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Archive for abril, 2014

30
abr

Explorando a luz e o espaço

Foto: Laura Aldana

Um dos lugares mais tradicionais de Porto Alegre, o Mercado Público foi o cenário escolhido para uma prática realizada esta semana pelos alunos do Curso Anual de Fotografia da ESPM-Sul. Orientados pelo professor Guilherme Lund, os estudantes puderam circular no local e explorar fundamentos relacionados ao controle da luminosidade, aprimorando os conhecimentos de operação do equipamento fotográfico.

Foto: Laura Aldana

Foto: Laura Aldana

A turma do Módulo de Formação tinha como tarefa explorar luzes altas, médias e baixas, em locais em que a luminosidade varia ou se mostra contrastante. A profundidade de campo das fotografias foi outro aspecto a ser trabalhado, com a modalidade de foco pensada para cada captura. Aproveitando a movimentação do Mercado, os alunos também criaram imagens com movimentos borrados e congelados.

Foto: Laura Aldana

Foto: Laura Aldana

Além de desenvolver o domínio técnico da fotografia, a prática em um espaço como o Mercado Público possibilita que os estudantes identifiquem temáticas que lhes interessam. “Os alunos vão descobrindo o que gostam de fotografar. Alguns fazem retratos, outros buscam texturas, ou então detalhes da arquitetura”, comenta Lund.

Foto: Laura Aldana

Foto: Laura Aldana

O professor também explica que fotografar em meio à circulação dos frequentadores do Mercado se revela um aprendizado. Cada fotografia exige uma postura específica. Como abordar um desconhecido para fazer um retrato? Ou então: como manter a descrição para que a presença do fotógrafo não interfira em uma determinada situação? São aprendizados da prática que se somam ao desenvolvimento do domínio técnico do equipamento.

25
abr

Dias de noite – noites de dia, por Elena Chernyshova

Retrato de Elena Chernyshova

Mais de 250 dias por ano com ruas cobertas pela neve. Temperaturas que chegam a -50°C no inverno. Para completar, entre dezembro e meados de janeiro, a noite polar: período no qual o sol não cruza a linha do horizonte. Com uma população de aproximadamente 175 mil habitantes, Norilsk está situada na Sibéria, cerca de 240 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico. O cotidiano dessa cidade fabril – uma das dez mais poluídas do mundo – é apresentado pela fotógrafa russa Elena Chernyshova na série Days of Night – Nights of Day [Dias de noite – noites de dia].

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

“Por dez anos, minha mãe viveu em Chukotka (no extremo nordeste da Rússia), em uma pequena cidade ao norte do Círculo Polar. Quando criança, eu era fascinada pelas suas histórias a respeito da noite e do dia polares, das luzes do norte, das temperaturas que chegavam aos 60 graus negativos, da neve cintilante e da comida seca ou em pó. Essas condições soavam totalmente inusitadas, pareciam ter origem em um conto de fadas”, conta Elena em entrevista a National Geographic. “Cinco anos atrás conheci uma garota de Norilsk. Suas histórias despertaram novamente minha curiosidade. Dali em diante já não sabia dizer se queria contar uma história sobre a adaptação das pessoas ao ambiente hostil do norte, ou sobre a própria Norilsk. Elas eram inseparáveis”, explica a fotógrafa.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Fundada em 1935, Norilsk está situada em uma região de solo rico em minérios, tais como níquel, cobalto, platina e paládio. A cidade tem um dos maiores complexos de mineração e metalurgia do mundo. Foi um gulag soviético até 1956 – durante esse período, estima-se que cerca de 17 mil pessoas tenham morrido nas minas e na construção da cidade, enfrentando frio intenso, fome e trabalhos forçados. Ainda hoje os trabalhadores sofrem com a poluição – são observados elevados índices de câncer, doenças pulmonares, desordens sanguíneas e de pele, além de inúmeros casos de depressão.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

A quantidade de dióxido de enxofre é tão alta que exterminou a vegetação em um raio de aproximadamente 30 quilômetros. Numa tentativa de compensar as condições insalubres, com 60% da população trabalhando na indústria, há 90 feriados oficiais por ano. Além disso, é oferecida a aposentadoria aos 45 anos de idade.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

“Queria mostrar as particularidades dessa cidade: isolamento, condições climáticas extremas, a noite polar, sua origem, a arquitetura, suas dimensões imensas e o cotidiano dos seus habitantes. Também procurei mostrar a catástrofe ambiental e a domesticação desse ambiente”, diz Elena, que viveu oito meses em Norilsk, divididos em três estadas da fotógrafa, entre 2012 e 2013.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Vencedora do terceiro prêmio da categoria “Daily Life” do World Press Photo 2014, a série mostra também os momentos de ócio dos habitantes de Norilsk. Piscinas abertas no gelo são frequentadas pela população. Depois dos banhos, pelo costume local, as pessoas vão se esquentar em saunas. No curto período de calor – que pode chegar à casa dos 30 graus – também é comum se deitar ao sol.

