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Archive for maio, 2016

31
mai

10 por 1, de Bogdan Gîrbovan

 

 

Apartamentos com plantas idênticas eram comuns nos anos de hegemonia comunista no leste europeu. O objetivo, nas palavras do fotógrafo romeno Bogdan Gîrbovan, era restringir “inclinações individualistas”, consideradas uma ameaça aos ideais vigentes no regime. Tendo esse contexto como pano de fundo, Gîrbovan concebeu a série 10/1.

 

 

 

As imagens mostram dez apartamentos de um mesmo edifício na zona leste de Bucareste, exatamente no mesmo local onde vive o fotógrafo. Idênticos na distribuição dos cômodos, revelam em seu interior um pouco da personalidade de cada morador.

 

 

 

“Fiz uma fotografia de cada apartamento a partir do mesmo ângulo, de modo a ilustrar melhor a mescla de classes sociais do bloco, apresentando diferenças apenas nos personagens e na decoração dos interiores.

 

 

 

As salas podem ser vistas como uma representação psicológica daqueles que vivem nelas, refletindo sua história e sua relação com os dias atuais”, conta o fotógrafo em entrevista.

 

 

 

Nascido em 1981, Bogdan Gîrbovan vive e trabalha em Bucareste. Atualmente, cursa mestrado em fotografia e vídeo na Academia de Belas Artes de Bucareste. Seu trabalho investiga principalmente as relações sociais na Romênia.

 

 

27
mai

É menino, de Tytia Habing

 

 

Um ensaio sobre o que é extremamente próximo e ainda assim repleto de surpresas e prenhe de descobertas. A fotógrafa Tytia Habing narra em imagens o novo universo a que teve acesso ao criar seu primeiro filho – após esperar que fosse dar à luz a uma menina. “Desde então, minha vida se encheu de sujeira, tênis cheios de areia, adesivos, joelhos ralados, carrinhos, caixas de papelão, armas de brinquedo e um senso de diversão interminável com essa pequena criatura estrangeira que eu trouxe ao mundo”, conta a fotógrafa.

 

 

 

 

 

Habing fotografa a série This is Boy (2011-2015) em preto e branco, o que contribui para transportar o espectador a um certo tempo particular da infância em que tudo parece ser eterno. Uma aura de mistério atravessa as imagens, e o olhar da fotógrafa parece cúmplice da magia infantil que vislumbra um mundo enorme a ser descoberto.

 

 

 

 

 

Excitação, medo, tédio, alegria, assombro. Uma série de sentimentos ganha forma de modo um tanto complexa nas fotografias. As imagens nos transportam a um cotidiano de brincadeiras e instantes repletos de sensações por vezes confusas, em outras, repletas de encantamento com o mais prosaico.

 

 

 

 

 

O contato com a natureza é uma das ênfases do dia a dia do personagem da série e de sua mãe, que relata ter optado por uma vida mais conectada com a terra. De certa forma, é essa conexão que Habing parece buscar retratar: momentos aparentemente insignificantes que, no entanto, revelam um modo de vida em que se valoriza tudo aquilo que é simples.

 

 

 

 

 

Tytia Habing vive e trabalha em Watson, Illinois (EUA), localidade próxima de onde cresceu em uma fazenda. Estudou horticultura e arquitetura, tornando-se fotógrafa autodidata. Desde que passou a desenvolver seu trabalho fotográfico, já publicou suas imagens em diversos periódicos especializados, participando também de exposições.

24
mai

Reuben Wu: paisagens em nova perspectiva

 

 

O uso de drones tem se disseminado para a captura de fotos e vídeos a partir de pontos de vista que anteriormente eram impossíveis. O fotógrafo Reuben Wu, no entanto, utiliza essa tecnologia de modo particular: em vez de acoplar câmeras no dispositivo, ele utiliza o equipamento para iluminar as paisagens que fotografa. Como resultado, a série Lux Noctis apresenta a Terra de forma misteriosa, com ares de uma exploração espacial de outro planeta.

 

 

 

“Todos os dias, somos sobrecarregados por imagens do nosso planeta. Elas são belíssimas, mas queria ir além, mostrando as paisagens quase como abstrações”, conta o fotógrafo. As imagens remetem também à tradição da fotografia de paisagens e às pinturas do Romantismo.

 

 

 

Wu usa um drone 3DR Solo, equipado com um protótipo de luz LED da marca Fiilex. Para obter as imagens, é essencial que o equipamento seja extremamente portátil, já que o fotógrafo se movimenta por áreas de difícil acesso. Após escolher a locação, Wu aguarda o anoitecer. Depois, posiciona sua câmera no solo e comanda o drone para que ilumine a paisagem. A luz é posicionada desde diferentes ângulos, permitindo ao fotógrafo maior controle na pós-produção.

