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Archive for agosto, 2016

19
ago

O retorno do site foto.art, de Sérgio Sakakibara (Japa)

 

 

Lançado originalmente em 1997 pelo fotógrafo Sérgio Sakakibara, o site foto.art está de volta com sua abordagem didática e iconoclasta. Para celebrar esse retorno e o Dia Mundial da Fotografia, conversamos com o Japa – como Sérgio é mais conhecido – a respeito do início do foto.art, no final dos anos 1990, um precursor entre os sites brasileiros dedicados ao universo fotográfico.

 

 

Como foi o começo do site? O que havia de conteúdo online relacionado à fotografia naquela época?
Tinha um site do Clício Barroso e outro do Rio de Janeiro, o Photosynthesis. Mais tarde, veio o Fotosite, do Marcelo Soubhia. A maior parte do trabalho era – e continua sendo – pesquisar, estudar, garimpar, analisar, filtrar informação e traduzir para o português. Tive colaboradores estudantes, o Fernando Schwedersky, da área de publicidade e internet, e a Paula Biazus e a Maisa Del Frari, do jornalismo.

Como você define a linha editorial do site? Como foi a recepção dos fotógrafos?
O site tratava de assuntos diversos, de forma alegre, às vezes de forma debochada. A linha editorial era de opiniões bem marcadas, numa linha inspirada pelo Pasquim. Criticava duramente políticas públicas para o setor. Alguns gostavam, outros reclamavam da linha, alguns odiavam. Arranjei algumas inimizades. Eu ria muito quando fazia, era divertido, um hobby caro. Exigia alto envolvimento, não tinha fim de semana, mas também aprendi muito.

De que forma eram abordadas questões mais técnicas da fotografia? 
Pegamos a entrada do digital, naquela época de muitas dúvidas técnicas e muito preconceito, resistência – às vezes meio burra – ao digital. A entrada do digital já foi com informação via internet, não havia tempo para publicação em livro, e mesmo revistas mensais não conseguiam acompanhar a velocidade. Um dos focos do site era o furo jornalístico na informação de lançamentos da indústria de fotografia digital e a previsão de tendências.

 

 

Você pode nos falar um pouco sobre a imagem acima?
É um exemplo da linha editorial debochada e de sua representação gráfica – cores berrantes, uso de gif animado… Também usava sons de fundo na página, que irritavam e assustavam muita gente. Tirava sarro de muitos puristas, fotógrafos e professores, que diziam que o digital nunca ia superar o filme e poluíam o Guaíba… (a fotografia analógica não existia ainda, é uma invenção nova deste mesmo povo). Hoje, os ecochatos analfabetos dizem que não se pode jogar fixador no ralo por causa dos metais pesados. Nunca estudaram química e desconhecem a tabela periódica. Não sabem que prata não é metal pesado. É um metal caro, e é burrice jogar fora.

Resgatamos também este material sobre as câmeras de 6 megapixel, publicado no início dos anos 2000. Pode nos falar um pouco a respeito?
Estudo e conhecimento técnico permitiram o entendimento de que 6 megapixel, que tínhamos no lançamento de câmeras digitais profissionais da época, bastariam para quase todo uso de fotografia editorial e publicitária. Até hoje, profissionais de publicidade ainda falam besteiras a respeito de resolução, por vezes por interesses comerciais, quando falam em imagens para outdoor, quando desconhecem sua forma de produção.

Pode nos explicar o conceito de “fotografia artesanal” mencionado no site?
O nome do site foi decidido logo que foi lançada a terminação .art. Ocorreu-me usar um nome bem sintético e menmômnico. Lembrava fotografia e arte. Posteriormente comecei a questionar essa questão de fotografia e arte, um território bastante pantanoso – todo fotógrafo quer ser artista. A fotografia jornalística e documental se esvazia politicamente quando vai para a parede de um museu, é num deslocamento que provoca uma descontextualização da informação. Uma das características da fotografia é o recorte espacial e temporal, e se a imagem é apresentada sem a apresentação da informação dessa trajetória, tende a se transformar em um ficção, plausível, e até arte. Na retomada do site, que coincidiu com um interesse geral pela fotografia suja, química, aproveitei para requalificar a desinência, fugindo de arte para artesanal, do fotografia feita à mão, fotografia alternativa ao “mainstream”. O digital é muito clean, limpinho, bonitinho, insípido, inodoro, não suja o Guaíba…

Por fim, o que motivou a retomada do site? O que podemos esperar desse retorno?
Um ponto de informação sobre fotografia como um hobby, como artesanato, como passatempo, sem a preocupação com arte, ou deslocando a estese para o brincar com fotografia.

