ócio dos habitantes de Norilsk. Piscinas abertas no gelo são frequentadas pela população. Depois dos banhos, pelo costume local, as pessoas vão se esquentar em saunas. No curto período de calor – que pode chegar à casa dos 30 graus – também é comum se deitar ao sol.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Nascida em Moscou (1981), Elena Chernyshova vive na França. Iniciou seu interesse por fotografia no período em que estudou e trabalhou com arquitetura. Depois de dois anos atuando como arquiteta, deixou o trabalho e viajou de bicicleta de Toulouse (França) a Vladivostok (Rússia) – uma viagem de ida e volta, que totalizou 30 mil quilômetros e 26 países percorridos, ao longo de 1.004 dias, e que ajudou Elena a decidir se tornar fotógrafa. Seus trabalhos são publicados em importantes periódicos internacionais, como National Geographic e Le Monde.