Skip to content

Archive for abril, 2014

30
abr

Explorando a luz e o espaço

Foto: Laura Aldana

Um dos lugares mais tradicionais de Porto Alegre, o Mercado Público foi o cenário escolhido para uma prática realizada esta semana pelos alunos do Curso Anual de Fotografia da ESPM-Sul. Orientados pelo professor Guilherme Lund, os estudantes puderam circular no local e explorar fundamentos relacionados ao controle da luminosidade, aprimorando os conhecimentos de operação do equipamento fotográfico.

Foto: Laura Aldana

Foto: Laura Aldana

A turma do Módulo de Formação tinha como tarefa explorar luzes altas, médias e baixas, em locais em que a luminosidade varia ou se mostra contrastante. A profundidade de campo das fotografias foi outro aspecto a ser trabalhado, com a modalidade de foco pensada para cada captura. Aproveitando a movimentação do Mercado, os alunos também criaram imagens com movimentos borrados e congelados.

Foto: Laura Aldana

Foto: Laura Aldana

Além de desenvolver o domínio técnico da fotografia, a prática em um espaço como o Mercado Público possibilita que os estudantes identifiquem temáticas que lhes interessam. “Os alunos vão descobrindo o que gostam de fotografar. Alguns fazem retratos, outros buscam texturas, ou então detalhes da arquitetura”, comenta Lund.

Foto: Laura Aldana

Foto: Laura Aldana

O professor também explica que fotografar em meio à circulação dos frequentadores do Mercado se revela um aprendizado. Cada fotografia exige uma postura específica. Como abordar um desconhecido para fazer um retrato? Ou então: como manter a descrição para que a presença do fotógrafo não interfira em uma determinada situação? São aprendizados da prática que se somam ao desenvolvimento do domínio técnico do equipamento.

16
abr

A guerra na Síria, por Goran Tomasevic

Retrato de Goran Tomasevic

A quantidade total de mortos e feridos em um dia de conflito não nos mostra os instantes dramáticos de uma guerra, nos quais cada movimento pode determinar a vida ou a morte de um combatente. Com frequência, o fotojornalismo consegue testemunhar de perto essas histórias, exibindo traços humanos, que os números são incapazes de revelar. Aqui apresentamos um desses relatos, reportado pelo fotógrafo sérvio Goran Tomasevic, um dos mais importantes correspondentes em zonas de conflito. A série venceu o primeiro prêmio na categoria “Spot News Stories” do World Press Photo 2014. As imagens mostram integrantes do Exército Livre da Síria – oposição militar ao governo – que se preparam para atacar um posto do exército sírio, nos subúrbios de Damasco, no momento em que um dos rebeldes é atingido por tiros.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

Ferido, o rebelde é carregado do local por seus companheiros. “Nesses conflitos é possível ver combatentes inimigos que estão a 5 metros um do outro”, conta o fotógrafo em depoimento a sua agência de notícias, da qual é atualmente fotógrafo-chefe de coberturas no leste da África.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

“Quando um combate começa, para mim não há volta. Se um dia vejo que não estou fazendo o bastante, vou parar. Não posso trair essas pessoas e deixar de registrar esses momentos. Esse é o meu trabalho”, explica Tomasevic.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

“A maior parte do tempo estou pensando nas imagens e na minha segurança. Se estou com colegas, tento ajudar para que eles também se mantenham a salvo. Estou tentando minimizar os riscos o máximo que posso. Acredito que está tudo nas mãos de Deus, rezo regularmente”, revela.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

Na reportagem realizada em Damasco, os rebeldes, depois de retirarem o companheiro que foi atingido, voltam a atacar, protegidos por um muro. Eles, no entanto, sofrem o ataque de mísseis e de um tanque do exército sírio. O muro explode durante a investida. Em seguida, os rebeldes descobrem que o companheiro socorrido anteriormente havia morrido em decorrência dos ferimentos.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

“Cubro guerras há mais de 20 anos. Não vejo muitas diferenças, especialmente em guerras urbanas. Elas me lembram a guerra dos Balcãs. Ao mesmo tempo, não acredito que haja muita diferença em relação a II Guerra Mundial”, analisa o fotógrafo. “Sei que fiz algumas imagens que serão lembradas. Mas não penso a respeito. Não sei o que vai mudar ou não. Mas espero que algo mude ao mostrar a brutalidade em alguns lugares, como na Síria. Talvez algumas pessoas pensem um pouco mais ou façam esforços para terminar essa guerra”, completa.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

