Skip to content

Archive for novembro, 2013

20
nov

David Alan Harvey: olhar e alma jovens

Retrato de David Alan Harvey

David Alan Harvey é um fotógrafo veterano, mas mantem a inquietude e a empolgação dos novatos. Iniciou sua carreira com o livro auto-publicado Tell it like it is (1967), sobre uma família pobre de Norfolk, Virginia, e viajou pelo mundo por uma década pela National Geographic (tendo sido escolhido Fotógrafo de Revista do Ano durante esse período). Tornou-se membro pleno da Magnum em 1997 e é ativo desde então, não apenas publicando obras mas destacando o trabalho de outros fotógrafos por meio de sua revista e editora, a Burn.  Um dos maiores prazeres de Harvey, além de fotografar, é lecionar e amparar estudantes e amadores: “nunca senti a necessidade de competir, então sempre fui capaz de passar muita energia de volta para as outras pessoas”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Americano nascido em 1944 em São Francisco, mas criado em Virginia, Harvey descobriu seu amor pela fotografia ainda na infância, e com talento e intuição soube transformá-lo em carreira. O golpe de sorte, como o próprio define, deu-se graças a um incidente infeliz: teve pólio quando era criança e ficou hospitalizado em uma ala isolada quando tinha apenas seis anos. Em confinamento solitário, contava apenas com os livros e revistas repletas de fotos enviados por sua mãe e sua avó. “Essa era a minha fuga – livros, revistas, uma combinação de literatura e imagens”, relembrou, em entrevista à Vice. “As fotos entraram em minha vida de uma maneira real muito cedo. Em algum momento, ganhei uma câmera – provavelmente como qualquer outro garoto – mas também ganhei um laboratório fotográfico e percebi que podia fazer o que quisesse com aquilo”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Sua inspiração primordial foram as “pessoas capazes de fazer algo do nada”: “no começo, eu olhava para as fotos e via que os fotógrafos esportivos precisavam de uma Olimpíada, que os fotógrafos de moda precisavam de modelos e que os fotógrafos de guerra precisavam de uma guerra. Cartier-Bresson, Robert Frank, Riboud e esses outros caras – eles não precisavam de nada: eles só olhavam pela janela ou iam até o jardim”. Encantado pela ideia de dar sentido à vida cotidiana, atraia-se pela integridade do jornalismo, mas sempre esteve mais interessado nas fotografias que não precisavam comunicar um grande conceito, poderiam apenas ser.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Sua primeira obra, Tell it like it is (1967), surgiu da inevitável culpa após um hedonista trabalho como fotógrafo na praia. Sentindo que estava usando sua câmera para a “coisa errada”, dirigiu até Norfolk, Virginia, e entrou em uma das casas do gueto, com o objetivo de mostrar aos brancos que viviam em seu bairro como era a vida ali. “Eu nem sabia o que fazer com minhas fotos, mas publiquei um pequeno livro e vendi por dois dólares, peguei o dinheiro e dei para a igreja local”. Esse foi seu primeiro trabalho importante, e não muito depois disso começou a trabalhar para a National Geographic, de onde saiu ao se deparar com uma crise de meia-idade. Sentindo-se estagnado, divorciou-se, largou o trabalho e foi trabalhar no Chile, começando a construir o que se tornaria o livro Divided Soul (2007). Cinco anos depois foi escolhido para um trabalho de meio período na Magnum, em 1993, tornando-se membro pleno da agência quatro anos depois. Por lá, sentiu-se tão livre quanto seguro. Conheceu Vietnã, Cuba, Líbia e todos os lugares “onde os Estados Unidos não tem uma embaixada”.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

As imagens que ilustram este post são de seu mais recente livro, Based on a True Story (2012), que funciona como um cubo mágico: o espectador pode ver as fotos na ordem que quiser, construindo uma sedutora história visual. A obra é focada na migração da Península Ibérica para as Américas, o que inclui a África Ocidental. Nas palavras do fotógrafo, trata-se da abordagem de quatro culturas miscigenadas: “Espanha, Portugal, África Ocidental e os indígenas que estavam aqui antes”. A aventura durou 25 anos e o levou a conhecer todos os países americanos, além da Península Ibérica e da África Ocidental. Entre as cópias da obra distribuídas de graça nos lugares fotografados estão 2.500 livros doados recentemente a favelas do Rio de Janeiro.

Foto: David Alan Harvey

Foto: David Alan Harvey

8
nov

Abertas as inscrições para o Curso Anual de Fotografia da ESPM-Sul

Foto: Schari Kozak

Na última segunda-feira, o Centro de Fotografia da ESPM-Sul colocou no ar a versão 2014 de seu Catálogo Geral de Cursos. Atualizado anualmente, o catálogo online traz as novidades nos cursos e informações sobre o conteúdo programático, bem como detalhes da estrutura oferecida e do corpo docente. Já consagrado pela excelência de seu ensino, o Centro de Fotografia da ESPM-Sul tem na opinião dos ex-alunos a maior prova de seu sucesso em formar fotógrafos (é possível conferir algumas delas aqui e outras aqui, acompanhadas de fotos produzidas durante o curso).