 

16
ago

Graciela Magnoni: um olhar atento ao acaso urbano

Índia, China, Etiópia, Nepal, Turquia. Esses são alguns dos tantos países visitados pela fotógrafa franco-uruguaia Graciela Magnoni. Imersa no contexto de cada lugar que visita, ela direciona sua produção à fotografia de rua, produzindo imagens que são resultado de uma observação atenta e aberta ao acaso.

 

Magnoni nos convida a viajar por cenas em que um pouco de nada e um pouco de tudo acontece. Uma equação de difícil medida, que foge de metáforas visuais óbvias. A construção de cada plano se dá de forma muito aberta ao caos do cotidiano.

 

Percebe-se a atenção da fotógrafa às cores e à luz de onde fotografa. A partir desses e de outros elementos, Magnoni captura instantes em que algo curioso está ocorrendo ou prestes a acontecer – sutilezas que ganham status de inusitado graças ao olhar da fotógrafa.

 

A composição das fotos apresenta um mundo repleto de encontros potenciais e fragmentos da vida de personagens totalmente desconhecidos. Magnoni viaja o mundo não para mostrar o típico de cada lugar, mas sim o prosaico que de certa forma envolve a vida de todos.

 

Graciela Magnoni nasceu no Uruguai – filha de pai francês e de mãe uruguaia. Na infância, viveu no Brasil, na França e em outros países. Mais tarde viveu também nos Estados Unidos e desde 2003 vive em Singapura. Estudou jornalismo na PUC-SP e possui mestrado, também em jornalismo, pela Universidade de Minnesota.

 

 

 

 

12
ago

O Rio dos esportes visto de cima, por Edoardo Delille e Gabriele Galimberti

Em tempos de Olimpíadas, apresentamos no post de hoje o ensaio En Plein Air [Ao ar livre], que aborda a paixão dos cariocas pelo esporte. O ângulo é bastante peculiar: utilizando um drone, Edoardo Delille e Gabriele Galimberti retratam desde cima, num ângulo de 90 graus, espaços destinados a práticas esportivas e suas relações com as paisagens do Rio de Janeiro.

 

Encontramos uma variedade de habitats dos esportistas: quadras de futebol ao lado de pistas de automóveis, clubes, parques e claro, a praia. Em meio a essa diversidade, as fronteiras sociais também se borram, ganhando novas nuances. “As diferenças entre alto e baixo se equilibram. Crianças das favelas descem ao asfalto, perdendo-se entre a burguesia de Ipanema e do Leblon”, comentam os fotógrafos.

 

As imagens deixam ver um pouco do contexto urbano onde esses espaços se situam, próximos da movimentação dos carros mas também rodeados pela natureza da cidade. Assim, revelam como o esporte é parte fundamental da vida dos cariocas. Mais do que simplesmente capturar imagens aéreas, a dupla ainda concebe um mise en scène dos atletas amadores, que se posicionam no solo – ou na água – olhando para cima.

 

Esse detalhe confere algo de muito particular às fotografias de Delille e Galimberti: como se a pausa das atividades dos esportistas abrisse um canal de contemplação – de quem olha para o céu e entre essas pessoas e o espectador que observa a imagem. Nada de uma visão topográfica e desinteressada, portanto: a dupla parece reivindicar certa troca de olhares e um tempo destinado a pensarmos na paisagem urbana do Rio e seus habitantes.

 

Nascido em Florença, em 1974, Edoardo Delille estudou fotografia na Fondazione Marangoni. Começou a trabalhar com fotografia publicitária e de moda, desenvolvendo mais tarde seus trabalhos autorais, já publicados em diversos países. Gabriele Galimberti, nascido em 1977, realiza ensaios documentais, já tendo publicado suas fotografias em importantes periódicos europeus.