Foto: Elena Chernyshova

Foto: Elena Chernyshova

Nascida em Moscou (1981), Elena Chernyshova vive na França. Iniciou seu interesse por fotografia no período em que estudou e trabalhou com arquitetura. Depois de dois anos atuando como arquiteta, deixou o trabalho e viajou de bicicleta de Toulouse (França) a Vladivostok (Rússia) – uma viagem de ida e volta, que totalizou 30 mil quilômetros e 26 países percorridos, ao longo de 1.004 dias, e que ajudou Elena a decidir se tornar fotógrafa. Seus trabalhos são publicados em importantes periódicos internacionais, como National Geographic e Le Monde.

16
abr

A guerra na Síria, por Goran Tomasevic

Retrato de Goran Tomasevic

A quantidade total de mortos e feridos em um dia de conflito não nos mostra os instantes dramáticos de uma guerra, nos quais cada movimento pode determinar a vida ou a morte de um combatente. Com frequência, o fotojornalismo consegue testemunhar de perto essas histórias, exibindo traços humanos, que os números são incapazes de revelar. Aqui apresentamos um desses relatos, reportado pelo fotógrafo sérvio Goran Tomasevic, um dos mais importantes correspondentes em zonas de conflito. A série venceu o primeiro prêmio na categoria “Spot News Stories” do World Press Photo 2014. As imagens mostram integrantes do Exército Livre da Síria – oposição militar ao governo – que se preparam para atacar um posto do exército sírio, nos subúrbios de Damasco, no momento em que um dos rebeldes é atingido por tiros.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

Ferido, o rebelde é carregado do local por seus companheiros. “Nesses conflitos é possível ver combatentes inimigos que estão a 5 metros um do outro”, conta o fotógrafo em depoimento a sua agência de notícias, da qual é atualmente fotógrafo-chefe de coberturas no leste da África.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

“Quando um combate começa, para mim não há volta. Se um dia vejo que não estou fazendo o bastante, vou parar. Não posso trair essas pessoas e deixar de registrar esses momentos. Esse é o meu trabalho”, explica Tomasevic.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

“A maior parte do tempo estou pensando nas imagens e na minha segurança. Se estou com colegas, tento ajudar para que eles também se mantenham a salvo. Estou tentando minimizar os riscos o máximo que posso. Acredito que está tudo nas mãos de Deus, rezo regularmente”, revela.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

Na reportagem realizada em Damasco, os rebeldes, depois de retirarem o companheiro que foi atingido, voltam a atacar, protegidos por um muro. Eles, no entanto, sofrem o ataque de mísseis e de um tanque do exército sírio. O muro explode durante a investida. Em seguida, os rebeldes descobrem que o companheiro socorrido anteriormente havia morrido em decorrência dos ferimentos.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

“Cubro guerras há mais de 20 anos. Não vejo muitas diferenças, especialmente em guerras urbanas. Elas me lembram a guerra dos Balcãs. Ao mesmo tempo, não acredito que haja muita diferença em relação a II Guerra Mundial”, analisa o fotógrafo. “Sei que fiz algumas imagens que serão lembradas. Mas não penso a respeito. Não sei o que vai mudar ou não. Mas espero que algo mude ao mostrar a brutalidade em alguns lugares, como na Síria. Talvez algumas pessoas pensem um pouco mais ou façam esforços para terminar essa guerra”, completa.

Foto: Goran Tomasevic

Foto: Goran Tomasevic

Nascido em Belgrado, Sérvia, e vivendo atualmente no Quênia, Goran Tomasevic começou sua carreira cobrindo para um jornal local as guerras que se seguiram à dissolução da Iugoslávia na década de 1990. Passou a integrar a equipe de fotógrafos da Reuters em 1996. Cobriu conflitos em países como Iraque, Afeganistão e Líbia. Seu trabalho inclui também reportagens na África – Sudão do Sul, Moçambique, República Democrática do Congo, Nigéria e Somália – e coberturas esportivas dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo. Durante os três meses de bombardeios da OTAN na Sérvia, em 1999, Tomasevic era o único fotógrafo trabalhando para a imprensa estrangeira que permaneceu em Kosovo ao longo de todo o conflito. Em 2002, mudou-se para Jerusalém e cobriu a segunda Intifada palestina. Em 2003, suas fotografias da derrubada da estátua de Saddam Hussein, no Iraque, durante a invasão norte-americana, se tornaram imagens icônicas. Tomasevic cobriu também a Primavera Árabe e os recentes conflitos na Síria, nas cidades de Aleppo e Damasco.