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Archive for novembro, 2017

10
nov

Da Vogue para o campo de batalha

Retrato de Sebastiano Tomada Piccolomini.

Sebastiano Tomada Piccolomini é um jovem fotógrafo que se dedica ao fotojornalismo em zonas classificadas por ele como as “as mais voláteis do mundo”, localizadas, principalmente, no Oriente Médio e na Ásia. O início de sua carreira, entretanto, se deu no campo da fotografia de moda. Ao falar sobre as motivações de sua transição, o fotógrafo é honesto: queria sentir na pele a sensação de estar em guerra.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Nascido em 1986 no Upper East Side, em Nova Iorque, mas criado em Florença, Itália, Piccolomini retornou a sua cidade natal para graduar-se em Estudos de Mídia e Fotografia na Parsons New School for Design. De acordo com ele, foi durante a faculdade que começou a desenvolver seu estilo, focando na fotografia documental e nos retratos. Tão logo se formou, começou a ajudar fotógrafos de moda famosos, como Steven Klein e Mario Testino, mas considerou o meio “patético” e a cena “ainda pior”. Ao relembrar seu desejo na época, afirma que queria “encontrar um nicho, algo atemporal e concreto”. Como a fotografia nas zonas de conflito, algo que sempre o intrigou.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

“Eu estava além do curioso para saber qual era a sensação de estar em guerra, como era o cheiro, como era lutar e ser baleado”, recordou, definindo-se, à época, como “jovem e curioso”. Aos 22 anos, passou três meses no Afeganistão. Hoje, aos 26, já tem em seu portfólio a documentação dos conflitos na Líbia, Síria, e as consequências do terremoto de 2010 no Haiti.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Um de seus mais famosos ensaios é The Battle for Aleppo (“A batalha por Aleppo”), publicado no fim de 2012. Em meados de setembro do mesmo ano, o fotógrafo deixou a cidade fronteiriça turca de Kills e teve seu passaporte carimbado em um posto de controle operado pelo Exército Sírio Livre (FSA). Entrou na Síria e, a partir daí, sempre com a ajuda da FSA, fez a viagem de três horas para Aleppo, maior cidade do país e um verdadeiro um campo de batalha na guerra civil entre as forças do presidente Bashar Al Assad e a FSA. Perto de 30 mil pessoas já haviam sido mortas desde o início do conflito, 20 meses antes, e cerca de 100 mil já estavam na fronteira com a Turquia. O que o impressionou, entretanto, e que é evidente em suas imagens, não foi a destruição da cidade em si, mas a determinação do povo em ficar e criar o que Piccolomini expressou como “uma aparência de vida normal em face do caos e da incerteza”.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Foto: Sebastiano Tomada Piccolomini.

Sebastiano já recebeu diversas honras, incluindo um prêmio no World Press Photo. Sua lista de clientes inclui as publicações The Sunday Times, Vanity Fair, The New Republic, The Atlantic e Businessweek.

 

3
nov

Gjon Mili e os desenhos luminosos de Picasso

Retrato de Gjon Mili em seu estúdio.

Enquanto David Douglas Duncan retratou a intimidade do espanhol Pablo Picasso com um olhar afetivo, o fotógrafo Gjon Mili, sete anos antes, capturou os desenhos de Picasso em light painting (pintura com luz), transcendendo seus retratos ao aliá-los com o talento do artista. A espontaneidade de Picasso ao fazer seus desenhos durante as fotos, somada à técnica inovadora de Mili, deu o tom original ao trabalho.

Foto: Gjon Mili.

Foto: Gjon Mili.

Nascido na Albânia em 1904, Gjon Mili mudou-se para os Estados Unidos em 1923 e pode conhecer o mundo retratando os mais variados temas para a revista Life. No Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em parceria com Harold Edgerton, desenvolveu a técnica do flash estroboscópico para captação de imagens em um único fotograma, quando este recurso era utilizado apenas para fins científicos.

O encontro entre Gjon Mili e Pablo Picasso aconteceu quando, em 1949, Mili viajou ao sul da França pela revista Life para fazer um ensaio fotográfico sobre o pintor. Após o primeiro contato, não hesitou em compartilhar suas primeiras experiências de light painting com o artista, um ensaio no qual patinadores tiveram luzes colocadas em suas botas e foram fotografados com a utilização da técnica de longa exposição combinada com um ou mais disparos de flash eletrônico. As fotos impressionaram Picasso e o inspiraram a fazer desenhos de luz no ar, para que Mili os fotografasse. Do resultado, nasceu o Picasso’s Light Drawings; um ensaio realizado durante cinco sessões de trabalho, há mais de 60 anos.

Foto: Gjon Mili.

Foto: Gjon Mili.

As sessões aconteceram no estúdio de Picasso, em Vallauris, França, com o ambiente às escuras. Um pequeno bico de luz tornava-se uma espécie de caneta, formando grafismos luminosos à medida que ele a movimentava. Em um dado momento um flash eletrônico era disparado, congelando a imagem de Picasso no final dos percursos trilhados pela luz.

Foto: Gjon Mili.

Foto: Gjon Mili.

Harmonia entre fotografia e cinema

Autodidata, Gjon Mili iniciou sua carreira fotográfica como freelancer na revista Life, em 1939 onde permaneceu por 45 anos. Trabalhou como fotografo durante toda a sua vida, tendo milhares de publicações na Life e em outras revistas. Em 1944, dirigiu o curta-metragem de nome Jammin’ the Blues. O curta possui pouco mais de nove minutos de pura ode ao blues, no qual artistas consagrados participaram para fazer música juntos. A técnica de repetições de imagens tão utilizada por Mili nas fotografias  ganha espaço no filme, apesar dele não ter assinado a fotografia do trabalho.

Foto: Gjon Mili.

Foto: Gjon Mili.

Gjon Mili morreu em Stanford, Connecticut, em fevereiro de 1984, em decorrência de uma pneumonia aos 79 anos.