Nascido em Belgrado, Sérvia, e vivendo atualmente no Quênia, Goran Tomasevic começou sua carreira cobrindo para um jornal local as guerras que se seguiram à dissolução da Iugoslávia na década de 1990. Passou a integrar a equipe de fotógrafos da Reuters em 1996. Cobriu conflitos em países como Iraque, Afeganistão e Líbia. Seu trabalho inclui também reportagens na África – Sudão do Sul, Moçambique, República Democrática do Congo, Nigéria e Somália – e coberturas esportivas dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo. Durante os três meses de bombardeios da OTAN na Sérvia, em 1999, Tomasevic era o único fotógrafo trabalhando para a imprensa estrangeira que permaneceu em Kosovo ao longo de todo o conflito. Em 2002, mudou-se para Jerusalém e cobriu a segunda Intifada palestina. Em 2003, suas fotografias da derrubada da estátua de Saddam Hussein, no Iraque, durante a invasão norte-americana, se tornaram imagens icônicas. Tomasevic cobriu também a Primavera Árabe e os recentes conflitos na Síria, nas cidades de Aleppo e Damasco.

11
abr

Fuga, de Danila Tkachenko

Retrato de Danila Tkachenko

“Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido.”

Henry David Thoreau, A vida nos bosques (1854) – tradução de Astrid Cabral

Foto: Danila Tkachenko

Foto: Danila Tkachenko

Retirar-se da vida em sociedade, buscar uma relação mais harmônica com a natureza, encontrar tempo para a contemplação. As imagens da série Escape [Fuga], do fotógrafo russo Danila Tkachenko (Moscou, 1989), nos remetem a essas ideias, carregadas de utopia, que já ganharam forma nas mais diversas manifestações – da teologia às artes visuais, passando pela literatura e pela filosofia.

Foto: Danila Tkachenko

Foto: Danila Tkachenko

“Eu nasci no coração de uma grande cidade, mas sempre me interessei pela vida selvagem – para mim, é o lugar onde posso me esconder e sentir quem sou realmente, fora do contexto social”, conta o fotógrafo. Danila, em certa medida, ecoa as palavras de Thoreau que abrem este texto – o livro A vida nos bosques mescla reflexões de ordem existencial e críticas às transformações provocadas pela industrialização norte-americana no século XIX, a partir das experiências vividas pelo escritor, em um período de aproximadamente dois anos, numa cabana construída por ele, próxima ao lago Walden, no estado de Massachusetts, EUA.

Foto: Danila Tkachenko

Foto: Danila Tkachenko

Em sua gama de tons verdes e terrosos, as fotografias de Danila mostram personagens que se mimetizam com a paisagem. Os retratos apresentam um lugar de dissolução de identidades, de limites difusos – não somente dos rostos e dos corpos, como também das construções, nas quais, por vezes, mesmo os marcos de portas e janelas se escondem e dão a ver somente as sombras dos interiores.

Foto: Danila Tkachenko

Foto: Danila Tkachenko

Os personagens das fotografias de Danila são envoltos em certo mistério. O que os terá levado a esse lugar? O que buscam? Que relações ainda mantêm – se é que alguma – com a vida nas cidades? Para o fotógrafo, no entanto, o resgate da biografia dos ermitões parece não importar tanto. Mais do que descrever as circunstâncias das escolhas de cada um, Escape nos aproxima de rostos que de alguma forma nos devolvem aquelas perguntas.

Foto: Danila Tkachenko

Foto: Danila Tkachenko

“Escola, trabalho, família – uma vez nesse ciclo, você se torna prisioneiro de sua própria posição e deve agir conforme as expectativas. Você precisa ser forte e pragmático, ou se tornar um pária ou um lunático. Como seguir sendo você no interior dessa condição?”, questiona o fotógrafo.

Foto: Danila Tkachenko

Foto: Danila Tkachenko

Danila Tkachenko (Moscou, 1989) estudou no departamento de fotografia documental da Rodchenko Moscow School of Photography and Multimedia. Com a série Escape, venceu o prêmio principal da categoria “Staged Portraits”, do World Press Photo 2014.