Foto: Carlos Ferrari

Além de cursos específicos, como os de verão, realizados em janeiro, a ESPM-Sul mantém um curso anual de fotografia dividido em dois módulos que o ocorrem no primeiro e no segundo semestre, respectivamente. Como o catálogo explica:  “O Módulo de Formação promove o aprendizado das técnicas e das teorias mais abrangentes e essenciais, estruturando o conhecimento necessário para o exercício de qualquer atividade fotográfica. E uma vez que esta abordagem revela e deixa em aberto as possibilidades de construção de sentido que esse saber propicia, o Módulo Avançado expande e aprofunda os conhecimentos adquiridos no Módulo de Formação para possibilitar a diferenciação e o desenvlvimento do estilo pessoal de cada um”. Em ambos os módulos existem duas turmas disponíveis, uma aos sábados e outra as terças e quintas-feiras, e o catálogo já conta com informações sobre o início das aulas em cada uma delas.

Foto: Roberto Raskin

Vale ressaltar dois pontos que colocam o Centro em destaque: o estúdio e os professores. Para buscar o máximo de qualidade técnica que a tecnologia oferece, a estrutura tem recursos de ponta. Conta com mais de 100m² de área útil, equipamentos fotográficos e de iluminação sofisticados, além de um teto que abre, permitindo o aproveitamento da luz natural. Já o corpo docente é repleto de veteranos das mais diversas áreas da fotografia, cheios de experiência no ofício e no mercado. 

 

7
nov

Retratos da indiferença: os macacos explorados de Jacarta, por Perttu Saksa

Retrato de Perttu Saksa

Quem visita Jacarta, capital da Indonésia, pode ser surpreendido com a abordagem de pequenos seres estranhos, mascarados e com o corpo peludo escondido em roupas infantis. Por lá, é comum encontrar macacos em trajes maltrapilhos, com o rosto coberto por carcaças de bonecas deterioradas, treinados a agir como humanos para pedir dinheiro aos transeuntes. Tão surpreso e horrorizado como qualquer turista, o fotógrafo finlandês Perttu Saksa clicou esse assustador teatro de rua ao visitar a cidade, o que resultou em seu mais conhecido trabalho, A Kind of You (2013), com algumas imagens presentes neste post. De acordo com ele, a tradição é antiga, e desde sempre perversa, mas ganhou contornos ainda mais sombrios com a modernização da cidade.

Foto: Perttu Saksa

Foto: Perttu Saksa

Foto: Perttu Saksa

As origens do desconforto do espectador ao conferir os cliques dão pistas sobre a implícita complexidade do trabalho de Saksa. O título, “A Kind of You” (algo como “um tipo de você), pode ser interpretado tanto como uma referência à nossa proximidade genética com os primatas explorados quanto ao doentio ato de travesti-los de crianças. É a empatia diante dessa crueldade ou a semelhança, de fato, dos macacos com infantes que desperta a generosidade dos turistas? Para conseguir alguns trocados para seus donos, muitos trabalham o dia todo, alguns acorrentados para que não fujam.

Foto: Perttu Saksa

Foto: Perttu Saksa

Foto: Perttu Saksa

Silvestres, eles são capturados nas florestas da Sumatra e treinados através de dois métodos, ou melhor, dois tipos de tortura: a fome e o cárcere. Por ficarem acorrentados, acostumam-se a equilibrarem-se apenas nas patas traseiras. O costume teve início por volta de 1890, e originalmente se tratava de uma atividade circense para entreter as crianças locais. Aos que se perguntam “como esse tipo de abuso pode acontecer a céu aberto?”, a resposta de Saksa em uma entrevista ao crítico de arte Mika Hannula serve como reflexão: “Trata-se de uma questão de empatia”. A observação sugere que suas fotografias são mais do que retratos: são uma acusação de nossa própria indiferença com o sofrimento dos outros. Este ano, o governador local deu início a uma série de práticas relativas à ordem urbana e quer proibir a exploração de macacos até o 2014.

Foto: Perttu Saksa

Foto: Perttu Saksa

Nascido em 1977 em Oulu, na Finlândia, Saksa se formou em Artes Plásticas pela Academia Finlandesa de Belas Artes. Costuma trabalhar com retratos, paisagens e naturezas-mortas. Trabalhava com imagens de primatas desde 2011, quando deu início à série Echo,uma série de cliques de macacos empalhados.

Foto: Perttu Saksa

Foto: Perttu Saksa