 

 

 

Nascido em Liverpool, Reino Unido, em 1975, Reuben Wu é também cineasta, músico e produtor musical. Em seu trabalho fotográfico, tem interesse especial por paisagens e pela exploração de novas tecnologias para a produção de imagens. Com a série Lux Noctis, obteve reconhecimento de publicações especializadas em fotografia e tecnologia.

 

 

 

20
mai

Freddy Fabris: uma releitura fotográfica do Renascimento

 

 

Ao visitar uma mecânica com um amigo, o fotógrafo Freddy Fabris teve um insight: aproveitar o cenário e os personagens daquele tipo de local para uma releitura de pinturas do Renascimento – explorando, assim, sua paixão por artistas como Michelangelo e Rembrandt e experimentos do início de sua carreira, quando era pintor.

 

 

 

 

As fotografias sobrepõem novas camadas de significado sobre imagens icônicas. Com uma ironia sutil, inclui novos elementos que redefinem as possíveis interpretações de cada cena. De certa forma, o fotógrafo dá sequência a outro trabalho em que fotografou atletas caracterizados como esportistas do início do século 20, o que revela seu interesse por mesclar tempos e contextos distintos no mesmo plano.

 

 

 

 

Sua trajetória de mais de uma década na publicidade torna perceptível também uma estética que remete a anúncios. Mais um componente que se soma ao trabalho e amplia ainda mias sua rede de significações.

 

 

 

 

Nascido em Nova York, com passagem por Buenos Aires e vivendo atualmente em Chicago, Freddy Fabris construiu sólida trajetória em grandes agências publicitárias internacionais. Atua em cada detalhe de seus projetos, dando grande atenção também ao trabalho de pós-produção. Sua releitura de obras do Renascimento já lhe rendeu prêmios importantes, abrindo espaço para novos projetos pessoais, em paralelo à sua atuação na publicidade.

17
mai

Fatemeh Behboudi: Mães da paciência

 

 

Em qualquer conflito armado, a tragédia das vidas perdidas se multiplica se pensarmos que cada morte traz consigo o sofrimento daqueles que ficam e precisam aprender a lidar com as ausências. Há também outro tipo de dor, perturbadora de modo distinto: aquela da expectativa de que alguém volte, por menos provável que isso possa parecer. Na série Mothers of Pacience [Mães da paciência], a fotógrafa Fatemeh Behboudi acompanha de perto a eterna espera de mulheres iranianas por seus filhos, desaparecidos durante a guerra entre Irã e Iraque.

 

 

 

 

Iniciada em 1980, com a invasão iraquiana de territórios do Irã, a guerra entre os dois países se estendeu até 1988 – considerada, portanto, o mais longo conflito bélico convencional do século 20. Depois de assinada a paz, contabilizou-se em 10 mil o número de soldados iranianos dos quais não se sabia o paradeiro.

 

 

 

 

“Nasci durante a guerra, e toda minha infância e juventude foi perdida em nome dela. Todos os dias, escutava que os corpos de um grande número de mártires haviam sido trazidos. Fui com minha família receber os corpos de desconhecidos e vi mães que procuravam os de seus filhos”, recorda a fotógrafa. Nos últimos anos, em torno de 7 mil corpos foram encontrados no Irã, mas devido a dificuldades de identificação, foram registrados como mártires anônimos e enterrados. Do outro lado da fronteira, no Iraque, estima-se que 5 mil corpos ainda estejam sem terem sido sepultados.

 

 

 

 

Na rotina das mães, o apego a cartas e roupas que ficaram para trás é constante. Depois de décadas de espera, muitas delas acabam conseguindo identificar seus filhos por meio de exames de DNA e de objetos encontrados junto aos corpos. Com intervalos de alguns meses, são realizados enterros de corpos encontrados próximos da fronteira Irã-Iraque. Os funerais são atendidos por muitas das mães que ainda aguardam alguma notícia de seus desaparecidos.

 

 

 

 

Nascida no Teerã, capital do Irã, Fatemeh Behboudi estudou fotografia e, depois de graduar-se em 2007, trabalhou em veículos e agências de comunicação iranianas. Nos últimos anos, tem participado e recebido distinções de diversas festivais e exposições relacionados à fotografia.

 

13
mai

Pushkar Raj Sharma: identidades em jogo

 

 

Ao longo de um ano, na parte antiga da cidade de Deli, o fotógrafo Pushkar Raj Sharma buscou ângulos variados para explorar questões em torno da identidade dos habitantes da segunda maior cidade indiana. O ensaio Losing Identity [Perdendo a identidade], apresenta indivíduos com seus rostos cobertos por objetos presentes no dia a dia – de roupas penduradas a materiais da rotina de trabalho das pessoas fotografadas.

 

 

 

“Esses momentos são surpreendentes, engraçados, misteriosos, cheios de esperança, suaves… As pessoas se relacionam com cada imagem de formas diversas”, conta o fotógrafo.

 

 

 

O ensaio acaba por trazer à tona também o cotidiano um tanto caótico da cidade, que parece contribuir para dissolver as identidades de seus habitantes.

 

 

 

Embora não se possa enxergar rostos, cada imagem deixa ver detalhes que no mínimo dão pistas para tentarmos entender a vida em Deli e a sociedade indiana de modo geral.

 

 

 

Pushkar Raj Sharma trabalha como fotógrafo freelance em Deli e se tornou conhecido após menção no livro Street Photography Now, de 2014. Fascinado pela fotografia urbana, interessa-se sobretudo pela riqueza da vida cotidiana na Índia.

 

 

 

10
mai

O gene belo, de Marina Rosso

 

 

O ensaio The Beautiful Gene [O gene belo], da fotógrafa italiana Marina Rosso, tem como insight uma decisão tomada em 2011 por um banco de esperma: à época, a instituição interrompia o recebimento de doações de esperma de ruivos. O motivo era a discrepância na relação entre oferta e demanda: havia poucos interessados na inseminação de material genético de ruivos, o que resultava em um grande excedente.

 

 

 

 

“Mulheres solteiras, que representam metade da base de consumidores, tendem a selecionar doadores tendo como base a busca de um ‘príncipe encantado’. De modo crescente, novas vidas são constituídas numa tentativa de alcançar um tipo de pessoa ideal, um processo que alguns filósofos chamam de nova eugenia. Esses ideais pessoais raramente incluem ruivos”, explica a fotógrafa.

 

 

 

 

Como provocação, ela buscou atuar como uma “conservadora de genes”, que classificaria variações genéticas de modo a preservar sua diversidade. “Comecei criando uma base que representaria o gene ruivo em 48 categorias, cada qual combinando cinco aspectos físicos (gênero, altura, constituição, cor dos olhos e tipo de cabelo)”, conta Marina, que percorreu diversos países europeus em busca de seus retratados.

 

 

 

 

Nascida em Udine, Itália, em 1985, Marina Rosso formou-se em arquitetura em sua cidade natal, mudando-se mais tarde para Berlim, onde estudou fotografia. Na sequência, fez dois anos de residência na FABRICA, centro de pesquisas em comunicação da marca Benetton. Já colaborou com periódicos como The Sunday Times Magazine, La Repubblica e Corriere dela Sera.

 

 

 

6
mai

Duane Michals: narrativa, representação e realidade (Parte III)

 

 

Em nosso terceiro post sobre o trabalho do fotógrafo Duane Michals, apresentamos a sequência Grandpa Goes to Heaven [Vovô vai para o céu], de 1989. Se é possível traçarmos algum paralelo com as outras séries que já comentamos por aqui – Chance Meeting (1972) e The Young Girl’s Dream (1969) –, podemos observar inicialmente o interesse do fotógrafo por situações de encontro entre duas pessoas e as transformações que daí se originam.

 

 

 

 

 

 

Outro aspecto que ganha evidência é o olhar atento para a sutileza dos gestos, especialmente nas mãos do garoto e do avô – elementos mínimos que dão sustentação à narrativa de quatro imagens. Questões em torno da morte e da transcendência também ganham espaço, articuladas com a variação de exposição dos planos. Michals mais uma vez constrói uma sequência que suscita profundas indagações a partir de escolhas muito precisas e cuidadosas.

 

3
mai

As trocas de Stuart Pilkington

 

 

Interessado em conectar pessoas por meio da fotografia, o curador e fotógrafo inglês Stuart Pilkington desenvolveu um projeto que traz para frente das câmeras os próprios fotógrafos. Em The Swap [A troca], realizado desde 2013, Pilkington atua como um articulador de retratos, fazendo a mediação de encontros que resultam em imagens.

 

 

 

O processo funciona da seguinte forma: uma dupla de fotógrafos se encontra duas vezes, revezando-se entre as posições de quem fotografa e quem é retratado. Depois de obtidas as imagens, elas são enviadas por e-mail para o site do projeto, que publica as fotos.

 

 

 

“A ideia de estar diante da câmera aborrece muitos fotógrafos, mas para aqueles que desejam participar é uma oportunidade de criar algo de forma colaborativa com outro profissional”, conta Pilkington.

 

 

 

O fotógrafo ainda ressalta que dá total liberdade para que os participantes se fotografem da forma como bem entenderem, sem qualquer direcionamento da parte do curador.

 

 

 

Stuart Pilkington vive no noroeste da Inglaterra e integra o projeto Documenting Britain, formado por artistas de diversas áreas que desenvolvem trabalhos criativos que abordam o Reino Unido. O fotógrafo também colabora com o British Film Institute e a família Kubrick, além de realizar a curadoria de diversos projetos fotográficos.